sábado, 26 de setembro de 2020

Bolsonaro. Um discurso mentiroso na ONU. Sobre a mentira. Jacques Le Goff.

 No dia 22 de setembro de 2020, o presidente Bolsonaro fez um discurso estarrecedor na abertura da 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. O discurso chocou todo mundo, menos aos seus adeptos, donos das mesmas qualidades e virtudes de seu presidente. Como neste post não quero mostrar o discurso e sim uma visão histórica sobre o caráter perverso e falsário da mentira, deixo um link apropriado para ver o discurso "terrivelmente" mentiroso do presidente. https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2020/09/22/veja-o-que-e-fato-ou-fake-no-discurso-de-bolsonaro-na-onu.ghtml 

As considerações sobre a mentira e o seu caráter de gravidade e perversidade eu as tomo do livro do medievalista Jacques Le Goff, A civilização do ocidente medieval. O trecho é curto mas certeiro. A mentira é um dos piores atributos que se pode aplicar ao ser humano. O demônio é o pai da mentira, mas agora está em processo de competição com o triste e vergonhoso presidente brasileiro. Vejamos Le Goff, sob o título: A falsidade e a mentira:

A Civilização do Ocidente Medieval.  Jacques Le Goff. EDUSC. 2005.


"Antes de chegar lá, os homens da Idade Média tiveram que lutar contra uma impressão generalizada de insegurança, e o combate não tinha chegado ao fim no século 13. Sua grande perturbação provém de que os seres e as coisas não são realmente o que parecem. O que a Idade Média mais detesta é a mentira. O epíteto natural de Deus é 'aquele que nunca mente'. Os maus são mentirosos. 'Vós sois um mentiroso, Fernando de Carrion', diz Pero Bermuez na cara de um infante, e Martin Antolinez, outro companheiro do Cid, joga na cara do segundo infante: 'Fechais vossa boca, mentiroso, boca-sem-verdade'. A sociedade é feita de mentirosos. Os vassalos são traidores, félons (vassalo traidor) que renegam seu senhor, êmulos de Ganelão (traidor famoso dos francos), e, depois dele, do grande protótipo de todos: Judas. Os mercadores são fraudadores que só pensam em enganar e roubar. Os monges são hipócritas, tal Falso-Semblante, personificado no Roman de la Rose por um franciscano. O vocabulário medieval é de extraordinária riqueza para designar os inumeráveis tipos de mentira e as infinitas espécies de mentirosos. Até os profetas podem ser falsos profetas, e os milagres, falsos milagres, obras do Diabo. É que o domínio do homem medieval sobre a realidade é tão fraco que ele deve valer-se da astúcia para levar a melhor. Pode-se pensar que aquela sociedade belicosa tudo ganhava ao atacar. Grande ilusão. As técnicas eram tão medíocres que a resistência quase sempre prevalecia sobre a ofensiva. Mesmo no domínio militar, os castelos e as muralhas eram quase impenetráveis. Quando o invasor os forçava, era quase sempre pela astúcia. A totalidade de bens colocados à disposição da humanidade medieval era tão insuficiente que para viver era preciso 'se arranjar'. Aquele que não tinha força ou astúcia estava quase que com certeza fadado a perecer. O que é seguro e quem é seguro? Da imensa obra de Santo Agostinho, a Idade Média deu atenção especial ao tratado De Mendacio (Da mentira)".

Texto extraído de: LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru, EDUSC, 2005. Páginas 354-355.

Que feio, presidente.



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