segunda-feira, 16 de julho de 2018

A Saga da raça negra. Os Tambores de São Luís. Josué Montello.

Uma bem planejada viagem me levou à cidade de São Luís do Maranhão. Faria a chamada "Rota das Emoções", que liga a cidade de São Luís do Maranhão a Fortaleza, no Ceará, pelas belezas de seus litorais. Três verdadeiras maravilhas maiores estão no caminho, fora as atrações menores: os Lençóis Maranhenses, o Delta do rio Parnaíba e o povoado/praia de Jericoacara. Um passeio maravilhoso. Viajei eu, junto com todas as minhas curiosidades.
O romance da escravidão brasileira. Uma saga de sofrimentos.


São Luís me surpreendeu. Cheguei pelo meio da tarde, numa viagem com saída de Curitiba, que me fez passar por Belo Horizonte e Belém para, finalmente, chegar em São Luís. Me hospedei em pleno centro da cidade, ao lado da catedral da Sé, no Grand São Luís Hotel, situado sobre a história da cidade e com vistas para os jardins do Palácio dos Leões. Uma chuva impediu a continuidade de minha primeira incursão pela cidade. De noite, a precaução me fez ficar no hotel.

No dia seguinte eu teria pela frente um city tour.  Fátima, a guia, me recebeu e começamos a andar pela cidade. Rua Grande, o Largo do Carmo, o Liceu Maranhense, O Teatro Arthur Azevedo, a fonte do Imperador, A Sé, O Tribunal de Justiça, O Palácio dos Leões, e pela parte antiga da cidade (Praia Grande), onde se situa o comércio do artesanato e as casas de criatividade das tradições maranhenses. São Luís tem mais de 3.500 casarões que são Patrimônio Cultural da Humanidade (1997). Fátima me falava dos casarões e de suas histórias. Me falava dos horrores da escravidão e de uma senhora, tão famosa quanto perversa. Dona Ana Jansen, ou Donana, como constatei depois, com a leitura dos tambores.  Perguntei sobre literatura e ela me falou de Josué Montello.

Depois de um almoço no restaurante do SENAC, refiz muitos dos locais e me enveredei por um sebo, de péssimo atendimento. Comprei algo referente a São Luís e ao Bumba-Boi, mas nada que me satisfizesse. Deixaria para a volta, confiando na Estante Virtual. Foi aí que localizei Os Tambores de São Luís, do escritor maranhense, Josué Montello. Já sabia que São Luís tinha a nobre marca de ser a Atenas brasileira, isto é, uma cidade de forte presença cultural. Eu conhecia pouco. Chegava em Aluísio de Azevedo e o seu O Mulato, romance ocorrido em terras maranhenses.

Quando Os Tambores de São Luís me chegou, me impressionei. 619 páginas, sem ilustrações, sem separação por capítulos e, letra miudinha. Iniciei a leitura imediatamente. Foi uma volta às ruas de São Luís. O romance é pretensioso. Os seus personagens são fantásticos. Josué Montello demonstra muito conhecimento sobre o ser humano na construção de seus personagens. Damião é o grande nome, secundado por Genoveva Pia, a doceira protetora dos negros, Dona Santinha, sua sucessora e Altino Celestino dos Anjos, que mesmo negro e escravo, chegou a ser barão, coisas da Balaiada. O barão era extremamente bem humorado e conciliador. Era o companheiro de seu senhor.  Do outro lado estão os personagens do mal, especialmente duas Anas. Donana Jansen e Ana Rosa, pior ainda do que Donana, personagens reais da história maranhense.

Como é difícil fazer uma resenha de um livro tão denso, recorro ao próprio livro para dar valiosas dicas para a sua leitura. A primeira é da história da concepção e escrita do livro. Antes lembrando que Josué Montello é maranhense, nascido em 1917 e que morreu no Rio de Janeiro, em 2006. Não foi apenas membro da Academia Brasileira de Letras, tendo sido também seu presidente. Mas deixemos o próprio Josué contar a história do livro:

"Quando pensei em voltar ao romance, retornando aos horizontes visuais de minha terra natal, depois de ter escrito o Cais da Sagração, que anda agora a correr o mundo, o que primeiro me aflorou à consciência, inspirando-lhe a germinação misteriosa, foi o ruído dos tambores da Casa das Minas, que ouvi em São Luís, na minha infância e juventude.
A presença dos tambores numa igreja de Santo Antônio, em Alcântara.


Depois, nas minhas caminhadas matinais em companhia de Jorge Amado, no calçadão da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, por volta de maio ou junho de 1972, narrei-lhe o esboço do romance, que era o relato de uma dinastia de negros, todos com o nome de Damião, no curso de três séculos de história maranhense". No dia 24, ainda segundo o próprio Josué o romance estava concluído. Guardem bem este detalhe: o relato de uma dinastia de negros. Deixo ainda, na íntegra a orelha do livro:

"Os tambores de São Luís, considerado pela crítica nacional e internacional como um dos grandes romances da literatura e da língua portuguesa, é a grande saga do negro brasileiro, nas suas lutas, nos seus dramas e na sua tragédia.

Antes do romance de Josué Montello, tínhamos o romance da Abolição, ou seja: o romance episódico da campanha pela libertação da raça negra (Seria uma referência a Úrsula, de Maria Firmina dos Reis?). Faltava o romance que, em tom épico, apresentasse toda a saga do negro, desde a sua origem africana, no bojo dos navios negreiros, até à sua assimilação racial, como componente do tipo brasileiro e como elemento básico de sua cultura.

Josué Montello, criado a ouvir o bater dos tambores da Casa das Minas, em São Luís do Maranhão, construiu este romance do negro brasileiro com habilíssimo recurso técnico. Toda a narrativa de Os Tambores de São Luís decorre durante uma noite e algumas horas da manhã seguinte (Seria uma referência ao Ulisses de Joyce?). Mas, dentro desse espaço de tempo, que constitui seu arco narrativo básico, outro arco se abre, para conter, ao longo da epopeia romanesca, três séculos de lutas e insurreições negras.

Saudado pela crítica como um marco no conjunto romanesco de seu autor, também o é na própria literatura brasileira, quer pelo seu tom narrativo, quer pela intensidade dos dramas que aqui se debatem, aliciando o leitor à sua leitura contínua.

Mais de quatrocentos personagens compõem a galeria humana de Os Tambores de São Luís. Superior a O cortiço, de Aluísio de Azevedo, como elenco de personagens, filia-se este romance à linha narrativa de Guerra e paz, de Tolstoi, com seu vigor épico". A seguir informa que o livro foi traduzido para o francês e para o alemão, e conclui: " Os Tambores de São Luís corresponde também ao resgate de uma velha dívida - a dívida contraída para com a raça negra, em nosso país, e que merecia, de nossa literatura, o seu canto em prosa, a sua verdade e a sua denúncia".

Convento do Carmo, sempre presente no romance.


Quero destacar ainda a força das reflexões feitas por Damião, o grande personagem, a respeito do sofrimento dos negros, bem como uma reflexão sua a respeito de sua formação dentro da luta, quase sempre em tom de desespero, sempre complementada pela leitura. Vejam a beleza desta frase: "Vira nascer agora o seu primeiro trineto, e era ainda um homem de cabeça lúcida, passo firme e memória feliz. Vivia rodeado de lembranças, na velha casa onde duas vezes se casara; e ali aprimorara a inclinação para encontrar nos livros a complementação da vida, com o gosto da leitura".

De uma informação recebida de São Luís, a partir do blog, já encomendei Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. Úrsula é considerado o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira. E que diferença com o conciliador Casa Grande & Senzala do Gilberto Freyre. Chamaria ainda a atenção para duas reflexões; A comparação entre os sofrimentos de Jesus Cristo e os da raça negra e uma inversão na criação do mundo, cuja origem seria diabólica e com pitadas de bondade, acrescentadas por Deus. Isto, em virtude de toda a maldade existente no mundo. Destaque ainda para, já na parte final, descrever a saga de sofrimentos do dia seguinte ao da abolição.

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