segunda-feira, 19 de outubro de 2026

CONSTITUIÇÃO DE 1988. Os partidos presentes na Constituinte e a bancada do Paraná.

Coisas da curiosidade. Não. Não é apenas isso. É muito, mas muito mais. Eu não tenho dúvidas de que hoje o maior patrimônio do povo brasileiro é a sua Constituição, esta promulgada em 5 de outubro de 1988. Digo isso, especialmente em função do seu artigo 5º, que define os Direitos e Deveres Individuais e Coletivos e o título VIII, que se ocupa da Ordem Social e que, em seu capítulo II fala da Seguridade Social, que compreende as ações da Saúde, da Previdência Social e da Assistência Social. Quero dar um destaque todo especial para os artigos 196 a 200, que versam sobre a Saúde. Por eles foi instituído O Sistema Único de Saúde, o nosso SUS. Este sistema cobre universalmente 203.080.756 habitantes, ou seja a totalidade da população brasileira, conforme os dados oficiais do último censo do IBGE, do ano de 2022.

Constituição brasileira. O maior patrimônio do povo brasileiro.

Vocês conseguem imaginar o que é organizar um sistema de saúde com tamanha cobertura? Vocês conseguem imaginar o total de custos de um sistema desse tamanho? Para a sua execução, são convocados a União, os Estados e os municípios, mais, por óbvio, o Distrito Federal. Também a eles cabe a sua organização. Este sistema tem falhas? Sim. E sempre continuará tendo. Faltarão recursos? Creio que todos vocês conhecem os custos da medicina. O que me assusta são as pessoas que sistematicamente atacam o sistema, não aqueles que tem reclamações pontuais.

Por que isso me assusta? O sistema é muito caro, caríssimo mesmo. Todo o artigo 195 fala do financiamento da Seguridade Social. Novos impostos foram criados para o seu financiamento. Você também deve ouvir, da voz dos políticos conservadores, uma eterna cantilena de que nós pagamos impostos demais. Quando você ouve esse tipo de cantilena, é o seu SUS, o seu maior patrimônio, que sofre ameaças de contar cada vez com menos recursos. Junto com a saúde pública, também estão ameaçados todos os benefícios que atingem as populações menos favorecidas, como a educação e a previdência. Também existe toda uma injustiça na cobrança desses impostos. As tais das isenções e incentivos fiscais. Iates e jatinhos pagam impostos? Todos vocês viram a gritaria e a batalha que foi isentar o Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000,00. Cuidado! Estamos às vésperas de eleições. Os políticos conservadores jamais te dirão que vão acabar com o SUS. Eles só falam em gastar menos, mas não tem coragem de dizer onde irão gastar menos. Lembro de uma frase do Fernando Collor, o 1º Presidente eleito sob a nova Constituição. Com esta Constituição é impossível governar o país, bradava ele. Tem direitos demais! Outra questão... Quantas emendas ela já sofreu?

Mas a finalidade desse post é trazer ao presente um pouco da história da Assembleia Nacional Constituinte. Ela integrou um conjunto de medidas para por fim à inacabável ditadura militar (1964-1985): Anistia (onde foram incluídos os crimes cometidos pelo Estado), Eleições Livres (Eu quero votar para Presidente) e a Assembleia Nacional Constituinte. Pensando sobre isso, tive uma enorme curiosidade. Quem foram os deputados constituintes pelo Paraná? A que partidos pertenciam estes constituintes? A partir daí fui para questões mais amplas. Quais os partidos presentes na Assembleia Nacional Constituinte. Como se constituíram as forças políticas, aí presentes? Como se explica que nos legaram uma Constituição nitidamente social democrata, quando o mundo já enveredava pelo neoliberalismo?

Eis algumas respostas às minhas curiosidades. O Presidente da República era José Sarney, que acabara de deixar o PDS (o partido sucessor da Arena) para se filiar ao PMDB. O número de congressistas constituintes foi de 559, eleitos em 15 de novembro de 1986, com a exceção de 23 senadores, remanescentes de 1982. Os trabalhos começaram em 1º de fevereiro e se estenderam até o 5 de outubro de 1988. O PMDB formou a bancada absolutamente majoritária. Oportunismo e ojeriza ao regime militar?  Vejamos a composição partidária presente:

PMDB - 303 constituintes.

PFL - 135 constituintes.

PDS - 38 constituintes.

PTB - 18 constituintes.

PL - 7 constituintes - PDC - 6; PSC - 1; PMB - 1. Essa era a bancada tida como de situação. Achou estranho. Eu achei bem estranho, ao menos pelos entendimentos de hoje. Vamos então para a bancada tida como oposição, formada pelos partidos de esquerda, que queriam avanços maiores:

PDT - 26 constituintes.

PT. 16 constituintes.

PCB - 3; PCdoB - 3; PSB - 2.  Num total de 50.  Houve uma pequena minoria que não assinou o documento, por falta de concordância.

No dia da promulgação, o Presidente da Assembleia Nacional Constituinte pronunciou um discurso que entrou para a história brasileira. Pincei três frases famosas:

"Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais".

"Traidor da Constituição é traidor da Pátria". E a mais famosa de todas:

"Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo".

XXXXX

E vamos à bancada paranaense: 

1. Airton Cordeiro. PDT. 1942 - 2019. Curitiba.

2. Alarico Abib. PMDB. 1937 - 2016. Andirá.

3. Alceni Guerra. PFL. 1945 -             . Soledade. Pato Branco.

4. Antônio Ueno. PFL. 1923 – 2011. Uraí.

5. Basílio Vilani. PMDB. 1940 – 2011. Bauru – Curitiba.

6. Borges da Silveira. PMDB. 1940 -      . Lapa.

7. Darcy Deitos. PMDB. 1944 – 2013. Campo Mourão.

8. Dionísio Dal Prá. PFL. 1929 – 2014. Paranavaí.

9. Ervin Bonkoski. PMDB. 1936 – 2015. Curitiba.

10. Euclides Scalco. PMDB. 1936 – 2021. Francisco Beltrão.

11. Hélio Duque. PMDB. 1942 -       .

12. Jacy Scanagatta. PFL. 1934 – 2023. Cascavel.

13. José Carlos Martinez. PMDB. 1948 – 2003. Curitiba.

14. José Tavares. PMDB. 1949 – 2021. Londrina.

15.Jovanni Masini. PMDB.  1930 – 2010. Ponta Grossa.

16. Matheus Iensen. PMDB. 1937 – 2019. Curitiba.

17.Mattos Leão. PMDB. 1946 – 1999. Guarapuava.

18. Maurício Fruet. PMDB. 1939 – 1998. Curitiba.

19. Maurício Nasser. PMDB. 1952 -      . Curitiba.

20. Max Rosenmann. PMDB. 1944 – 2008. Curitiba.

21. Nelton Friedrich. PMDB. 1947 -       . Toledo – Cascavel.

22. Nilso Sguarezi. PMDB. 1940 -       . Pato Branco.

23. Osvaldo Macedo. PMDB. 1941 -         . Londrina.

24. Osvaldo Trevisan. PMDB. 1937 – 2020. Londrina. Cornélio Procópio.

25.Renato Bernardi. PMDB. 1937 – 1996. Maringá.

26. Renato Johnson. PMDB.

27. Santinho Furtado. PMDB. 1931 – 2015. Santo Antônio da Platina.

28. Sérgio Spada. PMDB. 1951 -        . Foz do Iguaçu.

29. Tadeu França. PMDB. 1946 -         . Maringá.

30. Waldyr Pugliesi. PMDB. 1936 -  2026.  Arapongas.

E três senadores, ou quatro: Afonso Camargo, Álvaro Dias (participou dos primeiros debates, licenciando-se depois para assumir o governo do Estado), Leite Chaves (que assumiu após o afastamento de Álvaro Dias) e José Richa. 

Colhi esses dados a partir do Google. Durante ou logo após o processo constituinte houve muitas movimentações partidárias. Se incorri em erro, perdão.



sábado, 17 de outubro de 2026

Dossiê RIO GRANDE DO SUL.

Vou agrupar nesse post, as três resenhas de livros que li recentemente. Eles se constituem numa bela incursão ao estado do Rio Grande do Sul, às suas raízes, às suas origens históricas. Isso em muito ajuda a compreender o espírito do povo rio-grandense, ou ao povo gaúcho nos tempos atuais. Também marca um retorno às minhas próprias origens, uma vez que eu sou nascido na pequena cidade de Harmonia, à época, o terceiro distrito de Montenegro. Essa lembrança me fez acrescentar um quarto livro que, mais especificamente, fala da colonização alemã e da presença nela, dos padres jesuítas, os padres da Companhia de Jesus.

O primeiro dos livros. A formação do Rio Grande do Sul. Jorge Salis Goulart.

Vamos então a cada um dos livros. O primeiro, A formação do Rio Grande do Sul, de autoria de Jorge Salis Goulart. Um livro datado no entorno dos anos 1930.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/a-formacao-do-rio-grande-do-sul-jorge.html

O segundo livro, O regionalismo gaúcho, do autor norte-americano Joseph L. Love, livro que eu  considero como um dos melhores sobre a República Velha brasileira. Ele retrata o período da proclamação da República, até os anos 1930 e a Revolução de Getúlio Vargas. E por óbvio, os grandes personagens do período: Flores da Cunha, Borges de Medeiros, o senador Pinheiro Machado e  também Getúlio Vargas.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/o-regionalismo-gaucho-joseph-l-love.html 

O terceiro livro é de autoria de Tau Golin, A ideologia do gauchismo. Uma visão crítica da formação histórica do Rio Grande do Sul e do culto às suas tradições. Um livro que certamente gerou muitas polêmicas e contestações, mas um livro extremamente necessário para entender muitas das peculiaridades do estado.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/a-ideologia-do-gauchismo-tau-golin.html

O quarto livro, eu o li no ano de 2017, A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul, de autoria do padre Ambrósio Schupp, S.J.. Um livro com a marca da erudição dos padres jesuítas. Um importante documento histórico. No post, uma foto do icônico padre Oscar Mallmann, vigário de Harmonia por mais de cinquenta anos.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/11/a-missao-dos-jesuitas-alemaes-no-rio.html

E um bom mergulho na história e na cultura do Rio Grande do Sul, enquanto eu vou curtindo um saudosismo que me remete às origens. Boas leituras.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

A IDEOLOGIA DO GAUCHISMO. Tau Golin.

Se preparem que aí vem polêmica! Depois de ler o ufanista livro de Jorge Salis Goulart - A formação do Rio Grande do Sul e o acadêmico livro de Joseph L. Love - O regionalismo gaúcho e revirando minhas estantes, encontrei este, de Tau Golin - A ideologia do gauchismo. A primeira edição é do ano de 1985. Eu li o da terceira edição. A dedicatória tem tudo a ver com o teor do livro. Uma homenagem a seu pai. À memória de Leonel Golin, camponês e, depois, proletário.

A ideologia do gauchismo. Tau Golin. Ed. tchê! 3º edição. 

A primeira coisa que eu fiz foi saber sobre o autor. No Google aparecem dados de sua formação (Mestrado, doutorado e professor da Universidade de Passo Fundo - Tudo voltado à história do Rio Grande do Sul - mas poucos dados pessoais). Estes eu encontrei numa longa e ilustrativa entrevista dada pelo historiador a Luís Augusto Fisher, no dia 3 de agosto de 2024. Bem atual, portanto. Por essa entrevista deduzi que Tau nasceu em Capinzal (Rio do Peixe, SC.), no ano de 1955. Depois teve passagens por São Gabriel, Santa Maria e Missões. Sua formação acadêmica se deu em Porto Alegre e o seu ingresso na Universidade de Passo Fundo, no ano de 1996. Seus estudos teóricos foram precedidos e acompanhados pela sua vivência, como ativista político, como homem de teatro, estudioso autodidata e profundo conhecedor do Rio Grande. Sua formação de pós graduação está toda voltada à construção das fronteiras do Rio Grande do Sul.

Seu livro, como o título indica, tem como objetivo mostrar que o tradicionalismo gaúcho se constitui numa ideologia. Daí parte para mostrar o conceito marxista do termo, dentro da concepção revolucionária da Luta de Classes, como um de seus componentes. O modo como a classe dominante vê a realidade passa a ser construída como a realidade de toda a sociedade. Por óbvio, atende os interesses do dominante. Assim o tradicionalismo cultua o latifúndio em uma convivência harmoniosa entre o proprietário e os peões em paz e harmonia nunca arranhada. E isso se dá através de uma astuta e sedutora construção histórica. Esse é o teor do livro.

Vamos ver o livro, através de seus capítulos. São quatro, mais dois ilustrativos apêndices. São 174 páginas. Vejamos os títulos dos capítulos: I. O tradicionalismo e sua ideologia; II. O tradicionalismo e a história; III. O tradicionalismo e o poder; IV. O tradicionalismo e a arte. O apêndice I leva o título de - Fragmentos à compreensão da ideologia na arte tradicionalista do RS. e II - Conflito entre o velho e o revolucionário novo. Os capítulos são desmembrados e tem os seus subtítulos.

No de número I. O tradicionalismo e sua ideologia, o primeiro tópico é apresentado como - Tradicionalismo e ideologia, onde os termos são conceituados. Eu sublinhei um parágrafo síntese: "Contraditória nela mesma, supõe uma relação entre senhores e escravos, entre patrões e seus agregados ou peões, que é ao mesmo tempo autocrática e democrática, senhorial e igualitária. Em seu desenvolvimento mais profundo - que atinge em cheio a área da literatura e, nela, especialmente, a prosa de ficção - a ideologia da 'democracia gaúcha' propõe uma interpretação do passado pela idealização da pretensa igualdade racial e social. Assim persegue dois objetivos: explicar as ações humanas pretéritas em função dos valores do presente (isto é, os 'valores da classe dirigente do regime patrimonialista latifundiário); e, num segundo passo, identificar esta reconstrução idílica do passado com determinada camada social, completando a glorificação dos senhores gaúchos" (Página14).

No segundo tópico o título é apresentado como - Origem da prestação de serviço cultural à classe dominante. Isso é datado. Ocorre após a Revolução Farroupilha. O primeiro movimento surge, segundo o autor, com a fundação do Partenon Literário, em 1868. É a literatura idílica da consagração de heróis e datas cívicas. Partenon, uma referência a Atenas. Tau assim conclui o tópico: "É da base desse processo que surgiram as condições propícias para, anos mais tarde, ser criado o Movimento Tradicionalista. Os intelectuais da década de setenta do século XIX estavam voltados, além da arte, aos assuntos públicos, mas a geração que os sucede, da qual fazem parte Júlio de Castilhos, Assis Brasil e Borges de Medeiros, entre outros, já passa a ser constituída pelos donos do poder e usam de sua arte para atuar no processo político em andamento" (Página 23). Formam-se os Grêmios gaúchos, uma nova sociedade literária, que congrega maragatos e chimangos.  Paixão Cortes e Barbosa Lessa são os grandes idealizadores do tradicionalismo.

O segundo capítulo é mais longo e se volta para a construção histórica do movimento - O tradicionalismo e a história. Os tópicos tem títulos e sub títulos: 1. Nasce o tradicionalismo na República Velha e 1.1. O valor fetichista do passado. Com a República nada muda no Rio Grande, pelo contrário, os donos do poder se fortalecem ainda mais, com a constituição de um poder quase que monolítico, apesar das revoluções sangrentas do período da República Velha, quando duas elites se digladiavam. O Partido Republicano Riograndense reinava soberano, com seus caudilhos, Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros. 2. Governo oligárquico e tradicionalismo e 2.1. Prestes desencilha a revolução. O positivismo dá o suporte teórico ao tradicionalismo. Ele fornece dados racionais e científicos para o progresso, que, no entanto não atinge a todos, apenas às elites. Ordem e Progresso é o lema, em outras palavras, conservar melhorando. As crises. 1930 e Vargas. Dá-se a passagem do Estado oligárquico para o Estado Corporativo, sem rupturas. O latifúndio permanece intocável. Prestes enxerga a tudo sob um outro olhar. E uma frase marcante: Cavalo de Comissário não perde carreira.

O terceiro tópico tem o seguinte título: Ressuscita Tradicionalismo. 3.1. Teorização tradicionalista e 3.2. Princípios de dominação tradicionalista. Em 1948 surgem os CTGs. Os meninos do Colégio Júlio de Castilhos. Duas correntes. De um lado Paixão Cortes e Barbosa Lessa, do outro Glaucus Saraiva. Fechar ou não as porteiras. Os 35. Uma continuidade dos Grêmios Literários. O MTG e a submissão às hierarquias. O Primeiro Congresso em 1954, em Santa Maria. Barbosa Lessa e a cartilha - O sentido e o valor do tradicionalismo. Novos congressos, integração dos imigrantes. Criação do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore. Os cuidados com a formação moral e cívica do gaúcho.

Na sequência, no terceiro capítulo, temos cinco tópicos, mostrando o entrelaçamento de interesses entre os tradicionalistas e o poder. - O tradicionalismo e o poder. 1. MTG: atrelamento e subserviência; 2. O Estado se responsabiliza pela tradição. 3. O Estado e o tradicionalismo na mesma trincheira; 4. Os desfiles cívicos dos heróis positivos. 5. A tradição orientada e a desapropriação do popular. No primeiro tópico são apresentados números: de CTGs, de participantes, os seus apoios na mídia, as subvenções públicas e o atrelamento ou controle dos CTGs. pelo MTG. No segundo tópico tem um dito significativo - Como o couro ao boi. Uma forma de dizer da vinculação da dominação nos movimentos tradicionalistas. O latifúndio e os séculos de dominação. Análise dos documentos básicos. Os tradicionalistas e a ocupação de cargos públicos.

No terceiro tópico, uma continuidade. Tradicionalismo e poder trilham a mesma trincheira. O Rio Grande e o seu oásis de paz.  Divergências, apenas de ordem emocional. No quarto tópico é mostrada uma maior vinculação do movimento com o positivismo, numa análise da exaltação dos heróis e das datas cívicas. O mês de setembro e o dia 20 em particular. Os desfiles e a Brigada Militar. Bento Gonçalves, o latifundiário guerreiro (o autor em suas pesquisas encontrou documentos de época que o qualificam como contrabandista de gado). O quinto tópico se ocupa com a mostra dos mecanismos do apagamento dos artistas populares, pelos rígidos controles exercidos pelo movimento.

E rumando para o final, o quarto capítulo examina - O tradicionalismo e a arte, ou aprofundando com a anexação de um dos tópicos, a disciplina podando a arte. São sete tópicos, de abordagem mais rápida. 1. As raízes dos concursos; 2. Rodeio: a festivação do modo de produção pastoril; 3. Festival: relação de troca; 4. A carta de Uruguaiana e a disciplina da arte. Todo o destaque vai para a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, o maior dos festivais; 5. Aqui te canto latifúndio; 6. O tradicionalismo e o artista em uma sociedade de classes; 7. O movimento popular (sangria ao tradicionalismo). Como os títulos dos tópicos são mais autoexplicativos vou me ater ao de número sete. Nele o autor examina alguns artistas e cita outros tantos. Seriam os artistas populares, que romperam cercos. Como o livro foi escrito em 1985, a maioria já são falecidos, alguns bem recentemente, como é o caso de Pedro Ortaça. Mas vamos a eles: Apparício Silva Rillo, Jayme Caetano Braun, Luiz Carlos Borges, Noel Guarany, Cenair Maicá e Pedro Ortaça. Vejam aí os quatro chamados troncos missioneiros. Jayme, Noel, Maicá e Pedro Ortaça. Ah, as missões. Esse tema me fascina.

Os apêndices são fantásticos. Se constituem no exame de letras e de textos de músicas, poemas e livros que corroboram com os temas trabalhados. São confirmações dos argumentos apresentados. Apenas um grande conhecedor da arte gauchesca seria capaz de fazer esse levantamento. O último são dois artigos, retirados do jornal Zero Hora, a respeito de uma canção inovadora sobre São Borja. - Uma canção para São Borja. Antônio Augusto Fagundes a critica, enquanto que Sérgio Jacaré a exalta. 

Um livro acima de tudo corajoso. Se contrapor ao tradicionalismo gaúcho é algo profundamente ousado. O movimento tradicionalista está profundamente enraizado e suas formas são extremamente agradáveis e sedutoras. Os CTGs. são clubes sociais que promovem festas muito apreciadas, como seus bailes, rodeios e a apresentação de suas invernadas. Tau Golin tem o estofo cultural, teórico e prático, necessário para entrar nessa tema com muita propriedade.

 Em 1987 eu integrava o recém fundado CTG Querência da Amizade de Umuarama. Em uma de suas festas teve apresentação artística de um CTG de Erechim, churrasco no Parque de Exposições e baile com o grupo Os Monarcas. Na comitiva veio a Primeira Prenda do tradicionalismo gaúcho, que eu tive a satisfação de hospedar em minha casa. Ela me deixou um presente, que, agora tenho em mãos, para mostrar a dedicatória. É a seguinte: Prá ti Elói - gaúcho desgarrado e saudoso - uma lembrança que trata de um assunto fabuloso. Da Alessandra - 12-07-87. Qual era a lembrança? O sentido e o valor do tradicionalismo. O documento histórico lançado no 1º Congresso Tradicionalista de Santa Maria em julho de 1954, de Barbosa Lessa.

O sentido e o valor do tradicionalismo. Barbosa Lessa. 1º Congresso Tradicionalista (Santa Maria, julho, 1954).

Para entender o sentido histórico do tradicionalismo em suas raízes foi muito importante antes ter lido A formação histórica do Rio Grande do Sul, fundamental para entender a visão idílica do Rio Grande do Sul e de seu povo, na convivência harmoniosa entre o estancieiro e a peonada e, inclusive, numa relação de escravização, tida como branda. Deixo a resenha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/a-formacao-do-rio-grande-do-sul-jorge.html

E um outro livro, de valor extraordinário. O Rio Grande do Sul na República Velha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/o-regionalismo-gaucho-joseph-l-love.html

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O REGIONALISMO GAÚCHO. Joseph L. Love.

Uma surpresa maravilhosa. Movido pela leitura de A formação do Rio Grande do Sul, de Jorge Salis Goulart, continuei no mesmo tom. Tomei outro livro, ainda não lido, de minha estante sobre o mesmo tema. Trata-se de O regionalismo gaúcho, de Joseph L. Love, professor da Universidade de Illinois, que dedicou mais de 50 anos de sua vida aos estudos do Brasil. O regionalismo gaúcho é muito mais do que um estudo regional. Ele é uma aula de História do Brasil e, afirmo com convicção, uma das melhores aulas sobre o Brasil da República Velha.


O Regionalismo Gaúcho. Joseph L. Love. Perspectiva. 1975. Tradução de Adalberto Marson.

O grande tema do livro é a inserção do Rio Grande do Sul na política brasileira, no período da transição da Monarquia para a República e dos primeiros quarenta anos dessa República, conhecida como a República Velha. Esse período é marcado por uma forte ascendência do Rio Grande do Sul, sendo um dos três estados brasileiros na condução política do país: São Paulo, Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. O grande instrumento de afirmação era o Partido Republicano de cada estado, partidos regionais, sem uma unificação nacional. Os grandes nomes na condução do estado foram Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, governador por cinco mandatos, e o senador Pinheiro Machado. Este último atuava diretamente na capital federal, sendo decisivo na articulação das sucessões presidenciais. Uma mistura de pragmatismo e positivismo os mantinha juntos. 

O espírito revolucionário sempre esteve presente na história do estado, mesmo antes do período estudado. A guerra entre os gaúchos e castelhanos foi permanente e o espírito de autonomia se fez presente na Guerra Farroupilha, de 1835. No período específico do estudo se destacaram os movimentos de 1893-1895, a Revolução Federalista e a de 1923 e outras escaramuças ao longo da década de 1920. Para conter essas revoluções a Brigada Militar foi sempre muito fortalecida. A Revolução Federalista foi a mais sangrenta. Tornou-se conhecida como a Revolução da Degola. Mais de dez mil pessoas foram por ela vitimadas. Por curiosidade, deixo aqui o modo como esse processo era executado: 

"Conquanto pudesse ser praticada de diferentes maneiras, a mais típica consistia em matar a vítima do mesmo modo com que se abatia um carneiro. A vítima era forçada a ajoelhar-se de mãos atadas ante seu executor e a colocar sua cabeça entre as pernas de seu algoz, que rasgava suas artérias carótidas num golpe súbito de faca" (Páginas 61-2). Este sangrento episódio também marca a abertura do monumental romance de Érico Veríssimo, O tempo e o vento (Parte 1). O continente - vol. 1. O sobrado. 

O próprio período estudado, da República Velha, termina com uma revolta, iniciada pelo Rio Grande, com a soma de Minas Gerais e da Paraíba e comandada por Getúlio Vargas. E novos nomes entram como protagonistas em nossa história, tanto na situação quanto na oposição: Osvaldo Aranha e, um pouco mais tarde, João Goulart e Leonel Brizola como seus seguidores e herdeiros e Borges de Medeiros e Flores da Cunha como opositores. Esses dois são, inclusive, fundadores da UDN, o Partido de oposição por excelência, a Getúlio Vargas. A história desse período, por sua agitação permanente, certamente não é um período marcado pelo tédio, da paz dos cemitérios.

Vamos a estrutura do livro de 282 páginas, dividido em duas partes: Parte I. Ascensão do castilhismo, com quatro capítulos e a parte II. Estado e Nação, com sete capítulos. O livro foi publicado originalmente em Inglês - Rio Grande do Sul and Brasilian Regionalism - 1882- 1930. A tradução ficou ao encargo de Adalberto Marson. A edição nos Estados Unidos é da editora da Stanford University Press, em 1971 e a brasileira, da Editora Perspectiva, em 1975. O livro integra a coleção - Estudos.

Vamos aos títulos dos quatro capítulos da primeira parte, que tem a denominação de - A ascensão do castilhismo. Lembrando antes, o período estudado, como consta no título da publicação nos Estados Unidos é de 1882 a 1930. 1. Estrutura da Sociedade Gaúcha; 2. Da Agitação à Consolidação; 3. O Terror e a Guerra; 4. A Nova Ordem Republicana. São capítulos que mergulham na formação histórica do estado, do seu desenvolvimento econômico, do traçado de suas fronteiras, da presença dos açorianos, alemães e italianos, dos problemas dos primeiros governos republicanos e suas dificuldades, dos terrores da Revolução Federalista, de suas causas, se é que as houve, e da consolidação da República, ao longo da primeira década do século XX.

Os títulos dos seis capítulos (aos quais se soma um epílogo, como síntese) são: 5. O Rio Grande e a federação; 6. Pinheiro e seu Partido; 7. Ressurgimento da Aliança do Café; 8. Duas eleições: Acordo e Discórdia; 9. Disciplina Política e Revolta Militar; 10. A última crise. É a segunda metade do período da República Velha, ou seja, de 1910 a 1930. O maior tempo é dedicado às sucessões presidenciais e, isso se justifica. Um candidato, uma vez indicado pelos grandes partidos republicanos de São Paulo, Minas e do Rio Grande, era também o presidente eleito. Os mecanismos eleitorais garantiriam a eleição. Os tumultos ocorriam na indicação. Pinheiro Machado sempre foi o grande articulador, até a sua morte, por assassinato, em setembro de 1915.

Outros temas são as formas que a política assumia, como a política dos governadores, do coronelismo, do salvacionismo, do café com leite... Outros temas presentes: A revolta de 1924, a ascensão dos tenentes e, por óbvio, o esgotamento desses quarenta anos, com as transformações que o Brasil vinha sofrendo, como a urbanização, a industrialização e o surgimento de partidos classistas em substituição aos regionais. Tudo isso, acrescido da crise econômica mundial de 1929, que atinge em cheio a economia cafeeira. No mínimo, novos atores políticos e sociais sobem ao palco da política brasileira e não como meros coadjuvantes, mas sim, como protagonistas. O Brasil passa a ser cada vez mais um país unificado e, nacionalista.

Eu selecionei um trecho do epílogo, que mais ou menos sintetiza esse período: "Para determinar a sucessão presidencial, os partidos políticos de São Paulo e Minas Gerais normalmente trabalhavam juntos, mas em 1910 o PRR (RS) também entrou na disputa. As três máquinas capacitavam-se a dominar a política nacional dada a força econômica e eleitoral de seus estados; se necessário, podiam em reforço recorrer a forças para-militares. Os três partidos ocupavam uma posição favorável à aquisição de apoio, mediante subvenções a jornais, eram capazes de preencher a metade da votação total numa eleição presidencial e podiam confiar em seus exércitos estaduais para impedir uma intervenção presidencial. Os líderes dos três partidos autônomos, agindo em conjunto, podiam evitar a crise inerente a cada sucessão presidencial. Um desacordo entre os três podia, às vezes, ser resolvido por uma legislação econômica compensatória; em São Paulo e em Minas isso comumente traduzia-se na defesa do café e no Rio Grande vantagens para as atividade pastoris. Desacordo de outro tipo significava uma eleição contestada que punha em perigo o sistema político. Isso aconteceu nas três disputas presidenciais seriamente contestadas da República Velha, as de 1910, 1922 e 1930" (Páginas 264-5). Deixo ainda a contracapa do livro:

"Com este livro Joseph L. Love revela uma perspectiva pouco usual sobre período de grande interesse e importância na História do Brasil. Enquanto a segunda metade da República Velha tem sido geralmente examinada nos termos da aliança dominadora 'café-com-leite' formada por S. Paulo e Minas, o presente texto oferece um ângulo estadual diverso, atento às características próprias do padrão histórico do Rio Grande do Sul, como, por exemplo, as circunstâncias que o levaram a negociar mais com outros estados. A justa relevância dada pelo autor a este padrão faz com que o resultado venha a ser menos a história de um Estado do que a sua dinâmica interna e externa dentro da Federação. O período abarcado vai de 1882 a 1930 e entre as várias figuras destaca naturalmente a de Getúlio Vargas. Gaúcho nascido na fronteira, Getúlio de certa forma personaliza o aspecto duplo de tal dinâmica. Sua atuação política inicialmente tomou o feitio regionalista e democrata liberal para desembocar futuramente em um centralismo e nacionalismo de tipo autoritário. Assim, a forma como a modernização do país se liga a aspectos ora de centralização, ora de descentralização, encontra neste livro o tema e a figura à sua medida constituindo o todo do trabalho menos um estudo regional fechado do que uma maneira de tratar o regionalismo em termos de processo brasileiro". Isso ajuda a explicar também o título do livro.

Deixo a resenha do post anterior, sobre A formação do Rio Grande do Sul.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/a-formacao-do-rio-grande-do-sul-jorge.html

sábado, 3 de outubro de 2026

A formação do Rio Grande do Sul. Jorge Salis Goulart.

Em primeiro lugar algumas considerações sobre o livro. A formação do Rio Grande do Sul, de autoria de Jorge Salis Goulart. Ele teve a sua primeira edição no ano de 1927 e a sua edição definitiva no ano de 1934. A edição que tenho em meu poder e que eu li, data de 1985 e é uma coedição da Editora da Universidade de Caxias do Sul com Martins Livreiro. Jorge Salis Goulart nasceu no ano de 1899 e morreu em 1934, na cidade de Pelotas. O autor pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e tem o seu foco, tanto na história, quanto na sociologia.

A formação do Rio Grande do Sul. Jorge Salis Goulart. Martins Livreiro e EDUCS. 1985

O livro precisa ser visto como um livro de época. Ele é um reflexo preciso dos conceitos do tempo em que ele foi escrito. Hoje, ele seria considerado como um livro preconceituoso. Vejamos uma passagem em que ele fala da composição racial da Argentina e a sua diferença com a do Rio Grande do Sul. " [...] Mais tarde, em 1835, aumenta ainda mais a quantidade do elemento superior na seguinte ordem: 92.000 brancos, 30.500 negros, 10.000 índios, 18.000 mestiços. Vê-se que, quando deflagrou a revolução, os mestiços eram 18.000 e os brancos puros 92.000. O contrário sucedia no Prata. Sobrepujavam ali os elementos inferiores com uma profunda mestiçagem [...]. Vejam aí conceitos da época. Superioridade branca, efeitos da mestiçagem, branqueamento etc... São dados importantes para entendermos o espírito de uma época. 

A edição que tenho em mãos tem apresentação de Laudelino T. Medeiros (1914-1999) e datada de 1978. Ela termina assim: "Pelos temas tratados e o material informativo acumulado, embora algumas teses possam ser discutidas, é um livro que deve ser incluído numa bibliografia clássica sobre o Rio Grande do Sul". Antes ele destaca as qualidades do livro, como o seu pioneirismo na abordagem sociológica na formação do Rio Grande do Sul, no tempo em que a sociologia chega ao Brasil como ciência nova, que torna possíveis as análises mas que também "explica imperfeições na obra de Salis Goulart; mas, ao mesmo tempo, o seu mérito". São tempos de determinismo geográfico, que o autor tenta superar e faz uma referência a outra obra que destaca os fatores geográficos na formação histórica. Trata-se de Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Na introdução, o autor apresenta o norte que inspirou a escrita de seu livro. Vejamos: "Foi Vidal de la Blanche, seguido de perto pelos modernos intérpretes da geografia social, quem melhor definiu a relação entre homem e a terra.

Em vez do antigo fatalismo do meio, o que se deve ter em conta são simples possibilidades da geografia para influir sobre os acontecimentos históricos.

Por outra parte, como se tem visto, não se pode negar as influências das forças sociais e raciais sobre os fatos humanos.

Reconhecendo esses três fatores na formação das sociedades formulamos duas leis sociológicas que poderemos chamar leis da oposição e combinação das forças, como no mundo físico as de combinação de forças". 

Li o livro com o mapa do Rio Grande do Sul permanentemente aberto. O rio Guaíba e a Lagoa dos Patos, Os rios formadores do Guaíba, o rio Uruguai, as diferentes regiões geográficas, a presença dos açorianos, dos alemães e italianos, a campanha e o cavalo, os povos das Missões e as eternas lutas contra os castelhanos. Todos estes elementos constam na formação da espinha dorsal do livro. Antes de apresentar esta estrutura, um elogio, mas não um elogio qualquer. Ele é de Érico Veríssimo, autor da maior epopeia histórica sobre o Rio Grande: "Quero dizer muito humildemente como me sinto pequeno quando penso numa inteligência como a de Jorge. Ele é, a meu ver, das inteligências mais notavelmente lúcidas que o Brasil produziu". 

O livro está estruturado em duas partes, além da apresentação e introdução. A primeira parte tem os seguintes títulos: O povoamento. A democracia. O sentimento Religioso e a Religião. A teatralidade. A sociabilidade e o Individualismo. A formação do Estado e Síntese política da Sociologia Rio-Grandense. Na segunda parte aborda o futuro do Rio Grande do Sul, e se ocupa dos seguintes temas: O problema das raças, o crepúsculo das Revoluções e sobre a formação da mentalidade Rio-Grandense. Tem ao todo 208 páginas. Todos os capítulos começam com uma pequena síntese. Vou apresentá-las:

Povoamento. Caráter dispersivo do litoral. A grande estrada da civilização rio-grandense. Colonização açoriana e alemã. As três zonas de povoamento: florestas, estepes e litoral. As zonas geográficas e as classes sociais: agricultores e fazendeiros. A grande estrada é uma referência ao estuário do rio Guaíba e a Lagoa dos Patos. Os açorianos são os primeiros povoadores, do Rio Grande a Porto Alegre. Os tropeiros. Viamão e o interior. Os alemães em São Leopoldo e Estância Velha. Os selvagens (sic). A expansão: o gado na campanha e a agricultura nas colônias alemãs.

A democracia. A estância (Fazenda) como célula social. A família. Regime particularista e espírito comunitário. Evolução da família. Organização social. Inexistência de castas econômicas, sacerdotais, militares, profissionais e intelectuais. O prezar dos valores da democracia e da liberdade. As estâncias e a unidade familiar. A altivez nas relações sociais. Os tropeiros e a devoção ao cavalo. Ausência da aristocracia e da autocracia. A união em torno do comum. Fartura de alimentos. Do gado só o couro era comercializado. Não se ligava para a carne. O charque veio posteriormente. Essa influencia na escravidão e nas relações. Poucos escravos. Um militarismo menos hierarquizado. O povoamento e a ocupação das fronteiras. Os inimigos castelhanos. Vejamos o final do capítulo: "Em resumo: a natureza rio-grandense determinou a vida pastoril e o sistema de criação aqui adotado, formado de acordo com o meio, agiu no sentido da democracia.

As tradições paulistas e portuguesas eram também democráticas. Todas as forças, pois, contribuíram para que a fraternidade gaúcha fosse uma das mais nobres expressões da nossa alma coletiva"  

O sentimento religioso e a religião. Diminuição do sentimento religioso. Inexistência do fanatismo. Suas causas. Pouco prestígio do padre em face do militar. O caráter espanhol das missões do (rio) Uruguai. A felicidade do gaúcho. Animismo e cristianismo. "Povo sem religião". Foi a observação de St. Hilaire. No entanto, a religiosidade sempre foi profunda. A quase ausência de sacerdotes. Em vez deles, militares. A fúria contra as missões. As missões eram jesuíticas e os jesuítas eram identificados com os inimigos castelhanos. Exaltação ao bandeirante. A escravidão "branda". Sem fanatismos, tipo Canudos. Presença do catolicismo e outros credos. Dom João Becker.

A teatralidade. A função social do cavalo. Psicologia das batalhas. Diferenciação psicológica entre o gaúcho e o sertanejo do nordeste. A teatralidade do gaúcho foi observada por Euclides da Cunha. A cavalaria, a arma do gaúcho. A maior miséria era não ter um cavalo. O cavalo, ao par da mulher. O capricho com os arreios. A infantaria, em 1835, era formada pelos escravizados. O centauro dos pampas e as lutas em campo aberto. As diferenças com relação ao sertanejo. 

A sociabilidade e o individualismo. Função social da organização militar. Causas sociais e psicológicas que agiram na formação da alma gaúcha: a hospitalidade, a alegria, a generosidade. O pensamento de Nietzsche e a moderna corrente sociológica. A organização militar compensando a baixa densidade populacional. O militar e o elevado prestígio social. A sociabilidade a todos irmanou. A brandura da escravidão. O amor pela terra, o apego cívico e a alegria vistos por St. Hilaire. Sempre disposto a festas e rodeios e propenso à alegria. O palco da natureza e o trabalho como diversão, além da habitual franqueza e lealdade. A fartura dos alimentos. O maior desembaraço das mulheres. O inimigo era externo, os castelhanos. O cavalo e a superação da ausência de estradas e pontes. A moral do senhor e do servo não vingou no Rio Grande.

A formação do Estado. Diferenciação entre o povo rio-grandense e o platino. Fator étnico e o fator social. Dissemelhanças psicológicas. A psicologia da Revolução de 1835 e do caudilhismo platino. O nomadismo hispano-americano. A alma portuguesa e a alma espanhola. A insociabilidade do caudilho hispano-americano. Psicologia do mestiço. Diferenciação geográfica. O núcleo geográfico da formação do estado. A força social portuguesa contrária ao fatalismo geográfico. A força diferenciadora do meio. Diferenciação entre o rio-grandense, o paulista, o mineiro e o catarinense.  O sentimento de autonomia e federação como uma resultante  da força social e da influência geográfica. Neste capítulo é que aparecem os conceitos de superioridade e inferioridade das raças, dos efeitos da mestiçagem, sempre com elogios ao Rio Grande do Sul, que sofreu menos com estes fatores. Tenho a destacar deste capítulo a militarização da sociedade em função da necessidade da ocupação territorial. Estava programada a abertura de uma estrada que ligava Tubarão à Colônia do Sacramento. Destaca também um grande número de cidades que se originaram de acampamentos militares, como Rio Grande, Pelotas, Santa Vitória, Bagé, São Gabriel, Rio Pardo, Itaqui, Alegrete, Santa Maria, Caí, Torres... Também as Missões ganham uma abordagem especial. 

Síntese política da sociologia rio-grandense. O sentimento republicano. Os governos militares. Organização política de 35. Sentimento federativo. A reação contra o espírito de 35. Formação do Partido Liberal. O partido Conservador. Félix da Cunha, Gaspar da Silveira Martins, Osório. Silveira Martins ministro. Reação anti-republicana. Silveira Martins tenta reviver o partido conservador. Júlio de Castilhos. O positivismo de Castilhos. O caráter rio-grandense e o positivismo. A ligação política e filosófica do pensamento republicano com o espírito de 35. Lamennais e Comte. Um povo federativo e republicano. Exaltação às figuras republicanas do Rio Grande, bem como ao positivismo de Castilhos e Borges de Medeiros.

Quanto a segunda parte, tem O problema das raças. O coeficiente de negros, índios e brancos. Mapa etnográfico. Caracteres somáticos dos alemães e italianos. Dolicocéfalos e braquicéfalos. A natalidade dos descendentes de alemães italianos e rio-grandenses. Integração das populações na vida rio-grandense. Questão do clima. A missão do Rio Grande do Sul. Deixo apenas a frase final do capítulo: "E o Rio Grande do Sul, numa eclosão radiosa de pensamento e sensibilidade, há de ter uma das mais belas civilizações americanas".

O crepúsculo das revoluções. A evolução da vida econômica e a sua influência sobre os acontecimentos. A agricultura e a criação. A industrialização das estâncias. O papel do automobilismo. Futuro de paz e de progresso. Já a partir de 1923 o Rio Grande mostra a sua má vontade para com a guerra. Já não quer ceder cavalos e mantimentos. O automóvel começa a substituir o cavalo e o operariado industrial, à moda europeia, começa a apresentar as suas reivindicações.

A formação da mentalidade rio-grandense. O autor salienta que a formação do Rio Grande do Sul ocorre junto com as grandes revoluções do mundo contemporâneo e assim conclui o capítulo: "Surgido o Rio Grande do Sul quase às portas da revolução francesa, esses sentimentos de individualismo, de liberdade, de declaração de direitos, de democracia que se exageram consideravelmente, como já vimos, com a criação do Novo Mundo, tem que influir predominantemente na nossa coletividade.

Por isso, o florescimento das doutrinas  do enciclopedismo na Revolução de 35, do liberalismo de Rousseau, Mably e da 'Jovem Itália', do liberalismo econômico de Quesnay.

Certo, a disciplina do exército refreou os excessos desse espírito liberal e individualista.

Mas é iniludível que o aspecto geral da formação da mentalidade rio-grandense recebe uma iluminação preciosa à luz destes estudos que plasmam a nossa fisionomia histórica no meio das grandes correntes da evolução humana". Em suma, um livro muito valioso. Dois livros são bastante citados pelo autor. Um é Viagem ao Rio Grande do Sul, de Auguste Saint Hilaire e o outro é de Oliveira Viana, Populações meridionais do Brasil. Deste eu tenho o post  da resenha do livro, que apresento:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/07/um-banquete-no-tropico-32-populacoes.html


       



quinta-feira, 1 de outubro de 2026

DOSSIÊ MAQUIAVEL.

Seria Maquiavel (1469-1527) o pensador político mais importante de todos os tempos? Não sei responder essa questão. Apenas posso afirmar que ele se situa, seguramente, entre os de maior importância. Ele é o fundador do pensamento político moderno. O que entendemos por isso? Nas aulas de história aprendemos que os tempos modernos se situam entre os anos de 1453 e 1789. A tomada de Constantinopla e a Revolução Francesa, respectivamente.

Com a tomada de Constantinopla, em consequência, ocorreram as grandes navegações, na busca de novos caminhos para o comércio. E ele se intensificou muito. Novos atores e novos interesses entram em cena. A política cresce em importância. Os governos precisam ser mais estáveis para salvaguardar interesses poderosos e de gente cada vez mais poderosa. A política precisa garantir estabilidade de poder. Dos governantes se exigirão novas qualificações, fora de formulações ideais - de como a política deveria ser. Ela passa a ser, agora, como ela efetivamente é. A política será exercida pelos homens em sociedade e, cada vez mais, distante de formulações morais e religiosas. Do teocentrismo se passa para o antropocentrismo. Nesse cenário é que atuará Maquiavel, para dar aos governantes - ao PRÍNCIPE - conselhos sobre as qualidades ou virtudes das quais deveriam ser portadores.

O Príncipe. Maquiavel. L&PM Pocket. 2007. Tradução: Antonio Caruccio-Caporale.

Agrupo neste post, várias resenhas que fiz sobre diferentes leituras para uma maior aproximação com esse importante pensador. Este é o post que eu chamo de dossiê Maquiavel. Nele, primeiramente, apresento uma resenha de um ensaio biográfico sobre o teórico que deu início à política na era da modernidade, de autoria do professor Newton Bignotto, da Universidade Federal de Minas Gerais, com doutorado sobre o tema:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

Depois, segue a apresentação do pensador no livro Os clássicos da política, vol. 1., de autoria da professora Maria Tereza Sadek, especialista no pensamento do florentino. Além de seus comentários, ela seleciona as principais passagens dos dois principais livros seus: O Príncipe e Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/nicolau-maquiavel-o-cidadao-sem-fortuna.html

Na sequência, uma revista temática, História Viva. O enfoque da revista é o pensador florentino, que iniciou os estudos da política nos tempos da modernidade, caracterizada pela ação dos homens, da verdade efetiva dos fatos, com a eliminação de todos os elementos idealizados. A política é como ela é, não como ela deveria ser. Um belo documento histórico:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/historia-viva-maquiavel-o-genio-de.html

E, finalmente, o famoso livrinho. Conselhos para os príncipes de um novo tempo, tempos de humanismo, do renascimento, de antropocentrismo. Os famosos tempos modernos. O Príncipe. A partir de suas observações práticas como chanceler da República de Florença, oferece conselhos aos príncipes, dentro de uma nova realidade, com a ascensão de novas forças econômicas, de novos atores e de novos interesses:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/o-principe-maquiavel.html

Maquiavel continua extremamente atual. Ele precisa ser mais estudado, especialmente nesses tempos bicudos, em que, pelos meios de comunicação de massa, da indústria cultural, se procuram criar mitos idealizados para oferecerem soluções absolutamente incabíveis em nossa realidade. Tempos em que também, a toda hora, aparecem novos moralistas, novos  Savonarolas, como................... Deixo para vocês o preenchimento com os nomes de suas preferências. 

Espero ter dado uma modesta contribuição para uma melhor compreensão de tão importante pensador da teoria política. Conhecê-lo é uma exigência desses tempos tão conturbados.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DOSSIÊ CHINA. DA REVOLUÇÃO DE 1949 ATÉ OS DIAS DE HOJE.

Um dos fatos mais importantes dos últimos tempos é, sem dúvida, a ascensão econômica e da importância política nas relações internacionais da República Popular da China. Ninguém que queira, ao menos minimamente, estar ao par dos acontecimentos, pode ficar alheio a essa ascensão. Recentemente li quatro livros sobre o tema, fiz as suas resenhas e as deixei registradas no blog. Este post de agora tem por finalidade deixá-las registradas num único espaço.


China - o socialismo do século XXI e China - Tradição e modernidade na governança do país.

Os dois primeiros livros eu já os tinha em minha estante. Comprei-os ainda na década de oitenta. Os dois últimos são livros recentes. Eles tem uma ampla abrangência e envolvem a história e a cultura desse povo singular. O foco principal, no entanto, é o entorno do ano de 1949, quando a Revolução, sob a liderança do Partido Comunista e sob o comando de Mao Tsé-Tung, se tornou vitoriosa. Passa pela Revolução Cultural (1966-1976), na qual Mao promoveu expurgos que visavam a preservação dos princípios revolucionários e chega às últimas reformas, iniciados ao final do ano de 1978, sob o governo de Xiaoping, e que, rapidamente, transformaram a economia chinesa na segunda maior economia do mundo. Um mundo a ser desvendado. Foram leituras muito proveitosas  e ilustrativas. Uma espécie de introdução aos estudos sobre esta nova potência mundial de nossos tempos.

O primeiro dos livros nos remete à história da China, especialmente ao longo do século XX. Um país de latifúndios, de economia fechada e de guerras externas e internas. Foram longos anos de Guerra Civil, até chegar o ano de 1949, quando a Revolução de Mao se torna vitoriosa e é proclamada a República Popular da China. O grande foco do livro é Mao.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/pro-e-contra-mao-organizacao-do-texto-m.html

O segundo livro é de autoria de um dos conhecidos estudiosos do tema, Wladimir Pomar. Ele integra a coleção Revoluções do século XX. A sua publicação é do ano 2003. O livro examina todo o complexo processo revolucionário, desde suas origens, vitória e consolidação. O livro termina com o exame já das reformas do final dos anos 1980, quando se iniciam as reformas políticas e econômicas da China do século XXI.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/10/a-revolucao-chinesa-wladimir-pomar.html

O terceiro livro já é dos tempos da China dos dias de hoje. A sua primeira edição é do ano de 2021. China - O socialismo do século XXI. A autoria é dos pesquisadores Elias Jabbour e Alberto Gabriele. O livro é dividido em duas partes: I. Capitalismo e socialismo como modos de produção e II. A China como a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais: a construção de seu macrossetor produtivo. Não é um livro de leitura fácil. Ele pressupõe conhecimentos de história econômica e de economia clássica. Mas vale muito a pena a sua leitura.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html

O quarto livro é de 2024. China - Tradição e modernidade na governança do país. O autor é Evandro Menezes de Carvalho. Ele é professor da Universidade de Língua e Cultura de Pequim. O livro é dividido em três partes: I. Da perda à retomada de rumo para a nação chinesa; II. Compreendendo os pilares institucionais da governança da China; III. O governo de Xi Jinping e a "nova era" pela revitalização da China. Um mergulho, por inteiro, na cultura chinesa e no governo atual de Xi Jinping. Super recomendo.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/china-tradicao-e-modernidade-na.html

Espero dessa forma deixar a minha modesta contribuição para com todos aqueles que queiram se iniciar nesse tão importante e apaixonante tema.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O PRÍNCIPE. Maquiavel.

Depois de ler sobre Maquiavel, creio termos atingido as condições necessárias para ler a sua principal obra e, termos dela, uma razoável compreensão. Vamos então, a algumas questões fundamentais de O Príncipe, no ousado intuito de oferecer algumas dicas que possam, possivelmente, servir de guia para a sua leitura. Sempre ouço falar das dificuldades em sua leitura. Ela decorre dos detalhes históricos que sempre são apresentados para ilustrar a sua argumentação. Ele é um livro de época e, escrito para a sua época. E essa época é de grandes transformações. Uma época em que o poder é arrebatado dos céus e passa a ser exercido aqui na Terra, pelos homens. E esses homens precisam ter algumas qualidades, sem as quais o fracasso dos príncipes será uma mera questão de tempo. Forças exteriores e superiores aos humanos não mais intervirão nos destinos da política.

O príncipe. Maquiavel. L&PM Pocket. 2007. Tradução do italiano: Antonio Caruccio-Caporale.

Datas são importantes. Não para serem decoradas, mas para serem contextualizadas. Dito isso, vamos a Maquiavel e situá-lo no tempo e no espaço. Ele nasceu no ano de 1469 e morreu em 1527, na cidade de Florença, na destroçada e dividida Itália de seu tempo. São tempos do Humanismo e do Renascimento. É retomada a visão clássica de mundo, dos gregos e romanos. A visão antropocêntrica se contrapõe a uma visão teocêntrica de mundo. Na casa de seus pais não havia grande riqueza material, mas havia a coleção dos volumes da história de Roma, de Tito Lívio. Isso dá origem a um outro grande livro do pensador - Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio e a outro importante princípio seu, a importância do estudo da história passada para a interpretação do tempo presente.

A visão que Maquiavel tinha dos seres humanos também é fundamental para a compreensão de sua obra. Vamos primeiramente ver uma definição sua a respeito: "Dos homens, em realidade, pode-se dizer genericamente que eles são ingratos, volúveis, fementidos, e dissimulados, fugidios quando há perigo, e cobiçosos. Enquanto ages em seu benefício, e contanto que a tua necessidade esteja ao longe, todos estão ao teu lado e oferecem-te o seu sangue, os seus bens, as suas vidas e os seus filhos. Ao avizinhar-se, porém, essa necessidade, eles esquivam-se. Um príncipe que se fie inteiramente na palavra desses homens, sem prover-se de quaisquer outras garantias, sucumbirá" (Capítulo XVII).

Outra questão importante diz respeito ao caráter repetitivo dessas características. Elas pertencem à própria natureza humana. E como são repetitivas, elas são previsíveis. Cabe ao príncipe fazer essas previsões e, a forma de fazê-lo, será o estudo da história, dos grandes príncipes do passado, especialmente, os do tempo de Roma, do seu período republicano. A história lhe dará exemplos de como agir e não agir. Eis a importância da presença dos livros de Tito Lívio em sua casa.

Também considero fundamental que se saiba algo em torno da forma da escrita de O príncipe. A forma é a do aconselhamento. Quando ele tinha em torno de 30 anos, ele exerceu um importante cargo político (segundo chanceler). Isso lhe conferiu bastante experiência política, assimilada a partir de suas observações e análises. Assim ele se viu na condição de dar conselhos aos governantes de seu tempo, aos príncipes. Quais os tipos de principados existiam, quais as qualidades necessárias ao príncipe, o que ele deveria evitar, que tipos de exércitos ele deveria ter, que estratégias aplicar... etc., etc. Estes conselhos estão ao longo de toda a obra, mas se concentram mais quando ele fala especificamente do príncipe. A leitura é bastante facilitada pelos títulos que ele dá aos 26 capítulos da obra, uma espécie de síntese de cada um deles.

A grosso modo, assim eles são apresentados: Do I ao XI ele fala sobre os principados. Os resultantes de conquistas, dos hereditários, dos mistos, exemplos históricos de como foram governados, sobre a importância do príncipe ter o povo a seu lado, sobre a prudência no agir, no medir a correlação de forças. Na sequência, dos capítulos XII ao XIV ele fala dos vários tipos de exército, de soldados mercenários, de forças próprias, do conhecimento do príncipe a respeito da estratégia militar. Mas creio que não erramos, em apontar nos capítulos XV ao XXV, o coração, a centralidade da obra, ao apontar as qualidades do príncipe para os novos tempos. Tempos em que a política não mais se guiará por desígnios divinos, mas estará na mão dos príncipes. Dela advirão os conceitos fundamentais da obra.

Já no capítulo XV, aparece o conceito da verdade efetiva das coisas. Da política como ela é e não como ela deveria ser. Vejamos: "Contudo, sendo o meu intento escrever coisas úteis àqueles que as lerão, parece-me mais conveniente conformar as minhas palavras à verdade efetiva do meu objeto que a uma visão imaginária do mesmo. Muitos foram os que conceberam repúblicas e principados que jamais foram vistos ou reconhecidos como tais" (Capítulo XV). Mas vamos adiante, com o título dos capítulos, acrescidos de alguma citação ou observação.

Capítulo XVI. Da liberalidade e da parcimônia. Que capítulo atual! Versa sobre os gastos do príncipe. Se ele agir perdulariamente ele terá que explorar o povo para praticar as suas liberalidades, o que não será um bom caminho. Vejam a pregação de hoje contra os impostos para cobrir os gastos públicos com os direitos sociais. Capítulo XVII. Da crueldade e da piedade, e se é melhor ser amado que temido ou o contrário. Vejamos, a partir do próprio Maquiavel. "Nasce daí o debate: se é melhor ser amado que temido ou o inverso. Dizem que o ideal seria viver-se em ambas as condições, mas, visto que é difícil acordá-las entre si, muito mais seguro é fazer-se temido que amado, quando se tem de renunciar a uma das duas" (Capítulo XVII). Isso é uma decorrência da sua concepção da natureza humana, tema exatamente tratado neste capítulo, possivelmente o mais importante do livro.

Capítulo XVIII. Como devem os príncipes honrar a sua palavra. Mais polêmicas à vista. Vejamos também pelo autor. "Em sendo assim, o príncipe deve fazer por onde alcançar e sustentar o seu poder: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos elogiados, e isto porque apenas às suas aparências e às suas consequências ater-se-á o vulgo, este vulgo cuja presença é predominante no mundo". É o capítulo onde aparece a famosa comparação com os animais. A astúcia do lobo e a força do leão. Vejamos as razões pelas quais o príncipe nem sempre precisa cumprir com a sua palavra: "Portanto, não pode nem deve um soberano prudente cumprir as suas promessas quando um tal cumprimento ameaça voltar-se contra ele e quando se diluem as próprias razões que o levaram a prometer. Se os homens fossem bons, bom não seria esse preceito; mas, visto que eles são pérfidos e que, em teu favor, tampouco honrariam a sua palavra, etiam tu não tens de sentir-te no dever de, em seu favor, honrar a tua".

O capítulo XIX é o mais longo dos capítulos. O seu título é: subtraindo-se ao desprezo e ao ódio. O que o príncipe não pode ser. Ele deve furtar-se de ser odiado e desprezado. Ele será odiado e desprezado "ao ser encarado como volúvel, fraco e leviano, e como pusilânime e irresoluto". Ao contrário disso, ele "deverá precaver-se contra isso como contra um escolho marinho, e empenhar-se para que em suas ações transpareça a grandeza, a coragem, a austeridade e a firmeza". É outro conceito fundamental em Maquiavel. O príncipe deverá ser dotado da virtù, para que, por ela, seja merecedor da fortuna. Ao príncipe é imprescindível a aliança entre a virtù e a fortuna. Isso está maravilhosamente exposto no penúltimo capítulo, o de número XXV, onde ele também explicita a forma pela qual o príncipe seduzirá a fortuna: "Dito isso, concluo que, sendo a sorte (fortuna) inconstante e os homens obstinados em suas formas de agir, estes serão felizes pelo tempo em que com ela convergirem e desditosos quando dela divergirem. E considero o seguinte: que vale mais ser impetuoso que circunspecto, pois que a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa, é preciso batê-la e maltratá-la [sic]. Notamos que ela deixa-se melhor dominar por quem assim procede do que pelos que se portam com frialdade. Por esse motivo, como é mulher, ela é sempre amiga dos jovens: estes são menos judiciosos, mais aguerridos e mais audazes ao comandá-la".

Voltemos agora ao capítulo, em nossa sequência, ao capítulo XX. - Se as fortalezas e tantas outras coisas produzidas pela ação quotidiana dos príncipes são úteis ou não. Ele pondera entre o armar e desarmar o povo, para evitar dissidências e revoltas e, depois de mostrar vantagens e desvantagens, dá o conselho de que a melhor forma de intentar os seus objetivos é o ser benquisto e respeitado pelo povo. No capítulo XXI, - Como deve portar-se um príncipe para fazer-se benquisto, a exortação mais uma vez se volta às qualidades do príncipe, ele "deve esmerar-se  para oferecer de si, em cada gesto seu, a ideia de um homem com grandeza e que excele no pensar". De novo, a ideia da virtù. E o que acontece aos não portadores dela: "Os príncipes irresolutos, para escapar a esses perigos, seguem, o mais das vezes, pela via da neutralidade, e o mais das vezes caem em ruína". O príncipe deve sempre posicionar-se com resolução e firmeza. 

O capítulo XXII - Dos ministros dos príncipes e o XXIII - Como escapar dos aduladores me parecem temas mais óbvios. Os aduladores são tidos por Maquiavel como verdadeiras pestes, mas o príncipe, também, jamais deve abrir mão de bons conselhos e bons conselheiros. O capítulo XXIV fala da ruína da Itália de seu tempo, dividida e esfacelada, em razão de nenhum príncipe ter a virtù necessária para promover a sua unificação e retornar ao período da grandeza dos tempos de Roma, sua fonte e inspiração, especialmente os tempos da República, regime pelo qual demonstra sempre sua preferência. Ao capítulo XXV já fizemos a referência, às relações entre a virtù e a fortuna.

Já o último capítulo, o de número XXVI - Exortação à tomada da Itália e à sua libertação dos Bárbaros. É a razão de ser da escrita do livro: "Não se deve portanto, deixar passar esta ocasião: a Itália, tanto tempo passado, há de ver, enfim, a chegada do seu redentor. E faltam-me palavras para exprimir com que amor seria ele recebido em todas aquelas províncias que padeceram com o alúvio invasor dos estrangeiros; com que sede de vingança, com que inabalável fé, com que devoção, com que lágrimas. Que portas fechar-se-lhe-iam? Que povos negar-lhe-iam a obediência? Que inveja ser-lhe-ia oposta? Que italiano negar-lhe-ia o respeito? A cada um repugna esta dominação bárbara. Que a vossa ilustre casa assuma esta missão, com aquela esperança de que são tomadas as justas iniciativas, a fim de que, sob o seu estandarte, nossa Pátria seja engrandecida, e a fim de que, sob os seus auspícios, se comprove este dito por Petrarca: 'Bravura contra o furor // tomará armas; o destruirá num zás // que o antigo valor // no peito italiano inda não jaz'".

Ah sim! Ainda falta a dedicatória - De Nicolau Maquiavel para o magnífico Lourenço de Médicis, certamente no afã, da volta a um cargo público. Depois de considerações várias ele assim conclui: "Destarte, receba, Vossa Magnificência, este singelo dom com o mesmo espírito que anima-me a enviá-lo. Lendo-o e considerando-o atentamente, nele notará meu grande anseio de que Ela eleve-se à majestade que a fortuna e que os seus outros atributos lhe prometem. Se Vossa Magnificência, do alto de sua magnanimidade, vez por outra voltar os olhos para cá embaixo, saberá o quanto me degrada suportar o meu fado (fortuna) infinda e perenemente funesto".

E uma última frase. Eu a tenho anotado num livro que faz a abordagem de Maquiavel. A frase é de Le Goff, mas não apontei a fonte. Ela é profundamente esclarecedora: "O poder político sai em favor das forças econômicas". Por isso, os principados precisam de estabilidade de poder, e tudo fazer para mantê-la. Talvez isso se traduziria, nos dias de hoje, pela necessidade de segurança jurídica.

Deixo ainda os posts relativos a interpretações de O príncipe. Primeiramente o ensaio bibliográfico de Newton Bignoto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

Depois a apresentação de seu pensamento por Maria Tereza Sadek para o livro Os clássicos da política.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/nicolau-maquiavel-o-cidadao-sem-fortuna.html

E, a revista História Viva.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/historia-viva-maquiavel-o-genio-de.html

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

História Viva. Maquiavel, o gênio de Florença. O homem que revolucionou o pensamento político.

Tenho em minha biblioteca algumas revistas que são verdadeiras preciosidades. Entre elas está  História Viva - Grandes temas - edição especial temática número 15, da Duetto Editorial. O tema da edição especial é Maquiavel, o gênio de Florença - O homem que revolucionou o pensamento político. São 98 páginas de contextualização histórica, de análise e de repercussão da principal obra do gênio, que viveu na cidade de Florença entre os anos de 1469 a 1527. O esplendor da principal cidade do Renascimento ocorreu entre os séculos XIV e XVI. Esta revista, com certeza, mereceria outra edição especial, na forma de livro.

Revista História Viva. Grandes temas. Maquiavel, o gênio de Florença.

Como no meu blog estou fazendo algumas resenhas em torno de Maquiavel, eu não quero deixar de por os leitores  em contato com um dos trabalhos mais bem feitos em torno do seu O Príncipe. Mas como o espaço do blog não é apropriado para análises mais longas, vou tentar, ao menos, apresentar os temas abordados por diferentes especialistas e dar destaque a algumas frases essenciais presentes na obra. Creio que vai ser bastante útil. São 20 os temas abordados. Apresento o título do Sumário, o título do artigo e os subtítulos. Vejamos:

Apogeu cultural. Os 300 anos em que Florença esteve no centro artístico e político do mundo. A autoria é de Maria Berbara (Páginas 6 a 19). 300 anos no epicentro comercial e cultural do mundo. - O controle dos Médici foi fundamental para elevar o poderio econômico e expansionista da região italiana. - A partir de Dante, a língua italiana seria estabelecida, e a partir de Giotto, as artes visuais ganhariam unidade. - No final do século XIV, Florença viveu uma série de desastres naturais, políticos e financeiros, que levaram a cidade à beira do cataclismo, com a revolta dos Ciompi, os fiadores de lã. A família Médici emergiu na arena política ao final do século XVI. Uma cilada, preparada por uma família rival, levou uma tragédia ao lar dos Médici; Giuliano foi assassinado, - Savonarola assume o poder de Florença com o objetivo de livrar a cidade do profano: cosméticos, jogos, livros e arte. - A Contra-Reforma fez Florença abandonar seu projeto republicano, que havia sobrevivido por 400 anos. Os Médici governariam até 1737.

Galeria de arte. O ápice do Renascimento e as obras que marcaram o século XVI. O texto tem a assinatura de Luiz Marques (Páginas 20 a 29). Galeria de arte Florentina. - Como nos indica o título, trata-se de uma galeria onde figuravam as principais obras de arte do período.

O príncipe inspirador. A ascensão de César Bórgia, o filho do papa, que quase unificou a Itália. A autoria do texto coube a  Alain Decaux (Páginas 30 a 39). César Bórgia, o protagonista da obra prima. - O homem que melhor incorporou a ideia de que os fins justificam os meios trocou o hábito religioso pelas armas e tentou barbaramente reunificar a Itália. Na suntuosa Roma, César Bórgia viveu sua ascensão como filho de um grande senhor, no caso, o papa Alexandre VI. - A preferência explícita do pai pelo irmão alimentava o ódio em César, ao mesmo tempo que o afastava das armas. -  Com a sensação de ter o mundo nas mãos, César solidificou a amizade com o rei francês Luís XII e combateu a seu lado. - Com a morte de Alexandre VI, o duque Valentino (César) perdeu tudo. Exilou-se no reino de Navarra, onde viveu sua batalha final.

Contexto histórico. A compreensão do pensamento de Maquiavel é indissociável da análise de sua época. O texto, mais uma vez é de Luiz Marques (Páginas 40-41). Consta de um mapa político da época de Maquiavel e uma sugestiva frase: "Não inflige dor um porco a outro um cervo a outro: somente o homem outro homem mata, crucifica e despoja" (O asno, de Maquiavel).

Vida e obra. Pontos cruciais do percurso do pensador florentino. É mais um texto de Luiz Marques (Páginas 42 a 43). Trajetória para a criação de uma filosofia. Entre a prática e a análise, momentos determinantes na vida do florentino.

Biografia. A vida do secretário da República que se tronou o mais brilhante historiador e teórico da política florentina. Outro texto de Luiz Marques (Páginas 44 a 53). De homem de Estado a pensador político. - Maquiavel colocou a serviço da República toda sua lucidez para entender e antever os momentos cruciais de Florença.  - Em suas legações pela Europa conhece César Bórgia e Leonardo da Vinci, que se tornaria seu grande amigo. - Livre da prisão e da tortura, Maquiavel retirou-se para Percussina, onde escreveu sua grande obra, O príncipe. - De volta à vida política, o pensador florentino viu sua bandeira triunfar, mas já era tarde para a Itália.

A gênese da obra. Durante o exílio forçado, Maquiavel compõe seu livro mais célebre. A autoria é de Luiz Marques (Páginas 54-55). No exílio nasce o teórico. Afastado de Florença, Maquiavel mantém uma rotina simples e intelectualmente produtiva. 

A natureza das coisas. O teórico visita as questões morais da tradição clássica e mostra no Príncipe, que a política é fruto da história real dos homens. A autoria é de Newton Bignotto ( Páginas 56 a 59). O Príncipe - a história real dos homens. - Na sua célebre obra, Maquiavel muda o tradicional foco de análise e aprende com o regime existente. - Maquiavel procede a uma luta feroz contra a tradição, produzindo uma nova compreensão do que seja a política. 

Os jogos do poder. As considerações morais apresentadas por Maquiavel em dois momentos de sua vida. O texto é de José Alves de Freitas Neto (Páginas 60 a 63).  A Moral do Poder. - As incômodas considerações éticas sobre como os governantes devem proceder para serem amados e temidos pela população. - Maquiavel não distingue ética de política em sua obra, mas faz críticas a uma certa ética cristã e aos resultados que esta provocou na Itália. 

Nem manual, nem tratado. Obra de Maquiavel deve ser lida como uma explicação sobre a busca da manutenção do poder. A autoria coube a Rafael Ruiz. (Páginas 64 a 67). De Aristóteles à tradição moderna. Maquiavel rompe com o modelo clássico ao considerar a capacidade de obter resultados de um governante, mais importante que a moral. - O homem prudente de Maquiavel, que sabe usar o momento, as ações e as palavras para bem governar, pode não existir, é utópico.

A cidade vista por dentro. Livro encomendado por um Médici retrata o amor do pensador por Florença. O texto é de Helton Adverse (Páginas 68-69). A visão pessoal da cidade. - Obra encomendada pelo cardeal Médici marca a volta de Maquiavel à vida política.

Influência do pensamento. O legado das ideias de Maquiavel percorre cinco séculos de filosofia política. O texto novamente é de Luiz Marques (Páginas 70-71). A Fortuna crítica.

A reação iluminista. Voltaire assina refutação dos escritos do florentino. Outro texto de Luiz Marques (Páginas 72 a 75). Voltaire contra a arte da maldade. - O filósofo francês, revisou os manuscritos, editou e assinou o prefácio para o libelo Anti-Maquiavel, escrito por Frederico II, rei da Prússia. - A crítica de Voltaire visa historiografia, que tendia a justificar o absolutismo, e sobretudo Amelot de la Houssaye, o tradutor para o francês.

Contra o moralismo. Hegel analisa O Príncipe como metáfora do Estado. Mais um texto de Luiz Marques (Páginas 76 a 79). Entre o Renascimento italiano e a Alemanha de HEGEL. Filósofo critica moralistas e transforma a figura do príncipe de Maquiavel na imagem de um poder legítimo e universal, metáfora do Estado. Para Hegel, Maquiavel soube ter o frio juízo a ver que, para salvar a Itália, era preciso unificá-la em um único Estado.

Escritos do cárcere. Para Gramsci, Maquiavel encarna revolução falida. Mais uma vez Luiz Marques (Páginas 80 a 83). - Gramsci e a revolução burguesa falida. Nos escritos do pensador italiano, Maquiavel ocupa uma posição central, como o teórico dos Estados Nacionais regidos pela monarquia absoluta. 

Eternas interrogações. Raymond Aron e o caráter enigmático do autor. De novo Luiz Marques (Páginas 84 a 87). Aron e as interrogações sem resposta. Para o pensador francês, O Príncipe é uma obra cuja clareza aparente ofusca e cujo mistério e os simples leitores tentam em vão penetrar. 

Mal versus liberdade. Strauss ressalta o pensamento diabólico. Novamente Luiz Marques é o autor do texto (Páginas 88 a 91). Strauss e o retorno do "Old Nick". Para o filósofo do neoconservadorismo norte-americano, os Estados Unidos são o único país fundado em uma explícita oposição aos princípios maquiavélicos.

O Príncipe e a prosa. De Sanctis situa escritos na história literária. Texto mais uma vez de Luiz Marques (Páginas 92-93). A prosa italiana moderna por DE SANCTIS. Sem preocupar-se com a forma, o pensador florentino teria criado um modo puro de escrever.

A verdade libertadora. Para Papini, Maquiavel põe à mostra a feiura que ninguém quer ver. Outra vez, texto de Luiz Castro (Páginas 94 a 97). Papini e o estilo realista no pós-guerra. Polêmico e pragmático, o escritor defende e compara sua prosa ao modelo duro adotado por Maquiavel. 

Ponto final.  Por Antônio Valverde. (Página 98). Como ler Maquiavel hoje. Compreender o escritor florentino atualmente é pensar a política como ação que mira o bem público futuro.

Deixo ainda os dois posts anteriores sobre o pensador. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/nicolau-maquiavel-o-cidadao-sem-fortuna.html




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

NICOLAU MAQUIAVEL. O cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù. Maria Tereza Sadek.

O meu segundo post sobre Maquiavel é retirado do livro Os clássicos da política. Volume 1. Maquiavel - Hobbes - Locke - Montesquieu - Rousseau - O federalista. O livro é organizado por Francisco Weffort e os comentários e os textos selecionados dos diferentes autores ficaram a cargo de renomados especialistas sobre cada autor. O livro é uma preciosidade. O comentário sobre Maquiavel coube a Maria Tereza Sadek e tem um belo título, já uma espécie de síntese de seu pensamento. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù.


Os clássicos da política. Volume I. Francisco Weffort, organizador. Ática. 2002.

Conheço bem este livro. O utilizei muito, quando professor de Teoria Política na Universidade Positivo. A forma do livro obedece a um critério maravilhoso. A análise feita pelo especialista é acompanhada por textos, especialmente da obra principal do autor, ou então, somando outros livros para explicitar melhor o seu pensamento. Se constitui assim, num extraordinário guia para ler a obra ou obras do autor, na sua íntegra. Nos comentários também já encontramos a indicação ou a localização na obra dos principais enfoques trabalhados. Dentro das limitações do texto, não há capítulos, mas aparecem grifadas as ideias centrais do autor, para facilitar a leitura.

No primeiro tópico, Sadeck nos apresenta o adjetivo e o substantivo - maquiavélico e maquiavelismo, onipresentes no debate político atual. Os termos, absolutamente pejorativos, tem o significado de perfídia, traição, astúcia, velhacaria, entre outros tantos similares. Maquiavel recebeu, inclusive, o nome de Old Nick, um apelido do diabo. Ele é acusado de ser o inspirador de todos os tiranos. Posteriormente foi reabilitado pelos maiores nomes da ciência política. 

O segundo tópico, as desventuras de um florentino já nos apresenta o pensador em seu tempo e espaço. Maquiavel nasceu na cidade de Florença, (1469 - 1527), um dos cinco Estados, que marcaram a península italiana até o ano de 1494, graças aos esforços de Lourenço, o Magnífico. Depois houve um caos generalizado. A instabilidade política era total. Os governantes duravam menos de dois meses no poder, nos conta Sadeck. Maquiavel sempre foi um aluno estudioso e brilhante. Mas o seu ingresso na vida pública demorou para acontecer. O primeiro cargo de destaque lhe veio aos 29 anos, em 1498, após o governo do moralista Savonorola. Ele foi deposto, enforcado e queimado, uma pequena amostra da política de seu tempo. Maquiavel ocupou a Segunda Chancelaria, cargo de grande relevância, mas por pouco tempo. Foi torturado, preso e acusado de conspiração. Exilado em sua própria cidade se dedica à reflexão e à escrita. Estas obedecem a uma descrição de sua experiência à frente de um importante cargo político. Seu último trabalho foi o de escrever a história de sua cidade, uma encomenda de sua Universidade. A República de Florença o considerou como um inimigo seu. Desgostoso e amargurado adoeceu e morreu.

No terceiro tópico, A verdade efetiva das coisas, a comentadora entre na análise de seu pensamento. A um amigo seu Maquiavel confidenciou que estava destinado a escrever sobre o Estado. "Não o melhor Estado, aquele tantas vezes imaginado, mas que nunca existiu. Mas o Estado real, capaz de impor a ordem", nos afirma a comentadora. Ela continua: "Seu ponto de partida e de chegada é a realidade concreta. Daí a ênfase na verità effettualle - a verdade efetiva das coisas. Esta é sua regra metodológica: ver e examinar a realidade como ela é e não como se gostaria que ela fosse". Isso é absolutamente determinante em seu pensamento. Contraria assim a visão dominante do idealismo na política e o fato gerador das instabilidades. Aí vem a missão do príncipe. Vejamos, mais uma vez a comentadora:

"A ordem, produto necessário da política, não é natural, nem a materialização de uma vontade extraterrena, e tampouco resulta do jogo de dados do acaso. Ao contrário, a ordem tem um imperativo: deve ser construída pelos homens para se evitar o caos e a barbárie, e, uma vez alcançada, ela não será definitiva, pois há sempre, em germe, o seu trabalho negativo, isto é, a ameaça de que seja desfeita". Isso posto, o que mais é fundamental no famoso pensador florentino? O estudo da natureza humana e como nela intervir.

Assim o tema do quarto tópico é Natureza humana e história. Sobre esta natureza vem uma das mais conhecidas frases do autor, contida no capítulo XV: "São ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante os perigos, ávidos de lucro". Estas características são constantes ao longo da história. Por isso mesmo, o estudo da história é importante fonte para o estudo da política e de seu objetivo primordial na manutenção da ordem e da estabilidade do poder. A história é cíclica, ela se repete. Vejamos o que nos diz a comentadora: "O poder político tem, pois, uma origem mundana. Nasce da própria 'malignidade' que é intrínseca à natureza humana. Além disso, o poder aparece como única possibilidade de enfrentar o conflito, ainda que qualquer forma de 'domesticação' seja precária e transitória. Não há garantias de sua permanência. A perversidade das paixões humanas sempre volta a se manifestar, mesmo que tenha permanecido oculta por algum tempo".

O quinto tópico aborda a questão dos regimes. Anarquia X Principado e República. No capítulo IX, Maquiavel fala do Príncipe. Além da natureza humana, outras duas forças contribuem para a tendência ao caos e à anarquia política: Uma delas quer dominar e a outra não quer ser dominada. Diante disso, qual é a forma que o Estado deve adquirir para que haja a estabilidade social. Como conseguir a estabilidade no jogo dessa correlação de forças? Existem duas possibilidades: O principado e a República. O Príncipe será aquele que deverá eliminar o caos inicial, quando ele assume o poder. Depois ele deverá instaurar a República, fundada nas leis e nas instituições. Assim Sadeck encerra este tópico: "Face à Itália de sua época - dividida, corrompida, sujeita às invasões externas - Maquiavel não tinha dúvidas: era necessário sua unificação e regeneração. Tais tarefas tornavam imprescindível o surgimento de um homem virtuoso capaz de fundar um Estado. Era preciso, enfim, um Príncipe". Mas quais seriam as virtudes desse Príncipe?

Virtù X Fortuna. Estes são possivelmente os dois conceitos mais polêmicos na obra de Maquiavel. Se não polêmicos, ao menos, os que lhe causaram mais dissabores. Para explicá-los, recorreu aos clássicos. Lembremos que estamos na época do Humanismo e do Renascimento. Lembremos ainda, que na concepção de Maquiavel a política era uma prática de homens, sem freios extra terrenos, sujeitos de sua própria história. Esta prática, afirma a comentadora "exigia virtù, o domínio sobre a fortuna".

Fortuna era a deusa possuidora dos bens mais desejados pelos homens, como a honra, a riqueza, a glória, o poder. Ela era uma deusa feminina e adorava o jogo de sedução. Ela favorecia aos que possuíam a qualidade da virtù, "um homem de verdadeira virilidade, de inquestionável coragem. Assim, o homem que possuísse virtù no mais alto grau seria beneficiado com os presentes da cornucópia da Fortuna", nos afirma Sadeck. Era o oposto das virtudes cristãs, em vigor na época. A deusa Fortuna tinha poderes sobre o destino dos homens. Estamos chegando ao final do livro. Vejamos o título do capítulo XXV, o penúltimo da obra: O quanto influi a fortuna nas coisas humanas e como reagir a elas. As qualidades exigidas do Príncipe são agora, as de um homem viril, enérgico e determinado diante dos acontecimentos. Mas toda a parte final, já a partir do capítulo XV, Maquiavel destina às qualidades necessárias ao Príncipe para os tempos modernos. Sadeck assim encerra seus comentários:

"É desta perspectiva que ganha um novo sentido a discussão sobre as qualidades do príncipe. Este deveria ser bom, honesto, liberal, cumpridor de suas promessas, conforme rezam os mandamentos da virtude cristã? Maquiavel é incisivo: há vícios que são virtudes. Não tema pois o príncipe que deseje se manter no poder 'incorrer no opróbrio dos defeitos mencionados, se tal for indispensável para salvar o Estado' (Capítulo XV). Os ditames da moralidade convencional podem significar a sua ruína". E assim arremata:

"A política tem uma ética e uma lógica próprias. Maquiavel descortina um horizonte para se pensar e fazer política que não se enquadra no tradicional moralismo piedoso. A resistência à aceitação da radicalidade de suas proposições é seguramente o que dá origem ao 'maquiavélico'. A evidência fulgurante deste adjetivo acaba velando a riqueza das descobertas substantivas.

O mito, uma constante em sua obra, é falado para ser desmistificado. Maquiavel não o aceita como quer a tradição - algo natural e eterno.  Recupera no mito as questões que aí jaziam adormecidas e pacificadas. E, ao fazer isto, subverte as concepções acomodadas, de há muito estabelecidas, instaurando a modernidade no pensar a política. Ora, desmistificar tem sempre um alto risco. O cidadão florentino pagou-o em vida e sua morte não lhe trouxe o descanso do esquecimento. Transformado em mito, é novamente vitimado.

O pensamento político moderno e crítico, para decifrar o enigma proposto em sua obra, precisa resgatá-lo sem preconceitos e em sua verità effettualle. É o que se deve a Nicolau Maquiavel, o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtù".

Nos textos selecionados, Maria Tereza, apresenta parte dos capítulos I a XII, do XIV e XV, dos XVIII ao XXII, do XXV e XVI.

Já dos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, ela analisa o capítulo IV e V, o VII, o IX, o XI, e os do XVI ao XVIII.

Deixo ainda a resenha do post anterior, a análise do professor Newton Bignotto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html