quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O Processo. Franz Kafka.

Mais uma vez me deparo com Franz Kafka. Dessa vez, pela retomada dos livros da Biblioteca Folha, pelo livro de número 17, O Processo. Lembro de Kafka pelo cinema e pela leitura, em 2007, quando cheguei até o terceiro capítulo (o livro da L&PM Pocket). O preparo de aulas e outros focos de interesse serviram de pretexto para a interrupção. No filme, que passou tarde da noite, houve a interrupção pelo sono. Tudo se justifica. O livro não é de leitura fácil, embora o título dos capítulos te dê as pistas sequenciais da descrição.
O Processo. Biblioteca Folha. 2003. Primeira edição em 1925. Tradução de Modesto Carone.

A primeira das frases sintetiza bem o livro: "Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum". Esse é o começo de um enorme emaranhado de circunstâncias sem saída e de um envolvimento cada vez mais complicado, com juízes, tribunais, cartórios, advogado, sacerdote, pintor, meninas, num enrendar cada vez mais comprometedor. Como o mais importante de uma obra literária é entender o que o autor quis dizer e como se trata de uma das mais importantes obras da literatura universal, recorro à voz de dois especialistas.

O primeiro é Modesto Carone, autor de um belo posfácio, para a edição da Biblioteca Folha. O seu posfácio tem sete tópicos dos quais tomo o de número cinco, sobre as possíveis interpretações da obra. Lembrando que a obra foi escrita a partir de 1914, com interrupções e publicada postumamente em 1925, por Max Brod, amigo e testamenteiro literário. Kafka teve uma problemática e curta vida (1883- 1924). Deixo o link de uma biografia sua. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/08/franz-kafka-por-louis-begley.html  Mas vamos a Carone:

"Esses pormenores (dados biográficos, influências e contextualizações) ajudam a localizar algumas circunstâncias de caráter histórico e pessoal capazes de alimentar o impulso de fabulação do romancista na época em que estava gestando O Processo. Mas é evidente que nenhum deles pretende ou pode dar conta da obra enquanto generalização artística da experiência. A esta tarefa se lançam, com assiduidade, as interpretações do romance, cujo número, nas mais variadas vertentes (teológicas, filosóficas, socio-políticas, psicanalíticas, estético-formais etc.), aumenta à medida que se amplia a posição de Kafka como um clássico da Weltliteratur. É compreensível que as notas de um posfácio não comportem nem mesmo um sumário dessas exegeses, mas isso não impede que sejam citados alguns exemplos interessantes.

Na linha teológico-existencial, há um grupo bem numeroso de intérpretes que veem no romance a representação da culpa do homem contemporâneo, já que o livro não trata de um processo criminal que se desenrole diante de uma corte de justiça convencional. Outros, pela mão contrária, descartam qualquer viés alegórico desse tipo e afirmam, baseados na História, que nada é mais real (ou realista) que O Processo, pois o entrecho reflete a desumanização burocrática da Monarquia do Danúbio. Os que não concordam com esta tese, entretanto, argumentam que a administração austro-húngara nada tinha em comum com as imagens de O Processo, além do que a avaliação da burocracia, feita pelo Kafka funcionário público, não era a de um súdito impotente diante de uma máquina impessoal e aniquiladora. Mas há críticos que consideram de outra natureza o realismo de Kafka - para eles um escritor habilitado a oferecer, a partir do seu ângulo específico de observação histórica, uma visão esteticamente eficaz e nada metafísica do que ainda estava por acontecer; por isso, O Processo pode ser concebido como uma profecia do terror nazista, em que a detenção imotivada, os comandos de espancamento, as decisões incontrastáveis das esferas de poder e o assassínio brutal faziam parte do cotidiano. Seguindo uma linha análoga de raciocínio, que procura por em evidência a lucidez de um autor 'desengajado' (e podado pelo stalinismo), constam também da bibliografia análises que percebem no romance o esforço bem-sucedido de mapear por dentro a alienação encoberta do dia-a-dia através das peripécias de K. pelas instâncias reificadas do mundo administrado. Vistos desse ângulo 'protocolos herméticos' como O Processo desvendam a gênese social da esquizofrenia; ou então um universo sem esperanças, de onde foi banido o mito da salvação. Com menos sutileza, existe quem perceba, nesta como em outras narrativas de Kafka, a expressão do 'vanguardismo decadente' de um pequeno-burguês angustiado, que hipostasiou o medo ao invés de superá-lo pela análise concreta.  Já na vertente psicológica ou psicanalítica, o leitor encontra afirmações no sentido de que a ação romanesca de O Processo reflete um caso de neurastenia, ou então que as desventuras objetivas de K. são apenas um sonho, quando não a imagem delirante de um indivíduo entregue ao isolamento e à exaustão. Uma vez porém que a história é narrada da perspectiva do personagem, não faltam os que reconhecem, nos acontecimentos do livro, ora um mundo de aparência, ora um mero 'processo de pensamento' de Josef K.

O contraste entre essas teses dá uma ideia do que ocorre na fortuna crítica do romance - a tal ponto que soa plausível pretender, como fazem alguns estudiosos, que as questões relativas ao 'sentido' da obra continuam em aberto. Mesmo os trabalhos centrados na organização formal do romance acabam por tratá-lo como uma espécie de 'metáfora absoluta', que remete aos seus próprios termos, retirando-lhe assim a dimensão do conhecimento. Mas é evidente que, agindo desse modo, essas análises se transformam no avesso vazio das interpretações que se propõem como definitivas".

Já a edição da L&PM Pocket tem um prefácio assinado por Marcelo Backes, em que apresenta o autor e a obra. Ela apresenta a obra da seguinte maneira:
O Processo. L&PM Pocket. 2007. Tradução Marcelo Backes.

"A obra de Kafka já foi analisada por todos os ângulos, e o volume de sua fortuna crítica encheria bibliotecas inteiras. O desespero do homem moderno em relação à existência, a eterna busca de algo que não está mais à disposição, a pergunta por aquilo que não tem resposta são as características mais marcantes de seus livros. Seus personagens são vítimas de um enigma insolúvel - a própria vida. Com sua obra, Kafka escreve o evangelho da perda, assinala a ausência de luz no fim do túnel. Ele é o escritor do lusco-fusco, o poeta da penumbra, a literatura em seu próprio crepúsculo.

O realismo de Kafka é mágico, mas sóbrio ao mesmo tempo; seu humor às vezes é grotesco, outras vezes, irônico, mas, no fundo, sempre carregado de seriedade. Sua prosa é dura, seca e despojada. Kafka reduz a riqueza da língua alemã a trezentas palavras, e mesmo assim é um dos maiores estilistas da prosa alemã. O que Kafka escreve é ele mesmo, o ser em si. Sua literatura é seu 'eu' feito letra; seu estilo é marcante, embora uma de suas maiores características seja a impessoalidade. É como se o autor não necessitasse da muleta do estilo - em seu aspecto subjetivo - para fazer brotar seu eu, sua individualidade. Kafka não trata de ânimos ou ambientes, nem de experiências ou psicologias. Ele fala do fundamento da existência em si, do qual a parábola é o melhor modelo. Num dos fragmentos de seus Diários está escrito: 'Escrever como forma de oração', e Kafka fez de sua arte sua reza.  Em outra passagem o autor diria: 'Um livro tem de ser o machado para o mar congelado do nosso interior'. O Processo - e toda a obra de Kafka - é um exemplo perfeito disso.

George Lukács, marxista ortodoxo, viu em Kafka apenas a decadência tardia do mundo burguês. Theodor Adorno, marxista tardio, teórico da Escola de Frankfurt, disse: 'os protocolos herméticos de Kafka contêm a gênese social da esquizofrenia', e assinalou em Kafka a essência do mundo moderno".



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