sexta-feira, 20 de março de 2015

Alexandre Dumas. Memórias Gastronômicas.




Quem me levou a este livro foi o nome de Alexandre Dumas, somado a uma promoção da editora Jorge Zahar. Dumas é mais conhecido pelos seus romances como Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo,  mas praticamente não houve um único tema sobre o qual ele não tenha escrito. Também a culinária e a gastronomia fizeram parte de seus escritos e, diga-se de passagem, com que propriedade. Fiquei imaginando como é que ele fazia as suas pesquisas.
O belo livro de Alexandre Dumas. É história, é gastronomia e, acima de tudo, muito humor.

Um dos hábitos que conservo dos tempos de professor é o de sempre situar e datar os personagens ou os fatos a serem estudados e a partir daí fazer uma contextualização da época. Assim tudo fica mais fácil. Alexandre Dumas nasceu na França em 1802 e morreu em 1870. Viveu, portanto, logo após o evento da Revolução Francesa e o advento de Napoleão Bonaparte. Um tempo bem agitado.

A sua vida também era bem agitada  e, seguramente, mereceria a leitura de uma boa biografia. Viveu tempos de fartura e de penúria. Creio que não é errado afirmar que levou uma boa vida de burguês, senão o tema da gastronomia não o teria interessado a ponto de pesquisar e escrever sobre ela. Já não sei, após a leitura do livro, se o hábito da boa mesa é algo inerente aos monges ou aos burgueses. Na dúvida, digamos que é dos dois.
Dumas é muito mais conhecido pelos seus romances do que pelos seus livros de culinária.

O livro, na verdade, são dois livros. Observemos o título – Memórias Gastronômicas – seguido de Pequena História da Culinária. O tema mereceu ainda outro livro seu, o Grande Dicionário da Culinária. Creio nem ser necessário dizer que a sua leitura é uma tarefa agradável, pois a gastronomia implica em gente reunida e, gente reunida remete à alegria e ao humor. Farei alguns destaques do livro das memórias. Em outro post falarei da história.

A primeira passagem que destaco é um lamento seu sobre a mercantilização de tudo, numa época de revoluções burguesas. Assim os gourmands estão desaparecendo mais depressa do os próprios poetas. Não há mais emoção, só negócios. “Em nossos dias, ó profanação! Assistimos à venda no varejo das mais célebres caves parisienses. Aqueles mesmos que as haviam criado, preciosos empórios da alegria, da verve, do espírito, em suma, do amor dos homens, eles próprios introduziram nas caves a figura do provador – triste comensal que degusta os vinhos sem os beber, apenas para determinar o preço a ser cobrado por eles”. A partir daí o lamento se intensifica:
Tem cara de bom gourmet. Alexandre Dumas 1802 -1870. Uma vida atribulada. Merece a leitura de uma boa biografia.

“Simplesmente para obter dinheiro, o proprietário mandava vender os bons vinhos – o licor divino destinado aos amigos, aos poetas, às pessoas interessantes, às doces alegrias do lar! Dinheiro para substituir sorrisos, amáveis olhares, esperanças quase realizadas, lábios amorosos suavemente umedecidos!”.  Acho que todos nós continuamos com o justificado lamento de Dumas.

Anotei outra passagem de refinado humor, envolvendo Luís XV e o período da Regência: “Ele (o príncipe) e sua amante, filha do contratador Pléneuf, levaram quase um ano comendo o que restava de dinheiro nos cofres da França; depois, quando acabou o dinheiro, começaram a comer a própria França. Come-se muito, portanto, sob a regência do príncipe, mas não se comeu bem”. Me parece bastante atual este humor.
Uma ilustração do livro. Boa comida sempre foi privilégio para poucos.

E por falar em humor, num enunciado sob o título de Medicina e culinária, atribui-se à alimentação dos povos as diferentes fases da medicina. Assim sob Luís XIV “engordava-se, e todas as doenças, afirmavam os médicos, resultavam dos humores”. E a medicina mandava “sangrar, purgar, clysterum donare”. E sobre isso conta-se que “Luís XIV purgava-se duas vezes por mês, o que lhe desobstruía ao mesmo tempo o estômago e a cabeça, propiciando-lhe tão bom humor que era nos dias 15 e 30, na saída do water-closets, que os solicitantes o esperavam com suas demandas. Essa medicina durou, bem ou mal uma centena de anos”.
O livro das Memórias gastronômicas, da Zahar é seguido pela Pequena História da Culinária.

No capítulo sobre as saladas existe outra constatação interessante sobre a engorda de bois. Quando eles concorrem ao título de bois gordos eles são destinados a comer capim e a tomar água. Como conclusão, nem a água e nem o verde devem ser bons para se efetuar uma dieta.
Além de relatos acompanhados de muito humor, também encontramos em meio as suas histórias algumas receitas que mostram as preferências dos famosos desta época. Em suma é um livro muito divertido. Eu volto a Alexandre Dumas com a sua pequena história da culinária.

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