segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Navegação de Cabotagem. Jorge Amado.

Termino de ler o belíssimo livro Navegação de Cabotagem - Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, de Jorge Amado. Embora a afirmação do título, o livro soma um sem número de posts, que constituem as memórias do grande homem e do memorável escritor. Digo posts porque se trata de pequenos textos em que o escritor rememora fatos de sua vida, sem nenhuma linearidade. A obra, no entanto, nos dá uma contextualização extraordinária , tanto do Brasil, quanto do mundo, dos anos 30 aos anos 90.
Navegação de Cabotagem - Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, de Jorge Amado. Companhia das Letras. 508 páginas e mais de cem fotografias ou documentos históricos.

Internamente ele mostra o seu entusiasmo com o Partido Comunista, o Partidão, com a sua adesão plena, bem como os sofrimentos causados por essa sua opção. Praticamente toda a intelectualidade brasileira e o mundo literário era militante. Os que não eram comunistas, eram integralistas. No cenário externo havia todo o entusiasmo com os êxitos da União Soviética, especialmente, com os logrados ao longo da Segunda Guerra.

Internamente Jorge Amado destaca a sua atuação como parlamentar constituinte onde, segundo depoimento próprio, enaltece a sua atuação em favor da emenda que institucionalizou a liberdade religiosa. Fala também da decepção com a atividade parlamentar e da frustração com a colocação na ilegalidade, do seu partidão.

Um ponto alto nas narrativas de seu livro são as enormes vantagens que ele obtém com o fato de ser escritor comunista, os inúmeros encontros internacionais dos escritores pela paz, o que lhe concede encontros constantes com a intelectualidade mundial. Sartre e Simone de Beauvoir, Picasso e Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marques eram companhias constantes, além de muitíssimos outros, nesse mesmo nível. Seu êxito maior foi ter conquistado o Prêmio Stálin, o maior prêmio de literatura dentro do mundo Soviético. Este prêmio, inclusive, lhe serviu como uma espécie de imunidade contra os expurgos que o stalinismo promovia contra os seus intelectuais. Este prêmio foi depois rebatizado com o nome de prêmio Lênin. Jorge não aceitou a troca, por uma questão de fidelidade histórica. A história não se muda.

O stalinismo é outro ponto forte do livro. No começo o entusiasmo, depois a decepção. As denúncias contra Stálin ocorridas no XX Congresso do PCUs. e as decepções com o sistema, que se seguem, ocupam outra parte importante do livro. Essa decepção se estende também ao Partidão, aqui no Brasil, com as suas hierarquias, dogmatismos e controles rígidos exercidos sobre os seus membros. Sem perder a fé nos ideais socialistas mas profundamente decepcionado com o socialismo real e o centralismo no PC brasileiro, abandona a militância, ainda em 1956.
Um encontro dos amigos: Niemeyer, Dorival Caymmi e o próprio. Foto de 1952.

Se o fato de ser comunista o aproximou da intelectualidade mundial, isso também lhe causou inúmeros sofrimentos. Não podia morar em Paris, era proibido simplesmente de entrar em Portugal, mesmo como turista e, por muitos anos, morou como exilado em Praga, onde, inclusive, nasce a sua filha Paloma.

Outro ponto de beleza constante ao longo do livro é a sua relação com Zélia Gattai. Jorge e Zélia mal se conhecem e já vão morar juntos, não importando as amarras com o casamento anterior de ambos. Jorge era filho de ricos fazendeiros do cacau e a sua vida de jovem, certamente não foi pautada pela vivência nas virtudes cristãs. Como comunista era materialista, mas sempre teve profunda admiração e veneração pelo candomblé. O admirava como uma religião concebida sem a culpa e sem o pecado. Uma religião "alegre e sem pecado". A riqueza da convivência com Zélia é simplesmente lindíssima.

Outro ponto alto é a sua convivência com os amigos. Carybé e Caymmi eram praticamente seus irmãos. Todos os músicos e os homens do cinema também faziam parte das amizades que constantemente se reuniam na casa do Rio Vermelho. Pregar peças e aprontar sacanagens entre os amigos eram atividades constantes no seleto grupo.
Com algum esforço dá para ler. Jorge Amado comunica a Sérgio Buarque de Holanda que João Gilberto quer casar com a sua filha. O lado casamenteiro do escritor.

Sensacional é o humor que acompanha o escritor. Tocado de profundos sentimentos ele os transfere para os seus personagens, personagens profundamente brasileiros e populares. E é isso que fez a grandeza de sua literatura. Não aborda muito os seus êxitos. Auto-elogios não são o seu forte. O humor e alegria estão onipresentes, tanto em sua vida, quanto em sua obra. Muito de Gilberto Freyre está em seus personagens.

Livro profundamente ilustrativo e agradável, que recomendo de uma maneira especial a todos. Já manifestei a minha simpatia por livros de memórias e de biografias. Mas este merece uma simpatia muito especial. Grande Jorge e grande Zélia. Aprendi muito a admirá-los e a sentir, até aquela santa inveja, que nada mais é do que admiração profunda, com a leitura desse livro.

O livro é acompanhado de um pósfácio, em que Ledo Ivo desmente o autor de Navegação de Cabotagem, e apresenta-o como Navegando em alto-mar. Um trabalho de qualidade. Acompanha ainda uma pequena e interessante cronologia. Jorge Amado continuará merecendo posts neste meu blog.

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