sexta-feira, 8 de abril de 2016

Trumbo. A vida do romancista ganhador do oscar que derrubou a lista negra de Hollywood. Bruce Cook

Ver o filme Trumbo - Lista Negra, me levou a comprar o livro, Trumbo, que serviu de roteiro para o filme. A autoria do livro é de Bruce Cook e a sua primeira edição apareceu nos Estados Unidos, em 1977, um ano após a morte do célebre roteirista do cinema americano. A primeira edição brasileira é de 2015. O que me levou, tanto ao cinema, quanto a compra do livro é a importância do tema, o tema do ódio ao diferente e da impossibilidade da convivência entre os diferentes.
A biografia que originou o filme. Trumbo.

Na compra do livro, na verdade, eu esperava uma grande contextualização sobre a guerra fria, a bipolaridade e, mais especificamente, sobre o Macarthismo. Isso não ocorre neste livro. Ele se limita a apresentação da biografia de Dalton Trumbo e ao Macarthismo dentro do cinema e a atuação do Comitê de Atividades Anti Americanas do Congresso americano, responsável pela inquisição que promoveu a caça às bruxas, no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Dalton Trumbo, além de figurar na lista dos 10 de Hollywood, composta especialmente por roteiristas do cinema, ficou preso por um período de dez meses, por desacato ao Congresso e se negar a fornecer o nome de comunistas para o tal de comitê. A palavra delação não figurava em seu dicionário.

É importante registrar que isso ocorreu na terra das liberdades individuais. E não por um curto espaço de tempo. A lista durou entre os anos de 1947 e 1960. Quem nela figurava não poderia trabalhar no cinema. Sendo assim, os roteiristas, para garantirem a sobrevivência, tiveram que emprestar nomes de colegas, atuando num "mercado negro" de trabalho, recebendo pouco e não recebendo os devidos créditos. O desemprego é, dentro do sistema capitalista, o equivalente à aplicação da pena de morte, ao negar o acesso aos meios que possibilitam o sobreviver. Negar o trabalho é negar a sobrevivência. Na lista figuravam as pessoas filiadas ou simpatizantes do Partido Comunista.
Uma imagem clássica de Dalton Trumbo, escrevendo na banheira.

Trumbo teve uma infância muito pobre e conviveu com inúmeras injustiças, como a demissão do emprego de seu pai e a baixa remuneração salarial que ele próprio recebia, trabalhando numa padaria. Desde muito cedo Trumbo se tornou arrimo de família. A descrição destas cenas ocupam os primeiros capítulos do livro. Trumbo sempre teve uma inclinação para a escrita, desde os seus tempos escolares. Entrou para o mundo das letras por artigos de seu tempo de escola e por algumas publicações em revista. O escrever o levou ao cinema, trabalhando especialmente para filmes B, de rápida produção e retorno. Era o caminho percorrido pelos roteiristas.

O escritor passou por todas as crises em consequência do crack da bolsa de 1929. Foram longos e terríveis anos, que atingiram o seu pai com o desemprego. Quando estava se afirmando pela escrita, vem a guerra e a sua filiação ao Partido Comunista, uma espécie de reconhecimento à União Soviética. O pior viria com a paz, com o fim da guerra. Um verdadeiro período de terror, de caça às bruxas e de listas.

Nos interrogatórios, Trumbo sempre permaneceu em silêncio. Nunca entregou ninguém. Depois de cumprir dez meses na prisão começou a sua rotina de trabalhos no chamado "mercado negro". Os êxitos de bilheteria dos filmes que o tinham como roteirista, sempre lhe garantira trabalho. Uma das cenas mais hilárias ocorre no ano de 1957, quando o filme Arenas sangrentas recebe o Oscar de melhor roteiro. O autor era um desconhecido e, improvisadamente, alguém recebeu o prêmio. Foi o começo da implosão da lista. Ela passou a ser algo jocoso. O fim da lista veio com o filme Êxodus, em que Otto Preminger e Kirk Douglas, os responsáveis pelo filme, resolveram desobedecer, dando a Trumbo o crédito nas telas do filme. Trumbo também fizera enorme sucesso com o filme Spartacus. Eram os anos 1960. Kennedy se elegera presidente.
Um dos filmes que ajudou a marcar o fim da "lista negra", junto com Êxodus.

O capítulo de número onze, de um total de treze, intitulado Violando a lista negra é o capítulo mais importante do livro. Nele é narrada a forma como a lista caiu em desuso, pela desobediência de diretores e produtores. Depois da lista, Trumbo fez muito sucesso e ganhou muito dinheiro. Ele sentia a necessidade de ganhar dinheiro, uma vez que este era a expressão viva da liberdade. Em 1970 Trumbo recebe um prêmio, o Laurel Award, uma espécie de reparação pelas injustiças que sofrera ao longo da vida. Fez discurso que se tornou célebre  e lhe rendeu muitos dissabores.
Papillon, último filme em que Trumbo trabalhou.

A polêmica ocasionada pelo discurso foi uma frase mais ou menos nos termos de que a lista não gerara nem heróis, nem vilões, apenas perdedores. Um discurso de contemporização. Havia sim, vilões, e muitos. E havia também herois, entre eles Trumbo, possivelmente, o maior de todos. Em 1975, um ano antes de sua morte, a Academia de cinema, aquela que confere os Oscars, repara a injustiça cometida em 1957, lhe conferindo a estatueta pelo roteiro de Arenas sangrentas. Outros tempos, melhores tempos.



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