quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ser Escravo no Brasil. Kátia de Queirós Mattoso.

"Escrito para um público amplo... descreve-se com riqueza de detalhes o dia-a-dia dos escravos... um surpreendente relato das relações econômicas e sociais". The New York Times Book Review. Esta é a apresentação que está na contra capa da edição brasileira do livro de Kátia  de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil, em sua reimpressão de 2003, da Editora Brasiliense. A primeira edição do livro ocorreu em 1982 e foi escrito em francês. A edição brasileira tem a tradução de James Amado, que me consta ser o irmão de Jorge, o irmão famoso. O livro tinha a pretensão de relatar ao mundo as tristes experiências da escravidão brasileira.
Ser escravo no Brasil. O monumental livro de  Kátia de Queirós Mattoso.

Cheguei ao livro através de Antônio Cândido, quando este deu em 1990, dez indicações de livros essenciais para a compreensão de Brasil. Tenho um post sobre estas indicações. Antônio Cândido dividiu o Brasil em grandes temas e para cada um destes temas sugeriu um grande livro. Para a questão da escravidão, indicou este, do qual passarei a dar a estrutura fundamental. Ele foi escrito em francês com a finalidade de ser lido ´"por um público amplo", mas acabou mesmo sendo a grande referência no Brasil. Kátia é grega de nascimento que se radicou em Salvador, sendo professora na Universidade Federal da Bahia.
Foto de Kátia de Queirós Mattoso. - Nasceu na Grécia em 1931 e faleceu em Paris em 2011. Foi professora na Universidade Federal da Bahia.

O livro de 2003 tem prefácio do historiador Ciro Flamarion S. Cardoso que destaca três virtudes fundamentais no livro: "1. Uma base documental sólida, proveniente da intimidade com as fontes primárias (em especial da Bahia) e ao mesmo tempo com a extensa bibliografia do escravismo brasileiro; 2) enquanto muitos livros de síntese no fundo generalizam a experiência da escravidão numa única região ou a partir das realidades que afetavam a um só tipo de escravos (os domésticos, por exemplo), neste texto se procurou considerar todas as principais situações regionais e estruturais; 3) o tema da alforria e dos libertos, raramente visto em debates neste país, tem grande peso e desenvolvimento". 

O meu objetivo não é o de apresentar uma síntese do livro. Seria impossível num único post. O que eu quero é fazer é a provocação para a sua leitura. Por isso vou apresentar a estruturação do livro. Ele foi dividido em três partes e nove capítulos. As três partes envolvem o ser vendido como escravo, o ser escravo e o deixar de ser escravo. Os relatos não são frios e acadêmicos. Foram escritos com muita paixão. Mas vamos a estrutura do livro:
Cenas do transporte de "mercadorias humanas" da África para o Brasil.

A primeira parte tem como título Ser vendido como escravo. Vai da página 15 até a 96. Possui três capítulos com os seguintes títulos: Capítulo Primeiro: Na África - Ser vendido como escravo. Capítulo Segundo: Ser uma mercadoria como as outras. Capítulo Terceiro: Ser uma mercadoria apreciada. Não darei detalhes, mas gostaria de salientar a escolha da autora para a qualificação atribuída ao escravo como uma mercadoria. Ela está revestida de um significado profundo.

A segunda parte tem como título Ser escravo. Ocupa as páginas entre a 97 e a 172. Possui também três capítulos, dos quais também darei os títulos: Capítulo quarto: O africano se adapta ao Brasil e aos brasileiros. Capítulo quinto: As solidariedades. Capítulo sexto: Refúgios e refugos. A narrativa cresce em sua dramaticidade, na descrição de sofrimentos e da construção de uma identidade, praticamente impossível, pois, lhe falta uma das características essenciais do humano, que é a liberdade. A descrição da religiosidade do escravo negro me marcou profundamente. Cinicamente comparavam os seus sofrimentos com os sofrimentos de Cristo na cruz, que lhes proporcionava uma vida livre. Me veio à lembrança o livro de Primo Levi, Os Afogados e os Sobreviventes, em que ele afirma que o suicídio é um ato da liberdade humana e, portanto, não praticável, nas condições em que se encontrava no campo de concentração de Auschwitz. Mas o livro também aborda os diferentes refúgios em que os escravos procuravam conforto. Um destes refúgios era o suicídio.

Aplicação de chicotadas no pelourinho. O castigo mais aplicado aos escravos.

A terceira parte é dedicada ao tema Deixar de ser escravo? Observem a interrogação. Esta parte também possui três capítulos, que ocupam as páginas que vão da 173 até a 240. Capítulo Sétimo: A carta de Alforria. Capítulo oitavo: A miragem da liberdade. Capítulo nono: O liberto, ponte nas relações sociais. Dois destaques, o terceiro tópico da apresentação de Ciro Flamarion do tema raramente abordado e o título do oitavo capítulo como a miragem da liberdade. Como o texto já está se alongando, recomendo as duas páginas finais do livro, onde tem o depoimento de libertos, mas não resisto a uma pequena descrição sobre o dia seguinte ao da libertação:

"Neste final do século XX, essa liberdade nos parece inteiramente teórica, assim como a emancipação outorgada em 1888, quando da abolição da escravatura, a milhares de homens e mulheres, lançados de um dia para outro à alegria de de uma liberdade reconquistada e aos temores de um amanhã sem pão e sem teto". Aproveito ainda para apresentar as três virtudes essenciais do escravo: a obediência, a humildade e a fidelidade.
Também me atrevo a duas indicações sobre o tema da escravidão. Joaquim Nabuco e Florestan Fernandes. De Joaquim Nabuco, o seu projeto de acabar com a obra da escravidão, com a integração efetiva no ex escravo na sociedade e de Florestan, sobre as dificuldades do ex escravo se integrar a uma sociedade competitiva. Mas o livro da Kátia nos faz testemunhar a realidade do quanto os livros realmente nos formam e moldam a nossa consciência e o nosso olhar. Um livro de primeira grandeza.

5 comentários:

  1. Obrigado pelo post, muito bom.Deu vontade mesmo de ler o livro. É fácil de encontrá-lo?

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  2. Primeiramente agradeço o seu generoso comentário. Em segundo lugar quero dizer que fazer ler é o grande objetivo do blog. Fico muito feliz quando consigo esse resultado. Em terceiro lugar, dei uma busca nas grandes livrarias, na Travessa e na Cultura, que informam que a edição está esgotada. Talvez ele possa ser encontrado em livrarias menores, ou então na Estante Virtual. A Editora é a Brasiliense e a edição que eu tenho é de 2003.

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  3. Obrigada por mais esta contribição. Voce tem me oferecido um contéudo mais que valoroso.

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  4. O artigo que estou escrevendo é sobre a trajetória do negro no Brasil e a ausencia desses povos na formação da cultura brasileira. Muito obrigada, viu?

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  5. Que bom Valquíria que o meu blog está servindo para referências bibliográficas para você. Agradeço o seu comentário.

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