quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Quando UTI. vira caso de Polícia. - Uma Fuga Espetacular.

Quando soube da notícia de que uma médica do Hospital Evangélico estava envolvida em caso de morte na UTI. daquele hospital, imediatamente imaginei que se tratava de uma eutanásia caridosa que teria sido consumada. Fiquei simplesmente perplexo, quando vi que não se tratava, em absoluto, desta questão. Não tenho nenhum comentário a fazer a respeito. Lamentavelmente trata-se de um caso para a polícia resolver. Pelo volume das notícias e pelos envolvimentos múltiplos de acusação e defesa, dá para perceber que a questão não é pequena.

O que dá para imaginar é o que seja uma UTI. e o que se passa em seu interior. Seria uma ante-sala da morte? Em que situação já estão as pessoas que ali ingressam? Como é o cotidiano das pessoas que nela trabalham? Será que os seus condicionamentos psicológicos não são profundamente afetados pelo ambiente em que trabalham? Será que este tipo de trabalho também vira rotineiro e burocrático? É muito difícil fazer qualquer tipo de julgamento.
Darcy Ribeiro e as Confissões. Na parte final fala de suas doenças e sobre UTI. Chegou a fugir dela.

Quero trazer, isso sim, as palavras de Darcy Ribeiro, sobre uma fuga espetacular que ele fez de uma UTI e que, segundo a sua versão, ainda lhe manteve a vida por vários anos.É sabido que Darcy teve lances dramáticos em suas lutas contra o câncer. Primeiramente foi um pulmão que estava afetado e que este, depois de retirado, lhe permitiu ainda um longo tempo de vida e, diga-se de passagem, uma vida extremamente ativa. Posteriormente ele foi acometido de um câncer de próstata, numa situação mais grave, já em fase de metástase.

Do câncer no pulmão não se sabe exatamente o que o fez sofrer mais. Se foram os sentimentos trazidos pelo diagnóstico (dezembro de 1974) positivo, feito em Paris, ou a sua relação com a ditadura militar, que impedia que a cirurgia fosse feita no Brasil, como era de sua vontade. Darcy só foi autorizado a fazer a cirurgia no Brasil, depois que um hospital americano se prontificara a fazê-la. A cirurgia foi bem sucedida. Foi difícil metabolizar a reação da ditadura com relação a sua presença no Brasil que, mesmo nestas circunstâncias, mantinha sobre ele permanente vigilância. Vejam Darcy falando a respeito:

"O mais perturbador desse período foi a nota oficial do governo, comunicando o meu ingresso no país em razão de uma enfermidade grave, para ser submetido a uma cirurgia. O segredo do meu câncer, tão guardado até de mim, saía em letra de forma em toda a imprensa brasileira e foi repetido no estrangeiro, fazendo sofrer muita gente querida". Darcy fala do paradoxo da ditadura, que se arrogava de todo o poder do mundo e, ao mesmo tempo, morria de medo de uma criatura tão fragilizada como ele.

Em 1995, já como senador, recebe o diagnóstico de câncer na próstata. Ele mesmo comenta nas Confissões: "No Rio me entreguei aos médicos e soube logo depois que estava com câncer de próstata. Não dei bola. A próstata é um erro de Deus, que decidiu colocar no mesmo encanamento de esgoto a porra e a urina, coisas que nenhum engenheiro faria. Tinha mesmo que dar galho. Era só extirpar a dita para me livrar do câncer. O único inconveniente era que passaria a ejacular para dentro da bexiga, coisa que esconderia das mulheres" Vejam o humor, mesmo acometido pela doença. Este câncer o levou à UTI. Ele descreve as suas fantasias e alucinações no estado de terror que ali viveu. Culmina com uma descrição terrível, que, creio eu, enseja ponderadas reflexões:

"A ideia que tenho da UTI é do terror que me inspirava como casa da morte. Quem está ali, lá está para morrer. A meu lado, isso não era imaginação, dezenas de moribundos morriam sem parar. Todos enfermíssimos de doenças incuráveis, homens e mulheres, pelados. Deviam ser fétidos, mas isso eu não sentia, porque estava dopado. No quarteirão de uns seis leitos, entre os quais estava eu, mudavam sempre de doentes, quer dizer, os mortos saíam e entravam outros para morrer. Sobre todos nós reinava um grande computador pisca-pisca, escolhendo, matador, quem ia morrer". Terrível!

A fuga foi planejada. Contra a vontade dos médicos, conseguiu um dia de "folga", sob a ameaça de suicídio.Ordenou ao motorista do carro que o levava para casa, já substituído por gente de sua confiança, que em vez de ir ao seu apartamento, o levasse para a sua casa de praia em Maricá. Pelo caminho, como de hábito, mandou parar numa garapeira para tomar garapa com limão e... melhorou. Ele conta: "Tenho certeza de que a fuga da UTI, o canecão de caldo de cana com limão e o que Thereza me deu para comer lá na rede me salvaram a vida. Sem isso seria morte certa".

Assim Darcy adiou a vida até 17 de fevereiro de 1997, quando veio a falecer em Brasília. Aproveitou esse tempo, especialmente, para escrever o livro O Povo Brasileiro, reunindo seus estudos de antropologia e terminar as suas Confissões, donde extraímos as palavras aqui citadas.

2 comentários:

  1. Ana Paula Buratto4 de março de 2013 21:15

    Gostei muito do artigo.
    Vida longa àqueles que podem empreender fugas espetaculares da UTI!
    Deliberadamente, o postei no facebook, pois você merece ser muito lido!
    Aquele abraço, da sua nora e leitora, Ana Paula.

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