terça-feira, 25 de agosto de 2015

O Alienista. Machado de Assis.

O alienista, de machado de Assis não é apenas um conto. É o primeiro conto do realismo brasileiro. E, para dizer a verdade, que conto! Quanta erudição. Se eu ainda estivesse em sala, eu complementaria uma aula sobre o iluminismo, sobre a evolução da racionalidade e do cientificismo, com este conto. Ele vai fundo na descrição psicológica dos indivíduos e usa da ambiguidade, tão peculiar em toda a obra machadiana. Sabemos, pelo Aurélio que o alienista é um médico especialista que se ocupa de doenças mentais. O livro foi publicado em 1882, grudado, portanto, em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
O Alienista. O primeiro conto do realismo brasileiro. Afinal de contas, quem é  louco?

No conto, o médico é o Dr. Simão Bacamarte, cientista renomado e requisitado pelo rei português para ser reitor em Coimbra, universidade pela qual se formara, ou ser o médico da corte em Lisboa. A sua missão, no entanto, o retém em Itaguaí, o seu universo, para se dedicar em tempo integral aos estudos da ciência. Tinha como missão ajudar a população com os avanços da ciência. O campo escolhido é o da mente humana.

O Dr. Bacamarte, aparentemente, leva uma vida normal, casa-se com dona Evarista, uma jovem viúva, sem muitos predicados de beleza, que mesmo depois do casamento, continua se sentindo viúva, pois o Dr. só tinha olhos para a ciência. O Doutor também vivia em perfeita consonância com o boticário, Crispim Soares, que jamais o contradizia, certamente, por uma questão de interesses. Padre Lopes era um padre muito ponderado. A cidade era administrada por um Conselho Municipal, formado por nobres conselheiros, fiéis a sua majestade, o rei.
Bela capa representando o Doutor Simão Bacamarte.

Os problemas começam quando o Dr. Bacamarte idealiza o seu plano de fundar na cidade uma casa que se ocupasse com o internamento e o tratamento de pessoas com perturbações mentais, digamos assim, para usar um termo brando.  O Dr. Bacamarte simplesmente interna todas as pessoas que ostentam contradições em suas vidas. A Casa Verde, ou a Casa de Orates, logo se tornou pequena para as suas funções e foi ampliada. A princípio ela cobrava os internamentos mas também recebia verbas públicas. Ares de insatisfação começaram a tomar conta da cidade, à medida que cresciam as internações, cada dia mais frequentes.

Porfírio era um dos barbeiros da cidade. Atento, ele percebeu que as insatisfações poderiam satisfazer suas ambições, se as transformasse em revolta. Tornou-se o líder. Quando ele já se sentia quase derrotado aconteceu o inusitado. A força pública, que fora destacada para abafar o movimento rebelde, aderiu à rebelião e, assim, o barbeiro Porfírio foi empossado como o  novo presidente do Conselho. A rebelião recebeu o nome de revolta dos canjicas e a Casa Verde foi considerada como a "bastilha da razão humana". Crispim Soares, depois de breve doença, trai o Dr. Bacamarte e adere ao movimento revolucionário, fato que lhe custará uma futura internação.
O alienista também pode ser encontrado nessa coleção de contos.

O novo comandante de Itaguaí vai à casa do Dr. Bacamarte, mas não o prende. Pretende com ele estabelecer um pacto de governabilidade, que passa a ser aceito. O Dr. ficou pasmo ao saber do saldo da rebelião: 11 mortos e 25 feridos. Entre os presos, o grande destaque será a esposa do Doutor, que após uma viagem à cidade do Rio de Janeiro, voltou com "mania suntuária". Também foram presos um vereador e o boticário. Um novo motim ocorrerá na cidade. O outro barbeiro, João Pina, derruba Porfírio e a ordem é restabelecida. Todos os presos são soltos e os internamentos passam a ser regulamentados. Foi quando o doutor Bacamarte inverte as suas teorias e passa a internar as pessoas mais coerentes. Seguem histórias de muita ironia.

Ao final o Doutor chega a conclusões ambíguas. Não havia loucos em Itaguaí e, ainda, que não havia um único cérebro que fora consertado. Um abalo moral toma conta do ilustre cientista, que se interna, mais uma vez, em nome da ciência. "A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática". Procurou a cura de si mesmo mas, de acordo com os cronistas "ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegaram ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco, além dele em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade".
Machado explora a tênue fronteira entre a loucura e a normalidade


Afinal de contas, que é o louco em Itaguaí? Esta é a grande pergunta que deve acompanhar a leitura de O Alienista. Vejamos uma observação de Maria Tereza Faria na apresentação do Livro: "A relativização, marca dos textos de Machado, é o tema central do conto O Alienista, quase uma novela graças à sucessão de eventos que o compõe. Todo ele é uma interrogação sobre a fronteira entre a normalidade e a loucura, o que implica uma crítica ao cientificismo do final do século XIX. O enredo, além de discutir esse tênue limite, coloca em pauta a questão do poder. A "Casa Verde", hospício criado pelo eminente doutor Simão Bacamarte em Itaguaí, para onde afluem todos os demais personagens - Dona Evarista, o padre Lopes, o boticário Crispim Soares, o barbeiro Porfírio -, nada mais é do que a personificação do pessimismo, de sua filosofia que traduz um profundo senso do relativo". O narrador buscou as fontes para a sua narrativa nas crônicas existentes sobre a cidade.

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