segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A Nova razão do mundo. Ensaio sobre a sociedade neoliberal.

Nos anos 1990 estudei muito o neoliberalismo. Eu era dirigente sindical (APP-Sindicato) e o Estado nos oprimia. Sistematicamente avançava sobre nossos direitos. Era Jaime Lerner, em nível estadual, e Fernando Henrique Cardoso, em nível nacional. Fui estudar. Ingressei no curso de mestrado da PUC/SP, no famoso programa de História e Filosofia da Educação. Estudamos os princípios gerais do neoliberalismo e a sua aplicação para as políticas educacionais via Banco Mundial. Ainda guardo vasta bibliografia.

Tempos de crise são tempos de estudo. No sindicato promovíamos debates, trazíamos os grandes intelectuais brasileiros para debates e, por textos e vídeos das falas, levamos as discussões para o interior das escolas, ou para as bases, como se fala na linguagem sindical. Continuava os estudos, sempre atualizando a agenda, chegando à grande referência no ramo, o livro de Naomi Klein, A Doutrina do choque, a ascensão do capitalismo de choque. Com a eleição do PT, acreditava que, ao menos por um bom tempo, não precisávamos mais ter grandes preocupações.

Os tempos mudaram radicalmente. Com a reeleição de Dilma, as impaciências neoliberais espreitavam o melhor momento para agir. Seres humanos, como hoje sabemos, lutaram para que o governo trocasse de mãos, num grande acordão, envolvendo inclusive o STF. Era 31de agosto de 2016. O golpe tomou forma e continua sendo construído diariamente. O inimaginável está acontecendo em um país tragicamente emudecido.
O extraordinário e impactante livro sobre A nova Razão do Mundo.

Retomei as leituras sobre o tema. Queria entender as razões mais profundas do golpe e os seus envolvimentos maiores. Li muito. Livros de autor e livros coletivos. Inclusive passei a escrever, me situando entre os resistentes, nos três volumes das Crônicas da Resistência. Os livros que mais me impressionaram foram os de Jessé Souza, de Márcia Tiburi e o último, agora, o livro de Rubens Casara, Estado Pós-Democrático - Neo-Obscurantismo e gestão dos indesejáveis. Este livro me levou ao mais impactante de todos. A nova razão do mundo - Ensaio sobre a sociedade neoliberal. Os autores são os franceses, Pierre Dardot e Christian Laval.  A nova razão do mundo é a criação de uma subjetividade neoliberal. É o fim dos tempos. É o apocalipse.

Passei a entender muita coisa, especialmente os absurdos e a desfaçatez da pregação neoliberal. Passei a entender os motivos de eu não ter mais a mínima vontade de ver televisão, especialmente os noticiários e os comentaristas. Nunca abandonei o rádio, mas a migração se tornou cada dia maior, entre a CBN e a Band News. Atualmente prefiro o silêncio. Não mais vejo comentários e debates, o a favor e o contra. É tudo propaganda. É repetição de cantilena neoliberal para plantar verdades. É a tão batida tecla de Goebbels, a da repetição. A competição, a concorrência levam à eficiência, à perfeição. É a razão instrumental levada à potenciação máxima. É a selvageria spenceriana em estado absoluto. É Hobbes, o diagnóstico e a solução. É a guerra de todos contra todos sob a vigilância de Leviatã.

É o homem empresa movido pela instabilidade em busca do sucesso financeiro, como produtor e consumidor, como dimensão única do sujeito, na nova subjetividade. Quanta pobreza. O ser humano vive em puro estado de adaptação e o concorrencial, o competitivo são as únicas regras para a sua motivação e desejos. É o empobrecer humano levado às últimas instâncias. É o ser humano recluso em seu individualismo e que vê o outro, meramente, como alguém a ser vencido, com a ajuda de Deus, se possível, contando com a ajuda do demônio em forma de pregador. A sociedade é a soma de indivíduos. A esta frase de Tatcher agora acrescentam, indivíduos empresa, competitivos e em permanente estado concorrencial.

Pela densidade do livro fica praticamente impossível fazer uma resenha. Apenas vou destacar três capítulos, os que mais me tocaram. O capítulo 4, da primeira parte, sobre o homem empresarial e o 8 e 9 da segunda parte, respectivamente O governo empresarial e A fábrica do sujeito neoliberal, ou seja, como se forma a subjetividade neoliberal. Deste eu dou um passeio pelos subtítulos: O sujeito plural e a separação das esferas; a modelagem da sociedade pela empresa; a "cultura da empresa" e a nova subjetividade; a empresa de si mesmo como ethos  da autovalorização; as "asceses do desempenho" e suas técnicas; a "gestão da alma" e a gestão da empresa; risco: uma dimensão da existência e um estilo de vida imposto; accountability; o novo dispositivo "desempenho/gozo"; da eficácia do desempenho; diagnósticos clínicos do neossujeito; sofrimento no trabalho e autonomia contrariada; corrosão de personalidade; desmoralização; depressão generalizada; perversão comum; o gozo de si do neossujeito e o governo do sujeito neoliberal.
O livro de Rubens Casara que me levou para A Nova razão do Mundo.

Na conclusão, sob o título de O esgotamento da democracia liberal, que é o Estado Pós-Democrático, os autores buscam saídas, ou seja, a construção de uma nova racionalidade, de uma nova subjetividade. Vou procurar formar um grupo de estudos para trabalhar este livro, em toda a profundidade que ele merece.

Voltando ao livro, ele se divide em duas partes: Parte I. A Refundação Intelectual. Possui cinco capítulos, ligados aos movimentos históricos das articulações e rearticulações dos neoliberais. Vejamos os títulos: 1. Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo; 2. O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvenção do neoliberalismo; 3. O ordoliberalismo entre "política econômica" e "política de sociedade"; 4. O homem empresarial e 5. Estado forte, guardião do direito privado. A parte II se destina para A Nova Racionalidade, ou seja, um estudo da nova subjetividade do ser humano sob as doutrinas neoliberais. É chocante. São mais quatro capítulos: 6. A grande virada; 7. As origens ordoliberais da construção da Europa; 8. O governo empresarial e 9. A fábrica do sujeito neoliberal.

Posso assegurar que foi o livro mais impactante que eu li neste últimos tempos. Ele me trouxe um desassossego profundo e uma vontade ainda mais firme de me empenhar em todas as lutas pela construção de um mundo humano e não uma fábrica de loucuras e de loucos. E por fim uma frase como aperitivo: "A vida, a saúde e o amor são precários, por que o trabalho não escaparia dessa lei"? É a citação de um neoliberal francês. Procure localizá-la à página 347.

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