terça-feira, 24 de novembro de 2015

Qual é a razão para se controlar tanto os currículos e que meios são usados para fazê-lo?

No dia 11 de janeiro de 2013 publiquei um post no blog com o título " Os controles sobre a educação. Um contrato". Este post teve até hoje (19.11.2015) 2.090 acessos e diversos comentários, especialmente, sobre a origem e veracidade deste contrato. Ele é uma verdadeira peça de humor. Como estamos diante de novas ofensivas conservadoras sobre os controles do currículo e da educação e, como estamos discutindo bases curriculares nacionais, achei interessante voltar ao tema do currículo, fundamental para se discutir a escola e a educação.
Saudades de um tempo de aprendizado maravilhoso.


A origem do post está num texto que estudamos no mestrado em História e Filosofia da Educação, na PUC de São Paulo. Isso foi no ano de 1997 ou 1988. O texto se encontra na revista Teoria & Educação, 4, 1991, editada em Porto Alegre. O texto, de autoria dos professores Michael Apple (U. de Wisconsin) e Kenneth Teitelbaum (U. de Syracuse), tem por título "Está o professorado perdendo o controle de suas qualificações e do Currículo"? Ele tem origem num encontro de professores de currículo, em que se debatia o tema "Possíveis direções para os estudos de currículo", na cidade de Chicago, em 1985. Posteriormente foi publicado no Journal of Curriculum Studies, 18(2), 1986 e chegou à publicação brasileira com a tradução do professor Tomás Tadeu da Silva.

Como os autores recomendam que se tenha em mente o contrato ao ler o texto, vamos a ele:

CONTRATO DE PROFESSORA - 1923.

Este é um acordo entre a senhorita............................................, professora, e o Conselho de Educação da Escola...................................................., pelo qual a Senhorita.......................................concorda em ensinar por um período de oito meses, começando em 1º de setembro de 1923. O Conselho de Educação concorda em pagar à Senhorita............................................... a soma de setenta e cinco dólares por mês. A Senhorita concorda com as seguintes cláusulas:

1. Não casar-se. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora se casar.
2. Não andar em companhia de homens.
3. Estar em casa entre as 8 horas da noite e as 6 horas da manhã, a menos que esteja assistindo a alguma função da escola.
4. Não ficar vagando pelo centro em sorveterias.
5. Não deixar a cidade em tempo algum sem a permissão do presidente do Conselho de Curadores.
6. Não fumar cigarros. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora for encontrada fumando.
7. Não beber cerveja, vinho ou uísque. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professor for encontrada bebendo cerveja, vinho ou uísque.
8. Não andar de carruagem ou automóvel com qualquer homem exceto seu pai ou irmão.
9. Não vestir roupas demasiadamente coloridas.
10. Não tingir o cabelo.
11. Vestir ao menos duas combinações.
12. Não usar vestidos mais de duas polegadas acima dos tornozelos.
13. Conservar a sala de aula limpa.
(a) varrer o chão da sala de aula ao menos uma vez por dia.
(b) esfregar o chão da sala de aula ao menos uma vez por semana com água quente e sabão.
(c) limpar o quadro-negro ao menos uma vez por dia.
(e) acender a lareira às 7 horas da manhã de forma que a sala esteja quente às 8 horas quando as crianças chegarem.
14. Não usar pó no rosto, rímel, ou pintar os lábios.
Eis a revista que contém o texto. Teoria&Educação, nº 4, 1991.


Na introdução ao texto, ou autores chamam atenção para o surgimento de uma nova onda conservadora, não só nos Estados Unidos, mas também na Grã-Bretanha e no Canadá. Esta onda tem implicações no controle dos currículos e do ensino, que se estendem também sobre a cultura, sobre a política e sobre a economia em geral. Existem culpabilizações e isto atinge diretamente os trabalhadores em educação, uma profissão predominantemente exercida por mulheres. Como exemplo aventam para o contrato.

No corpo da análise, os autores tentam explicitar a maneira pela qual o professorado está perdendo o controle sobre o seu trabalho. Consideram como premissa para um ensino de qualidade e de ações auto refletidas, levar em conta os grupos desprivilegiados da sociedade, estudando-lhes suas origens e causas. Mas nem todos desejam que estes temas estejam presentes nas escolas. E isso trará para dentro das mesmas, o olho que as controlará e avaliará o que é feito. Aí chamam para uma reflexão maior sobre todo o processo de trabalho.
O xerox do texto que guardo cuidadosamente.


A degradação do trabalho ocorre com a sua taylorização, ou seja, a racionalização e a padronização do trabalho com vistas ao lucro. Isso traz duas consequências graves. A perda da visão geral sobre o trabalho com a separação entre a concepção e a execução e que traz como consequência, a desqualificação. A capacidade do trabalho criativo sofrerá uma atrofia pela execução de tarefas meramente mecânicas e repetitivas. A questão seguinte leva a investigar como este processo atingiu o trabalho docente, como essa taylorização do trabalho atingiu também o professorado.

Antes é preciso lembrar, que o ser professor passa por um longo processo de formação, de qualificação profissional, que o leva ao domínio de seus afazeres, como o sujeito do processo. E diante disso, a pergunta faz muito mais sentido. As causas são então explicitadas. Embora o discurso seja hoje mais democrático "na maior parte das áreas do currículo, existem forças agindo sobre as escolas que podem tornar estas escolhas (do sujeito) quase sem sentido. Nos níveis local, estadual, e federal, os movimentos por sistemas estritos de avaliação do trabalho de professores, de educação baseada na competência, de testagem, sistemas gerenciais, uma visão truncada das 'aprendizagens fundamentais', objetivos e conteúdos curriculares determinados por decreto, e assim por diante, são visíveis e estão em ascensão. De forma crescente, métodos de ensino, textos, testes, e resultados estão sendo retirados das mãos das pessoas que devem pô-los em prática". Ilustram a sua afirmativa com exemplos que consideram como a crescente intervenção estatal no processo.
Apontamentos/síntese, feitas ao final do texto, quando o estudamos.


E quais são as consequências? Na escola ocorrerá o mesmo processo do trabalho em geral. A atrofia do trabalho criativo e além da atrofia, o seu esquecimento. É anulado também todo o seu trabalho de formação. "As habilidades que os professores construíram ao longo de décadas de trabalho árduo - estabelecendo objetivos curriculares relevantes, determinando conteúdos, planejando lições e estratégias instrucionais, individualizando a instrução com base num conhecimento íntimo dos desejos e necessidades dos estudantes [...] são perdidas". Pouco adiante os autores continuam. "Não existe nenhuma fórmula melhor para a alienação e o desânimo que a perda de controle do próprio trabalho". E a conclusão deste processo é terrível. "Em vez de professores profissionais que se importam muito com o que fazem e por que o fazem, podemos ter executores alienados de planos alheios".

Uma outra análise ainda é feita e que também é uma consequência da perda do controle do seu trabalho, é dividir o conhecimentos em três tipos. Um tipo "o quê", a informação factual; um tipo "como", constituído, por exemplo, de habilidades de uso de uma biblioteca, de fazer pesquisas; e um tipo "para", que inclui normas, valores e propensões. Estes são modelos de comportamento e inspiradores de uma vida. Os autores dão ênfase a este terceiro tipo. "Incluem saber ser honesto, ter orgulho da própria herança racial, saber aprender depois que a escolarização formal terminou, ser intelectualmente aberto, ou ver a si mesmo como parte de uma comunidade democrática e agir cooperativamente". Se postos em hierarquia, qual será o conhecimento mais importante, perguntam os autores. Pela padronização, se perguntará sobre o mais fácil.

Creio que já dá para fazer sérias reflexões sobre o texto, que hoje, possivelmente, seja encontrado apenas em bibliotecas especializadas. Mas creio que os educadores facilmente poderiam ilustrar o texto, com os exemplos de suas práticas. Tenho para mim que a mais importante categoria da filosofia é a do trabalho, o trabalho como práxis, pela qual jamais o trabalho será dividido entre aqueles que o concebem e aqueles que o executam. A unidade entre o saber e o fazer, entre a mente e a mão. Mas vamos à conclusão dos dois especialistas.

"À medida que a desigualdade cresce firmemente na economia, à medida que as divisões de classe, de gênero, e de raça nos empregos e nas riquezas crescem inexoravelmente ao longo do tempo, estamos frente a uma situação em que os métodos empresariais tendem a dominar a maior parte do nosso discurso e decisões públicas. Não apenas na economia, mas nas escolas, as ideologias empresariais têm entrado mais diretamente no conteúdo do currículo e nas discussões sobre políticas nos níveis local, estadual, e federal. Uma ética do lucro e do ganho privado está não apenas deslegitimando uma visão educacional mais progressista, mas está também tornando difícil para nós como um povo lembrar que existem alternativas mais democráticas para as formas como nossa economia e nosso trabalho são atualmente controlados. Possivelmente a fim de que o professorado retenha uma grande porção de sua autonomia, seja antes necessário lutar em favor dessas alternativas democráticas na sociedade mais ampla. Isto certamente merece uma reflexão mais profunda".
Um livro que me acompanha para os estudos sobre currículo.


Termino citando uma frase do meu post anterior, retirada do livro Escola e Cultura, de Jean Claude Forquim. "Ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos". E o que dizer das atuais tentativas em controlar a liberdade dos professores, de politizarem os conteúdos, quando o ato de ensinar é, por excelência, um ato político. E para externar o que é verdadeiro e válido, o bem mais precioso sempre será o da liberdade.







4 comentários:

  1. Esse Contrato de professora é mais facil ser freira barbaridade

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    1. Sr. Arnaldo. É para pessoas mortas, Se tiver oportunidade de assistir o filme "A Fita Branca", se vê como é uma educação fria, sem alma. Assim foi a educação que conduziu ao nazismo. Obrigado sr. Arnaldo.

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  2. Acima de tudo, eu acredito na Educação, ainda que nosso barco venha fazendo água a muito tempo, mas o movimento para a escola que queremos começa no interior dos sujeitos que hoje queiram ser professores e passa certamente pela formação desses sujeitos nas licenciaturas. Confesso que tenho visto chegar à escola jovens professores desnorteados e passíveis ouvintes das lamúrias dos jurássicos que ainda habitam a Sala de Professores, dando o seu "toque pessoal" para a desistência ou adaptação do novel às práticas vigentes. É certo que há exceções, mas vejo com tristeza a ausência de formação prática e política, seja por parte do Estado(sic), seja por parte do Sindicato. Ser professor não é certamente para qualquer um ,nem para seres especialmente iluminados, mas para aqueles que principalmente não desistam nunca de aprender, aprender, para melhor ensinar e não apenas a sua matéria de curso. Poucos vão além, muitos já começam habitando o "vale dos mortos-vivos". Nunca esquecerei a frase do Profº Arlindo Costa numa palestra que ministrou na Fafi/UVA, hoje UNESPAR, ele afirmou que" Se as escolas fossem perigosas já teriam sido atacadas pelos tanques...". O fato é que muitos desistem antes mesmo de começar. Há muito que fazer, ler, estudar e poucos se mobilizam nesse sentido por mote próprio.

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  3. Sucapoeta. Nós começamos um trabalho de formação pelo grupo APP - Independente e Democrática. No primeiro momento nos voltamos para a realidade brasileira, depois iremos para a educação, para as revoltas populares e assim por diante. Estamos botando fé. No primeiro encontro discutimos a necessidade da formação e a questão da identidade do professor. Muito obrigado pelo seu comentário.

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