domingo, 4 de outubro de 2020

Dois "Pai Nossos" do fim do século XIV. Paródias sarcásticas. Georges Minois.

 Todo o poder que extrapola os seus limites vira chacota, mesmo quando se trata das coisas tidas como as mais sagradas. É o que podemos verificar com o cristianismo medieval. No século XIV, o cristianismo já estava consolidado em toda a Europa ocidental e em virtude de seus absurdos abusos começou a ser contestado. Como as formas mais explícitas de contestação não eram permitidas, os fatos começam a ocorrer pelas beiradas. Pela ironia, pela sátira e pelas paródias. É o que encontramos na narrativa do fantástico livro História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois.

Como exemplo trago a paródia de dois "Pai nossos". Eles são assim apresentados: "Deus não é poupado pelo riso, nesse fim de Idade Média. A tradição das missas, preces e sermões parodísticos certamente não é nova; mas, nesse caso, também o tom muda. Diante da aparente inércia divina perante as catástrofes, o riso torna-se acusador. Sobretudo, não levanta o dedinho para socorrer-nos. Vós que tudo podeis e que nos amais tanto! Olhai-nos sofrer! Esse é o sentido das preces parodísticas que vêm à luz no século XV. Desta vez, a blasfêmia não está longe, como o testemunham dois Pater Noster do fim do século XIV que, com nuance trocista, felicitam Deus por ficar tranquilamente no céu, enquanto males de toda espécie se abatem sobre a terra e o clérigo furta suas ovelhas. Ninguém sabe o que os homens fizeram para semelhante sorte, mas o Senhor tem toda a razão em ficar longe dela. Essa é a lição do Pater Noster em quartetos:

História do Riso e do Escárnio. Georges Minois. UNESP. 2003. Tradução: Maria Helena O. Ortiz Assumpção.

Pater Noster que és bem sábio,                                                                                                                   

tu és digno de todos os louvores,

porque lá em cima fizeste tua morada 

e bem no alto te escondeste - In celis.

Em nosso presente o mal abunda,

Cada um é cheio de orgulho e de ira.

Não há, neste mundo, alguém

de quem se possa dizer - Sanctificetur.

Porque, nos tempos que ora ocorrem,

Aquele que menos sabe

é o que mais pode vangloriar-se na corte

e blasfemar contra ti e desprezar - Nomen tuum.

... Por isso se queres aceitar meu conselho,

Em cima, bem alto, deves ficar,

no paraíso, em nobre glória,

e nunca aqui embaixo descerás - Et in terra.

Eu me admiro e me maravilho

Porque estamos em tal perigo

por aqueles que usam veste vermelha

e só fazem tomar e comer - Panem Nostrum.

Não há uma única vez,

porque não há dia de semana,

em que eles não nos pilhem de tal forma

que mal podemos sobreviver - Cotidianum.

Ora não sei o que fizemos

Nem se pensas que isso vai durar, 

Porque não acredito que exista

Ninguém no mundo que a tanto resista - Sicut et nos.

(Manuscrito da Biblioteca da Universidade de Genebra).

Essa ironia se encontra também no Paternostre de Lombardia, que data da mesma época. 'Lombard' é, então, mais ou menos sinônimo de 'rapace', 'opressor'. A agressividade é patente. 'Não és louco, Pai Nosso, Te escondeste lá em cima, enquanto os diabos nos tomam panem nostrum:

Pater noster tu não és louco,

porque te colocas em grande repouso,

que subsiste alto in celis:

porque, agora, neste país,

não há ninguém que seja sanctificetur

nem que pense no tempo futuro

nem que invoque nomen tuum.

... Só pensas no mal noite e dia

Ora, cuida-te bem in celo

sem te deixar, eu te louvo;

porque os diabos sabidos reinam

e tudo revolvem e tudo tomam

e é inferno et in terra

E são espertos ingleses

que roubam panem nostrum

e nos dão muita pancada.

E aqueles que nos deveriam guardar

Só fazem atormentar-nos

Com sua gula quotidianum,

tiram o nosso sem razão

e nem dizem: da nobis.

... Fazes muito bem ficando aí

porque aqueles que mantêm a guerra

não o fazem por nenhuma terra,

mas só para ter a nostra

Ora, não acredites nisso,

porque se cá em baixo estivesses

e não soubesses te defender,

eles te fariam sicut et nos.

(Biblioteca Santa Genoveva). 

Texto extraído de MINOIS, Georges. História do Riso e do Escárnio. São Paulo: UNESP. 2003. Páginas 253-255.

E hoje em dia, que paródias seriam feitas diante de tantos abusos religiosos existentes. Nunca houve tantos lobos vestidos em pele de cordeiro como nos dias de hoje. O que dizer das chamadas teologias da prosperidade (tanto entre católicos, quanto entre os evangélicos), que pregam virtual e fisicamente 24 horas por dia para recolher o panem nostrum, obtido com o suor de nossos rostos.



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