sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Comunista de Casaca. A vida revolucionária de Friedrich Engels.

Cada vez mais sou fã incondicional de biografias bem escritas. O que eu mais aprecio nelas é o grande poder de contextualização. Você não vê apenas o biografado, mas também todo o seu panorâmico entorno. Isso ocorreu mais uma vez, agora com a leitura de Comunista de Casaca. A vida revolucionária de Friedrich Engels, do professor de história da Universidade de Londres, Tristam Hunt. Na obra você encontra toda a evolução industrial dos meados do século XIX, até o seu final e vê especialmente as discussões filosóficas que levaram a filosofia ocidental ao seu apogeu com Hegel e ao seu recomeço com a dialética.
A monumental biografia de Engels, da Record.

A obra foi lançada pela Record, em 2010. Possui 471 páginas, divididas em dez capítulos, com direito a prefácio e epílogo, muitas páginas de notas, ilustrações, mapas e um bloco de fotos históricas. Talvez o seu maior mérito seja a anotação feita pelo Observer, posta na contracapa do livro: "Hunt tira Engels da sombra de Marx". Para situá-lo bem, Engels nasceu em Wuppertal em 1820, na industrializada área nas proximidades de Düsseldorf e morreu em 1895, em Londres, passando muitos anos em Manchester, cuidando dos negócios da família, para atender interesses de seu pai e dar a viabilidade econômica para Marx, na elaboração de O Capital.
Barmen, (Wuppertal) a cidade natal de Engels e Trier, a de Marx.


O primeiro capítulo é dedicado a descrição da família, onde são retratados os pais protestantes calvinistas e pietistas, ricos industriais ligados ao algodão, à tintura e à tecelagem. Mostra ainda os anos de formação, em que entra em contato com o pensamento romântico de Goethe e assiste ao empobrecimento vertiginoso do operariado. Em Bremen tem seu primeiro contato com a obra de Hegel.  O segundo capítulo, para mim foi extraordinário, uma verdadeira aula de filosofia. Já  encontramos Engels em Berlim, assistindo as aulas em que Schelling desanca o pensamento de Hegel. Os hegelianos se dividem em dois grupos, os conservadores, que seguem na esteira do esclarecimento e que veem o Estado como o aperfeiçoamento máximo da razão, pela dialética idealista e, os de esquerda, que enxergam para além disso, criando a perspectiva para o materialismo histórico. Nestas aulas dá-se o primeiro encontro com Marx. Neste capítulo também é marcado um encontro com os socialistas utópicos.

Preocupações do pai e os negócios da família levam Engels para Manchester, o que é narrado no terceiro capítulo. Irá trabalhar na Ermen&Engels, a grande empresa familiar. De suas observações nasce A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Inicia também os seus estudos sobre os economistas clássicos, Smith e Malthus. Em Manchester dá-se o encontro com a sua eterna querida, a operária irlandesa Mary Burns. É óbvio que ali acontece o grande despertar para a questão da consciência de classe.
A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, o primeiro livro de Engels.


No quarto capítulo é mostrada a sua pouca vocação para os negócios e logo vamos encontrá-lo em Paris, se aprofundando no estudo dos economistas clássicos e se envolvendo nas disputas pela hegemonia da doutrina que conduziria os operários à emancipação. Aí se encontra novamente com Marx e, agora, é que se dará a grande afinidade entre os dois pensadores e que irá durar para sempre. Escrevem conjuntamente duas obras de extrema importância para a filosofia e para a luta revolucionária, A ideologia alemã e O Manifesto do Partido Comunista. Já o quinto capítulo é dedicado às revoluções de 1848, que estouram na França e se propagam por toda a Europa. Nelas os dois intelectuais veem os avanços dos ideais burgueses como o estágio preparatório para o socialismo. Engels terá ativa participação nas lutas na sua Prússia natal.
O Manifesto do Partido Comunista, o primeiro trabalho em dupla.


O sexto capítulo cresce em intensidade mostrando um Engels conformado em seu trabalho na empresa familiar. Reconhece a superioridade intelectual de Marx e se submete a uma vida rotineira e monótona para dar a Marx todas a condições para que ele avançasses nos estudos de sua obra maior, O Capital. Neste capítulo também são mostradas algumas intimidades da vida dos dois pensadores. A situação financeira de Marx era caótica e ele também não obedecia a nenhuma regra, do que se chamaria hoje, de "educação financeira". Vivia entre a miséria e grandes banquetes e, sempre sem dinheiro. Mais da metade dos ganhos de Engels eram destinados ao amigo e à sua família e este não abria mão de uma vida burguesa. A bebida farta também sempre esteve presente na vida de ambos.
Engels em companhia da família de Marx.


No sétimo capítulo Engels renuncia à sua vida de "mascate" e passa a colaborar mais diretamente com a produção teórica de Marx. Passam a ser vizinhos. Engels aprofunda os conceitos do materialismo histórico e estende a sua aplicação para as ciências naturais. Em 1867 sai a edição do primeiro volume de O Capital, do qual Engels destaca as duas maiores qualidades, a clareza em torno do conceito do materialismo histórico e o conceito de mais valia. O cuidado com a edição e com a difusão do livro será o próximo caminho de Engels. Já no oitavo capítulo, quando os dois moram ainda em Londres, começam mais ativamente os trabalhos com a Associação Internacional dos Trabalhadores, a AIT e a Primeira Internacional, em 1864. A disputa pela hegemonia se acirra, com a briga com Bakunin e os seus anarquistas. São mostrados também dados financeiros da fortuna de Engels, agora afastado dos negócios, mas grande investidor financeiro, após a sociedade desfeita. A fortuna era incalculável. São ainda descritas as morte de Jenny e do próprio Karl.
Após a morte de Marx, Engels assume o papel de primeiro violino.


O nono capítulo tem um título sugestivo, o buldogue de Marx. O buldogue é uma referência ao cão de guarda que ele passa a ser, para que não houvesse a deturpação da obra do grande amigo. Vê nele o Darwin das ciências sociais. É a fase de seus Anti- Dühring e Do socialismo utópico ao socialismo científico e, o que certamente mais trabalho lhe deu, a organização das anotações de Marx para o segundo e o terceiro volumes de O Capital. Encontra tempo, ainda, para a elaboração de A origem da família, da propriedade privada e do estado, com interessantes incursões nas questões de gênero.
A supremacia teórica das lutas de emancipação do proletariado. Marx e Engels.


O décimo capítulo é dedicado ao seu esforço na preservação do legado de Marx e na manutenção da unidade de sua interpretação e a sua participação na Segunda Internacional em 1889, com a grande preocupação de que o marxismo seja a grande teoria guia para os ideais emancipatórios do proletariado. Isso será conseguido, ao menos no início, desta Segunda Internacional. Fala de sua doença, de seus dissabores familiares e do vislumbrar de sua morte por câncer. Por curiosidade, a fortuna deixada em testamento, atingia a cifra de quatro milhões de dólares. O epílogo procura inocentá-lo, como também a Marx, das barbaridades cometidas, posteriormente, em seu nome, mais dele do que Marx, pois o seu Do socialismo utópico ao socialismo científico, parece ter sido maior referência de estudos do que o grosso volume de O Capital. E..., um convite à leitura.

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