sexta-feira, 6 de março de 2015

Antes e Depois. Flávio de Souza.

Antes e Depois - Um dia decisivo na vida de grandes brasileiros, quando pequenos é um livro de Flávio de Souza, com ilustrações de Daniel Almeida. É um lançamento do mês de janeiro, da Companhia das Letrinhas.  Os grandes brasileiros focados no livro são D. Pedro de Alcântara, Luís Gama, Chiquinha Gonzaga, Lima Barreto, Mário de Andrade e Maria Lenk. Na forma de contar a história destes personagens é que está o grande mérito da obra. Como devem ter percebido, sendo uma publicação da Companhia das Letrinhas, o livro é destinado a um público infantojuvenil, sem causar danos, no entanto, para os adultos que o lerem.
Fantástica maneira de contar sobre sete importantes personagens de nossa história.


D. Pedro de Alcântara recebe a forma mais tradicional de narrativa. É apresentado como o pequeno herdeiro da nação. A história é contada por um morcego, empregado na corte portuguesa. Como morcego, conta todos os bastidores do rei nascido em terra brasileira, mas a narrativa retrocede até os tempos de Napoleão, que põe a corte portuguesa em fuga. Conta peripécias de D. Maria, a louca, de Dona Carlota Joaquina, de D. João VI, de D. Pedro I, até chegar no Pedrinho, passando pelos principais fatos do segundo reinado, como as revoluções regionais, a guerra do Paraguai e a abolição da escravatura.O autor recorre muito ao teatro para ilustrar as situações. As obras de Shakespeare e de Molière estão sempre presentes.
A ilustração correspondente ao personagem Pedro de Alcântara, o herdeiro de uma nação.


Luís Gama não é um heroi tão conhecido em nossa história e é apresentado como o amigo de todos. O dia decisivo em sua vida foi aquele em que o seu pai, endividado por causa de seu vício no jogo, o vendeu como escravo. Os fatos narrados pelo autor são retirados de uma carta que Luís Gama escreveu para um amigo seu. É considerado o precursor do abolicionismo. Se alfabetizou e se tornou advogado, rábula. Libertou a si próprio e passou a dedicar o seu tempo "ao foro e a tribuna, onde ganho o pão para mim e para os meus, que são todos os pobres, todos os infelizes; e para os míseros escravos, que, em número superior a 500, tenho arrancado às garras do crime". Nasceu em Salvador, em 1842 e morreu em São Paulo em 1882, seis anos anos de ver triunfar a sua principal causa. 
Luís Gama, vendido pelo pai como escravo, aos dez anos. Um pioneiro na luta pela abolição.


A história de Chiquinha Gonzaga é contada sob a forma de uma peça de teatro, que conta com a ajuda de um narrador. Ela é apresenta como a abre-alas. Ela realmente abriu alas contra o preconceito contra a mulher e é a grande pioneira na luta pela emancipação feminina. Ela nasceu em 1847 e morreu em 1935, com 87 anos. Nasceu de pai branco e mãe mulata, que só se casaram depois do seu nascimento, um escândalo. Despachou dois maridos infiéis e arrumou um terceiro, um aprendiz de músico. Ela tinha 52 e ele 16. Mais escândalo. Para sustentar quatro filhos foi professora de piano, canto, português, francês, geografia e história. Pioneira na música, também lutou pela abolição, se apresentou no Catete, para novos escândalos e se tornou famosa internacionalmente. Grande personagem. 
Chiquinha Gonzaga. O meu personagem preferido deste livro. Pioneira em quase tudo. A abre-alas.

Lima Barreto tem uma forma muito original de ser apresentado como o mortal imortal. Isso porque nunca chegou a ser imortal, embora, por três vezes candidato à Academia. Ele é apresentado sob a forma de um diálogo que mantém com o arcanjo, quando de sua chegada ao Paraíso, em 1922, o ano de sua morte. Ele e o arcanjo passam a sua vida e a sua obra em revista, os seus infortúnios, a sua obra e a sua passagem pela cachaça. Morreu sem ter sabido "arrancar da minha natureza o grande homem que desejava ser". Grande crítico dos caminhos iniciais da República.
Lima Barreto saindo do mundo de seus livros, para um diálogo com o arcanjo.

Monteiro Lobato é apresentado como o pai da Emília, ou o precursor da literatura infantil. A forma para narrar a sua vida é uma entrevista com Lúcia, uma velha conhecida e amiga de Monteiro Lobato, o Juca da sua intimidade. Monteiro Lobato fora um leitor voraz de Júlio Verne, de Robinson Crusoé e de Figueiredo Pimentel, com quem divide o feito de ser o precursor. Monteiro também foi pioneiro na edição de livros. Lúcia termina contando que ele escreveu "como a aranha costureira de mil anos costurava: usando a tesoura da imaginação, a linha do sonho e a agulha da fantasia".
Monteiro Lobato, pioneiro na literatura infantil e na edição de livros.

Mário de Andrade um antigo moderno é apresentado num programa de televisão em que o seu personagem responde perguntas sobre a sua infância, adolescência e a sua vida adulta. O fato que mais marcou a sua vida foi o de deixar de ser pianista, para ser poeta e escritor. Escrevia brincando, como fez com Macunaíma, mas essa brincadeira lhe custara anos e anos de pesquisa. A sua vida e a sua obra contribuíram para que o Brasil deixasse de ser um pouco menos europeu para ser um pouco mais brasileiro.
 Mário de Andrade, do piano para a literatura. Macunaíma, um clássico escrito em uma semana.

A última personagem apresentada é Maria Lenk, um peixe dentro d'água. A forma de apresentá-la também é a entrevista, recolhendo respostas de entrevistas que ela deu ao longo de sua vida. Esta filha de alemães foi a primeira atleta latino americana a competir em uma olimpíada, a de Los Angeles, em 1932. Mais uma pioneira, portanto. Ela tem em seu currículo duas quebras de recorde, no nado peito, 200 metros, quando se preparava, em 1939, para a olimpíada do ano seguinte, no Japão, que no entanto, não ocorreu. Era o tempo da segunda guerra. Conta coisas interessantíssimas como os seus treinos no rio Tietê. Ela morreu em 2007, aos 92 anos, depois de nadar por 1.500 metros. Começou a nadar para fortalecer os pulmões, depois de uma pneumonia em sua infância. Ela dá o seu nome ao Parque Aquático em que foram realizados os Jogos Pan-Americanos em 2007, no Rio de Janeiro.
Maria Lenk, pioneira na natação. Primeira atleta latino americana a participar de uma olimpíada.


Fiz a resenha deste livro, na parceria do blog com a Companhia das Letras. O grande mérito do livro é a forma criativa de contar as histórias, como a entrevista, a peça de teatro ou um programa de televisão. O livro conta também com belas ilustrações feitas por Daniel Almeida. Um livro que desperta os jovens para a leitura e é também um belo livro paradidático. Também a escolha dos personagens foi fantástica, especialmente a das duas mulheres, pioneiras em suas atividades e merecedoras da maior admiração de todos.





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