quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Por quem os sinos dobram. Ernest Hemingway.

Em primeiro lugar quero afirmar que tenho um profundo interesse por tudo o que se refere à Guerra Civil Espanhola. Igual fascínio também dedico a Ernest Hemingway. Depois, em minha memória mais profunda, eu creio que parte deste livro foi lido para nós no refeitório, durante o almoço. Nós tínhamos este hábito, quando alunos do ginásio, no Seminário São José de Gravataí, em nosso tempo de seminário. Com a leitura, fiquei em dúvida, por causa de Maria e Robert Jordan, que declaram amor mútuo, de formas belíssimas. De qualquer maneira a censura funcionava. Mas me permanece a dúvida.
A capa serve de pista. Detonar.

O interesse de agora, veio de uma relação de clássicos. Também, não tão distante no tempo, fiz uma visita ao escritor, passando pelos seus lugares preferidos em Havana, como o Hotel Ambos Mundos, na Bodeguita del Medio e no Floridita. Ali tomava os seus aperitivos preferidos, o mojito na Bodeguita e o daikiri no Floridita. Neste último tem um busto em sua homenagem. Também lembrei de Leonardo Padura e o seu O homem que amava os cachorros. Padura é cubano e um dos focos de seu livro é a sangrenta guerra civil espanhola.
Com Hemingway no Floridita.

Lembro também do João Ubaldo Ribeiro, de uma fala sua. Nos contava que um dia lhe pediram um romance longo e ele escreveu O povo brasileiro. Por quem os sinos dobram tem 43 capítulos espalhados ao longo das 671 páginas do livro. Souberam, ambos, mostrar as qualidades de um narrador. Hemingway demora nos diálogos, nas conjecturas que seus personagens fazem, nos vários focos sob os quais viaja a sua narrativa, além de traçar detalhadamente os seus perfis.

Vamos à centralidade do livro e aos seus personagens principais. A capa do livro nos dá a pista do fio condutor do romance. Nela aparece um detonador de explosivos. Isso mesmo. Robert Jordan é um americano, quase sempre chamado de inglês, ao longo do livro. Ele é professor de espanhol nos Estados Unidos e atua como voluntário na guerra, na qualidade de detonador de explosivos, no caso, recebera a tarefa de explodir uma ponte.

Em torno de Robert Jordan forma-se o grupo, ou ele se integra nele, composto por Pablo, Pilar, um cigano e mais três ou quatro republicanos espanhóis e a doce Maria. Maria era protegida de Pilar, mas quando ela vê o inglês chegar, confia-a imediatamente a ele. Em três dias vivem um amor intenso e de juras eternas. O grupo está em meio a florestas, cercados de inimigos. De fora do grupo merece destaque o guerrilheiro El Sordo e os chefes, o general Golz e o jornalista Karkov.

Robert Jordan e o general Golz, ao que tudo indica, tinham uma ação sincronizada. Jordan explodiria a ponte e Golz ordenaria um ataque aéreo. Mas a comunicação ainda era por mensageiros (ai se pudéssemos nos comunicar por rádio, reflete Robert) e estes poderiam ser interceptados ou suscitar desconfianças. É o que ocorreu com esta ação. Nela interferiu um comandante francês, totalmente fora dos esquadros. Simplesmente prendeu o mensageiro. São muitos os grupos que constituem os revolucionários, como os republicanos, os comunistas, os anarquistas e mais as brigadas internacionais com as suas peculiaridades. Muitas reflexões sobre a morte, o seu significado e o ato de matar.

O romance ganha um final dramático, reservado aos dois últimos capítulos. Nele estão os sonhos de Robert Jordan e de Maria, a projeção de seus dias de amor em Madri. Iria levá-la a todos os belos lugares que ele conhecera. Nele está a precisão com que executará o seu trabalho de explosão da ponte, apesar dos imprevistos ocorridos com Pablo. Pablo é uma das figuras centrais do romance. Falta-lhe convicção e fé revolucionária e muitas vezes se volta contra o grupo, após enormes bebedeiras de vinho. Pablo era o marido de Pilar. Várias vezes foi poupado de ser morto pelos companheiros. Mas na luta sempre era o mais valente, o mais eficiente e também o mais impiedoso. É um dos que permanece incólume e decisivo até o final da narrativa. Quanto ao casal amoroso, Robert Jordan e Maria, juram que, se apenas um deles sobreviver, este sobrevivente será os dois.

Destaco uma das frases finais: São reflexões de Robert, o inglês: "Lutei durante um ano pelo que acredito. Se vencermos aqui, venceremos em todos os lugares. O mundo é um bom lugar e vale a pena lutar por ele, e odeio ter que deixá-lo. Você teve muita sorte por ter uma vida tão boa. Teve uma vida tão boa quanto a do seu avô, apenas não tão longa. Teve uma vida boa como outra pessoa qualquer, por causa desses últimos dias. Você não vai querer reclamar, justo quando teve tanta sorte. Mas eu gostaria de passar à frente o que aprendi. Cristo, eu aprendi rápido no final".

Deixo ainda espaço para a apresentação do livro, na sua orelha, escrita pelo editor Ênio Silveira: "Por quem chora aquele sino? Aquele sino chora por todos nós. Com isso quer o poeta que forneceu o título deste livro significar a unidade do mundo. Somos um todo, e tudo quanto afeta qualquer das partes afeta de um modo ou outro todos os demais.

O drama que Hemingway descreve é pungentíssimo - é um drama de guerra civil, a mais horrorosa de todas. Quereis ver a crueldade humana em seu fastígio? Estudai as guerras entre irmãos.

A cena da matança dos 'fascistas', organizada por Pablo e no romance contada por Pilar, sua mulher, é das coisas mais arrepiantes que se escreveram. Veio a retaliação. Os fascistas souberam vingar-se dos horrores que no começo os comunistas espanhóis perpetraram contra homens cujo crime único era serem proprietários e pessoas de boa situação social.

Não há quem não leia este livro e não guarde na memória, para sempre, o quadro da 'malhação com manguais', concebido pelo hediondo Pablo e executado por camponeses ébrios de vinho e ideologia (Trata-se do capítulo 10, das páginas 150-197).

E todas as demais cenas do livro são igualmente traçadas de maneira a se tornarem inesquecíveis. Hemingway produziu um livro que ocupará lugar à parte na literatura moderna". Apenas para situar, o autor nasceu em 1889 e morreu em1961. Por quem os sinos dobram foi escrito em 1940 e no ano de 1954 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.
Um dos hotéis preferidos de Hemingway em Havana.

Ainda, para encerrar, a frase epígrafe, contracapa e mote para o livro: "Nenhum homem é uma Ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra. Se um Pequeno Torrão carregado pelo Mar deixa menor a Europa, como se todo um Promontório fosse a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti". A autoria é de John Donne.

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