domingo, 11 de fevereiro de 2018

Lady Bird. É hora de voar.

Os fatos narrados neste filme acontecem diariamente e em todas as partes do mundo. A complicada relação entre pais e filhos. Na psicanálise, é mais com o pai. No caso do  filme, é com a mãe. Os conflitos não são tão graves assim para merecerem o filme. No entanto, o filme está aí e chamou a atenção da academia, contando com cinco indicações. É o queridinho da vez da crítica dos Estados Unidos. Li alguns comentários, de sites nossos, sendo a maioria absolutamente desabonadores. Também não é assim.
Lady Bird. É hora de voar. Cartaz promocional. Cinco indicações ao Oscar.

O filme se passa na cidade de Sacramento. Vamos localizar Sacramento. A cidade é a capital do estado da Califórnia e, como capital, tem o seu Capitólio. É uma cidade em torno de 500.000 habitantes e não é tão provinciana como o filme, ao menos para mim, sugeriu ser. Sacramento é apresentada como uma cidade muito religiosa. Da religião, inclusive, recebeu o seu nome. Nesta cidade, em 2002, encontraremos a menina Christine Mc-Pherson (Saoirse Ronan), de 17 anos, que quer voar. Não para Los Angeles ou São Francisco, mas para a costa leste.

Christine, a auto intitulada Lady Bird, estuda no último ano de um colégio católico. Tudo indica que a família, quanto o colégio, são de origem irlandesa, o que não deixa de ser um detalhe importante. Ninguém é tão, ou mais católico, quanto os irlandeses. Christine é uma menina normal com todas as características da adolescência. Vive todos os ritos de passagem. Marion, sua mãe (Laurie Metcalf), é apresentada como uma megera, mas não a considerei tão terrível assim. Lembrando que Megera é uma personagem da mitologia grega, uma das erínias, ligada ao rancor. 

Marion se preocupa mais com as questões financeiras da família, deixando de lado as questões mais afetivas com relação a filha. Assim Christine estabelece relações mais afetivas com o pai, um bonachão desempregado. O problema de Marion é mais relacionado com a comunicação e com o encontro de dois gênios fortes. Uma cena inicial, que me conquistou, foi a referência a John Steinbeck, ao seu fabuloso As vinhas da Ira. Lady Bird queria fazer o caminho inverso dos retirantes que marchavam para os sonhos da West Coast primitiva. Os sonhos da menina estavam à leste.

Lady Bird enfrenta os problemas típicos da adolescência, de uma menina que está concluindo, o que nós chamamos de ensino médio. A ida para a universidade, as primeiras relações com a sexualidade e a afetividade e o mundo do trabalho. Ela quer independência e autonomia, que ela imagina, estarem longe de sua cidade e de sua mãe. As questões financeiras são o grande entrave. As soluções viriam com o endividamento dos financiamentos.

Lady Bird é determinada, disposta a voar, como sugere o sub título - É hora de voar. A mãe a trava e o pai lhe serve como uma espécie de catapulta psicológica. Ela vai para o leste e enfrenta novos problemas e novas situações. Sozinha, liga para casa. Grava uma mensagem. Uma bela mensagem. Uma tentativa de restabelecer com a mãe, a via da comunicação. O tema do grande despertar para a vida é trabalhado com rara sensibilidade, sem caretices e lições de moral. Lições de moral, creio, seriam o pior caminho a ser tomado.

Gosto dos filmes de autor, de autora no caso. Greta Gerwig é simultaneamente responsável pelo roteiro e pela direção do filme. Ela concebeu e executou. E..., teve já o seu reconhecimento. Ela concorre a duas estatuetas: a de melhor direção e a de melhor roteiro original. Diria, fazendo uma correção, a três, já que o filme é, essencialmente seu. Ele está indicado para a estatueta maior, de melhor filme. Além destas três indicações, mais outras duas. E indicações substantivas, significativas. O time feminino trabalha de forma espetacular e Saoirse, no papel de Christine, concorre à indicação de melhor atriz e Laurie Metclaf, a mãe Marion, à de melhor atriz coadjuvante.Vale muito assistir os cerca de 90 minutos do filme.

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