terça-feira, 12 de maio de 2026

CHINA - O socialismo do século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele.

Um tema necessário para quem, minimamente, quer acompanhar as estruturas políticas e econômicas do nosso mundo contemporâneo. É impossível não deter um olhar sobre o que está ocorrendo na China. Nesse sentido, entre os livros que comprei para serem lidos no período de recuperação de uma cirurgia de prótese de quadril, incluí China - o socialismo do século XXI. A autoria é de Elias Jabbour e Alberto Gabriele. O livro é resultante de uma tese acadêmica dos autores, realizado na Universidade da Campânia L. Vanitelli, de Nápoles, sob a supervisão de Francesco Schettino, que também prefaciou o livro e que assim o define:
China - o socialismo no século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele. Boitempo. 2021.

"Com uma abordagem bastante materialista, os autores vão ao cerne da questão, evidenciando as ligações existentes entre as relações de propriedade, por um lado, e, por outro, as formas e a eficácia das ferramentas de planejamento/projetamento, assim como o papel crucial que estas últimas podem desempenhar como alternativa realista à anarquia do capital". Os autores examinam a realidade chinesa que se iniciou com as reformas do ano de 1978, quando se inicia a nova formação econômica e social de um socialismo de mercado. Uma economia de planejamento e de projetamento para o socialismo, com a priorização dos resultados econômicos para o humano. Os autores são os primeiros a reconhecer a polêmica que o livro viria a causar, pelo fato de lançar um novo olhar sobre o socialismo, que eles denominam de O socialismo do século XXI. Creio que o seguinte parágrafo da introdução traduz, tanto esse novo olhar, quanto a própria estrutura do livro:

"Tínhamos clareza de que estávamos rompendo com uma forma de pensar arraigada não somente em duas ou três gerações de intelectuais comunistas ocidentais. Estávamos rompendo também com uma visão poderosa - porque quase mítica - do marxismo e do socialismo. A China e o 'socialismo de mercado' deveriam ser tratados como uma formação econômico-social nova, distinta. Essa observação pode ser considerada a primeira parte da história, e mais difícil. Uma vez convencidos disso, como são testemunha nossos caminhos particulares, observar e classificar as lógicas do funcionamento dessa nova formação econômico social passou a ser a nossa busca comum".

O livro, portanto está estruturado em duas partes: Parte I. Capitalismo e socialismo como modo de produção, com oito capítulos e Parte II, A China como a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais: a construção de seu macrossetor produtivo. São mais sete capítulos. Essa nova formação econômico-social se constitui em um metamodo de produção, com orientação para o socialismo. Um modo de produção híbrido, que vai se constituindo, sempre em busca, sempre em transformação, com objetivos muito claros e bem delineados. Devo também dizer que não é um livro para principiantes. Seria um livro apenas para economistas? Creio que não. Embora a leitura e a compreensão se tornem difíceis, quando não acompanhados de debate. Este é o verdadeiro sentido de uma aula em universidade. Expor as primeiras compreensões e a partir delas aprofundar as categorias trabalhadas.

Devo ainda dizer que um dos grandes objetivos dos autores foi a de desmentir a tese em voga na década de 1990, a do "fim da história". A tese de que não haveria alternativas e que todos deveriam se render às doutrinas liberais, revestidas e aprofundadas pelo neoliberalismo e impostas ao mundo pelos organismos internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. A nova formação econômico-social chinesa é a prova viva do caráter dialético da história e a negação absoluta de que ela teria chegado ao seu fim, teria chegado ao seu estágio final de aperfeiçoamento. Outro ponto alto dos autores é o da constatação de que nessa nova formação econômico social o setor produtivo da economia deverá financiar o setor improdutivo. Em outras palavras, a produção de mercadorias deve financiar os serviços prestados pelo Estado, como educação, saúde, habitação e bens públicos. E, isso é muito importante, a China conseguiu fazer isso. Criou mecanismos para isso. Aí já estamos entrando na segunda parte do livro. 

Se você conseguiu atravessar as duas partes do livro, ao final você encontrará uma síntese fantástica sob o título de - conclusões -, que em muito facilitará a sua compreensão. São doze tópicos, dos quais dou os títulos: 1. Socialismo no século XXI?; 2. O básico; 3. O planejamento, seu potencial e limites; 4. O metamodo de produção; 5. Macrossetor produtivo e macrossetor não produtivo; 6. Estados desenvolvimentistas de orientação socialista; 7. Capacidades estatais; 8. Antes de tudo, reformas rurais; 9. A via chinesa: Estado, mercado e os grandes conglomerados empresariais estatais (GCEE); 10. A Comissão de  Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado (SASAC) como a principal inovação institucional; 11. Partido Comunista da China; 12. O socialismo de mercado em nível superior: A 'nova economia do projetamento'.

Mais duas observações. Da primeira parte do livro quero destacar a força dos argumentos apresentados para a desmistificação da economia clássica, como uma economia natural, em que atua o homo economicus, e as ditas leis da "mão invisível do mercado". Estudos da neurociência analisam as categorias de competição e cooperação e a sua influência sobre o comportamento humano. Os adoecimentos psíquicos atuais nos poupam maiores explicações. Aliás, toda a primeira parte é um mergulho na história da economia clássica, iluminada pelas categorias marxistas.

Outro destaque, além dos pontos que melhor atendem a curiosidade sobre o que a China fez para atingir tamanha grandeza, explicitados, nos itens 8, 9, 10 e 11. quero chamar atenção especial ao item 12. A teoria da economia do projetamento é de um brasileiro. Ela foi desenvolvida por Ignácio Rangel, em seu livro Elementos de economia do projetamento, um livro de 1959. Enquanto o planejamento atinge o macro, o projetamento atinge o micro, o nível das empresas.  Ignácio Rangel (1914- 1994) foi uma das pessoas mais influentes na formulação das políticas econômicas do Governo de Getúlio Vargas, as do nacional desenvolvimentismo, colaborando na formulação dos projetos da criação da Petrobras e da Eletrobras. Foi um dos pensadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, criado em 1955, para pensar projetos para o Brasil. O ISEB foi liquidado pelo governo da ditadura civil-militar ainda no ano de 1964 e Ignácio Rangel foi posto no ostracismo, um decreto de morte ao seu pensamento. Mas, a dialética... E o que não representou para o Brasil este mal fadado golpe?

Vamos buscar esclarecer um pouco mais sobre o livro, pela apresentação de Carlos Eduardo Martins, professor da UFRJ, nas orelhas do livro: " A ascensão acelerada da China no sistema mundial capitalista desde os anos 1980 - que, principalmente a partir da Guerra do Ópio, inverteu o longo declínio iniciado no século XIX - constitui o principal acontecimento geopolítico para a análise das ciências sociais e da economia política contemporâneas. O reencontro da China com a economia mundial capitalista, após a desconexão imposta pela revolução maoísta, não ensejou uma nova ocupação e vitória do imperialismo ocidental como Nixon e, posteriormente, os apologistas da globalização neoliberal imaginaram. Tampouco uma submissão ao dólar e ao poder financeiro estadunidense, que tanto impressionou parte da esquerda brasileira e mundial.

Ao contrário, por meio de um processo de hibridização, a China conserva sua soberania interna e mostra que o domínio científico e tecnológico é uma das fontes estratégicas de poder mundial. Impulsionando uma nova onda de crescimento econômico mundial, arranha a ilusão de totalidade do capital fictício, atravessando o seu espelho com a força dos valores de uso, aos quais o mundo da mercadoria está indissoluvelmente ligado.

Elemento chave nesse processo é a reinvenção do Estado, que em vez de se orientar para um processo de acumulação independente do mundo do trabalho - caminho aventureiro trilhado pelo eixo de poder anglo-saxão -, lidera a mais vasta erradicação da pobreza da história da humanidade. Além disso, uma imensa reorganização empresarial e um vasto desenvolvimento de capacidades de amplas massas lançam os pilares de uma potência territorial de escala muito superior à das potências marítimas ocidentais que lideraram a civilização capitalista.

Elias Jabbour e Alberto Gabriele estão entre os mais destacados estudiosos da China contemporânea e dos processos de transformação em curso, que ultrapassam suas fronteiras e abrem as perspectivas de novas formas de existência. Os autores entregam neste livro um rico material analítico e empírico e propõem uma síntese original entre o marxismo, o estruturalismo e o keynesianismo que não pode ser ignorada pelos cientistas sociais". Vejamos ainda Luiz Gonzaga Beluzzo na contracapa:

"Este livro magnificamente organizado e escrito por Elias Jabbour e Alberto Gabriele, gratificará o leitor com os sabores incomparáveis da aventura intelectual. Na vida do conhecimento e da compreensão da sociedade e da economia devemos sempre almejar à desconstrução do estabelecido e buscar os desafios do novo que nasce do movimento dos homens e de suas relações. É isso que o que nos oferecem Jabbour e Gabriele. A exploração dos autores empenha-se em descobrir no socialismo da China a construção de uma nova formação econômica e social que instiga a perplexidade dos conformistas que não se cansam de indagar: Capitalismo de Estado ou Socialismo de Mercado?". Do livro consta ainda um apêndice sob o título de - Os outros dois membros da nova classe de formações econômico-sociais de novo tipo: Vietnã e Laos. Acrescento também os posts de mais dois livros: Uma história da Revolução de 1949, e a da China sob a Revolução, até as grandes transformações, a partir de 1978.


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