quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Americanah. Chimamanda Ngozi Adichie.

"Ele (Obinze) parou de falar e se remexeu. 'Ifem (Ifemelu), vou correr atrás de você. Vou correr atrás de você até dar uma chance a isso". Ifemelu ficou um bom tempo olhando para Obinze. Ele estava dizendo o que ela queria ouvir, mas ela continuava apenas olhando para ele. 'Teto' (Obinze), disse, finalmente. 'Entre'". Assim termina o romance Americanah, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. O premiado livro é um lançamento da Companhia das Letras, do mês de agosto de 2014.

Inicio o post da resenha deste livro com o seu final, com a finalidade de apresentar os dois personagens fundamentas do livro. Ifemelu e Obinze, ambos nigerianos, namorados durante o período da faculdade que depois se desencontram no vasto mundo de Deus, para terminarem novamente juntos, em Lagos, a maior cidade e centro financeiro da Nigéria. A capital da Nigéria é Ajuba, que também recebe referências, nada lisonjeiras, já quase ao final do livro. Mas este reencontro se dará somente depois que o mundo deu muitas voltas.
Americanah, de Chimimanda Ngozi Adichie, lançamento da Companhia das Letras. Sobre os Estados Unidos e a Nigéria.

O livro, de 513 páginas é dividido em cinco partes, partes estas, divididas em 55 capítulos. Três são os cenários principais do livro. Os Estados Unidos, a Inglaterra e a Nigéria. Os dois personagens principais já citados são nigerianos, que depois das andanças pelo mundo voltam para a Nigéria e se reencontram. Ifemelu teve passagem por várias partes dos Estados Unidos, enquanto que as desventuras de Obinze em Londres, terminaram com a sua deportação da Inglaterra.

Ifemelu, de origem muito pobre, conseguiu visto americano com uma bolsa de estudos, concedida por uma universidade americana. As dificuldades de adaptação foram enormes, especialmente as relacionadas com o trabalho, sempre clandestino e com identidades emprestadas. A sua principal referência será uma tia sua, Uju, que já morava lá, desde a morte de seu amante, um general que participava de um governo ditatorial militar na Nigéria. As relações com a tia são complicadas. Se descomplicam pela grande devoção de Dike para com Ifemelu. Dike é filho de Uju com o general nigeriano. 

O principal complicador na vida de Ifemelu sempre foi a questão financeira. Esta a leva praticamente até a sarjeta. Ifemelu mantinha relações por correspondência e telefone com Obinze, mas as terminou ao perceber-se absolutamente degradada. Outras amigas também a ajudam e ela arruma o seu primeiro emprego, babá na casa de uma família muito rica. Este emprego abre um leque de relações, até ela arrumar um namorado, branco e rico, Curt. Vivem uma grande paixão.

 Ifemelu inicia um novo trabalho que lhe dará certa notoriedade nos Estados Unidos, um blog sobre questões raciais. Ninguém melhor que uma negra africana para escrever sobre a questão nos Estados Unidos. A principal tese levantada é de que nos Estados Unidos a questão da raça quase equivale a questão das classes, ou é a verdadeira questão de classe. "Raça é classe". O blog é essencialmente interativo. Os comentários são provocados pelos temas que são levantados. O blog também faz referências a Obama, desde a candidatura até a eleição, passando pelos cabelos e penteados de Michele, a primeira dama.

Ifemelu não é muito constante em seus amores. Ela complica as suas relações. Curt, o namorado branco e rico a abandona ao saber-se traído. Novos amores virão, as complicações com a tia só aumentam. Dike tenta o suicídio. Ifemelu tenta entender a cultura americana. Talvez esteja aí um dos pontos mais significativos do livro, um passar a cultura americana em revista, obviamente com o viés do olhar negro. O seu sonho de regresso para a Nigéria se torna possível. O périplo americano termina com a eleição de Obama, o presidente negro (?) dos Estados Unidos.

Enquanto isso, o sonho de Obinze para ir aos Estados Unidos, termina em Londres, numa viagem em que acompanha a sua mãe, para uma conferência numa universidade londrina. Assim entra clandestino em Londres. Se alguém quiser saber como é esta situação é interessante ler, que muitas dicas serão dadas. Obinze procura legalizar a sua situação com um casamento arranjado, com prazo de validade de um ano, prazo estabelecido pela noiva, possivelmente para a venda de um novo casamento. Cidadania da União Europeia vale dinheiro. A fraude é descoberta na hora do casamento. Deportação imediata, sem contestações.
Chimimanda Ngozi Adichie, a escritora nigeriana, autora de Americanah.


Assim, tanto Obinze, quanto Ifemelu estão de volta a Lagos, mas ainda demorarão um bom tempo para o reencontro. Obinze ficará muito rico como incorporador imobiliário, enquanto Ifemelu irá trabalhar numa revista feminina e depois voltará a sua atividade dos Estados Unidos, o blog, agora sobre moda e comportamento. Obinze era agora um senhor casado e pai de uma filha. No seu nascimento, Kozi, a esposa, lhe promete que o próximo será um menino. Estas tiradas do imaginário cultural são outro ponto alto do livro, junto com o toque sutil e rápido, em graves questões existenciais impregnadas com as questões culturais fazem com que o livro tenha um sabor todo especial. Especial mesmo são as 19 páginas do capítulo 54 (488 a 507) onde são descritos os valores e costumes dos novos ricos da Nigéria e de Ajuba, a capital do país.

É claro que Obinze e Ifemelu se reencontrarão. O casamento de Obinze e as complicações de Ifemelu dificultarão a relação, que aparentemente poderia ser bem tranquila. As condições para isso estariam dadas, não fossem as complicações próprias e inerentes ao ser humano. As portas estão abertas para você ver o final da história deste casal nigeriano e suas desventuras pelo mundo. "Entre" disse Ifemelu para Obinze na última palavra do livro. E como leitura puxa leitura, já comprei O cerne da questão, de Graham Green.

Como este é mais um trabalho de resenha que eu faço na parceria do bolg com a Companhia das Letras vai a referência do livro: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah. São Paulo: Companhia das Letras. 2014.

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