terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. Volume I.

Eu tive um amigo, que que em certa oportunidade, assim se referiu a um outro amigo: "Ele é um tanto pirado, de tanto ler". Acredito que é este o veredito que pode ser aplicado ao Dom Quixote. Ele, de tanto ler romances de cavalaria, ficou inteiramente pirado e resolveu ser um cavaleiro andante, em busca de aventuras que lhe conferissem glória, imagem de um homem em busca de justiça e merecedor dos amores de sua Dulcineia amada.

Se até hoje ainda não tinha me aventurado na leitura destas loucuras foi, possivelmente, pela própria fama do livro e da dificuldade que muitas vezes se encontra na leitura de obras clássicas. Mas Dom Quixote é bastante fácil. Cervantes é genial na conduta das aventuras que ele conta, sempre envoltas em pequenos capítulos, cinquenta e dois no total do primeiro volume e mais setenta e quatro no segundo. O próprio Cervantes se encarrega de facilitar esta leitura dando título aos capítulos e emendando sequências.
A versão que eu li. Abril Cultural, 1981. 609 páginas, os dois volumes. Duas semanas para a leitura.


Neste post vou ficar com as aventuras do primeiro volume, originalmente publicado em 1605. Dez anos depois, apareceria o segundo volume, para o seu autor morrer logo depois, no ano seguinte. A edição que eu tenho, a da Abril Cultural, tem 609 páginas, numa escrita bem pequena. Como existem muitos diálogos, a leitura é mais fácil. Os trechos mais difíceis são as conjecturas que faz o Quixote e alguns outros personagens. A obra teve sucesso imediato. Estes eram os tempos em que a leitura deveria ser o maior divertimento popular.

Bem, vamos aos fatos. A história começa quando o famoso cavaleiro é acometido pela loucura e sai duas vezes, neste primeiro volume, em busca de aventuras fantasiosas do seu encantamento. Nomina a si e ao seu cavalo e sonha com a imortalidade de seus feitos, contados em livro, que deveria estar a altura dos melhores que ele lera. Por isso se esmeraria em busca de aventuras dignas de glória e de perenidade e fazer-se merecedor dos amores da donzela mais linda do mundo. Numa estalagem de uma aldeia, que sua imaginação transformara em castelo, é armado cavaleiro, mas logo o reconhecem e o reconduzem à sua aldeia, onde é recebido pelos seus, restritos a governanta ou ama, uma sobrinha, ao cura e ao barbeiro. Esta foi a sua primeira breve saída.

O cura e o barbeiro resolvem erradicar as causas de sua loucura, isto é, queimar os muitos livros de cavalaria que acumulara e lera ao longo de anos, que o transformaram em cavaleiro andante, fora do devido tempo. Quixote prepara a sua segunda saída, sem antes contratar um fiel escudeiro, partícipe de suas aventuras, glórias e recompensas. Este será o inseparável e leal companheiro, Sancho Pança, ávido em busca de recompensas. Um título de conde ou governador de uma ilha, que fosse. A cobrança será constante. Nesta saída empreende a sua mais famosa e conhecida façanha, o combate aos enormes gigantes, os tais dos moinhos. Outras aventuras se seguem, mas que escaparam à memória do narrador, sendo completadas por um outro, o primeiro narrador, o mourisco Benengeli, que as relatara em árabe e ao qual buscou tradução.
Uma das mais famosas duplas do mundo.


Entre novas aventuras, o cavaleiro também discursa. Nada melhor do que na época de ferro, discursar sobre a era dourada. No famoso capítulo XI, dá aulas sobre os males provocados pela divisão entre o que é meu e teu, tema do qual, ainda hoje, se ocupam as cátedras das universidades.  Este capítulo merece um post em separado. Seguem-se três episódios interessantes. A luta contra um valoroso exército de carneiros, a tomada do escudo de mambrino, uma inocente bacia de barbeiro que tomara como espólio de lutas e a libertação de presos, conduzidos às galés, que ele irá libertar. Depois de libertos ele terá dois problemas a enfrentar. O primeiro com a justiça, o que o fará refugiar-se nas montanhas e com os próprios libertos que, para evitar exposição à polícia, se recusam ir a El Toboso e contar os seus feitos para a sua amada Dulcineia.

Imitando Amadis de Gaula faz, perante o seu escudeiro, piruetas com as partes pudendas de fora e o manda em missão, contar estas aventuras para a sua amada. Sancho porém é interceptado pelo cura e pelo barbeiro de sua aldeia e os ajuda a ir ao encontro do cavaleiro, escondido em florestas e serras, sem de fato ter ido a El Toboso e ter se encontrado com Dulcineia. A partir daí, param numa estalagem encantada e muitas histórias são contadas. Histórias de amor, em que pouco a pouco, são desvelados os mistérios dos personagens envolvidos. Isso ocupa uma longa parte do livro. Estas histórias seguramente poderiam ser a narrativa de outros livros, como o reconhece o narrador, na segunda parte do livro. Entre os personagens se encontrará a princesa Micomicona, por cuja libertação receberiam grandes recompensas. Miconicoma fascina a Sancho, em seu eterno sonho por recompensas. Sancho alimenta grandes ambições. São eles que o movem às aventuras.

Nesta estalagem se travam lutas com muito derramamento de sangue, ou seria o vazamento de odres de vinho, provocado pela ferocidade das batalhas. Também ocorrem longas discussões sobre a leitura de livros. Aparecem até claras propostas de censura, nas discussões entre um cônego e o cavaleiro. Nestes momentos o cavaleiro está totalmente lúcido, estado que ele frequentemente alterna com os de encantamento. Propõe a censura de todos os livros mentirosos, que nada somam e servem apenas como distração.

Por fim o cavaleiro recebe uma paulada tão forte de um adversário e acorda, apenas ao ouvir as tristes e comoventes palavras do escudeiro Sancho. Assim enfraquecido, e posto numa carroça, tornam à sua aldeia de origem. Quixote é recebido pela sua governanta e pela sobrinha. Já Sancho é recebido por Teresa Pança, que só quer saber das recompensas que o escudeiro estaria por lhe trazer. Humorados versos em epitáfios terminam a narrativa deste primeiro volume, mas novas aventuras são prometidas, através de uma terceira saída do cavaleiro e que ocorrerão na saída para a cidade de Saragoça.
Em Porto Lápica, a hospedaria castelo do Quixote.

Numa viagem minha pela Espanha, um dia saímos de Madri em direção a Granada, passando por toda a região da Mancha. Vimos muitos moinhos, que são exatamente os que o Quixote confundiu com os gigantes. A nossa primeira parada foi numa pequena aldeia chamada Porto Lápica ou Porto Lápice. Lá o Quixote esteve por duas vezes e na Venta, ou estalagem, ou ainda no castelo local é que o cavaleiro fez o seu ingresso como cavaleiro andante.

No terceiro capítulo do segundo volume existe uma síntese sobre os maiores feitos do cavaleiro, narradas por um bacharel, que lhe fala das repercussões do livro: "Nisso - respondeu o bacharel - há diferentes opiniões, como há diversos gostos; uns preferem a aventura dos moinhos de vento que a Vossa Mercê lhe pareceram briareus e gigantes; outros as das azenhas; este a descrição dos dois exércitos, que depois se viu que eram dois rebanhos de carneiros; aquele encarece a do morto que levaram a enterrar em Segóvia; diz um que a todas se avantaja a da liberdade dos galeotes; outro, que nenhuma se iguala a dos dois gigantes beneditinos, com a pendência do valoroso biscainho". Na leitura, é bom ficar atento a estas passagens.







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