sexta-feira, 27 de março de 2015

Uma História Comestível da Humanidade. Tom Standage.

Na esteira de Memórias Gastronômicas e de Pequena História da Culinária de Alexandre Dumas, comprei também, na promoção da Jorge Zahar, Uma história comestível da humanidade, de autoria de Tom Standage. Se o livro de Alexandre Dumas está cheio de humor e de ironia, o livro de Standage não tem nada disso, pelo contrário, é um livro de história e é um livro escrito com toda a seriedade. O autor é editor de negócios e tecnologia da revista The Economist e comentarista da Rádio BBC. Boas credenciais.
Logo depois da leitura desta preciosidade de um humor refinado, continuei com o tema do alimento.

Ao final do livro, nos agradecimentos o autor fala de seu livro sobre alimentos, e adverte que ele nada tem a ver com o prazer de comer. "Em matéria de livros sobre comida, este é incomum porque fala muito pouco sobre sabor ou sobre o prazer de comer". Ao mesmo tempo, diz que muito da concepção do livro surgiu com colegas e amigos, enquanto desfrutavam deste prazer do comer.  Mas já na introdução, a natureza do livro está descrita: "Este livro contempla a história de uma maneira inteiramente  diferente: como uma série de transformações causadas ou influenciadas pela comida", e não datas, fatos ou impérios.
Um outro título para este livro poderia ser: Como o mundo foi se estruturando através dos alimentos.

O livro divide-se em seis partes e doze capítulos. A primeira parte do livro é destinada aos fundamentos da civilização, sobre as origens da agricultura e aos três alimentos básicos dos primórdios da humanidade: o milho, o trigo e o arroz. A história de cada um ganha uma descrição. Também a sequência entre os caçadores e coletores é confrontada com a agricultura. A agricultura é apresentada como antinatural, pois ela representa uma intervenção humana na natureza, em proveito do ser humano.

A segunda parte trata do alimento e as suas influências sobre a estruturação da sociedade. Vai desde a estrutura igualitária da sociedade de coletores e caçadores até o surgimento de coeficientes de poder, com a agricultura e a sedentarização. Desse espírito nômade, aponta, é que teria surgido a ideia do bom selvagem, homem igualitário, presente em Marx e Engels. Não surgiram apenas estruturas de poder, mas com a agricultura e, especialmente, com a irrigação surgiram os primeiros homens com muito poder. Com a sedentarização surgiram também os fatores de sedimentação social, através dos mitos e da religião, visando o reforço da ordem social.
A evolução do milho. Um dos mais importantes alimentos de todos os tempos. Originário de México.


A terceira parte do livro já é dedicada às especiarias, que deveriam ter sido algo realmente muito especial. Elas estão presentes, desde o tempo dos gregos, de Roma e de Alexandria. Pelo seu valor, desde cedo, ganharam notoriedade e passaram a ser usadas como meio de pagamento de tributos. As especiarias estão ligadas aos capítulos tradicionais das navegações e dos descobrimentos marítimos. As especiarias foram as grandes responsáveis pelo semear de grandes impérios e, a semelhança das grandes riquezas de hoje, causaram muitas desavenças e guerras. É sintomática a frase de Voltaire, datada de 1756. "Depois do ano 1500 não se encontrava em Calicute nenhuma pimenta que não estivesse tingida de sangue".

A quarta parte é destinada à análise do período da industrialização e aos novos alimentos que possibilitaram a urbanização, como a batata. O autor faz uma arguta observação sobre o período das navegações, quando circularam plantas, animais, pessoas, doenças e ideias. A batata tem toda uma história particular a ser contada, desde uma planta amaldiçoada, por não constar das plantas bíblicas, (haja ignorância!) até a grande saciadora da fome dos povos europeus e a causadora das mais violentas fomes, quando do surgimento de pragas em seu cultivo. Com a industrialização e a readequação da agricultura como consequência, surgiu também uma nova estruturação da sociedade.
Este quadro bem nos dá uma ideia da importância dos alimentos nas guerras. Fator decisivo.


A quinta parte é dedicada aos alimentos e o seu emprego como arma, ou então, o impacto dos alimentos sobre as guerras. Gostei muito deste capítulo. É feita a abordagem de como fazer as guerras e alimentar os exércitos e também os seus impactos sobre a estratégia militar. Ganham destaque as guerras napoleônicas, a Guerra da Secessão e as duas guerras mundiais, além do abastecimento de Berlim, já no contexto da guerra fria. Ainda neste mesmo contexto é mostrada a industrialização dos alimentos, o seu enlatamento, visando uma maneira mais fácil para o seu transporte.
O açúcar, um dos produtos que mais impactou a organização da sociedade e o mundo do trabalho.

A sexta parte também é muito interessante e atual. Trata da alimentação dentro da perspectiva do rápido crescimento populacional. Aí passam a ser tratados os temas mais atuais e candentes, como a fertilização dos solos, o uso dos venenos no combate às pragas, a questão dos transgênicos e  o uso dos recursos hídricos. Outros dois temas também tem uma abordagem especial: a coletivização das fazendas agrícolas, sob o domínio de Stálin e de Mao, sob os regimes comunistas. Período de milhares de mortos em função de uma ideologia. Pelo currículo do autor, devem ter percebido, a sua vinculação com o liberalismo. Mas independente disso, foi um período de terror e até de canibalismo, para saciar a fome. A China e a Índia, enquanto os países mais populosos do mundo, ganham uma análise especial sobre a sua revolução agrícola.
Tom Standage, o autor do livro. Visões plurais e múltiplas para a melhor compreensão de um tema.

O Epílogo é destinado ao armazenamento das sementes. Elas merecem toda a segurança e cuidados, como as grandes preciosidades do futuro da humanidade.  Gostei. Tenho comigo uma frase de Saramago: "Para conhecer há que dar a volta". Em outras palavras, para conhecer é preciso ver a mesma realidade sob diversos ângulos e perspectivas diferentes. É isso que esse livro faz. E com isso ajuda a melhorar a compreensão da história.

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