quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A experiência anarquista da Colônia Cecília. 1890-1894.



Em meados do século XIX começaram a se estruturar as doutrinas contrárias ao sistema capitalista. Em 1864 se reúne, em Londres, o Primeiro Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e as disputas ideológicas se davam entre os anarquistas e os seguidores das doutrinas de Marx. Já em 1889, quando se dá o Segundo Congresso, os anarquistas já haviam sido excluídos da AIT, mas as suas lutas não pararam.

Na Itália, Giovanni Rossi promovia várias experiências de auto-organização de camponeses, e no horizonte figurava o sonho de uma colônia anarquista em terras da América do Sul. Em 1890 sai do porto de Gênova, no Cittá di Roma, o primeiro grupo com a intenção de realizar tal sonho. Depois da chegada ao Rio de Janeiro, embarcam com direção ao sul e, em vez de irem até o Rio Grande do Sul, desembarcam em Paranaguá, para se estabelecerem no estado do Paraná. Sob a influência de um médico italiano, Franco Grillo, estabelecido em Palmeira, rumam para esta cidade.
Giovanni Rossi, o idealizador da colônia anarquista, localizada na cidade de Palmeira. PR.

O Brasil de então vivia tempos conturbados. A escravidão fora abolida, assim como também, o regime monárquico. A República ensaiava seus primeiros passos e lutava para se afirmar. Para substituir a mão de obra escrava, uma política de favorecimento à imigração estava em curso. Assim, a passagem destes italianos foi paga pelo governo brasileiro, que também lhe destinou as terras e lhes deu a primeira oportunidade de trabalho, na abertura de estradas na região em que se estabeleceram. A escolha da cidade de Palmeira também se deu pelo fato de ser a cidade um importante ponto de passagem dos tropeiros, que faziam a mediação entre os campos do sul e o mercado paulista.

A Colônia Cecília se localizava a 18 quilômetros da cidade de Palmeira, em direção a Curitiba, sendo vizinha a uma pequena colonização de franceses e outra de poloneses, esta um pouco maior, a vila de Santa Bárbara. Mandaçaia e a estrada da Serrinha também eram nomes familiares no entorno da colônia. A Colônia Kitti, em Porto Amazonas, também entra em cena frequentemente. Os sobrenomes mais comuns, de alguma forma ligados a Cecília, são Agottani, Artusi, Mezzadri, Colli, Torti, Carzino, Parodi, Códega, Riva, Faccini, Cini, Del Frate ou Dalfrate, Boni, Fecci, Dusi, Capraro, Capelaro e o do idealizador da colônia, Giovanni Rossi. O nome Cecília é uma homenagem a um personagem feminino do romance de Rossi, Un Comune Socialista.
Tarefas do anarquista. Liquidar com a ordem e os seus agentes.


A colônia se manteve por pouco tempo, entre março de 1890 e abril de 1894. Entre as razões de seu não êxito estão os próprios princípios do anarquismo, as dificuldades próprias ao seu tempo histórico, os desentendimentos internos e externos e, por fim, o envolvimento com a Revolução Federalista quando foram trucidados pelas tropas leais ao marechal Floriano Peixoto.

As primeiras famílias mal haviam se estabelecido, quando Rossi volta à Itália para arregimentar mais colonos. Quando estes chegam começam os problemas com os pioneiros. A liberdade individual e a ausência de leis determinantes da organização começam a gerar conflitos e alguns abandonam o empreendimento, se julgando no direito de levarem alguns instrumentos agrícolas. Alguns simplesmente não se submeteram ao trabalho. Embora pregassem o amor livre, uma menina, entre eles, fazia a festa de solteiros e casados. O amor livre nunca se efetivou entre os colonos. O governo também nem sempre contribuiu com a sua parte de efetuar o pagamento do valor dos dias trabalhados na abertura das estradas. Eles teriam o direito de receber um terço em espécie. O restante serviria para amortizar o valor das terras.
O volumoso livro de Arnoldo M. Bach. 1.057 paginas de história e ricos depoimentos.

A propriedade era formada por 200 hectares de terras e, no seu auge, chegou a ter 300 moradores. O perfil dos colonos era o mais diverso possível. Tinham em seu meio, desde analfabetos absolutos, até pessoas com formação universitária, como era o caso do idealizador, Giovanni Rossi, formado em agronomia. Economicamente recorreram aos produtos de subsistência, com especial predileção pelo cultivo do milho, para a produção da polenta diária e principal componente de sua alimentação. Além de pequenos animais também cultivaram frutas, entre elas a uva, para não deixar faltar o vinho, tão próprio aos italianos. Comercialmente também aderiram ao cultivo da erva mate, que formava o ciclo econômico do período.

Entre os problemas externos, devem ser considerados os problemas do isolamento, as condições de infraestrutura, e as desavenças com os vizinhos. Em geral eles procuravam manter excelentes relações com os vizinhos, mas a sua doutrina os isolava. Estes eram dominantemente poloneses, com a marca registrada de seu catolicismo. Os padres envenenavam a relação e os qualificavam como ateus e comunistas e, como tal, gente de extrema periculosidade. Chegaram ao absurdo de lhes negar o cemitério para os seus mortos. Em compensação, o Pimpão, um anarquista bem arretado, lhes meteu um salão de baile em frente a sua igreja.

A destruição da colônia ocorreu com a revolução Federalista, quando alguns colonos foram envolvidos com amigos maragatos de Curitiba. Isso bastou para que a República oligárquica e positivista do marechal Floriano desse um fim para a colônia. Isso ocorreu em abril de 1894. Apenas uma família, a família Artusi ficou morando no local. Numa república que pregava a Ordem e o Progresso não poderia haver espaço para a anarquia. Mas o pensamento anarquista se disseminou na região. Entre os descendentes houve sérios problemas com a ditadura militar em 1964 e muitos deles, depois - abraçaram as campanhas do PT, como herança de seus ancestrais que tinham plantado, possivelmente, a única experiência anarquista do mundo.

Os dados deste post, foram coletados a partir do livro Colônia Cecília, de autoria de Arnoldo Monteiro Bach, que reconstitui bem o pensamento de Giovanni Rossi, narra esta epopeia histórica e dá voz aos descendentes. Ele é proprietário do espaço cultural Sítio Minguinho, que deve ser na região onde era a sede da colônia. O meu próximo empreendimento será uma visita à esta região. Tenho um bom guia para isso, o meu amigo Marco, que é hoje o presidente do núcleo de Irati, da APP-Sindicato.


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