segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Chico - Artista Brasileiro.

Confessar-se fã de Chico Buarque de Holanda deveria ser algo absolutamente desnecessário, pela qualidade de sua arte e pelo ser humano extraordinário que ele é. O seu conhecimento é imensurável. Mas, se nem todos o reconhecem, o motivo é a direta proporcionalidade que parte da sociedade dedica ao ódio ao conhecimento e, especialmente, ao que ele proporciona. Um ser humano refinado, bem posicionado e bem constituído.

Chico faz parte da minha vida, da minha formação, assim como da de inúmeros brasileiros. Um ser sempre presente nos momentos decisivos de nossa história, sejam estes positivos, ou, especialmente nos negativos, como foi nos tempos da repressão da ditadura militar. Dele tenho discos em vinil, CDs e DVDs, acompanhando assim a sua trajetória, como também a da tecnologia. Tenho também quase toda a sua produção literária. Tenho um especial cuidado com 12 DVDs da série CHICO BUARQUE ESPECIAL, uma produção da TV Bandeirantes.

Depois da minha laicização, Chico integra a minha refeita lista de santos, estando no topo desta minha hagiografia. A leitura da crônica de outro santo da minha lista, Luís Fernando Veríssimo, me fez ver a programação do cinema da semana e lá estava anunciado: CHICO – ARTISTA BRASILEIRO. Na primeira sessão em que o filme estava anunciado, lá estava eu presente a assisti-lo.
 Cartaz promocional de Chico - Artista Brasileiro.


A crônica de Veríssimo levava por título A Cordilheira. A cordilheira é uma imagem usada por Vinícius de Moraes, quando este, em uma gravação usada no filme, compara a música popular brasileira a uma paisagem com muitos morros e poucas montanhas e confere a Chico a elogiosa referência de ser ele uma destas montanhas. Mas a razão maior de ter escolhido a cordilheira, como título da sua crônica, está no pedido final que faz a Miguel Faria Júnior, o seu diretor, “Queremos a cordilheira inteira”. Antes deste pedido ele aventou para um possível defeito do filme: “A única crítica que pode ser feita ao filme é que alguns pontos altos da cordilheira não aparecem  (O samba do grande amor, por exemplo). Seria um consolo saber que elas ficaram para CHICO – ARTISTA BRASILEIRO – parte 2”. É possível elogio maior?

O filme constitui-se, obviamente, de músicas e de depoimentos, de Chico e de muitos de seus amigos. Muitas músicas foram especialmente gravadas para o filme e outras foram buscadas nos arquivos de antigas e históricas gravações. Da mesma forma também ocorreu com os depoimentos. Chico está extraordinário nestes depoimentos. Poucas vezes tinha visto tanto sobre particulares de sua vida. O que mais me aproximara destas particularidades está contido em seu livro O irmão alemão, história que ele também conta no filme. Tom Jobim, lhe fazendo elogios no filme, e falando de suas virtudes, detalhe que também não passou despercebido a Veríssimo, diz simplesmente, “Chico é tudo, tem até irmão alemão”.

Impressionou-me muito na leitura de O irmão alemão, a relação de Chico com o seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Ele era um historiador, um intelectual inatingível em sua biblioteca de trabalho. Para agradá-lo, Chico lia romances em francês, inclusive os russos, para só depois chegar aos brasileiros. É dessa ampla relação de livros lidos, de idiomas falados, do conhecimento que tem da música, que lhe vem o elogio de Tom Jobim: “Chico é tudo”.

Os depoimentos são uma narrativa de sua vida. O sucesso com os festivais, a repressão da ditadura militar, o exílio na Itália e o sentir-se artista profissional com a necessidade de ganhar dinheiro, de sua criação artística, de suas amizades, de suas incursões na literatura, campo que diz prezar mais do que a própria música. Os depoimentos só terminam com a revelação de seus projetos futuros, que serão poucos afirma, pelo pouco tempo de vida que lhe resta. Mesmo assim fez projetos até a década de 2030. Chico é septuagenário.

As músicas são um encanto. Na abertura é ele que canta, junto com um coro. A música é Sinhá. Veríssimo diz que foi um início arrebatador, mas viria a seguir, uma das coisas mais bem feitas no Brasil. A música Sabiá, interpretada por Carminho, uma cantora portuguesa. Quando Veríssimo manifesta o seu entusiasmo por Sabiá, ele assim se expressa: “Eu acho Sabiá, música do Tom, letra do Chico, uma das coisas mais bonitas feitas no Brasil em todos os tempos – “coisas”, aí incluindo nossa melhor literatura, nossa melhor pintura, as Bachianas do Villa-Lobos e a Patrícia Pilar”. Que bela confissão, Veríssimo!

Gostei muito da cena em que aparece Maria Bethânia cantando Olhos nos Olhos e contando de uma conversa que tinha tido com  Mãe Menininha, depois de lhe ter cantado esta música. Mãe Menininha lhe teria perguntado sobre a autoria da música e, não quis acreditar que ela tivesse sido composta por um homem, pois os homens, segundo ela, teriam um vão no coração, incapazes, portanto, de tantos belos sentimentos. As interpretações são maravilhosas, como as de Adriana Calcanhoto, Péricles, Moisés Marques, além das interpretações clássicas e consagradas dos festivais.

Com o desejo de ver novamente o filme e com a certeza de adquiri-lo em DVD, termino com um último elogio do Veríssimo de que” não deixa de ser espantoso o número e a qualidade das criações do Chico que ficam na memória e continuam cantadas e encantando”.

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