sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Tributo a Harmonia II. A terra em que eu nasci.


Em post anterior eu dava alguns dados históricos sobre a cidade de Harmonia. Hoje eu dou algumas de suas características. Falamos da colonização alemã da cidade. Hoje eu dou o meu testemunho pessoal. Eu fui aprender a falar português na escola, pois, em casa só falávamos o alemão. A minha mãe nunca aprendeu a falar o português. A língua alemã estava presente em tudo. Nas lojas, nas conversas com os vizinhos e, especialmente, nos sermões do cônego Mallmann, nas missas de domingo. Assim ganhei um precioso presente, embora fosse um alemão dialeto, que também merece uma pesquisa. Aqui este dialeto se preserva. Lembro também que assinávamos um jornal de Porto Alegre, A Nação, com suplemento em alemão, que publicava romances, por capítulos e uma revista religiosa, a Sankt Paulusblatt, que trazia o obituário das pessoas que faleciam na região. Acho que não erro ao dizer que me alfabetizei, antes de ir para a escola, lendo para minha mãe, os romances seriados sobre o Luis Buger e Die Mucker kommen.
A revista que nunca faltou em nossa casa e que em muito contribuiu com a minha alfabetização.

Também dou alguns dados institucionais de Harmonia. Como vimos, a colonização começou em 1863, com a venda de colônias de terras. A localidade foi elevada à condição de distrito em 1992, ficando sob a jurisdição do município de São João do Montenegro, que era um município enorme. Me lembro perfeitamente dos meus primeiros passos escolares, com o professor Rambo, na escola paroquial e com a professora Marina Gegler, no Grupo Escolar, que a gente sempre usava no cabeçalho dos trabalhos a inscrição: Harmonia - Terceiro Distrito de Montenegro. Naquele tempo ainda não usávamos papel e caneta. Usávamos uma pequena ardósia e um Griefel, com o qual escrevíamos, mas cujo nome em português eu desconheço e também não me atrevo a descrevê-lo.
A presença alemã ainda continua muito forte em Harmonia. Vejam a Rathaus.

Harmonia foi elevada a condição de município em 13.04.1988, com o desmembramento de terras, antes pertencentes aos municípios de Montenegro e Bom Princípio. A história da origem do nome da cidade é muito bonita. Conta-se que o povo, nas suas horas de lazer, se reunia para cantar e fazer músicas e deste espírito de convívio fraternal surgiu o nome, representando a grande identidade destas pessoas: Harmonia. Quem nasce em Harmonia recebe a designação de harmoniense, mas eu sempre prefiro dizer que quem nasce em Harmonia é uma pessoa harmoniosa.
A igreja matriz de Harmonia, a obra mais imponente e o grande centro de formação e da construção do  imaginário de todos os harmonienses.

Também já falei da estrutura fundiária de Harmonia, condição que lhe conferiu o título de cidade brasileira com o menor número de pessoas pobres. Em compensação Harmonia também não ostenta ninguém na lista Forbes. Simplesmente não existem também pessoas muito ricas. A renda é muito bem distribuída e os indicadores sociais são elevadíssimos. Não há mortalidade infantil, a taxa de analfabetos é de 2,09% da população e a expectativa de vida é de 76,03 anos. O PIB per capita chega a R$ 20.897,00 pelo censo de 2010. O mesmo censo lhe confere 4.254 habitantes e está distante de Porto Alegre, 65 quilômetros. As cidades maiores mais próximas são as de São Sebastião do Caí e Montenegro.
Altar central da igreja matriz e o seu padroeiro, São João Nepomuceno.

A religiosidade domina por completo o imaginário do povo. O cônego Mallmann, que por cinquenta anos foi o vigário do local, era um padre sério e rigoroso. Tinha todo o povo sob o seu comando. Um poder imensurável. Ein Bild von einem Priester, ainda ouvi recentemente, numa referência a ele. Ele foi o responsável pela construção de uma nova igreja matriz para Harmonia, uma igreja de enormes proporções. Me lembro dos meus irmãos carregando pedras para a sua construção, de uma pedreira que tinha nas proximidades de nossa casa. O padroeiro da cidade é São João Nepomuceno, um santo tcheco, mártir por guardar os segredos da confissão. O rei queria saber dos pecados da rainha. O santo tem uma estátua do século XIV, na famosa ponte São Carlos, sobre o rio Moldava, uma das grandes atrações turísticas da bela cidade de Praga. O seu dia, no mês de maio, dava os festejos de Kerb, festas de grande tradição nas colônias alemãs, com bailes fabulosos no salão Fink. Muitos amores, ali devem ter começado.
O belo vitral da sagrada família na igreja de Harmonia. Ele foi uma doação da família de José Reichert, o meu avô materno.

Este espírito de religiosidade me levou ao seminário. As famílias tinham que ter um filho padre, pregava o cônego Mallmann, em seus sermões. A minha ida ao seminário foi o fato mais decisivo em minha vida. Foi por este caminho que enveredei pelos estudos. Lembro perfeitamente. Eu era ainda muito pequeno, quando houve a sagração episcopal de D. Cláudio Colling, filho ilustre de Harmonia, ele teve uma festa extraordinária. Desde aquele dia eu sempre quis ser bispo, para ter uma festa igual.
Tributo a meus pais, em descanso no cemitério de Harmonia.

Mas Harmonia também tem cachaça. E da boa e, premiada. O Leando, filho do Ivo Hilgert, um colega meu de estudos, tem o alambique onde é produzido o Harmonie Schnaps, que recentemente ganhou o prêmio de medalha de ouro para a sua cachaça envelhecida e a grande medalha de ouro para a sua cachaça prata. No lugar onde hoje está este alambique, já existia um, de propriedade de Albino Gaspar Ledur, onde eu ia com o meu pai comprar cachaça, que desde aqueles tempos tinha fama de ser boa. Meu pai tinha o hábito de tomar ein schluck, antes do almoço para abrir o apetite, nos dizia ele.
Esta é uma amostra da internacionalmente premiada Harmonie Schnaps.

Harmonia integra a Rota Sabores e Saberes, dos caminhos turísticos pelo vale do Caí, contribuindo com duas de suas atrações. O alambique do Harmonie Schnaps e o horto das margaridas, com a produção de fitoterápicos. Ainda vou fazer um terceiro post, apenas para mostrar uma preciosidade histórica da minha muito querida cidade de Harmonia. Sim, mais um lembrete. Em Harmonia também adquiri uma das belas virtudes que eu continuo cultivando, a de ser gremista.

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