Entre os livros em minha biblioteca não lidos, encontrei este: Movimento operário no Brasil (1964-1984), do historiador Edgard Carone. Não faço ideia de como cheguei ao livro, bem como o motivo de não tê-lo lido. O ano de publicação é o de 1984. O livro integra uma trilogia do autor. Os dois volumes anteriores abrangem os períodos de 1877 a 1944, o primeiro volume e de 1945 a 1964, o segundo volume. Creio ser importante dar uma palavra sobre o teor do livro.
Movimento operário no Brasil. 1964 -1984. Edgar Carone. DIFEL. 1984.Ele consiste em uma bela síntese do movimento operário a partir do golpe civil-militar de 1964, com a posterior hegemonia militar na condução do governo, apresentada como introdução. A partir daí, o autor se limita a apresentar documentos, como entrevistas, manifestos, textos de livros, resoluções de encontros e congressos dos diferentes grupos e suas versões sobre a realidade brasileira. Creio que a importância do livro para os dias de hoje se dá para os projetos de pesquisa do período. Como livro para simples leitura, é óbvio que ele é importante, mas ele se torna um pouco monótono em sua leitura, uma vez que ele é muito repetitivo, uma vez que as posições dos diferentes grupos são muito semelhantes, divergentes, na maior parte das vezes, nas formas de ação.
Pela importância do livro nos dias de hoje, eu destacaria uma entrevista do presidente Lula, encontrada na parte D do livro, que versa sobre os tempos atuais, lembrando que o livro apareceu no ano de 1984. A entrevista foi dada a Mário Morel, retirada do seu livro - Lula - o metalúrgico, das páginas 179-183. Ela tem por título Lula e a ideologia. Trata-se de uma questão em aberto até os dias de hoje. No livro, a entrevista encontra-se nas páginas 244-247. Uma preciosidade. Algo um tanto nebuloso, de um período de indefinições, com o declínio dos partidos comunistas e de ascensão do chamado socialismo democrático. Luta de classes versus sindicalismo de resultados?!
Apresento a estrutura básica do livro, de 314 páginas, de introdução e quatro capítulos: Capítulo A). Período da Guerrilha: Grupos originados do Partido Comunista Brasileiro (ALN, PCdoB, MR8 e PCBR); B). Período da Guerrilha: Grupos de Origem Diversa (VPR, POLOP, AP); C). Os Grupos de Origem Trotskista (O Posadismo, Convergência Socialista, Libelu); D). Os Tempos Atuais (Partido dos Trabalhadores; Partido Revolucionário Comunista, Movimentos Operários e Camponeses).
Para dar uma ideia mais precisa do livro, recorro a uma apresentação do mesmo, assinada por José Ênio Casalecchi, na orelha da capa e contracapa. "[...] O atual volume documenta o período após o golpe de 1964. Na Introdução há uma breve explicação deste momento histórico e da razão de cada um dos movimentos que existiram nestes anos. A seguir, temos a publicação de documentos que ilustram as posições ideológicas de cada um dos grupos.
A parte documentária se divide em quatro seções, obedecendo cada uma delas a uma dinâmica própria. Elas se denominam, respectivamente, Período da Guerrilha: grupos originados do Partido Comunista Brasileiro; Período da Guerrilha: grupos de origem diversa; Os Grupos de Origem Trotskista e Os Tempos Atuais.
Como o próprio título sugere, a primeira seção trata dos grupos dissidentes do PCB. A Ação de Libertação Nacional (ALN) é um dos mais importantes e é responsável por toda uma formulação ideológica da luta de guerrilha, cujo mentor é Carlos Marighela. Sua ação é ampla, traduzida em assalto a bancos, sequestros de embaixadores etc. Importante também é o papel do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), de João Amazonas, cuja dissidência é de 1961, e que desenvolveu luta no campo, como no caso da Guerrilha do Araguaia. O Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) são outros grupos que defendem a tese das guerrilhas urbana e rural. A ação de ambos é importante, apesar de não serem tão amplas como a dos dois primeiros grupos.
A segunda seção trata também do período da guerrilha, mas expõe o pensamento dos grupos que não se originam do PCB. São os casos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), da Política Operária (Polop) e da Ação Popular (AP). Na verdade, a matriz de cada um dele varia, indo do catolicismo (AP) até o luxemburguismo, isto é, às ideias de Rosa Luxemburgo (Polop). A esta gênese, eles acrescentam o pensamento de Regis Debray, fato que também se repete com os grupos originados do PCB.
A partir de 1971, começa o declínio dos movimentos de guerrilha. As razões são várias, indo do despreparo existente entre alguns grupos até a contra-ofensiva militar das forças de repressão. Neste momento, as esquerdas elaboram novas táticas, que variam de grupo para grupo. A ideia dominante, porém, é a de que a ditadura teria que ser derrotada através de instrumentos legais, já que se tornara impossível derrubá-la à força.
Com o recuo dos grupos de tendência stalinista, os Grupos de Origem Trotskista, título da terceira seção, ocupam espaços políticos momentaneamente vagos. O posadismo, a Convergência Socialista, a Liberdade e Luta (Libelu), por exemplo, começam a articular-se e pregam a necessidade de organização do movimento operário e até o boicote às estratégias eleitorais oposicionistas do MDB, atual PMDB.
A fraqueza orgânica destes grupos, no entanto, obriga-os a participarem de uma frente única dos trabalhadores, que é o PT. Este partido engloba tendências obreiristas e pequeno-burguesas e compõe-se de elementos sindicalistas, de facções da Igreja, de universitários e de grupos trotskistas. Esta composição leva o PT a comportar-se ideologicamente de maneira divergente em vários momentos, o que mostra, ao mesmo tempo, a sua complexidade e sua debilidade.
Afinal, na quarta seção, que trata dos Tempos Atuais, assinala-se o aparecimento de um grupo divergente do PT, que é o Partido Revolucionário Comunista, do deputado José Genuíno. A última parte, que trata dos Movimentos operários e Camponeses, reúne textos sobre a Reforma Agrária, as Comissões de Fábrica , a CUT e a CONCLAT". Lembrando que José Genuíno, posteriormente se reincorporou ao PT, tendo sido, inclusive, o seu presidente nacional, e ex deputado federal.
Em 1993 eu me mudei da cidade de Umuarama, para onde fui em 1969, após a formatura na Faculdade de Filosofia de Viamão (RS), para Curitiba, integrar a direção estadual da APP-Sindicato. A ida ao interior do Paraná me afastou do centro do furacão, nos anos de chumbo da ditadura. No sindicato havia pessoas com origem nas lutas do período retratado pelo livro. Havia enorme curiosidade. Mas eu creio ser mais importante compreender a origem mais longínqua que fundamentou as diferentes posições ideológicas dos trabalhadores. As Quatro Internacionais. Deixo o post dessas diferentes posições.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/02/proletarios-de-todos-os-paises-uni-vos.html
O livro representa uma bela fonte para a historiografia brasileira.

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