quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A Ilusão Americana. Eduardo Prado.

Este é um livro bem datado e também de muitas peculiaridades. O autor assina as suas conclusões no dia 7 de novembro de 1893 e já no dia 4 de dezembro do mesmo ano ele chega às livrarias, onde fica exposto apenas por uma única hora. Na capa da quinta edição de 1980 (Ibrasa) tem uma tarjeta publicitária com os seguintes dizeres: O primeiro livro apreendido pela polícia, na república. Creio que observaram bem o título. A Ilusão Americana. A autoria é de Eduardo Prado. A tarjeta publicitária da capa continua: Um livro para ser lido à luz dos acontecimentos históricos.


Quero também me vangloriar, porque recebi esta indicação de leitura através de Lima Barreto. Calma, eu ainda não enlouqueci. Eu sei que Lima Barreto morreu em 1922. Acontece que em um livro que reúne crônicas suas, publicadas na imprensa entre os anos de 1918 e 1922, em coletânea reunida pela Editora Expressão Popular sob o título A crônica militante, o autor faz referências a este livro. Facilmente o localizei na Estante Virtual. E como valeu a pena.

O tema do livro, como o título nos indica, trata dos Estados Unidos, da América Latina e dos Estados Unidos do Brasil. Este era o nome do Brasil, após a proclamação da República, numa espécie de agrado àquele país do norte. A ilusão é nossa, latina americana e brasileira, com relação a política externa dos Estados Unidos. Creio que a melhor resenha que eu posso fazer é usar o próprio autor. Tomo três parágrafos de seu capítulo V, uma espécie de conclusão. Diz ele:

-"Que a história da política internacional dos Estados Unidos não demonstra por parte daquele país, benevolência alguma para conosco ou para com qualquer república latino-americana; 

- Que todas as vezes que tem o Brasil estado em contato com os Estados Unidos tem tido outras tantas ocasiões para se convencer de que a amizade americana (amizade unilateral e que, aliás, só nós apregoamos) é nula quando não é interesseira. - Que a influência moral daquele país, sobre o nosso, tem sido perniciosa" (O destaque é meu). Já aproveitando, - os tópicos analisados se relacionam com a diplomacia, a economia, além da ordem moral e intelectual.

Quanto ao Brasil, as principais questões estão ligadas ao apoio americano a Solano Lopes na guerra do Paraguai, pelo fomento do tráfico negreiro (em 1849 o presidente Taylor dizia: "Não se pode negar que este tráfico é feito por navios construídos nos Estados Unidos, pertencentes a americanos e tripulados e comandados por americanos"), pelo retardamento da proclamação da abolição e antes de tudo isso, o tardio reconhecimento da nossa independência. Os Estados Unidos foram o último país a fazê-lo, apesar do princípio da Doutrina Monroe, de 1823.

Quanto a América Latina estão contadas as histórias do México, da América Central, da Colômbia e da Venezuela e de modo particular os conflitos que envolvem a Bolívia, o Chile e o Peru. Fiquei impressionado com a riqueza que o guano representou para o Peru e os nitratos do deserto de Atacama para o Chile. Busco uma frase do autor que representa o espírito da força imperialista dos Estados Unidos, por parte do sr. Blaine secretário de Estado do presidente Garfield, presidente assassinado após poucos meses de governo, de março a setembro de 1881. Assim Eduardo Prado se expressa.

"Ele imaginava a águia americana pairando, de polo a polo, com as asas poderosas expandidas. A águia simbólica ele não a via protegendo os fracos com a sua sombra, como acredita a ingenuidade de alguns sul-americanos. Ele queria que ela dominasse, que o seu olhar perscrutasse as solidões geladas do polo, os vales profundos dos Andes, as planuras do Amazonas, a vastidão dos pampas e o infinito dos mares. Ele queria que o bico adunco daquele pássaro apocalíptico rasgasse os inimigos, e que as garras colossais se apoderassem de todo o continente de Colombo. Blaine no poder, era uma ameaça para toda a América".

Deixo ainda uma advertência com relação a autonomia dos países,  deixada por George Washington, o Pai maior da Pátria, em sua mensagem de adeus. "Deveis sempre ter em vista que é loucura o esperar uma nação favores desinteressados de outra, e que tudo quanto uma nação recebe como favor terá de pagar mais tarde com uma parte de sua independência. Não pode haver maior erro do que esperar favores reais de uma nação a outra".

É impossível terminar este post sem falar de Eduardo Prado. Ele era um fervoroso monarquista e não se conforma com o fato de os Estados Unidos terem se constituído, com a sua independência, numa república. Quanto ao Brasil, também encontrava na república as mazelas de nossa subserviência. Tem interessantes observações sobre as monarquias e a sua relação com as questões sociais. Um livro absolutamente polêmico e instigante. Por isso mesmo, abri o post alertando que o livro, para ser lido, precisa ser datado e, agora acrescento este dado, de que o autor também precisa ser contextualizado.

Ainda deixo uma questão que se aplica ao Brasil de hoje. A questão da traição dos vices, no regime presidencialista. É Temer. É Maia. Vejam o que diz o autor: "Diz-se que os príncipes herdeiros são em geral os chefes da oposição. Nas repúblicas, o vice-presidente é o inimigo natural do presidente efetivo. Quem é o segundo é sempre contra quem é primeiro. Nas repúblicas sul-americanas, o vice-presidente acaba, quase sempre, conspirando contra o presidente, muitas vezes depondo-o..."

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.