De volta às biografias. E dessa vez, uma toda especial. A de um dos homens mais importantes e influentes ao longo das seis primeiras décadas do século XX. Foi um personagem decisivo no entorno da Segunda Guerra Mundial e determinante na resistência aos avanços nazistas. A França já havia capitulado. Tornou-se um dos três grandes da época: Churchill, Roosevelt e Stálin. Estou falando de Winston Churchill, do livro Winston Churchill, de autoria de Stuart Ball, da coleção - British Library Historic Lives: - Winston Churchill.
Winston Churchill. Stuart Ball. Tradução de Gleuber Vieira. Nova Fronteira. 2006.Winston Churchill (1874-1965) foi duas vezes Primeiro Ministro inglês. O foi de 1940 a 1945, pela primeira vez, no difícil período da Segunda Guerra Mundial e, pela segunda, de 1951 a 1955, quando foi fundamental na modelação da geopolítica mundial do pós-guerra e na reconfiguração da importância política da Inglaterra, até então a primeira potência mundial, agora, já não sendo mais o Império Britânico. Por óbvio que um personagem de tal tamanho só pode provocar a curiosidade em torno de sua vida. E, diga-se de passagem, que foi alguém extremamente controvertido.
O livro não é longo. São 252 páginas, muitas delas tomadas por fotografias. Está estruturado em seis capítulos, uma cronologia dos fatos e algumas indicações de outras biografias. Vejamos os títulos dos capítulos, que aparecem em sequência cronológica: I. Marcando a presença (1874-1904). II. Mudanças de rumo (1904-1915). III. Navegando os baixios (1915-1929). IV. Sozinho (1929-1940). V. Caminhando com o destino (1940-1945). VI. Refreando os anos (1945-1965). Ele renasce para a política, quando emerge de seu período de solidão dos anos 1930, quando tudo aparentemente parecia ter acabado. A determinação foi a grande marca de sua vida, especialmente nessa fase mais conturbada de todo o século. Vamos aos capítulos, que crescem em importância ao atingirem a fase final de sua vida. Mas ele tem origens, ele tem construção histórica, ele tem vida política ativa, embora um tanto avesso, especialmente a partidos e a fidelidade a eles.
I. Marcando a presença (1874-1904). Uma contextualização da Inglaterra da época e da inserção nela de sua família. Ele pertenceu a uma família aristocrática por parte do pai, de quem herdou o gosto pela política e de uma família de novos ricos dos Estados Unidos, por parte da mãe. Sempre foi um menino desejoso pelas 'luzes da ribalta'. Estes eram os tempos da poderosa Inglaterra, do domínio imperialista, da maior marinha mercante do mundo. Vivia-se ainda o espírito de grandeza da era vitoriana. Na escola nunca foi bom, nem nos estudos, nem nos esportes. Seus anos escolares foram considerados improdutivos, sob o rigor dos regimes de internato. Desejava a carreira militar. As leituras e as viagens o transformaram em autodidata. O jornalismo o levou para a literatura. Com ela ganhou muito dinheiro e ela o levou, inclusive, ao Nobel de Literatura no ano de 1953. Ingressou nos debates políticos e às primeiras instabilidades na fidelidade a eles.
II. Mudanças de rumo (1904-1915). Na política já trocara o Partido Conservador pelo Liberal. Nela era tido como um aventureiro sem princípios. Em sua atuação política, convivia tranquilamente com as diferenças sociais, mas batalhava para elevar a condição dos pobres a níveis de decência e de boa saúde, mas odiava o termo "luta de classes". Já percebia o antagonismo anglo germânico que estava em formação. Batalhava pela manutenção da superioridade naval britânica. Ocupa e deixa cargos na formação do Ministério. Ocorre a Primeira Guerra. A saída do Ministério marca um aparente fim de sua carreira política.
III. Navegando os baixios (1915-1929). Aos 40 anos recorre à pintura como fuga à solidão e à depressão. Se apavora com os acontecimentos da Rússia e passa a ter, no combate ao comunismo. uma de suas obsessões. Se mostra favorável às pretensões do sionismo. Escreve sobre a Primeira Guerra. Após reveses políticos, volta a ela como Ministro das Finanças. A crise de 1929. Novas derrotas na política.
IV. Sozinho (1929-1940).Se ocupa e se mantém com viagens, palestras e livros. Relação familiar sempre tumultuada. Problemas com a bebida. Muito uísque, que bebia lentamente. Se ocupa com a questão da Índia, que considerava como o coração do Império. Era contrário a sua independência, que irá ocorrer em 1947, no contexto do pós-guerra. Há suspeitas de que perdera a razão. Tem poucos seguidores. Declara a lealdade à monarquia por temor às ditaduras. Defende uma política armamentista, como precaução contra os alemães. Se declara contra o Acordo de Munique de 1938, de política de apaziguamento. Assiste e condena os avanços alemães e cresce em importância política. Com a queda de Chamberlain (1940), ocupa o cargo de Primeiro Ministro, formando um governo de coalizão. A guerra se expande.
V. Caminhando com o destino (1940-1945). Assume o governo com a famosa promessa de "sangue, trabalho, suor e lágrimas" e com o brado de " nunca nos renderemos". Aos 65 enfrenta a Blitzkrieg alemã. O auge da resistência ocorre entre o mês de junho de 1940 e maio de 1941. É desse período a sua mais famosa frase: "Nunca na história dos conflitos humanos tantos deveram tanto a tão poucos". A sua aprovação sempre beirava os 80%. Conduzia a guerra como se ela fosse uma ciência, sempre buscando aperfeiçoamentos. A situação melhorou um pouco com a entrada dos Estados Unidos na guerra e com a URSS, retendo o exército alemão em seu território. É um dos estrategistas da guerra nesse período. A frente do governo, assiste ao famoso 7 de maio, o dia D. Participa de todas as difíceis negociações de paz, do pós-guerra, da fundação da ONU e do Conselho de Segurança. As negociações com a URSS o incomodam sobremaneira. Sai da guerra exausto, tanto quanto a exaustão da economia inglesa. Assiste ainda a liquidação do Império Britânico com o espírito anticolonialista pós-guerra. Participa da Conferência de Potsdam. Mas na Inglaterra perde poder e prestígio para os trabalhistas. Era um grande líder apena nos tempos de guerra. Renuncia ao cargo de Primeiro Ministro, aos 70 anos.
VI. Refreando os anos (1945-1965). Foi difícil para ele, depois do protagonismo, a inatividade, longe da política. Ocupou-se mais uma vez com as viagens e a escrita. Intensificou seus ataques a URSS e cuidou para que a Inglaterra, após o declínio de seu Império, se mantivesse alinhada aos Estados Unidos. Temia o armamento nuclear com o acirramento da Guerra Fria. Se ocupa com a narrativa da Segunda Guerra e com a sua autobiografia. Literatura e palestras o tornaram uma pessoa rica e proeminente. Em 1953 é agraciado com o Nobel de Literatura. Em 1951, aos 77 anos, volta ao cargo de Primeiro Ministro e nele permanece até 1955. Se preocupa com a Commonwealth e a manutenção das conquistas trabalhistas e, aos 90, em 1964, comparece pela última vez à Câmara dos Comuns. Morre em janeiro de 1965.
Da parte final, tomamos uma síntese de seus feitos: "A vida política de Winston Churchill abarcou as seis primeiras décadas do século XX e durante todo este tempo ele foi um dos mais conhecidos e importantes homens públicos. Mudou por duas vezes sua filiação partidária e sempre despertou suspeitas de ser um aventureiro ambicioso, diagnóstico aparentemente confirmado pelos equívocos políticos e estratégicos que marcaram sua carreira. A carreira de Churchill não teve paralelo em extensão e variedade. Ficou assinalada por incansável empenho, pensamento inovador, julgamentos imperfeitos e extraordinárias realizações. Tudo fluiu de suas notáveis qualidades e personalidade, mas seu progresso foi sempre atrapalhado pela desconfiança que despertou até chegar em 1940 à liderança, durante a guerra". E arremata:
"A liderança obstinada e triunfante de Churchill na Segunda Guerra Mundial foi, sem dúvida, sua maior proeza. Sua 'hora mais bela' de 1940-42, quando a vitória total parecia estar quase ao alcance da mão para a Alemanha nazi, determinou o curso não apenas da Inglaterra mas da história do mundo. Muitas outras coisas na vida de Churchill mereceram bronze ou mesmo chumbo, mas esta façanha foi digna de ouro. É sobre ela que repousa sua posição como vulto mais importante da Inglaterra no século XX".

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