Uma antiga dívida ou um grave déficit em minhas leituras. Conheço razoavelmente bem o escritor Graciliano Ramos, mas ainda não tinha lido a sua grande obra - Memórias do cárcere. Como já relatei em post anterior, no dia 11 de fevereiro de 2026 fiz uma cirurgia de prótese de quadril, uma cirurgia que exige um longo tempo de recuperação. Me preparei para enfrentar esse período com a compra de alguns livros. Entre eles figurava o livro de Graciliano em que ele relata os horrores da prisão, de um período conturbado de nossa história, ainda mais, quando não se sabia exatamente o teor da acusação que pesava contra ele. Os conturbados tempos da ditadura de Getúlio Vargas, do Estado Novo.
Memórias do cárcere. Graciliano Ramos. Record. 2025.Na memorável biografia do escritor, de autoria de Dênis de Moraes, ele cogita sobre as possíveis motivações: "Ignoro as razões por que me tornei indesejável em minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei 20 mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas 50 mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem". Sobre ele pairava a genérica acusação de ser comunista, pecha aplicada a todos os intelectuais que confrontavam a ordem, a ordem estabelecida.
A prisão ocorreu em março de 1936 e perdurou até janeiro de 1937. Ocorreu após o levante comunista de 1935. O livro acima de tudo é uma grave denúncia desse período em que se cometeram todo o tipo de atrocidades e arbitrariedades. E eu lamento dizer, um período um tanto esquecido de nossa história. O livro de 685 páginas, é dividido em quatro partes, a saber: Parte I. Viagens (ela contém, como afirma o título, as viagens que ele foi obrigado a fazer, já a partir de sua prisão, em Maceió, donde foi levado até Recife e de Recife, em navio, até o Rio de Janeiro. Essa viagem de navio é constituída por páginas que figuram entre as mais horrorosas do livro. Um verdadeiro navio negreiro, lembrando o tempo do tráfico negreiro).
Parte II. Pavilhão dos primários. (Aí está relatada a chegada ao Rio de Janeiro e os tempos em que aguardavam julgamento. Um tempo de indefinições e o grande temor de que o pior pudesse acontecer. Serem levados para a Colônia Correcional, na Ilha Grande, onde os presos políticos teriam que conviver com os presos comuns, criminosos dos mais diversos matizes. Com certeza, os momentos mais angustiantes desse período de prisão). Parte III. Colônia Correcional. (Na Ilha Grande. Aumentam os sofrimentos em que se somam os tormentos psicológicos com as dores do sistema prisional. Ao final são devolvidos à cidade do Rio de Janeiro).
Parte IV. Casa de correção. (São devolvidos ao Rio de Janeiro, no mesmo local da prisão anterior. Nesse período recebe, na prisão, a visita do advogado Sobral Pinto, que assume a sua defesa. A situação melhora, prenunciando os tempos da volta da liberdade. Nunca sofreu qualquer tipo de acusação formal). Para melhor entender o valor da obra, além da denúncia do sistema penal e dos sofrimentos psicológicos a que um preso, ainda mais quando inocente, é submetido é importante analisar o perfil psicológico do escritor, que por certo em muito lhe agravou o sofrimento. Vamos buscar esse perfil, na já mencionada biografia de Dênis Carvalho:
"Casmurro ou cordial, arredio ou língua solta movida à cachaça, irritadiço ou afável - o velho Graça talvez tenha sido um pouco de tudo isso. Importam menos a fisionomia austera, os gestos contidos, as palavras ao sabor do humor. Protegia-se com a casca, feito um caracol. O segredo para descobrir o âmago de seu coração era remover a armadura, flagrá-lo desprevenido em seus afetos, nunca fugindo às dúvidas". Vejamos um pouco mais:
Dênis deixa a palavra aberta para que Jorge Amado também pudesse caracterizá-lo: "Graciliano parecia seco e difícil, diziam-no pessimista; era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro". E o biógrafo arremata: "Permanecem vivos entre nós o ser humano alinhado aos semelhantes em qualquer circunstância, se fosse o caso em uma cela abjeta e imunda; o militante comunista que sustentou a tensão entre as exigências da lealdade partidária e os seus princípios morais, literários e estéticos; o magnífico escritor de um tempo de conflitos, que acreditou sempre que o homem tudo pode na terra - até mesmo construir a felicidade".
Graciliano, pelo seu Memórias do cárcere e pelo conjunto de sua obra é comparado a escritores do nível de um Dostoievski ou Tolstói, comparações que lhe fazem absoluta justiça. No caso das memórias, também me veio à lembrança de Kafka e os meandros de seu O processo. Defender-se de algo sem saber os motivos que levaram à situação vivida. Uma explosão da condição humana, de suas angústias mais profundas.
Para uma melhor aproximação deixo, da orelha da contracapa, a parte referente à obra: "Em março de 1936 é preso, em Maceió, sem culpa formada, sob a alegação de que seria comunista. Passa por várias prisões, em Maceió e Recife. Segue no porão de um navio para o Rio de Janeiro, onde fica quase um ano na cadeia. Diz em uma carta à mulher: 'Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer maneira eu seria um péssimo ator'. Em agosto, ainda na prisão, publica o romance Angústia. Ao sair, vai morar no Rio de Janeiro com a família. Inicia a publicação de alguns contos no jornal argentino La Prensa, entre eles o texto 'Baleia', que faria parte da edição de Vidas secas, publicado em 1938.
Ao completar 50 anos, recebe o prêmio Felipe de Oliveira pelo conjunto de sua obra. Em 1945, filia-se ao Partido Comunista, a convite de Luís Carlos Prestes, e lança Infância. Dois anos depois, sai do prelo seu sexto livro: Insônia. Em 1952, viaja com a mulher, Heloísa, à União Soviética, e as impressões dessa viagem são reunidas em livro póstumo. Sua saúde se agrava no decorrer desse ano. Em setembro é operado sem sucesso e em janeiro do ano seguinte é internado. Morre no dia 20 de março, pela manhã. No mesmo ano, é publicado postumamente Memórias do cárcere".
E uma explicação necessária. O livro está inconcluso. Lhe falta um quinto capítulo. O filho, Ricardo Ramos explica: "Faltava apenas um capítulo destas memórias, quando morreu Graciliano Ramos. Escrevera todos os volumes em trabalho contínuo, lento é verdade, mas sem interrupções. Uma viagem ao estrangeiro, no entanto, ofereceu-lhe o suficiente para um novo livro, um livro que o interessou e o fez abandonar - por algum tempo, supunha, - a obra quase terminada. Já doente, registrando com dificuldade as impressões que os países visitados lhe haviam deixado, não tentou concluir suas memórias do cárcere. E se às vezes procurávamos lembrar-lhe esse fato, respondia: Não há problema. É tarefa de uma semana".
E o que conteria esse capítulo? Ricardo Ramos também nos dá a resposta: "Sensações da liberdade. A saída, uns restos de prisão a acompanhá-lo em ruas quase estranhas". Na contracapa lemos um trecho de suas memórias. Vamos a uma pequena amostra de sua escrita: "Indivíduos tímidos, preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere. Eu, que não gosto de andar, nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas, embrenhando-me em caraminholas, porque não haveria de acostumar-me também? Não seria mau que achassem nos meus atos algum, involuntário, digno de pena. É desagradável representarmos o papel de vítima. - Coitado!
É degradante. Demais estaria eu certo de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões do Jacob. Isso constituiria um libelo mesquinho, que testemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação". Para ser acusado de comunista basta lutar pelos ideais de igualdade e de justiça social. Deixo ainda o post da biografia de Graciliano, a de Dênis de Moraes, a qual já nos referimos.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/o-velho-graca-uma-biografia-de.html

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