quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A Colônia Cecília. Giovanni Rossi - O seu idealizador.




Sempre fui movido por muita curiosidade em torno da Colônia Cecília, um experimento anarquista do final do século XIX, na região de Palmeira, mas nunca me detive mais seriamente em estudá-la. Uma primeira incursão mais séria se deu com a leitura de Italianos no Brasil. “Andiamo in ‘Merica”, de Franco Cenni, que dedica as páginas 355 a 358 ao fato. Foi também, quando entrei em contato com Giovanni Rossi, o idealizador da colônia.

Conversando com o meu amigo Marco, morador em São João do Trinfo e, simpático das causas anarquistas, percebi que ele tinha bom conhecimento sobre o tema. Agora o reencontrei e, voltamos ao assunto, e por um trabalho junto ao Núcleo Sindical da APP de Irati, ganhei de presente o livro Colônia Cecília, de autoria de Arnoldo Monteiro Bach. O livro contém mais de 1050 páginas. O livro tem o seu maior mérito nas transcrições de textos em que Giovanni Rossi relata a concepção dos princípios anarquistas, a idealização do projeto e, ainda, avaliações do mesmo, Outra riqueza do livro é a coleta de depoimentos dos descendentes das famílias dos pioneiros.Estes depoimentos são verdadeiros tesouros de preservação de memória. São depoimentos de pessoas que em breve não estarão mais presentes.
O livro de Arnoldo M. Bach. A narrativa da epopeia anarquista.

Giovanni Rossi é de Pisa, onde nasceu em 1856. Formou-se em agronomia e veterinária e trabalhou em organizações agrícolas cooperativas, visando amenizar os sofrimentos dos campesinos pobres da Itália. Era uma época de muitas dificuldades, de guerras em torno da unificação italiana. O contato com a miséria do povo o fez entrar em contato com as ideias socialistas que estavam se delineando. Na década de 1870 entra na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Pertencia a vertente anarquista, que em breve seria expulsa da Internacional. Além da especificidade profissional, gostava dos temas da filosofia, da sociologia e da política.

Desde cedo também escrevia. De sua escrita faziam parte artigos de propaganda anarquista e um livro com suas ideias e projetos. Este se chamava Une Comune Socialista, de 1878. Neste livro Cárdias é o narrador que junto com Cecília, a sua companheira, denunciam as injustiças da época. O nome da colônia Cecília é uma homenagem a esta personagem de seu livro, nada tendo a ver, como vi em alguns escritos, com a santa Cecília, a padroeira dos músicos. Basta lembrar que eram anarquistas, para não fazer tal confusão.
Contra a ordem estabelecida, acabar com os homens da ordem.

“Anarquia nas relações sociais; amor e mais que amor na família; propriedade coletiva dos capitais; distribuição gratuita dos produtos do ajuste econômico; negação de deus nas religiões”, pregava o personagem Cárdias. Cárdias imaginava uma terra longínqua, Poggio al Mare, onde pudesse, junto com Cecília, por seus ideais em prática. “Nós nos amávamos e o nosso afeto não diminuía, mas agigantava-se com o amor pela humanidade. Falar de socialismo, para nós, era falar de amor”.

Em de 1890, um grupo de jovens deixa o porto de Gênova, no Cittá di Roma, trazendo no seu destino incerto, pouca coisa além da esperança quase infinita. Iriam formar uma colônia anarquista em terras da América do Sul. As passagens eram pagas pelo governo brasileiro, em programas de incentivo à imigração. Observem que neste período a nossa história política também estava conturbada. Tínhamos acabado de abolir a escravidão e trocado a monarquia pela república. O navio chega ao Rio de Janeiro, de onde, após alguns dias, os imigrantes partem para o sul, com destino a Porto Alegre, mas resolvem ficar em Paranaguá. Lá chegaram em 28 de março e de trem sobem até Curitiba. Para se estabelecerem em Palmeira foi fundamental a influência de um médico italiano que já morava em Palmeira, o Dr. Franco Grillo, também simpático às ideias socialistas.
Giovanni Rossi, o idealizador da epopeia anarquista de Palmeira.

Depois dos embaraços burocráticos, estes pioneiros ocuparão uma área de 200 hectares de terras que lhes foram destinadas pelo serviço de imigração. “Eram os primeiros dias de abril de 1890... Nestas terras, perto de alguns pés de laranja, na frente de quatro altas paineiras, tivemos a sorte de encontrar uma casinha de madeira abandonada que, de imediato, ocupamos”, nos conta o Giovanni Rossi. São as primeiras palavras sobre a colônia. Para situá-la, vamos a Palmeira. O lugar está distante a 18 quilômetros da sede do município, vindo em direção a Curitiba. Próximo a eles havia uma colônia de franceses e outra de poloneses, a colônia Santa Bárbara,. Era uma região por onde passavam os tropeiros. Na época também havia a colônia Kitti em Porto Amazonas, uma colonização inglesa.

As primeiras atividades estavam ligadas a construção dos ranchos, ao cultivo de hortaliças e de milho. No início também ajudavam na construção de estradas, recebendo pelo trabalho, um terço em dinheiro e o restante como amortização pela terra. Depois se dedicaram ao cultivo da erva mate, da plantação de parreiras, pois para um italiano não poderia faltar um bom vinho caseiro. A alimentação básica era a polenta. Logo após a chegada, Rossi volta para a Itália para arregimentar mais colonos. Em seu apogeu a colônia chegou a ter 300 moradores. Em outro post irei relatar os problemas e o fim das atividades na colônia.

Giovanni Rossi após o fim da Colônia, em abril de 1894, irá trabalhar na  Escola Superior de Agricultura em Taquari, RS., onde lecionará nos anos de 1894 a 1896. Depois foi ser professor em Rio dos Cedros, SC, e Florianópolis. Em 1907 voltou para a Itália, onde permaneceu até o fim de sua vida, morrendo em Pisa em 1943, aos 87 anos. Na Itália exerceu fortes atividades intelectuais e teve contato constante com o seu biógrafo, Alfred Sanftleden, que usava o pseudônimo de Slovak. Ele também foi o responsável pela tradução e divulgação de seus artigos para a imprensa mundial, inclusive interessantes artigos de avaliação da Colônia Cecília, a única experiência anarquista do mundo.

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