quarta-feira, 2 de setembro de 2026

NICOLAU MAQUIAVEL. O cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù. Maria Tereza Sadek.

O meu segundo post sobre Maquiavel é retirado do livro Os clássicos da política. Volume 1. Maquiavel - Hobbes - Locke - Montesquieu - Rousseau - O federalista. O livro é organizado por Francisco Weffort e os comentários e os textos selecionados dos diferentes autores ficaram a cargo de renomados especialistas sobre cada autor. O livro é uma preciosidade. O comentário sobre Maquiavel coube a Maria Tereza Sadek e tem um belo título, já uma espécie de síntese de seu pensamento. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù.


Os clássicos da política. Volume I. Francisco Weffort, organizador. Ática. 2002.

Conheço bem este livro. O utilizei muito, quando professor de Teoria Política na Universidade Positivo. A forma do livro obedece a um critério maravilhoso. A análise feita pelo especialista é acompanhada por textos, especialmente da obra principal do autor, ou então, somando outros livros para explicitar melhor o seu pensamento. Se constitui assim, num extraordinário guia para ler a obra ou obras do autor, na sua íntegra. Nos comentários também já encontramos a indicação ou a localização na obra dos principais enfoques trabalhados. Dentro das limitações do texto, não há capítulos, mas aparecem grifadas as ideias centrais do autor, para facilitar a leitura.

No primeiro tópico, Sadeck nos apresenta o adjetivo e o substantivo - maquiavélico e maquiavelismo, onipresentes no debate político atual. Os termos, absolutamente pejorativos, tem o significado de perfídia, traição, astúcia, velhacaria, entre outros tantos similares. Maquiavel recebeu, inclusive, o nome de Old Nick, um apelido do diabo. Ele é acusado de ser o inspirador de todos os tiranos. Posteriormente foi reabilitado pelos maiores nomes da ciência política. 

O segundo tópico, as desventuras de um florentino já nos apresenta o pensador em seu tempo e espaço. Maquiavel nasceu na cidade de Florença, (1469 - 1527), um dos cinco Estados, que marcaram a península italiana até o ano de 1494, graças aos esforços de Lourenço, o Magnífico. Depois houve um caos generalizado. A instabilidade política era total. Os governantes duravam menos de dois meses no poder, nos conta Sadeck. Maquiavel sempre foi um aluno estudioso e brilhante. Mas o seu ingresso na vida pública demorou para acontecer. O primeiro cargo de destaque lhe veio aos 29 anos, em 1498, após o governo do moralista Savonorola. Ele foi deposto, enforcado e queimado, uma pequena amostra da política de seu tempo. Maquiavel ocupou a Segunda Chancelaria, cargo de grande relevância, mas por pouco tempo. Foi torturado, preso e acusado de conspiração. Exilado em sua própria cidade se dedica à reflexão e à escrita. Estas obedecem a uma descrição de sua experiência à frente de um importante cargo político. Seu último trabalho foi o de escrever a história de sua cidade, uma encomenda de sua Universidade. A República de Florença o considerou como um inimigo seu. Desgostoso e amargurado adoeceu e morreu.

No terceiro tópico, A verdade efetiva das coisas, a comentadora entre na análise de seu pensamento. A um amigo seu Maquiavel confidenciou que estava destinado a escrever sobre o Estado. "Não o melhor Estado, aquele tantas vezes imaginado, mas que nunca existiu. Mas o Estado real, capaz de impor a ordem", nos afirma a comentadora. Ela continua: "Seu ponto de partida e de chegada é a realidade concreta. Daí a ênfase na verità effettualle - a verdade efetiva das coisas. Esta é sua regra metodológica: ver e examinar a realidade como ela é e não como se gostaria que ela fosse". Isso é absolutamente determinante em seu pensamento. Contraria assim a visão dominante do idealismo na política e o fato gerador das instabilidades. Aí vem a missão do príncipe. Vejamos, mais uma vez a comentadora:

"A ordem, produto necessário da política, não é natural, nem a materialização de uma vontade extraterrena, e tampouco resulta do jogo de dados do acaso. Ao contrário, a ordem tem um imperativo: deve ser construída pelos homens para se evitar o caos e a barbárie, e, uma vez alcançada, ela não será definitiva, pois há sempre, em germe, o seu trabalho negativo, isto é, a ameaça de que seja desfeita". Isso posto, o que mais é fundamental no famoso pensador florentino? O estudo da natureza humana e como nela intervir.

Assim o tema do quarto tópico é Natureza humana e história. Sobre esta natureza vem uma das mais conhecidas frases do autor, contida no capítulo XV: "São ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante os perigos, ávidos de lucro". Estas características são constantes ao longo da história. Por isso mesmo, o estudo da história é importante fonte para o estudo da política e de seu objetivo primordial na manutenção da ordem e da estabilidade do poder. A história é cíclica, ela se repete. Vejamos o que nos diz a comentadora: "O poder político tem, pois, uma origem mundana. Nasce da própria 'malignidade' que é intrínseca à natureza humana. Além disso, o poder aparece como única possibilidade de enfrentar o conflito, ainda que qualquer forma de 'domesticação' seja precária e transitória. Não há garantias de sua permanência. A perversidade das paixões humanas sempre volta a se manifestar, mesmo que tenha permanecido oculta por algum tempo".

O quinto tópico aborda a questão dos regimes. Anarquia X Principado e República. No capítulo IX, Maquiavel fala do Príncipe. Além da natureza humana, outras duas forças contribuem para a tendência ao caos e à anarquia política: Uma delas quer dominar e a outra não quer ser dominada. Diante disso, qual é a forma que o Estado deve adquirir para que haja a estabilidade social. Como conseguir a estabilidade no jogo dessa correlação de forças? Existem duas possibilidades: O principado e a República. O Príncipe será aquele que deverá eliminar o caos inicial, quando ele assume o poder. Depois ele deverá instaurar a República, fundada nas leis e nas instituições. Assim Sadeck encerra este tópico: "Face à Itália de sua época - dividida, corrompida, sujeita às invasões externas - Maquiavel não tinha dúvidas: era necessário sua unificação e regeneração. Tais tarefas tornavam imprescindível o surgimento de um homem virtuoso capaz de fundar um Estado. Era preciso, enfim, um Príncipe". Mas quais seriam as virtudes desse Príncipe?

Virtù X Fortuna. Estes são possivelmente os dois conceitos mais polêmicos na obra de Maquiavel. Se não polêmicos, ao menos, os que lhe causaram mais dissabores. Para explicá-los, recorreu aos clássicos. Lembremos que estamos na época do Humanismo e do Renascimento. Lembremos ainda, que na concepção de Maquiavel a política era uma prática de homens, sem freios extra terrenos, sujeitos de sua própria história. Esta prática, afirma a comentadora "exigia virtù, o domínio sobre a fortuna".

Fortuna era a deusa possuidora dos bens mais desejados pelos homens, como a honra, a riqueza, a glória, o poder. Ela era uma deusa feminina e adorava o jogo de sedução. Ela favorecia aos que possuíam a qualidade da virtù, "um homem de verdadeira virilidade, de inquestionável coragem. Assim, o homem que possuísse virtù no mais alto grau seria beneficiado com os presentes da cornucópia da Fortuna", nos afirma Sadeck. Era o oposto das virtudes cristãs, em vigor na época. A deusa Fortuna tinha poderes sobre o destino dos homens. Estamos chegando ao final do livro. Vejamos o título do capítulo XXV, o penúltimo da obra: O quanto influi a fortuna nas coisas humanas e como reagir a elas. As qualidades exigidas do Príncipe são agora, as de um homem viril, enérgico e determinado diante dos acontecimentos. Mas toda a parte final, já a partir do capítulo XV, Maquiavel destina às qualidades necessárias ao Príncipe para os tempos modernos. Sadeck assim encerra seus comentários:

"É desta perspectiva que ganha um novo sentido a discussão sobre as qualidades do príncipe. Este deveria ser bom, honesto, liberal, cumpridor de suas promessas, conforme rezam os mandamentos da virtude cristã? Maquiavel é incisivo: há vícios que são virtudes. Não tema pois o príncipe que deseje se manter no poder 'incorrer no opróbrio dos defeitos mencionados, se tal for indispensável para salvar o Estado' (Capítulo XV). Os ditames da moralidade convencional podem significar a sua ruína". E assim arremata:

"A política tem uma ética e uma lógica próprias. Maquiavel descortina um horizonte para se pensar e fazer política que não se enquadra no tradicional moralismo piedoso. A resistência à aceitação da radicalidade de suas proposições é seguramente o que dá origem ao 'maquiavélico'. A evidência fulgurante deste adjetivo acaba velando a riqueza das descobertas substantivas.

O mito, uma constante em sua obra, é falado para ser desmistificado. Maquiavel não o aceita como quer a tradição - algo natural e eterno.  Recupera no mito as questões que aí jaziam adormecidas e pacificadas. E, ao fazer isto, subverte as concepções acomodadas, de há muito estabelecidas, instaurando a modernidade no pensar a política. Ora, desmistificar tem sempre um alto risco. O cidadão florentino pagou-o em vida e sua morte não lhe trouxe o descanso do esquecimento. Transformado em mito, é novamente vitimado.

O pensamento político moderno e crítico, para decifrar o enigma proposto em sua obra, precisa resgatá-lo sem preconceitos e em sua verità effettualle. É o que se deve a Nicolau Maquiavel, o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtù".

Nos textos selecionados, Maria Tereza, apresenta parte dos capítulos I a XII, do XIV e XV, dos XVIII ao XXII, do XXV e XVI.

Já dos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, ela analisa o capítulo IV e V, o VII, o IX, o XI, e os do XVI ao XVIII.

Deixo ainda a resenha do post anterior, a análise do professor Newton Bignotto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

 


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

MAQUIAVEL. Newton Bignotto. - Filosofia Passo a Passo.

Vou fazer uma série de posts sobre Maquiavel. Isso se justifica, uma vez que foi Maquiavel, que nos tempos modernos, do Humanismo e do Renascimento, lançou um novo olhar sobre a política. Este novo olhar tornou-se a principal referência de toda a filosofia política da modernidade. Então, a primeira coisa a fazer é situar o autor no tempo e no espaço: Ele é um pensador da cidade italiana de Florença, que nasceu no ano de 1469 e morreu em 1527. A biografia que hoje apresento é de autoria de Newton Bignotto, da coleção - Filosofia Passo a Passo -. Ela é uma biografia ensaio, focado na essência do pensamento do autor. É um pequeno, mas precioso livro, de apenas 76 páginas. Uma precisa síntese, possível apenas, a um profundo conhecedor. Bignotto é doutor pela École de Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Seu orientador foi ninguém mais, nem menos do que Claude Lefort.

Maquiavel. Newton Bignotto. Filosofia Passo a Passo. Jorge Zahar. 2003.

Antes de qualquer observação sobre tão importante personagem, quero registrar o que consta na página 9, logo no início do livrinho, ainda na introdução. Depois de constar que a sua família, embora das mais tradicionais de Florença, não pertencia à aristocracia, - lemos: "Tendo vivido sempre de maneira modesta e mesmo com dificuldades, ele transmitiu ao filho o grande amor pelos livros e pelas coisas do passado. Na casa de Maquiavel o grande luxo eram os volumes de Tito Lívio, historiador romano que era uma referência obrigatória para todos os jovens que se iniciavam no movimento humanista que imperava no período".  Interesse pelo passado e amor pelos livros, de maneira geral e, os livros de Tito Lívio, de modo todo particular. (O historiador Tito Lívio é autor de Ab urbe condita - que traduzido significa - Desde a fundação da cidade -, a mais completa história de Roma. Nos diz a Wikipédia que ela tinha originalmente 142 livros dos quais se preservaram 35). A história de Roma está onipresente no pensamento de Maquiavel.

A referência final da citação também nos lembra outra importante influência na origem do pensador florentino: o movimento humanista. Pelas aulas de história, certamente nos lembramos que o Renascimento e o Humanismo se caracterizaram por uma volta à cultura clássica, ao tempo dos gregos e dos romanos. Essa cultura foi um tanto abafada ao longo do período medieval, uma cultura toda centrada no teocentrismo. Lembremos apenas o título da obra política de santo Agostinho: A cidade de Deus. Com o Humanismo, o homem voltou a ser "a medida de todas coisas", inclusive da política. A política se  refere à Polis, à cidade. Assim a política ou a cidadania, os fatos que ocorrem na cidade, obedecem a determinações tomadas pelos homens, por seus dirigentes em disputa pelo poder. É algo relativo ao -  O Príncipe.

Ainda mais uma observação. Os tempos de Maquiavel são tempos de grande agitação comercial e política. As instituições eram frágeis à medida da volubilidade e das inconstâncias dos homens. Florença não fugia a essa realidade. Maquiavel procurou ler os desejos que a cidade queria ver de seus governantes, de seus príncipes, ou melhor, de seu O Príncipe. Nesses tempos de progresso e enriquecimento o povo queria que os governantes, além de chegarem ao poder, também nele se mantivessem, para assegurar aos cidadãos a paz social através de leis e instituições. A grandeza e o poder de Roma era a sua fonte de inspiração. 

O belo livrinho de Bignotto é de uma meada só. Ele não está separado em capítulos, mas ele tem títulos que servem de guia. Vou preservá-los, assinalando-os. Introdução. Nela é apresentado o pensador, seu meio, a sua cidade e a recepção de suas primeiras influências. César Bórgia e o moralista Savonarola. O secretário florentino. Sua primeira experiência e o contato com a realidade. A história como guia para a interpretação do presente. Como lidar com os povos conquistados - temor ou assimilação. A natureza humana é repetitiva e, portanto, é previsível. César Bórgia e o poder excessivo. A vida solitária: O nascimento de O Príncipe. Após uma derrocada política e pessoal seguem os tempos de reflexão e de escrita. A escrita obedece a forma do aconselhamento. Os conselhos para o príncipe dos novos tempos. Como conquistar o poder e nele se manter. Quando tiver de enfrentar os adversários, deverá conhecê-los. Isso é possível, uma vez que a sua natureza é repetitiva. As pessoas são más, ingratas, volúveis e ávidas de ganho. César Bórgia é uma espécie de modelo de governante. Savonarola, 'um profeta desarmado' e frágil. Alcançou o poder mas nele não se manteve.

A fortuna e a virtù. César Bórgia chegou ao poder pela Fortuna (a divindade grega da sorte, do destino) e nele se manteve pela virtù (a virilidade, a coragem, a energia). Fortuna e virtù são os dois grandes componentes da política, lembrando que a divindade grega Fortuna é feminina, condição que lhe confere o gosto pela virtù. Quando Maquiavel fala de virtu, ele nunca se refere às virtudes cristãs, próprias aos governantes da Cidade de Deus, do período medieval. Ela não provém da ética, nem da religião. É uma exigência do novo tempo. É preferível ser impetuoso a ser circunspecto. O governante não pode tremer ante os perigos. A Fortuna e a Virtù sempre andam juntas, são inseparáveis. A Fortuna sempre sorri e se deixa seduzir pela virtù.

Uma moral para a política. É um dos grandes temas da época e que ensejou grandes debates. Uma época, como já vimos, em que a política começa a se separar e a se distanciar do cristianismo. O príncipe deve se guiar pela - verdade efetiva - e não por uma verdade idealizada., é - o ser -, - o é -, e não o - deve ser -. Uma retomada de Aristóteles. O príncipe se autonomiza diante da ética. A política é um campo independente da moral. O Príncipe deverá decidir. O não uso do poder poderá ser nocivo ao bem, diante da natureza inconstante dos homens. Diante da situação objetiva, isto é, diante da realidade, é preferível ser temido do que amado. Porém, provocar temor em excesso e injustificável também ajudará na queda do príncipe. Os gastos públicos também não permitem muita liberalidade ao Príncipe O indivíduo e o governante obedecem a princípios distintos. O temor também não pode fazer uso constante da violência. O uso da astúcia faz parte da política. Os governados detestam serem enganados. O uso dos conceitos religiosos é bom, mas não podem servir de guia para a política. Lembrando que as melhores armas do Príncipe são o uso das leis e das instituições. Nesse contexto se insere a frase nunca dita por Maquiavel de que os fins justificam os meios.

Maquiavel republicano. O regime republicano tem a sua preferência porque ele enseja mais facilmente as mudanças. Mas, mais uma vez, a realidade dos fatos prevalece sobre a  realidade idealizada. Ele faz a defesa da vida política ativa. Um humanismo cívico no desejo da paz. Resguardar a liberdade e buscar a paz. Enfrentou grandes dificuldades por romper com as concepções do cristianismo medieval. Defende o apego a interesses republicanos (res publica). Liberdade e conflito. Como construir uma República e manter a sua estabilidade? Por uma série de instituições e o enfrentamento dos inimigos com destemor. Diante da assimetria dos desejos humanos, agir com equilíbrio, sem hesitações. Reduzir os conflitos, sem evitá-los quando necessário. A soberania da Lei.

A morte do corpo político. A degradação é um fenômeno natural. A imortalidade pertence aos deuses. Buscar sempre as instituições mais adequadas, dentro da perspectiva da circularidade do tempo. A corrupção é um fenômeno universal que degrada a tudo, seus efeitos são incontroláveis. É preciso criar boas leis no intuito da preservação do Estado. As instituições são o freio aos desejos irrefreáveis. Os dois eixos centrais da política são a liberdade e a igualdade. A não renovação da política corresponde à sua morte. 

Conclusão. Como político, Maquiavel não teve sucesso. Os seus êxitos se situam no campo da permanência de seus princípios ao longo dos tempos modernos. Ele lançou sobre a política um novo olhar, olhar com o qual continuamos a examinar a política até os dias atuais. 

Outro livro de Maquiavel são os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Neste livro Bignotto busca dois textos que em muito ajudam na compreensão geral de seu pensamento político. Nesses textos ele mostra toda a sua admiração por Roma, ao passado romano como possibilidade da interpretação do tempo presente.

No próximo post, recorreremos ao livro Os clássicos da política (volume 1)um livro organizado por Francisco Weffort. Dele tomaremos o primeiro capítulo que versa sobre Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna o intelectual da virtù, de autoria de Maria Tereza Sadek.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Movimento Operário no Brasil (1964-1984). Edgard Carone.

Entre os livros em minha biblioteca não lidos, encontrei este: Movimento operário no Brasil (1964-1984), do historiador Edgard Carone. Não faço ideia de como cheguei ao livro, bem como o motivo de não tê-lo lido. O ano de publicação é o de 1984. O livro integra uma trilogia do autor. Os dois volumes anteriores abrangem os períodos de  1877 a 1944, o primeiro volume e de 1945 a 1964, o segundo volume. Creio ser importante dar uma palavra sobre o teor do livro.

Movimento operário no Brasil. 1964 -1984. Edgar Carone. DIFEL. 1984.

Ele consiste em uma bela síntese do movimento operário a partir do golpe civil-militar de 1964, com a posterior hegemonia militar na condução do governo, apresentada como introdução. A partir daí, o autor se limita a apresentar documentos, como entrevistas, manifestos, textos de livros, resoluções de encontros e congressos dos diferentes grupos e suas versões sobre a realidade brasileira. Creio que a importância do livro para os dias de hoje se dá para os projetos de pesquisa do período. Como livro para simples leitura, é óbvio que ele é importante, mas ele se torna um pouco monótono em sua leitura, uma vez que ele é muito repetitivo, uma vez que as posições dos diferentes grupos são muito semelhantes, divergentes, na maior parte das vezes, nas formas de ação.

Pela importância do livro nos dias de hoje, eu destacaria uma entrevista do presidente Lula, encontrada na parte D do livro, que versa sobre os tempos atuais, lembrando que o livro apareceu no ano de 1984. A entrevista foi dada a Mário Morel, retirada do seu livro - Lula - o metalúrgico, das páginas 179-183. Ela tem por título Lula e a ideologia. Trata-se de uma questão em aberto até os dias de hoje. No livro, a entrevista encontra-se nas páginas 244-247. Uma preciosidade. Algo um tanto nebuloso, de um período de indefinições, com o declínio dos partidos comunistas e de ascensão do chamado socialismo democrático. Luta de classes versus sindicalismo de resultados?!

Apresento a estrutura básica do livro, de 314 páginas, de introdução e quatro capítulos: Capítulo A). Período da Guerrilha: Grupos originados do Partido Comunista Brasileiro (ALN, PCdoB, MR8 e PCBR); B). Período da Guerrilha: Grupos de Origem Diversa (VPR, POLOP, AP); C). Os Grupos de Origem Trotskista (O Posadismo, Convergência Socialista, Libelu); D). Os Tempos Atuais (Partido dos Trabalhadores; Partido Revolucionário Comunista, Movimentos Operários e Camponeses). 

Para dar uma ideia mais precisa do livro, recorro a uma apresentação do mesmo, assinada por José Ênio Casalecchi, na orelha da capa e contracapa. "[...] O atual volume documenta o período após o golpe de 1964. Na Introdução há uma breve explicação deste momento histórico e da razão de cada um dos movimentos que existiram nestes anos. A seguir, temos a publicação de documentos que ilustram as posições ideológicas de cada um dos grupos.

A parte documentária se divide em quatro seções, obedecendo cada uma delas a uma dinâmica própria. Elas se denominam, respectivamente, Período da Guerrilha: grupos originados do Partido Comunista Brasileiro; Período da Guerrilha: grupos de origem diversa; Os Grupos de Origem Trotskista e Os Tempos Atuais.

Como o próprio título sugere, a primeira seção trata dos grupos dissidentes do PCB. A Ação de Libertação Nacional (ALN) é um dos mais importantes e é responsável por toda uma formulação ideológica da luta de guerrilha, cujo mentor é Carlos Marighela. Sua ação é ampla, traduzida em assalto a bancos, sequestros de embaixadores etc. Importante também é o papel do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), de João Amazonas, cuja dissidência é de 1961, e que desenvolveu luta no campo, como no caso da Guerrilha do Araguaia. O Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) são outros grupos que defendem a tese das guerrilhas urbana e rural. A ação de ambos é importante, apesar de não serem tão amplas como a dos dois primeiros grupos.

A segunda seção trata também do período da guerrilha, mas expõe o pensamento dos grupos que não se originam do PCB. São os casos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), da Política Operária (Polop) e da Ação Popular (AP). Na verdade, a matriz de cada um dele varia, indo do catolicismo (AP) até o luxemburguismo, isto é, às ideias de Rosa Luxemburgo (Polop). A esta gênese, eles acrescentam o pensamento de Regis Debray, fato que também se repete com os grupos originados do PCB.

A partir de 1971, começa o declínio dos movimentos de guerrilha. As razões são várias, indo do despreparo existente entre alguns grupos até a contra-ofensiva militar das forças de repressão. Neste momento, as esquerdas elaboram novas táticas, que variam de grupo para grupo. A ideia dominante, porém, é a de que a ditadura teria que ser derrotada através de instrumentos legais, já que se tornara impossível derrubá-la à força.

Com o recuo dos grupos de tendência stalinista, os Grupos de Origem Trotskista, título da terceira seção, ocupam espaços políticos momentaneamente vagos. O posadismo, a Convergência Socialista, a Liberdade e Luta (Libelu), por exemplo, começam a articular-se e pregam a necessidade de organização do movimento operário e até o boicote às estratégias eleitorais oposicionistas do MDB, atual PMDB.

A fraqueza orgânica destes grupos, no entanto, obriga-os a participarem de uma frente única dos trabalhadores, que é o PT. Este partido engloba tendências obreiristas e pequeno-burguesas e compõe-se de elementos sindicalistas, de facções da Igreja, de universitários e de grupos trotskistas. Esta composição leva o PT a comportar-se ideologicamente de maneira divergente em vários momentos, o que mostra, ao mesmo tempo, a sua complexidade e sua debilidade.

Afinal, na quarta seção, que trata dos Tempos Atuais, assinala-se o aparecimento de um grupo divergente do PT, que é o Partido Revolucionário Comunista, do deputado José Genuíno. A última parte, que trata dos Movimentos operários e Camponeses, reúne textos sobre a Reforma Agrária, as Comissões de Fábrica , a CUT e a CONCLAT". Lembrando que José Genuíno, posteriormente se reincorporou ao PT, tendo sido, inclusive, o seu presidente nacional, e ex deputado federal.

Em 1993 eu me mudei da cidade de Umuarama, para onde fui em 1969, após a formatura na Faculdade de Filosofia de Viamão (RS), para Curitiba, integrar a direção estadual da APP-Sindicato. A ida ao interior do Paraná me afastou do centro do furacão, nos anos de chumbo da ditadura. No sindicato havia pessoas com origem nas lutas do período retratado pelo livro. Havia enorme curiosidade. Mas eu creio ser mais importante compreender a origem mais longínqua que fundamentou as diferentes posições ideológicas dos trabalhadores. As Quatro Internacionais. Deixo o post dessas diferentes posições.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/02/proletarios-de-todos-os-paises-uni-vos.html

O livro representa uma bela fonte para a historiografia brasileira.


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O sonho chinês X O sonho americano. O coletivo X O individual.

Ultimamente tenho lido bastante sobre o modelo chinês de desenvolvimento. Dois livros me chamaram mais a atenção. São eles: China - O socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele e China - Tradição e modernidade na governança do país, de Evandro Menezes de Carvalho. Fiz a resenha desses dois livros. Do primeiro eu chamei a atenção para um conceito todo especial. A desmistificação da economia clássica como um sistema natural, com a sua ênfase na competição. Assim me referi com relação à questão:


Os dois livros sobre a China.

"Da primeira parte do livro quero destacar a força dos argumentos apresentados para a desmistificação da economia clássica, como uma economia natural, em que atua o homo economicus, e as ditas leis da "mão invisível do mercado". Estudos da neurociência analisam as categorias de competição e cooperação e a sua influência sobre o comportamento humano. Os adoecimentos psíquicos atuais nos poupam maiores explicações. Aliás, toda a primeira parte é um mergulho na história da economia clássica, iluminada pelas categorias marxistas". Somos mais felizes quando cooperamos do que quando competimos. E, lembrando, que no processo de competição sempre existirão infinitamente mais perdedores do que vencedores.

Mas o que me motivou a escrever este post é o que está na terceira parte do livro de Evandro Menezes de Carvalho. Esta terceira parte versa sobre o O governo de Xi Jinping e a "nova era" pela revitalização da China, mais precisamente sobre o capítulo 20 - O sonho chinês: a revitalização da nação chinesa. No capítulo anterior já encontramos a provocativa frase "O sonho americano agora é encontrado na China", dita por um dirigente do Partido Comunista Chinês e, ante ela, o autor apresenta a não menos provocativa interrogação a respeito. "Mas será que o sonho chinês é idêntico ao sonho americano?" (Página 391). Vejamos então Xi Jinping (No poder desde 2012) e a abordagem do tema:

Encontramos uma primeira referência numa exposição temática "O caminho para a revitalização", no Museu Nacional, em 2012. Vejamos o seu contexto: "Ela abrangia o período de derrotas, sofrimentos e humilhações sofridas pelos chineses desde as Guerras do Ópio do século XIX até o fim da dinastia Qing, em 1911, e a subsequente fundação da República Popular da China pelo Partido Comunista Chinês, em 1949. Falar em 'sonho chinês' no contexto desta exposição é associar esta expressão à restauração completa da soberania territorial e econômica do país e da dignidade do povo chinês. Para Xi Jinping, 'realizar a grande revitalização da nação constitui o maior sonho da nação chinesa desde o início da época moderna' (Página 397). Autoestima!

O tema é retomado por Xi Jinping no encerramento da Primeira Sessão da 12ª APN (Parlamento), em março de 2013. Foi o tema mais comentado do início do seu mandato. Vejamos a descrição dessa repercussão: "A mídia e as instituições acadêmicas chinesas discutiram o conteúdo deste sonho e a sua distinção em relação ao sonho americano. Na exposição dos contrastes entre um sonho e outro, destacava-se aquilo que é próprio da sociedade chinesa e que a colocava em uma trilha de desenvolvimento que lhe é peculiar. Não era um debate trivial naqueles primeiros anos do mandato de Xi, pois se tratava de um mote que tinha uma função mobilizadora da população ante um cenário de crescimento do PIB em torno de 6%. O objetivo do líder chinês era persuadir os chineses a se empenharem ainda mais na realização de seus projetos de vida e se unirem em torno do projeto de rejuvenescimento da nação. O 'sonho chinês' ressoou como um chamado patriótico ao buscar a sua força discursiva em uma ideia primordial do imaginário do povo chinês: a sua grandeza civilizacional.

O tema voltou ao debate num encontro de think tanks chineses e latino-americanos do PCCH, em Pequim, no ano de 2014. Uma das palestras versou sobre O sonho chinês e o mundo. Indagado sobre as diferenças do 'sonho chinês' do 'sonho americano', assim ele explicou: "que o sonho estadudinense consiste  no desenvolvimento do país através dos êxitos individuas; enquanto o 'sonho chinês dá mais atenção ao desenvolvimento integral da nação como foco, mas também estrutural". E o palestrante continuou evidenciando as diferenças.

"Na cultura chinesa, a proteção do interesse coletivo prevalece sobre o individual que, se preciso, deve ceder diante do bem comum. Na cultura estadunidense, refletindo a gramática política do Ocidente, a proteção dos indivíduos em torno da noção de propriedade privada rege a lógica de constituição normativa da sociedade.. Para Wasserstrom, 'o tipo de apego às tradições e fortalecimento do Estado que Xi exalta é às vezes visto como mais propensos a impedir do que ajudar os Sonhadores dos EUA'. Entretanto, para a China, os sonhos do Estado e dos indivíduos não se separam. Xi expressa esta compreensão do seguinte modo: 'a história nos ensina que o futuro e o destino de cada um estão estreitamente vinculados com os do país e da nação'. É o conceito de harmonia, imbricado com o de sonho. Vejamos:

" Nós estamos bem quando o nosso país está bem. Esta indissociabilidade entre nação e indivíduo é a base da já referida noção de 'Grande Harmonia' no pensamento confucionista. Gerenciar a Grande Harmonia de uma nação é uma tarefa de cada indivíduo dentro de uma rede social maior na qual está inserido e dela depende. [...] Para a realização da Grande Harmonia, não é bastante a virtude dos governantes, é preciso que cada indivíduo se dedique ao seu aperfeiçoamento. Diferentemente das sociedades ocidentais capitalistas, onde a virtude muitas vezes é associada  à riqueza material individual conquistada e da qual se pressupõe promover o bem comum, na cultura tradicional chinesa o desenvolvimento do bem-estar social provém do autocultivo da virtude por parte de cada indivíduo. Sem isto, a estabilidade social estaria ameaçada e, consequentemente, a sua riqueza material". 

O capítulo termina com a apresentação de pesquisas relativas à realização dos sonhos. Eles migram quando o estágio do atendimento das necessidades  básicas  já foi atendido. Aí surgem necessidades mais elevadas. O autor assim termina este capítulo: "O consumo passou a desempenhar um papel importante na satisfação das expectativas da população. Mas não é a única demanda do povo chinês. Observou Xie Chuntao que 'os cidadãos chineses já não estão simplesmente satisfeitos com o fato de serem alimentados e vestidos. Eles esperam mais direitos democráticos e um ambiente jurídico melhor', mas para ir ao encontro destas reivindicações, o governo chinês sabe que precisa fortalecer a sua capacidade de governança. Não é sem razão que o 'Pensamento de Xi Jinping' expôs que a tarefa de modernização do país para a grande revitalização da nação exige o desenvolvimento de uma 'governança baseada na lei'. Na China, ela terá qualidades distintas se comparada com as culturas jurídico-políticas ocidentais. É a chamada para o capítulo seguinte sobre A governança baseada na lei e no Estado de Virtude.

Neste capítulo aparecem importantes reflexões sobre a questão do Direito e da Justiça. Reflexões sobre os conceitos de racionalidade (do Iluminismo ocidental) e da relacionalidade e do Estado Democrático de Direito e do Estado de Virtude. Esta busca do Estado de Virtude provém do sonho chinês, do aperfeiçoamento de seu mundo de sonhos. 

E, cá comigo, eu verifico em minhas conversas que uma das maiores insatisfações brasileiras está no pagamento de impostos, que teoricamente poderiam melhorar a vida de toda a população através da ampliação das políticas públicas. Sei que é difícil entrar nesse debate em virtude de razões históricas de nossa formação cultural. E, eu me lembrando de Tom Jobim, de Wave. "É impossível ser feliz sozinho". Ah! A relacionalidade. Deixo ainda o post da resenha dos dois livros acima citados:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html?m=1

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/china-tradicao-e-modernidade-na.html


sábado, 8 de agosto de 2026

CHINA - Tradição e modernidade na governança do país. Evandro Menezes de Carvalho.

Nos dias atuais, quase toda a minha curiosidade está voltada para a China. A grande questão é a de como este país fez tão grandes transformações em tão pouco tempo. Busco explicações nas leituras. Há alguns dias recebi de presente, da minha amiga Suzi, um livro sobre a China. O livro é simplesmente fantástico. China - Tradição e modernidade na governança do país. O autor, Evandro Menezes de Carvalho, tem todas as credenciais para este empreendimento. Ele é, entre outros tantos atributos, professor da Universidade de Língua e Cultura de Pequim e condecorado com o Chinese Government Friendship Award, a mais alta honraria dada a estrangeiros pelo governo central da China.

China - Tradição e modernidade na governança do país. Evandro Menezes de Carvalho. Batel. 2024.

Na contracapa encontramos o desvelar da hipótese desenvolvida ao longo das 498 páginas do livro: "A prática e a sabedoria chinesas influenciam o modo de organização da República Popular da China. Desde esta perspectiva, sustentamos a hipótese de que a China promove uma mudança gradual do 'sistema socialista com características chinesas' para uma governança chinesa com características socialistas. Invertemos os termos para despertar a reflexão. O 'socialismo' - naquilo que o substantivo possa ser referenciado, na forma e no conteúdo, às teorias e processos políticos do século XX - torna-se adjetivo qualificador do que se pretende ser um modelo de governança próprio e original da China para o século XXI. Há muitos aspectos relativos ao modo de organização política do país que antecedem em centenas de anos a fundação da República Popular da China e são reelaborados para acompanhar os novos tempos. E se o tempo der razão à tese que costura o conteúdo deste livro, estaremos diante de um fato que pode mudar totalmente o rumo dos debates e reflexões sobre a China, sobre o socialismo e sobre o papel deste país no sistema internacional daqui em diante".

Antes de mais nada, duas datas são fundamentais em todo esse processo de rápidas transformações: 1921 e 1949. A estas, uma terceira data pode ser acrescentada. Mas, o que aconteceu nestas datas para elas serem tão importantes? Em 1921, depois da Revolução russa de 1917, ocorre a fundação do Partido Comunista Chinês (PCCH). Em 1949 ocorre a fundação da República Popular da China (RPC), após a Revolução vitoriosa, liderada por Mao Tsé-Tung. E em 1978, após o fim da chamada Revolução Cultural, a China inicia as reformas que a levaram para o seu atual modelo de governança, de abertura para o mercado mundial e para o que o mundo hoje designa como "Socialismo de mercado" ou "Socialismo para o Século XXI".

E, ainda antes de mais nada, afirmar que o órgão que define estas políticas é o Partido Comunista Chinês (PCCH). É ele que, através de seus Congressos define as políticas a serem efetivadas na República Popular da China. O PCCH é enorme e bem estruturado. Ele consiste em organizações centrais, locais e de base e possui aproximadamente cem milhões de filiados. Todo o capítulo 12 (Páginas 219 a 237) é dedicado à descrição de sua organização. Há ainda outros  oito partidos, órgãos de cooperação e consulta política. São remanescentes do período pré-Revolução de 1949. Não são antagônicos. Bem, mas vamos à estrutura do livro. 

Ele se divide em três partes. Primeira parte: Da perda à retomada de rumo para a nação chinesa; Segunda parte: Compreendendo os pilares institucionais da governança da China; Terceira parte: O governo de Xi Jinping e a "Nova Era" pela revitalização da China.

Na primeira parte é apresentada a longa história da China, especialmente a sua história moderna de dominações e sofrimentos impostos pelo colonialismo e imperialismo ocidental. Esta história é apresentada ao longo de nove capítulos: 1. Introdução: entre o céu e a terra, as entrelinhas; 2. A continuidade ameaçada: invasões estrangeiras e revoltas internas; 3. A dinastia agonizante e as reformas tardias; 4. A República nascente: o declínio dos conservadores e a ascensão dos reformadores e revolucionários; 5. GMD (Guomindang - burguesia) e PCCH: alianças e disputa pelo destino da nação; 6. A reconquista da independência da nação chinesa pelo Partido Comunista da China (PCCH); 7. A República Popular da China de 1949 a 1976: as contradições na era maoísta; 8. Mao Zedong e Fei Xiaoping: o marxismo e o confucionismo na interpretação da sociedade chinesa; 9. Deng Xiaoping e a nova longa marcha para o auto fortalecimento da China: a conciliação dos antagonismos.

Na segunda parte são apresentadas as instituições básicas que governam a China, os chamados pilares institucionais. São mais nove capítulos: 10. A República Popular de uma Nação-Família; 11. A busca por talentos e virtude na nova burocracia; 12. O Partido Comunista da China; 13 A República Popular da China: a divisão administrativa do Estado chinês; 14. O sistema de Autonomia Étnica Regional; 15. Órgãos centrais do poder do Estado (cinco sub-itens); 16. Sistema de cooperação multipartidária e consulta política (dois sub-itens); 17. Os Partidos não comunistas e a questão democrática na China; 18. A democracia popular de processo integral.

A terceira parte é dedicada a uma análise do governo de Xi Jinping. Tem sete capítulos. 19. Xi Jinping e a Nova Era do Socialismo Chinês; 20. O Sonho Chinês: a revitalização da nação chinesa; 21. A governança baseada na Lei e no Estado de Virtude; 22. A Política Externa de Xi Jinping e a Comunidade Global do Futuro Compartilhado; 23. A iniciativa Cinturão e Rota: uma Nova Rota da Seda para o século XXI; 24. A nova diplomacia chinesa, sabedoria milenar; 25. Conclusão: Uma nova governança chinesa com características para o século XXI.

Desta terceira parte, sublinhei alguns traços que merecem uma reflexão mais cuidadosa. O mundo deve ser governado pela racionalidade ou pela relacionalidade? O mundo é uma mera soma de indivíduos com apregoava a senhora Thatcher, ou o fruto de uma complexa relacionalidade? "O sonho americano, agora é na China", diz um dirigente do PCCH. Mas o que distingue o sonho americano do sonho chinês? O Estado democrático de Direito é suficiente? Ele não necessita também da busca de um Estado de Virtude? Influências cristãs e confucionistas! E um grande questionamento da Racionalidade ocidental do Iluminismo. Chamo uma atenção toda especial para o capítulo 20, onde são apresentadas as características do sonho chinês, um sonho coletivo, sem o submergir do indivíduo.

E uma frase final: "A sabedoria milenar chinesa tem séculos de acúmulo intelectual e prática social, e o modo como os chineses lidam com os problemas e buscam soluções nem sempre é coincidente com aquele com o qual os ocidentais estão acostumados. O relativo desengajamento das potências ocidentais na defesa de um multilateralismo inclusivo reforça a adesão internacional à globalização ao estilo chinês e prenuncia a emergência de uma nova ordem internacional mais diversificada em diversos aspectos, e, portanto, mais complexa. Compreender a história da China, os mecanismos institucionais de governança no âmbito interno, suas raízes filosóficas e culturais, bem como a nova orientação diplomática do país, será crucial para entendermos este século XXI que tende a ser um século cada vez menos ocidentalizado" (Paginas 467-8). E para a Suzi, um beijo, junto com os meus agradecimentos pelo maravilhoso presente. 

Como eu tenho outras leituras sobre o tema, eu apresento os posts. Nele encontramos análises sobre a China do século XX, sobre a era das guerras civis e estrangeiras, sobre os triunfos de Mao, sobre a Revolução Cultural e sobre as reformas a partir dos anos 1980. Destaque todo especial para o último -China - o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/pro-e-contra-mao-organizacao-do-texto-m.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/10/a-revolucao-chinesa-wladimir-pomar.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O ATENEU (1888). Raul Pompeia.

O livro da vez - O Ateneu, de Raul Pompeia. Devo dizer que  ainda não tinha lido esse clássico, embora o livro figurasse em uma de minhas estantes. Coisas do tempo em que ainda estava em sala de aula. Fatos mais urgentes e prementes relegavam as leituras, remetendo-as para o futuro. No título do post grifei a data da publicação do livro, o ano de 1888. Uma data significativa de nossa história e de fundamental importância para a compreensão da leitura. Para além do contexto brasileiro, da abolição do regime de escravização e da transição do regime da monarquia para a República, imperava no mundo um espírito de euforia, a ideia, - ainda hoje me lembro de aulas do ano de 1968, dadas pelo inesquecível professor D. Antônio Cheuiche, - do progresso indefinido,  do triunfo da racionalidade, do entendimento humano. Se o passado é marcado pelo progresso, o futuro será a continuidade desse mesmo progresso. Raciocínio perfeito. A realidade nem tanto.

O Ateneu. Raul Pompeia. Penguin & Companhia das Letras. 2013.

Esse progresso seria assegurado, acima de tudo, pela educação. O Ateneu é um livro que fala de educação, ele figura entre os chamados romances de formação. O romance termina em tragédia. Um incêndio consome o educandário. Raul Pompeia é um especialista em caricaturar, exímio no uso de metáforas: "Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo - o funeral para sempre das horas" (Página 276). Tudo termina num "De profundis". também a vida de Raul Pompeia (1863-1895), aos 32 anos.

A edição da Penguin & Companhia das Letras, que eu li, é primorosa. Ela mantém as 44 ilustrações originais da publicação. Ela tem também duas contextualizações extraordinárias: A introdução - o domínio do sujeito: O Ateneu, de Pedro Meira Monteiro e o posfácio - Sobre as ilustrações d'O Ateneu, de José Paulo Paes. Vou me ater aos seus comentários, nesse post. A primeira das vinhetas é uma espécie de síntese do que iremos ler ao longo livro. Vejamos o comentário de José Paulo Paes:

"Começa a série na primeira página do livro, numa vinheta mostrando Sérgio (narrador e protagonista) e o pai, de costas para o observador, parados diante do portal de entrada do Ateneu; o pai tem a mão protetoramente espalmada nas costas do filho, como que a impeli-lo e a confortá-lo ao mesmo tempo; a legenda da figura é a abertura do romance: 'vais encontrar o mundo, disse-me meu pai à porta do Ateneu. Coragem para a luta'"(Página 291). 

E assim continua o comentário: "Daí por diante, Sérgio terá de caminhar sozinho, Dante sem nenhum Virgílio a guiá-lo pelos círculos infernais da vida do internato. A menos que se queira ver tal Virgílio em Rebelo, o colega veterano que aparece ao lado de Sérgio numa das vinhetas do capítulo II, a adverti-lo dos perigos à sua espera: 'Olhe, um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se, [...] os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo'. A vinheta seguinte da série, no capítulo VIII, mostra dois colegas ajoelhados, com o rosto oculto pelo braço dobrado. Trata-se de Tourinho e Cândido, obrigados por Aristarco (o proprietário e diretor do Ateneu) a ajoelharem-se em pleno refeitório, diante de todos os colegas, como 'acólitos da vergonha'. Interceptara o diretor uma carta amorosa assinada "Cândida' e, após rigorosa devassa, apura ter sido escrita por Cândido a Tourinho, marcando um encontro secreto no bosque. Uma frase da página contígua da vinheta serve-lhe à maravilha de legenda: 'Cândido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a furto, confrontando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo no inferno'" (Página 291-292).

É possível esse caminhar? Ou essa pedagogia tenderia para o malogro. Vejamos outro comentário: "Com isso, a pequena vinheta do capítulo II tem o seu alcance grandemente ampliado, num efeito de eco ou ressonância, passando a servir de índice do próprio malogro da pedagogia do Ateneu e do seu diretor. Contra a hipocrisia dessa pedagogia e desse pedagogo, cujo moralismo palavroso não alcança esconder-lhe a rapacidade de essência, o incêndio final ateado por um dos alunos constitui, tanto quanto os vícios e as abjeções de outros alunos evocados ao longo do livro, um gesto prometeico de rebeldia. Rebeldia da natureza humana, selvagem que seja, mas autêntica, contra tudo que busque falseá-la; revolta da criatura imperfeita contra o criador ainda mais imperfeito do que ela" (Página 290). Ah! a hipocrisia. Ah! a falsidade.

Da introdução sublinhei alguns traços: "O que talvez se possa dizer, para auxiliar a leitura, é que seu autor está todo impregnado do espírito do tempo, e que em 1888, quando O Ateneu vinha a público na forma de folhetim, havia uma grande interrogação no ar: quanto o homem deve ao meio? A questão se desdobrava em outras: somos o produto inconsciente das forças que nos ultrapassam? Mas de onde viriam então essas forças? Da paisagem que nos cerca? Do próprio corpo que carregamos? Seríamos apenas joguetes impotentes nas mãos da natureza?" (Página 7-8).

O comentarista prossegue: "Um leitor informado verá aí as marcas do século XIX. O pensamento científico, que prevalecera e se multiplicava em inúmeras tendências, pretendi explicar o mundo a partir de um materialismo mais ou menos estrito. Não poucas mentes brilhantes se deixaram seduzir pela ideia de que havia um progresso necessário, inelutável, que nos conduziria a todos, como se o gênero humano fosse o natural portador e combatente da civilização. Evidentemente, no quadro mental que então prevalecia, uns eram mais civilizados que outros e, no limite, caberia ao homem branco carregar às costas o 'fardo' do atraso que se espalhava nas zonas para além do mundo culto, isto é, da Europa com suas luzes. Em sua inflexão imperialista, vemos aqui o princípio expansivo e otimista do progresso, cujas raízes apontam para o Iluminismo do século anterior. Mas o século XIX ofereceria entraves importantes para a seta invencível da civilização" (Página  8).

Dentro desse contexto Pedro Meira Monteiro também volta um olhar sobre o Brasil: "No Brasil, a própria escravidão era a marca do debacle civilizador, nódoa incômoda que razões econômicas justificavam e perpetuavam. O Império brasileiro, nesse sentido, sustentou uma ordem iníqua que a República falharia em consertar. A escravidão está praticamente fora do romance de Raul Pompeia, embora possamos senti-la como uma 'presença ausente', ou como a base inconfessável da riqueza familiar de quase todos os meninos que se ilustram no Ateneu. E como ser otimista com um monstro desses no armário?" (Página 8).

Pedro Meira Monteiro assim termina a sua introdução: "Talvez O Ateneu seja, ao fim, a expressão possível e arrebatadora da inadequação, ou do sentimento de desterro que ameaça aniquilar o indivíduo, seja ele o jovem Sérgio, ou o narrador maduro que se debruça sobre o passado. Ao debruçar-se, ele não pode senão imaginar o que aconteceu, colhendo na memória os sinais da corrupção que o indivíduo Raul Pompeia quis sempre vencer, como se a retidão, que ele intransigentemente cobrava de si e dos outros, pudesse manter-se pelos tempos, intacta. Não surpreende que ele tenha perdido a batalha" (Páginas 18-19).

Raul Pompeia era republicano e abolicionista. Foi, inclusive, amigo do Dr. Luiz Gama. Era fervoroso adepto do Marechal Floriano Peixoto. Seus dissabores lhe abreviaram os sofrimentos da vida. Ah! a educação. Ah! a escola. Ah! os internatos. Ah! a formação do ser humano. Raul Pompeia estudou no colégio Ateneu, ops, desculpem, no colégio Abílio, o colégio da elite do bairro Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O romance é profundamente autobiográfico. Uma pequena síntese, na contracapa:

"A inesquecível galeria de tipos humanos imortalizada por Raul Pompeia no microcosmo do Colégio Ateneu constitui o centro deste romance, publicado originalmente em 1888 como folhetim na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro e até hoje um marco de nossa prosa.

A partir das memórias do autor como aluno do Colégio Abílio no bairro das Laranjeiras, onde estudou entre 1873 e 1877, o romance narra as experiências de Sérgio, um tímido garoto de onze anos como aluno interno no Colégio Ateneu.

Esta edição de O Ateneu conta com texto introdutório de Pedro Meira Monteiro, doutor em teoria e História Literária pela Unicamp e professor no Departamento de Espanhol e Português na Universidade Princeton, além de detalhada cronologia biográfica do autor". Um imenso mal- estar.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

ITAPIRANGA. Minha terra. Recorte histórico e memórias. José Nedel.

Recebi do meu irmão Hédio José o belo livro Itapiranga - Minha terra. Recorte histórico e memórias. A autoria é de José Nedel, sem dúvida um dos cidadãos mais ilustres da terra, filho de pioneiros dessa então tão promissora terra. A história nos remete aos idos da década de 1920 para apresentar os seus primeiros registros. Na época havia, no extremo oeste de Santa Catarina, dois portos no rio Uruguai, que formaram os núcleos iniciais da colonização: o Porto Feliz, atual Mondaí (10.066 hab.) e o Porto Novo, atual Itapiranga (16.638 hab. censo IBGE - 2022). Essa colonização foi uma extensão da colonização alemã do Rio Grande do Sul, iniciada em 1824. O tema remonta às minhas origens, à minha formação primeira em Harmonia e depois continuada em Bom Princípio, Gravataí e Viamão. 

Itapiranga. Minha terra. Recorte histórico e Memórias. José Nedel. Oikos.

A história da colonização alemã é bastante conhecida. Os primeiros colonos se estabeleceram em São Leopoldo e São José do Hortêncio, expandindo-se depois pelos vales dos rios dos Sinos, Caí, Taquari e Pardo. As famílias foram se multiplicando e novas frentes de colonização foram sendo abertas. Isso se transformou em uma necessidade. As famílias eram muito numerosas. Cito o exemplo dos meus avós. A família dos avós paternos teve nove filhos e a dos avós maternos quatorze. Alguns dos seus filhos, meus tios, estão nessa saga de pioneiros em Itapiranga. Meu irmão foi para essa região nos anos 1950, como professor. Passou por Palmitos, Linha Catres e Cambucica. Hoje mora em Mondaí.

A história do autor, José Nedel, é bastante semelhante a minha. A diferença é que meus pais ficaram nas chamadas colônias velhas, Harmonia no caso, e os dele, foram para Itapiranga, emigrados da região de Nova Petrópolis. Ele é mais velho do que eu. Nasceu em 1934 e eu em 1945. A semelhança entre nós se deu pela ida ao seminário. Ele, com os jesuítas, em Salvador do Sul e eu com os seculares, em Bom Princípio. A semelhança se dá também pelo exercício da função de professor. José Nedel, além de professor, foi também juiz de direito no Rio Grande do Sul. Mas essa história, a de juiz, ele não conta nesse livro. A diferença é a de que,  enquanto eu me estabelecia no Paraná, ele voltou ao Rio Grande do Sul.

Mas vamos ao livro. Ele é maravilho e, como se trata de recortes históricos e de memórias, ele é de leitura fácil e agradável. Adotou uma narrativa num estilo jornalístico, fugindo do academicismo. Ele consta de apresentação, cinco capítulos, considerações finais e preciosas referências bibliográficas. Os cinco capítulos tem os seguintes títulos: I. Aspectos da ação dos jesuítas no sul; II. Porto Novo - Itapiranga: Do início à emancipação política; III. Itapiranga: autonomia e desenvolvimento; IV. Linha Jaboticaba: Paulo e Catarina Nedel pioneiros; V. Memórias pessoais: tópicos seletos. Os três primeiros capítulos remetem à história, enquanto que os dois últimos à crônica familiar e pessoal.

Para mim, o capítulo de maior interesse foi o primeiro. Confesso que me senti um tanto jesuíta, tal foi a sua influência em minha formação, embora eu tenha ido para o seminário dos padres seculares e o padre Oscar Mallmann, padre vigário de Harmonia por mais de cinquenta anos, também fosse um padre secular, mas de formação jesuítica.

José Nedel nos oferece um panorama sobre a ordem dos padres jesuítas, desde a sua fundação em 1534, sua vinda e expulsão do Brasil, o seu retorno em 1842, as suas intensas atividades no sul do Brasil, a fundação dos colégios, até hoje colégios de formação de elite. O aspecto mais interessante do capítulo é a sua forma de atuação, sempre interligando a igreja com a escola. Como, com a República, o Brasil se tornou um país laico, as paróquias se encarregaram da criação de escolas paroquiais, sob o seu comando. No início dos anos 1950, foi numa dessas escolas que eu fui alfabetizado. As paróquias tinham também a seu encargo a organização da vida da comunidade. O termo Verein se tornou onipresente: Lehrerverein, Bauersverein, Volksverein. Dessas instituições, o Volksverein se tornou a instituição mais interessante. Ela preservou a língua alemã (foi ela a minha primeira língua), os costumes e impulsionou a formação de novas colônias, tendo o cuidado de mantê-las sob a influência alemã e católica. Itapiranga é um exemplo dessa colonização.

Da organização da vida comunitária e a unidade em sua manutenção eu teria dois destaques a fazer. As colônias se intercomunicavam através de dois veículos de comunicação, praticamente presentes em todas as comunidades. O St. Paulus Blatt e o anuário Ignatius Kalender, escritos em alemão. Creio que o St. Paulus Blatt continua circulando até os dias de hoje. Ele foi um importante veículo de propaganda da colonização de Porto Novo - Itapiranga. O outro aspecto é o da organização cooperativa, especialmente no setor financeiro. A poupança dos colonos, depositada nas Sparkasse, financiavam especialmente os novos casais que vinham se formando, ajudando-os, especialmente na aquisição de um pedaço de terras. Nesse setor teve grande destaque o padre Theodor Amstad. Essa forma de crédito deu origem as atuais cooperativas de crédito como a Sicredi e a Sicoob. A Sicredi, em Linha Imperial (Nova Petrópolis e a Sicoob, em Itapiranga. Vejam bem que o espírito cooperativo acompanhou os colonos em sua migração para o extremo oeste catarinense. Sobre esse tema também tenho a recomendação de um interessante livro, do qual eu ofereço uma resenha. Trata-se de A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul, do padre Ambrósio Schupp.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/11/a-missao-dos-jesuitas-alemaes-no-rio.html

O segundo capítulo nos leva ao extremo oeste de Santa Catarina, ao Porto Novo, hoje Itapiranga. Como vimos, a sua colonização é uma extensão da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Após cem anos, ela precisava de uma expansão. O St. Paulus Blatt se encarregou da propaganda da nova terra prometida. A narrativa passa pela organização das empresas colonizadoras, das possibilidades econômicas oferecidas e das dificuldades encontradas. O rio Uruguai garantia o fluxo das riquezas. Ganham destaque na narrativa as famílias dos pioneiros e a presença dos padres jesuítas que vivamente acompanharam os colonos em seu processo migratório. Esse núcleo pioneiro fez surgir três municípios: Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis. O grande destaque desse capítulo é o da atuação do Volksverein, em todo esse processo e no espírito da preservação do germanismo e do catolicismo. O germanismo ocasionou sérios problemas no entorno da Segunda Guerra Mundial. Nos mesmos moldes, só que sob o comando dos luteranos, alguns anos antes houve a colonização do Porto Feliz, atual Mondaí. Também tenho a resenha de dois livros sobre o tema. Os livros também me foram remetidos pelo meu irmão.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/07/um-novo-lar-na-imensidao-da-mata.html e

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/08/porto-feliz-mondai-o-centenario-da.html

No terceiro capítulo já adentramos na segunda metade do século XX. O foco está no desenvolvimento da região. Os antigos lugarejos agora se transformam em municípios, desmembrados de Chapecó, o grande município mãe. O desenvolvimento ocorre com a abertura de estradas, com a chegada da energia elétrica, do saneamento básico, de estabelecimentos educacionais, comerciais e industriais. A presença do Estado se tornou efetivamente presente: CELESC, TELESC... Também o espírito cooperativo se fez presente. E, ao que parece, em meio a isso, tem uma história um tanto complicada. A da cooperativa SAFRITA - agropecuária, que ainda hoje existe, sob o domínio da JBS, me informa uma consulta Google. O espírito do cooperativismo creditício se fez presente com a Creditapiranga, raiz da atual SICOOB.

O quarto capítulo é dedicado à família do autor. Paulo e Catarina Nedel são os pioneiros, que se estabeleceram na Linha Jaboticaba, hoje pertencente ao município de São João do Oeste. Nesse capítulo, meu irmão sublinhou dois nomes que adquiram lotes na referida colônia: Pedro Rech e Arnoldo Fridolino Reichert. Reichert é o sobrenome de minha mãe, de quem Arnoldo Fridolino era irmão. me lembro vagamente de uma visita sua, numa de suas vindas para Harmonia. Não tenho lembranças de Pedro Rech. Meu irmão os visitava constantemente.

O quinto capítulo é de foro particular do autor, suas memórias pessoais. Foi aí que estabeleci muitas de suas memórias com as minhas, especialmente a vida de seminaristas. O seminário foi o grande elemento constituidor de nossas vidas. Acima de tudo, ele nos deu uma sólida formação humanística e nos fez portadores de virtudes que felizmente preservamos. Também numa rápida consulta ao Google, vi que José Nedel faleceu no dia 14 de junho de 2025, e que ainda em seus tempos derradeiros manteve intensa produção cultural. O presente livro é um exemplo disso. A sua edição é do ano de 2025.

Recomendo ainda as ricas indicações bibliográficas, que interessam a todos os que tem interesse na colonização alemã no Rio Grande do Sul, que 2024 festejou o seu bicentenário. Dessa bibliografia me chamou especial atenção um livro sobre esse bicentenário. Trata-se de Duzentos anos de imigração alemã: flagrantes - de autoria de Arthur Blásio Rambo. Editora Oikos, 2023. A essa bibliografia eu tenho um acréscimo a fazer. Uma indicação de Antônio Cândido sobre a colonização alemã. A aculturação dos alemães no Brasil - de Emílio Willens, da Companhia Editora Nacional, 1980. Tenho uma resenha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/01/a-aculturacao-dos-alemaes-no-brasil.html

E como essas leituras me provocam um enorme saudosismo também deixo um post do blog sobre Harmonia, a minha querida terrinha natal. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/11/tributo-harmonia-i-terra-em-que-eu-nasci.html



segunda-feira, 20 de julho de 2026

SHAKESPEARE. UMA VIDA. Park Honan.

Várias leituras me levaram a retomar um contato com Shakespeare. Sempre me intrigou o fato de que dois dos maiores gênios das letras fossem praticamente contemporâneos, embora vivessem em países em guerra. Acredita-se até que eles tenham morrido no mesmo dia, qual seja, o de 22 ou 23 de abril de 1616. Vejamos as datas, de acordo com uma rápida pesquisa Google. Shakespeare: abril - 1564 - 22 de abril de 1616. Cervantes: setembro - 1547 - 22 de abril de 1616. Formas diferentes de escrever, mas, ambos se ocupam, com toda a profundidade, do tema do humano.

Shakespeare - uma vida. Park Honan. Companhia das Letras. 2001. Tradução: Sonia Moreira.

Em 2016 me detive mais de perto com o Dom Quixote. Agora, para me deter em Shakespeare, tomei a biografia escrita pelo biógrafo norte americano, Park Honan. A primeira frase que lemos na contracapa do livro não é nada modesta: A mais completa e precisa biografia de Shakespeare já publicada. E, já que começamos com a contracapa, vamos continuar a ver a apresentação da obra:

"Em 1709, um texto de quarenta páginas esboçava o perfil de um poeta, ator e dramaturgo que, um século antes, entusiasmara o público inglês. Foi essa a primeira biografia que se fez de William Shakespeare. De lá para cá, escreveram-se milhares de páginas para compreender esse homem genial, autor de uma obra que a cada geração suscita novas perguntas e novas interpretações. 'Ser ou não ser: eis a questão': bastaria reunir as versões, citações e comentários dessa frase dita por Hamlet, o personagem shakespeareano mais célebre, e já se teria uma respeitável biblioteca.

Park Honan reúne virtualmente tudo o que se conseguiu saber até hoje sobre William Shakespeare. Surpreendendo mesmo os estudiosos, recorre a materiais inéditos e apresenta inúmeras informações novas e relevantes, estabelecendo com precisão o que é fato e o que é mito ou equívoco. As lendas imaginam o dramaturgo envolvido com tantas damas sombrias, rapazes pobres e conspirações em tabernas, que só um milagre poderia explicar como ele encontrou tempo para o teatro. Por outro lado, descobrimos que os fatos são mais empolgantes e sugestivos do que tudo o que já se fantasiou.

A crônica histórica, social e política da Inglaterra dos séculos XVI e XVII - incluindo o movimento das companhias teatrais, o poder dos mecenas e as características dos teatros e do público da época - também constitui um dos grandes méritos deste livro. Tal como apresentada por Honan, ela não apenas ilumina a vida de Shakespeare, como amplia efetivamente a compreensão de seus escritos: entendemos melhor por que eles nos fascinam".

Nunca trabalhei com a literatura de Shakespeare. Já participei de grupos de leitura, onde examinamos uma de suas peças históricas, Ricardo III. Também estudei um pouco mais de perto Ricardo II. Li biografias, mas nada comparado ao livro de Park Honan. Sempre tive muitas curiosidade com relação ao dramaturgo. O que sempre mais me intrigou foi a questão de como se formou este gênio, qual a sua formação, quais foram as suas fontes e como ele acumulou tanto conhecimento. Desde a leitura de Romeu e Julieta soube que ele não tirava do nada as suas histórias, mas que ele as adaptava de histórias já existentes. Isso está plenamente confirmado na obra de Honan. Na obra também fica muito claro que ele teve uma boa formação escolar.

Essa formação escolar ele teve em sua própria cidade natal, Stratfort-Upon-Avon, onde, além da escola básica fundamental, ele frequentou a escola de latim, que deveria se constituir num profundo mergulho na cultura clássica, da literatura, na filosofia e na política de gregos e romanos. Isso lhe foi fundamental. Plutarco sempre foi uma de suas grandes fontes. Lembrando que - de Plutarco recebemos em torno de cinquenta biografias. Outro dado fundamental. Shakespeare encomendava estudos históricos junto a historiadores profissionais. Isso explica as suas peças sobre as monarquias, especialmente sobre a monarquia inglesa. Sempre foi também antenado ao seu tempo, o tempo do Renascimento. Hamlet, o seu personagem principal, fora estudante na Universidade alemã de Wittenberg.

Outro fator fundamental em sua obra foi o debate coletivo. Shakespeare, além de autor das peças, era também ator. E junto aos colegas atores discutia o teor das peças, formas de expressão que fossem em direção ao agrado do público. Agradar ao público sempre foi o grande motivo da escrita de suas peças. Tanto Shakespeare, quanto os atores, eram profissionais que viviam do teatro. Era praticamente a sua única forma de sobrevivência. O teatro era, seguramente, a maior forma de entretenimento da época. Havia vários teatros em Londres, bem como, companhias teatrais profissionais. Observem bem o tempo da maior produção do autor, a passagem do século XVI, para o XVII, dos anos 1590 em diante, até a sua morte em 1622. Anos em pleno Renascimento.

A biografia de Park Honan também é rica em detalhes da sua vida pessoal. Sua família, pais, irmãos, filhos, posses, relações, sexualidade, ida a Londres, convivência com os artistas, bebidas. Uma vida, é importante dizer, muito ativa. Muito conhecimento da vida humana, conhecida através de suas experiências. Tudo isso está presente em sua obra e se constitui no seu maior êxito, uma expressão viva dos mais diferentes, contrários e contraditórios sentimentos e afetos humanos. Por óbvio, Shakespeare, ao longo de sua vida, passou por inúmeros perrengues. 

Outro fator interessante a ser observado na obra, é a convivência constante com as pestes. Elas eram fatais e intermitentes. Para além do que elas representavam por si só, uma convivência com a morte, elas também fechavam os teatros. Isso obrigava as companhias a serem ambulantes, indo para o interior, para cidades pequenas, com menores índices de contaminação e expansão das doenças. A própria causa mortis do dramaturgo, suspeita-se, tenha sido uma febre tifoide.

Como biografia, o livro segue a linha cronológica de sua vida, intercalando-a com a sua produção artística. As peças principais merecem capítulos inteiros. Entre notas, bibliografia, introdução e descendentes de sua família, o livro está dividido em quatro fases, a saber: I. Um jovem em Stratford; II. Ator e poeta do teatro londrino; III. A maturidade do gênio; IV. A última fase. Ao todo são 18 capítulos, assim distribuídos: A parte I tem seis capítulos; a parte II, mais seis; a parte III, quatro e a parte final mais dois capítulos. Ao todo são 557 páginas.

Por seu alto poder de síntese e de importância, embora um tanto longo deixo alguns parágrafos da parte final do livro. Eles nos dão um panorama de seu tempo, de sua obra e de sua herança para os nossos tempos:

"Por que tivemos a sorte de que tantos trabalhos de Shakespeare chegassem até nós? A quantidade de obras escritas em sua época que se perderam é imensa. Dos 175 títulos de peças registrados por Henslowe do Rose, apenas 37 peças sobrevivem hoje. O número total de peças escritas entre 1560 e 1642 deve ser pelo menos seis vezes maior do que o número de peças que sobreviveram. As peças de Shakespeare chegaram até nós porque ele era imensamente popular e, também, porque era afortunado. Afinal, a população da Inglaterra crescera cerca de 3 milhões de habitantes na época em Shakespeare nasceu para cerca de 4,5 milhões cinquenta anos depois. Apesar dos muitos problemas que tiveram de enfrentar, os atores de sua trupe puderam contar, com o passar do tempo, com um público atento e cada vez mais numeroso. Além disso, embora sua plateia fosse constituída por gente de todas as classes e formações, nesse público estavam incluídas aquelas pessoas que Milton louva em Areopagitica: os londrinos que estão 'tentando tudo, atendendo à força da razão e do convencimento', como afirma o ensaísta, 'questionando, examinando, inventando, debatendo [...] coisas sobre as quais nunca ninguém debateu ou escreveu antes'.

Londres ajudou Shakespeare a criar as peças mais profundas e exigentes já oferecidas a uma cidade. Não há dúvida de que as pressões comerciais forçaram seu talento a vir à tona, enquanto ele trabalhava para atender às necessidades  dos atores. Mas sua receptividade e extraordinária sensibilidade deram-lhe uma compreensão única da experiência humana, de modo que todas as obras dele transcendem seu tempo. Suas peças são inesgotavelmente férteis em seu estímulo a novas ideias e interpretações - e o fato de terem o poder de transformar as vidas dos espectadores e leitores é prova não de um 'milagre', mas das qualidades únicas da arte e do intelecto do autor.  Esse poder intelectual pode ser sentido, por exemplo, nas estruturas fortes, sutis e complexas de seus trabalhos, na enorme diversidade de seus mais de mil personagens e até mesmo no caráter perturbador de suas percepções e de sua arte. Seu humor e senso de comédia são incomparáveis, mas, longe de reconfortar o público, Shakespeare retrata a natureza humana de formas que são ao mesmo tempo verossímeis e profundamente inquietantes. Sua curiosidade com respeito à natureza humana era de certa maneira impiedosa, muito embora nunca superasse sua solidariedade para com o quinhão humano.

 As maiores modificações que faz em suas fontes têm a ver com motivação e emoção; Shakespeare rejeita toscas simplificações do sentimento e da violência, embora se empenhe em fazer com que a sua própria representação da violência no palco alcance o máximo de efeito. Encorajado por seus colegas, ele lhes dava o que queriam e sempre mais, no sentido de que suas peças geram de forma brilhante a sua própria renovação e afetam as pessoas como nenhuma outra peça fizera antes. Shakespeare desafia as maiores habilidades de uma trupe, mas também é verdade que recompensa amplamente aqueles que atuam em suas peças. Uma de suas características típicas é complicar o texto alternando atmosfera, o tom e o ritmo de uma fala para a outra, e, na verdade, ele oferece a cada ator uma diversificada superfície interna para explorar.

Tudo isso atesta sua proximidade cotidiana com os atores e também, provavelmente, a necessidade que sentia de fazer parte de um grupo. Mas essa 'miríade de pontos de vista' advém de seu próprio esforço intelectual e espiritual, de seus questionamentos, esperanças e insatisfações. Na dialética de suas peças, ele busca o que é válido, digno ou possível na natureza humana e chega, enfim, a uma visão sombria. Henrique VIII, como Palamon e Arcite de Dois parentes nobres, representam a mediocridade, a banalidade de nossa falta de percepção, de nossa falta de fé e de nossa paixão cega e egoísta, como se o passado triste e decepcionante da humanidade fosse ceder espaço a um futuro ainda mais triste e trágico. E, no entanto, nas falas de Teseu no final de Dois parentes nobres, Shakespeare talvez implicitamente dê graças pela vida em si" (Páginas 487-489). Seguramente Park Honan escreveu uma biografia à altura do valor do seu biografado.

Deixo ainda o post que fiz sobre Hamlet, a sua obra maior:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/05/hamlet-shakespeare.html



quinta-feira, 9 de julho de 2026

COMO E POR QUE LER. Harold Bloom.

Que vontade de voltar a ser aluno! Mas com um detalhe. Ter a compreensão e a visão que tenho hoje. Mas, o que me leva a esse devaneio? A leitura e, mais do que a leitura, o debate em torno do lido. E eu prometeria, com toda a aplicação do mundo, ser o mais dedicado entre todos. Nunca deixaria de lado nenhuma tarefa, não deixaria de ler nenhuma das leituras sugeridas. É que terminei de ler, Como e por que ler, do professor Harold Bloom (1930 -2019), que simplesmente foi professor de Crítica Literária da Universidade de Yale. Mas por que este livro me causou tal sensação? Na contracapa, creio, existe a explicação:

Como e por que ler. Harold Bloom. Tradução:José Roberto O'Shea. Objetiva. 2001.

"Um clicar no mouse pode levar-nos, em segundos, a saber do que se passa em outro extremo do planeta. Museus do mundo todo podem chegar até nós nos monitores de nossos computadores. A cada dia recebemos a informação de forma mais veloz. Entretanto, o livro permanece com seu público cativo. Escritores, leitores, críticos, uma legião de apaixonados que não abre mão do bom e velho exercício de criar e ler histórias.

Harold Bloom, um dos mais importantes nomes da crítica literária contemporânea, convida-nos nesse livro a uma deliciosa viagem por grandes textos da literatura universal. Turgenev, Borges, Whitman, Shakespeare são alguns dos autores que o texto inspirado de Bloom ilumina, com suas sensíveis e inteligentes percepções". Essa viagem passa por muitos outros escritores de diferentes formas e gêneros literários, como o conto, a poesia, as peças teatrais e o romance.  Vou me limitar neste post, com o intuito de despertar a curiosidade, a fazer referência aos autores apresentados.

Nos contos teremos encontros com Turgenev, Tchekhov, Guy de Maupassant, Ernest Hemingway, Flannery O'Connor, Vladimir Nobokov, Jorge Luis Borges, Tommaso Landolfi e Italo Calvino. Já na poesia veremos A. E. Housman, William Blake, Walter Savage Landor, Alfred Tennyson, Robert Browning, Walt Whitman, Emily Dickinson, Emily Brontë, William Shakespeare, John Milton, William Wordsworth, Samuel Coleridge, Shelley e Keats. Devo confessar duas coisas: O mundo da poesia me é bem estranho enquanto que manifesto muito apreço pelos romances, aos quais o autor dedica dois capítulos. Vejamos os do primeiro:

De Miguel de Cervantes, o Dom Quixote, de Stendhal - A cartuxa de Parma, de Jane Austen - Emma, de Charles Dickens - Grandes esperanças, de Fiodor Dostoiévski - Crime e castigo, de Henry James - Retrato de uma senhora, de Marcel Proust - Em busca do tempo perdido e de Thomas Mann - A montanha mágica. Por óbvio, a preponderância recai sobre Dom Quixote, os diálogos entre o Dom e o Sancho. E o que há de tão importante nesses diálogos? Bloom nos conta: "Se abrirmos, aleatoriamente, o livro, é provável que nos deparemos com uma dessas conversas - zangadas, sonhadoras, em última análise, sempre afáveis, fundadas em respeito mútuo. Mesmo quando discutem com veemência, jamais faltam com a cortesia, e sempre aprendem, a partir daquilo que o outro tem a dizer. E ouvindo, ambos se modificam" (Página 140).

Três são as peças teatrais analisadas: Hamlet de William Shakespeare, Helda Gabler de Ibsen e A  importância de ser prudente, de Oscar Wilde. Bloom dá um destaque todo especial à importância de Hamlet. Depois desse interlúdio para a dramaturgia, Bloom retorna ao romance, mais precisamente para o romance nos Estados Unidos:

De Herman Melville examina Moby Dick; de William Faulkner, Enquanto agonizo; de Nathanael West, Miss corações solitários; de Thomas Pinchon, O leilão do lote 49; de Cormac McCarthy, Meridiano de sangue; de Ralph Ellison, O homem invisível e de Toni Morrison, A canção de Solomon. Sublinhei um trecho da análise de Meridiano de sangue: "Cujo frêmito incessante de violência descreve com tanta acuidade nosso passado, representa tão bem nosso presente obcecado por armas, e, sem dúvida, pressagia nosso futuro sangrento. Os Estados Unidos, já faz dois séculos, estão obcecados por Deus e por armas, e esse fascínio não parece decrescer" (Página 266).

Sublinhei ainda, para responder a questão do título, o parágrafo final, antes do epílogo: "Não cabe à leitura nos alegrar, nem, antecipadamente, nos consolar. Mas quero concluir afirmando que todas essas visões norte-americanas do Final dos Tempos nos oferecem mais, muito mais do que uma negatividade purificadora. Se o leitor reler o que vale a pena ser relido, haverá de guardar na memória aquilo que lhe fortaleceu o espírito. Quando me lembro de Moby Dick, penso, antes de mais nada, no amor fraternal entre Ismael e Queequeg, e, em seguida, comovo-me diante de Ahab, o Prometeu americano. Em última análise, o efeito causado pelos seis romances melvillianos aqui discutidos não é niilista, mas ambíguo, e essa ambiguidade reserva extraordinária gratificação à pessoa do leitor. Ahab, Addie Bundren, Shrike, os anônimos agentes de Tristero, o malévolo juiz Holden, Ras, o Exortador/Destruidor, Rinehart, o Traficante/Reverendo e Guitar constituem um grande pesadelo, mas não obstruem, para o leitor, as buscas (por mais frustrantes que sejam) de Ismael, Darl Bundren, Miss Corações Solitários, Édipa Maas, Kid, o Homem Invisível e Milkam Dead. Entre estes últimos há sobreviventes: Ismael, Édipa, e o Homem Invisível. Por que Ler? Para ser assombrado por grandes visões: de Ismael, o sobrevivente que escapa para poder nos contar a história; de Édipa Maas, embalando nos braços o velho indigente; do Homem Invisível, preparando-se para emergir, como Jonas, do interior da baleia. Todos eles, nas frequências mais altas, falam ao leitor, e pelo leitor" (Página 267).

Pela importância que o autor conferiu a Hamlet, deixo  a resenha, inclusive com um adendo desse livro.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/05/hamlet-shakespeare.html

quinta-feira, 2 de julho de 2026

ÉTICA da libertação. Introdução: História mundial das eticidades. Enrique Dussel.

Em minhas rodas de conversa o tema das raízes de nossa cultura sempre estão vivamente presentes. Quais teriam  sido os mitos fundadores dessa cultura, que costumamos chamar de ocidental, capitalista e cristã. Que ela é eurocêntrica e, mais particularmente, helenocêntrica. Estamos até tentando formar um grupo, para uma imersão no tema. Por óbvio, essa questão passa pela religião e pela moral. Moral ou ética? As religiões sempre procuraram assumir a paternidade das doutrinas morais. A moral sempre enseja  em si, todo um complexo de paixões, interpretações e, porque não dizer, hipocrisias. Já a ética, é um acerto de contas, contigo mesmo. Creio não existir um tema mais atual do que esse, que possa ser merecedor de estudos em tempos tão conturbados como os que estamos vivendo.

Ética da libertação - na idade da globalização e da exclusão. Enrique Dussel. Vozes. 2002.

Pois bem. Revendo em minha biblioteca alguns títulos, separei o livro Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão, do filósofo argentino, Enrique Dussel (1934-2023). Tenho este livro em meu poder desde 2002, mas ele foi apenas folheado e não lido. Agora eu vejo que ele vai para muito além de ser lido. É um livro para ser estudado. É um livro que preenche todos os requisitos para ser uma das fontes para o grupo de estudos a que nos referimos no parágrafo acima: as origens do nosso modo de pensar, ou seja, as origens e os fundamentos da cultura ocidental. 

Estou impressionado com o livro. E desde já, tenho a certeza de que será impossível fazer uma resenha. Talvez sim - um texto centrado em provocações para a sua leitura. E olha..., eu terminei apenas a leitura da primeira seção da introdução e já quero deixar registradas as minha primeiras anotações de leitura. E digo bem, anotações de leitura. Não pretendo fazer comentários, apenas situar algumas citações para fundamentar diferentes concepções bem como o seu enfoque fundamental. Então vamos lá. Elas estão na introdução: História mundial das eticidades. Seção 1. As altas culturas e o sistema inter-regional. Além do helenocentrismo (Das páginas 25 a 50). Essa seção aborda quatro tópicos, a saber: 01. A origem do sistema inter-regional: O Egito africano-bantu e os semitas do oriente médio. 02. Culturas sem relação direta com o sistema. O mundo meso-americano e inca. 03. O mundo "indo-europeu": Do império chinês ao romano. 04. O mundo bizantino, a hegemonia muçulmana e o Oriente. A Idade Média europeia periférica. 

Os tópicos 1 e 2, privilegiam as necessidades de um ser indiviso, privilegiando as necessidades corporais, as do viver e do manter-se vivo e saudável. Já os itens 3 e 4 nos apresentam o ser dividido entre corpo e alma, com toda a centralidade focada na salvação da alma e com o menosprezo ao corpo.

Do primeiro tópico, tomamos uma citação do Livro dos Mortos, uma coletânea reunida em torno de 1500 anos antes de Cristo. Um ser, o Ka (o princípio individual da pessoa) assim se apresenta diante do Juízo Final e exclama: "Não cometi iniquidade contra os homens... Não empobreci um pobre em seus bens... Não fiz padecer fome... Não acrescentei peso à medida da balança... Não roubei com violência... Não roubei pão... Satisfiz a Deus cumprindo o que ele desejava. Dei pão ao faminto, água ao sedento, vesti o que estava nu e uma barca ao náufrago... Fazei-o vir, dizem os deuses falando de mim. Quem és tu? me dizem. Qual é o teu nome? me perguntam".

O autor assim comenta essa passagem: "A existência humana concreta, individual, com nome próprio vivida responsável e historicamente à luz do Juízo de Osíris, constitui a 'carnalidade' real (a sua materialidade) da vida do sujeito humano como referência ética suprema: dar de comer, de beber, de vestir, hospedagem... à carne faminta, sedenta, nua, exposta às intempéries" (Página 27).

Do segundo tópico tomamos um texto com o qual os astecas promoviam a sua arte de educar: Mesmo que fosse pobre ou miserável //  mesmo que sua mãe e seu pai fossem os pobres dos pobres // não se via a sua linhagem, // só se atendia ao seu gênero de vida, // à pureza de seu coração, // a seu coração bom e humano, firme, // dizia-se que tinha o divino em seu coração, // que era sábio nas coisas divinas. 

Vejamos o comentário do autor: "A partir dos costumes (Huehuetlamanitiliztli - a antiga regra da vida) que juridicamente alcançaram um alto grau de precisão, com códigos de leis e tribunais de justiça, sempre entre os astecas - os tlamantinime racionalizaram uma doutrina unitária sobre o sentido da práxis humana individual e comunitária" (Página 32).

Do terceiro tópico tomamos duas passagens de Plotino, um dos adaptadores da filosofia de Platão ao cristianismo:

Se as almas (individuais) tivessem permanecido no Inteligível com a Alma do mundo, teriam evitado o sofrimento... Permanecendo durante longo tempo no afastamento e na separação do Todo, sem dirigir seu olhar para o Inteligível, tornaram-se um fragmento, isoladas, debilitadas, multiplicaram-se em ação.

Vejamos o comentário do autor:

"Toda a ética consiste agora num 'retorno' ascendente para o Um, quer dizer, 'a necessidade que a alma sente de fugir de seu trato com o corpo... que consiste em se libertar das gerações a fim de se  encaminhar para a Substância (divina Ousian)'. Este ato de retorno é a dialektike da ascensão para a Ideia de Bem em Platão, a bios theoretikós do exercício do noús em Aristóteles, a apatheia dos estoicos, a ataraxia de Epicuro, a gnose dos gnósticos, o 'conhecimento' do monge maniqueu, o êxtase final do monge budista pelo qual se liberta do samsara (eterno retorno da ensomatose ou reincorporação da alma) no estado de nirvana, e a via contemplativa como perfeição humana na Idade Média Latina.

E, uma segunda frase de Plotino: A purificação consiste - escreve ainda Plotino - em isolar a alma, não a deixando se unir às coisas, não as olhar mais; não ter mais opiniões estranhas à sua natureza [divina]. Quanto  à separação [o êxtase] , é o estado da alma que não se encontra mais no corpo, como a luz que não se encontra mais nas trevas.

Assim o autor comenta essa passagem: 

"É assim que desde a Grécia e Roma, até os persas, os reinos da Índia e da China taoísta, uma ontologia  do absoluto como o Um, uma antropologia dualista da superioridade da alma sobre o corpo (de alguma maneira, sempre causa do mal), instaura uma ética ascética de 'libertação' da pluralidade material como 'retorno' à Unidade original - movimento da ontologia neoplatônica e, posteriormente, do idealismo alemão, especialmente da Lógica de Hegel. É a lógica ética da Totalidade" (Páginas 35-36).

Do quarto tópico, por ser mais complexo e já, com muitas interconexões e de um período de tempo de longa duração, deixo uma transcrição de caracterização mais geral do período, um período marcado por crises, mas com a "ontologia indo-europeia e a eticidade dualista" já estabelecidas. 

Assim o autor comenta esse quarto tópico: "A visão de mundo do primeiro estágio do sistema inter-regional, o egípcio mesopotâmico-semita, voltará a se fazer presente, embora realizando, por seu lado, um desenvolvimento universalizador expansivo (tanto pelo fenômeno do cristianismo como pelo islamismo) e, talvez, como vimos acima, pela insuportável situação dos oprimidos dos impérios. A ética crítica de um pequeno povo dominado e escravo nas mãos do poder dos que dominavam a técnica da guerra e da agricultura, como o cavalo e o ferro (os filisteus e seu simbólico guerreiro "Golias nos tempos de Amarna) é reformulada numa região periférica do Império Romano, oportuna para explorados e excluídos...".

Não vou fazer outro post a partir desse livro. Creio que com essas quatro visões do mundo dá para deduzir e explicar muito do que se dá com as religiões e a sua pretensão de serem as donas das doutrinas morais. Salvar a alma, sem antes criar as condições de uma vida decente não faz o menor sentido. Esses dia vi um comentário interessante sobre os sete pecados capitais, a saber: Soberba (orgulho), avareza (ganância), inveja, ira, luxúria, gula e preguiça. Faltaria um oitavo, que seria o que efetivamente se chama de pecado capital, o pecado do capital, embora ele esteja implícito no pecado da avareza, ou da ganância. Semana passada tivemos a notícia de que um único ser humano alcançou, como propriedade sua, uma riqueza calculada em um trilhão de dólares, o que equivale quase a metade do PIB brasileiro. É óbvio que isso tem consequências. Libertação, emancipação...

Ainda quero fazer uma recomendação especial. No capítulo quinto do livro - A validade anti-hegemônica da comunidade das vítimas, temos no sub item 5.2. Processo ético-crítico em Paulo Freire, uma das melhores interpretações que eu já vi do principal livro que fundamenta o seu pensamento Pedagogia do oprimido. São 16 páginas (Da 427 a 443) de extrema valia. Vale demais uma conferida.