Nos dias atuais, quase toda a minha curiosidade está voltada para a China. A grande questão é a de como este país fez tão grandes transformações em tão pouco tempo. Busco explicações nas leituras. Há alguns dias recebi de presente, da minha amiga Suzi, um livro sobre a China. O livro é simplesmente fantástico. China - Tradição e modernidade na governança do país. O autor, Evandro Menezes de Carvalho, tem todas as credenciais para este empreendimento. Ele é, entre outros tantos atributos, professor da Universidade de Língua e Cultura de Pequim e condecorado com o Chinese Government Friendship Award, a mais alta honraria dada a estrangeiros pelo governo central da China.
China - Tradição e modernidade na governança do país. Evandro Menezes de Carvalho. Batel. 2024.Na contracapa encontramos o desvelar da hipótese desenvolvida ao longo das 498 páginas do livro: "A prática e a sabedoria chinesas influenciam o modo de organização da República Popular da China. Desde esta perspectiva, sustentamos a hipótese de que a China promove uma mudança gradual do 'sistema socialista com características chinesas' para uma governança chinesa com características socialistas. Invertemos os termos para despertar a reflexão. O 'socialismo' - naquilo que o substantivo possa ser referenciado, na forma e no conteúdo, às teorias e processos políticos do século XX - torna-se adjetivo qualificador do que se pretende ser um modelo de governança próprio e original da China para o século XXI. Há muitos aspectos relativos ao modo de organização política do país que antecedem em centenas de anos a fundação da República Popular da China e são reelaborados para acompanhar os novos tempos. E se o tempo der razão à tese que costura o conteúdo deste livro, estaremos diante de um fato que pode mudar totalmente o rumo dos debates e reflexões sobre a China, sobre o socialismo e sobre o papel deste país no sistema internacional daqui em diante".
Antes de mais nada, duas datas são fundamentais em todo esse processo de rápidas transformações: 1921 e 1949. A estas, uma terceira data pode ser acrescentada. Mas, o que aconteceu nestas datas para elas serem tão importantes? Em 1921, depois da Revolução russa de 1917, ocorre a fundação do Partido Comunista Chinês (PCCH). Em 1949 ocorre a fundação da República Popular da China (RPC), após a Revolução vitoriosa, liderada por Mao Tsé-Tung. E em 1978, após o fim da chamada Revolução Cultural, a China inicia as reformas que a levaram para o seu atual modelo de governança, de abertura para o mercado mundial e para o que o mundo hoje designa como "Socialismo de mercado" ou "Socialismo para o Século XXI".
E, ainda antes de mais nada, afirmar que o órgão que define estas políticas é o Partido Comunista Chinês (PCCH). É ele que, através de seus Congressos define as políticas a serem efetivadas na República Popular da China. O PCCH é enorme e bem estruturado. Ele consiste em organizações centrais, locais e de base e possui aproximadamente cem milhões de filiados. Todo o capítulo 12 (Páginas 219 a 237) é dedicado à descrição de sua organização. Há ainda outros oito partidos, órgãos de cooperação e consulta política. São remanescentes do período pré-Revolução de 1949. Não são antagônicos. Bem, mas vamos à estrutura do livro.
Ele se divide em três partes. Primeira parte: Da perda à retomada de rumo para a nação chinesa; Segunda parte: Compreendendo os pilares institucionais da governança da China; Terceira parte: O governo de Xi Jinping e a "Nova Era" pela revitalização da China.
Na primeira parte é apresentada a longa história da China, especialmente a sua história moderna de dominações e sofrimentos impostos pelo colonialismo e imperialismo ocidental. Esta história é apresentada ao longo de nove capítulos: 1. Introdução: entre o céu e a terra, as entrelinhas; 2. A continuidade ameaçada: invasões estrangeiras e revoltas internas; 3. A dinastia agonizante e as reformas tardias; 4. A República nascente: o declínio dos conservadores e a ascensão dos reformadores e revolucionários; 5. GMD (Guomindang - burguesia) e PCCH: alianças e disputa pelo destino da nação; 6. A reconquista da independência da nação chinesa pelo Partido Comunista da China (PCCH); 7. A República Popular da China de 1949 a 1976: as contradições na era maoísta; 8. Mao Zedong e Fei Xiaoping: o marxismo e o confucionismo na interpretação da sociedade chinesa; 9. Deng Xiaoping e a nova longa marcha para o auto fortalecimento da China: a conciliação dos antagonismos.
Na segunda parte são apresentadas as instituições básicas que governam a China, os chamados pilares institucionais. São mais nove capítulos: 10. A República Popular de uma Nação-Família; 11. A busca por talentos e virtude na nova burocracia; 12. O Partido Comunista da China; 13 A República Popular da China: a divisão administrativa do Estado chinês; 14. O sistema de Autonomia Étnica Regional; 15. Órgãos centrais do poder do Estado (cinco sub-itens); 16. Sistema de cooperação multipartidária e consulta política (dois sub-itens); 17. Os Partidos não comunistas e a questão democrática na China; 18. A democracia popular de processo integral.
A terceira parte é dedicada a uma análise do governo de Xi Jinping. Tem sete capítulos. 19. Xi Jinping e a Nova Era do Socialismo Chinês; 20. O Sonho Chinês: a revitalização da nação chinesa; 21. A governança baseada na Lei e no Estado de Virtude; 22. A Política Externa de Xi Jinping e a Comunidade Global do Futuro Compartilhado; 23. A iniciativa Cinturão e Rota: uma Nova Rota da Seda para o século XXI; 24. A nova diplomacia chinesa, sabedoria milenar; 25. Conclusão: Uma nova governança chinesa com características para o século XXI.
Desta terceira parte, sublinhei alguns traços que merecem uma reflexão mais cuidadosa. O mundo deve ser governado pela racionalidade ou pela relacionalidade? O mundo é uma mera soma de indivíduos com apregoava a senhora Thatcher, ou o fruto de uma complexa relacionalidade? "O sonho americano, agora é na China", diz um dirigente do PCCH. Mas o que distingue o sonho americano do sonho chinês? O Estado democrático de Direito é suficiente? Ele não necessita também da busca de um Estado de Virtude? Influências cristãs e confucionistas! E um grande questionamento da Racionalidade ocidental do Iluminismo. Chamo uma atenção toda especial para o capítulo 20, onde são apresentadas as características do sonho chinês, um sonho coletivo, sem o submergir do indivíduo.
E uma frase final: "A sabedoria milenar chinesa tem séculos de acúmulo intelectual e prática social, e o modo como os chineses lidam com os problemas e buscam soluções nem sempre é coincidente com aquele com o qual os ocidentais estão acostumados. O relativo desengajamento das potências ocidentais na defesa de um multilateralismo inclusivo reforça a adesão internacional à globalização ao estilo chinês e prenuncia a emergência de uma nova ordem internacional mais diversificada em diversos aspectos, e, portanto, mais complexa. Compreender a história da China, os mecanismos institucionais de governança no âmbito interno, suas raízes filosóficas e culturais, bem como a nova orientação diplomática do país, será crucial para entendermos este século XXI que tende a ser um século cada vez menos ocidentalizado" (Paginas 467-8). E para a Suzi, um beijo, junto com os meus agradecimentos pelo maravilhoso presente.
Como eu tenho outras leituras sobre o tema, eu apresento os posts. Nele encontramos análises sobre a China do século XX, sobre a era das guerras civis e estrangeiras, sobre os triunfos de Mao, sobre a Revolução Cultural e sobre as reformas a partir dos anos 1980. Destaque todo especial para o último -China - o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/pro-e-contra-mao-organizacao-do-texto-m.html
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/10/a-revolucao-chinesa-wladimir-pomar.html
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html

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