sexta-feira, 21 de julho de 2023

Água funda. Ruth Guimarães. Vestibular 2024. UFRGS.

Na retomada das leituras sugeridas para vestibular chegou a vez de Água funda, da escritora paulista, a primeira mulher negra a ingressar na Academia Paulista de Letras, Ruth Guimarães. A sugestão partiu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O romance regional tem como cenário as fazendas do Vale do rio Paraíba, entre os estados de São Paulo e de Minas Gerais. O ano de publicação foi o de 1946, pela editora Globo, de Porto Alegre. A maior riqueza do livro é a sua linguagem, uma espécie de prosa poética, dando voz ao povo simples e humilde daquele tempo e daquela região. Isso ela conhecia muito bem.

Água funda. Ruth Guimarães.  Editora 34. 2023.

Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista, mas desde cedo andou por cidades da região do Vale do Paraíba, e também por cidades de Minas Gerais, situadas nas proximidades. Em São Paulo fez a maior parte de seus estudos, passando pela sua grande universidade. A fortuna não a acompanhou. Trabalhou para se sustentar, bem como a dois irmãozinhos menores. Numa entrevista contou que sua avó era contadora de histórias. Dela certamente herdou a arte. Se ela não teve fortuna, muito menos os seus personagens da Água funda. Eles tinham dificuldades de entender as amarguras que a vida lhes reservava. Tudo era culpa do destino. Não havia valentia que com ele pudesse.

A edição que tenho em mãos é da Editora 34. É caprichada. Tem prefácio de Antônio Cândido. Aliás, dois. O oficial data de 2003. Nele ele faz referência às notas que escrevera para a edição de 1946, que ele perdera. A editora as recupera e as põem ao final do livro. Uma preciosidade. Trata-se de Antônio Cândido, o de Os parceiros do Rio Bonito. Também tem outras críticas e trechos de entrevistas por ela concedidas. São de Brito Broca, Álvaro Lins e Nelson Vainer. De Antônio Cândido, de sua versão de 1946, tomo a apresentação do livro:

"A melhor qualidade do romance de estreia da sra. Ruth Guimarães, Água funda, é o tom pessoal. Num momento em que as nossas ficcionistas não resistem ao fascínio do livro de sucesso, à costumeira história neorrealista e sentimental, a jovem escritora ouviu apenas a sua vocação e, sem preocupar-se com moda ou tendências do público, escreveu uma obra que percebemos impulsionada por nítida exigência interior. Água funda, graças a esta impressão, refresca agradavelmente a nossa sensibilidade e revela uma escritora que poderá atingir um nível literário de primeira ordem. [...]

A sra. Ruth Guimarães conta duas histórias, saborosamente entremeadas de pequenos casos e embelezadas por um rico acervo de comparações sertanejas: a história dos fazendeiros primitivos dos Olhos D'Água e a história de Joca, caboclo que vive na mesma fazenda, meio século depois". Conta-nos a aventura amorosa de Dona Carolina com o moço de outra fazenda, posto para fora dela pelo proprietário, o seu pai. A história de Joca se complementa com a de Curiango. O destino lhes apronta das suas. Histórias de dor e de sofrimento.

A história da fazenda Água funda remonta aos tempos da escravidão. Ruim como só ela era a Dona Carolina. Mas a ruindade não acabara com a escravidão. Nem com a modernização e a mecanização. Até levavam gente para outras terras, sob um milhão de promessas, para voltarem sem absolutamente nada. Da vida tinham pouca compreensão. Crendices e superstições lhes davam direção. Por elas conseguem a sublimação. Das orelhas do livro, tomo ainda três parágrafos:

"Inspirado no pensamento caipira, cujo cerne é o medo, a autora formula não só o tema, mas o próprio estilo literário de Água funda. Há uma literatura residual, fragmentária e arcaica no misticismo popular e nos causos que o expressam. Mário de Andrade, amigo de Ruth, foi um dos garimpeiros dessas permanências inspiradoras do saber rústico.

Ela não se ateve aos arcaísmos da fala e do pensamento. Desvendou neles o mistério e as metamorfoses, a permanência do que se acaba, a poderosa Sinhá Carolina, enganada e desaparecida, retorna caduca e mendiga. A fazenda escravista se torna empresa em mãos alheias, transfigura todos que a tocam, é o instrumento da praga, da maldição que a todos suga para dentro do círculo dos andantes, os condenados a uma busca sem fim.

A peculiar ordenação do tempo do pensar e do narrar fazem desse livro de Ruth Guimarães, de 1946, uma obra tão original quanto Sagarana, de Guimarães Rosa, do mesmo ano. Além do que, Água funda é obra precursora e antecipadora do realismo fantástico latino-americano de autores como Manuel Scorza, Gabriel García Márquez, Juan Rulfo". Deixo ainda a parte final da obra:

"Pois essa praga caiu. Veja: o Bugre morreu de morte feia. Esse desconfio que não foi por causa de praga, pois não devia nada. Seu Pedro é que vive dizendo que aquela cobra foi mandada. 'Era um urutu preto, que nem um pecado. Pra mim foi mandada. Pois cobra mordeu o homem tanta vez e não aconteceu nada, como é que daquela ele foi'? O Santana morreu matado. O Antônio Olímpio matou a mulher e foi parar na cadeia. Aquele morre lá. O Pais encrencou com o patrão e foi embora com u'a mão adiante, outra atrás. Luís Rosa bebe de cair. Anda andando por essas estradas, com uns olhinhos de piaco-piaco. Com o Bebiano aconteceu o que aconteceu, no desastre da usina. Um dia está aqui, outro dia não se sabe dele. Aquele sossega só com a morte. Assim mesmo, não sei. Até em Curiango a praga acertou, de ricochete. Enquanto o pai foi vivo, foi um cabresto para ela, mas depois que morreu... Não pode contar com o marido e não é mulher pra ficar sozinha. É moça demais e é bonita demais. Tudo no diacho dessa mulher faz a gente lembrar de correnteza. Tem o andar bamboleado e macio de veio d'água. Tem uma risada de passarinho nascido perto de cachoeira. E o lustro daqueles olhos pretos é ver lustro de jabuticaba bem madura, molhada de chuva.

Agora que fechou a volta, a praga pode subir a serra, atrás de quem a rogou. A troco de que tudo isso aconteceu, não sei. E é um pecado. Curiango estar pagando o que não fez. Ê mundo errado!..

Bom. Não sei não. Não sei... Deus sabe o que faz, e a gente não sabe o que diz.

Cala-te, boca!

Se aconteceu, é porque era bom que acontecesse".

Ruth Guimarães nasceu no ano de 1920 e morreu em 2014, nascimento e morte na cidade de Cachoeira Paulista. Ingressou na Academia Paulista de Letras, em 2010. Que tempos!

terça-feira, 18 de julho de 2023

LISÍSTRATA. A greve do sexo. Aristófanes. Vestibular 2024 - UFRGS.

Retomei nesta semana a leitura de obras indicadas para vestibular. São sempre grandes indicações. Não é por acaso que um livro é indicado para tal. Recomecei com uma peça de fino humor, uma comédia. Trata-se de Lisístrata - A greve do sexo, de Aristófanes. A comédia data do ano de 411 a.C.. A comédia não tinha a mesma posição das tragédias, mas também contava com financiamentos públicos para a sua produção. Participavam também de competições. Lisístrata é uma indicação para o vestibular - 2024 - da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Lisístrata - a greve do sexo. Aristófanes. L&PM 2023. Tradução: Millôr Fernandes.

Lisístrata chama mais a atenção pelo seu subtítulo - A greve do sexo. Lisístrata é o nome da mulher que organizou e liderou esta famosa greve e o motivo pareceu muito mais do que justo. A Grécia, depois de derrotar os persas nas chamadas Guerras Médicas, travou inúmeras lutas entre as próprias cidades gregas, as chamadas guerras do Peloponeso (431 a 404 a.C.). A participação dos maridos nessas guerras os afastava de seus lares e, em consequência, também de suas esposas, estando elas em plena fase de desejos. E, quais eram os motivos para essas guerras? Enriquecerem pelos saques e pilhagens das riquezas das cidades vizinhas. Era demais!

Aristófanes, tudo faz constar, tinha refinada educação filosófica e musical. A produção de uma peça exigia de seu autor ser também o seu produtor, responsável também pela parte musical. Ele tinha que cuidar de tudo. Também vemos Aristófanes participar de O Banquete de Platão. Em seu discurso busca explicar as origens do amor, mas não deixa de mostrar também a sua profunda ironia com relação à sexualidade, ou à masculinidade dos políticos atenienses - "desinteressados pela família e voltados exclusivamente para as relações com os jovens" -, como lemos na introdução de O Banquete, escrita por J. Cavalcante de Souza, da editora DIFEL. Está aí, o tema, ou melhor, o motivo da greve. "Desinteressados pela família".

As protagonistas da peça são as mulheres das diferentes cidades gregas: Lisístrata, Cleonice, Mirrina e Lampito. Também participam um coro de velhos e de mulheres, soldados, marido e comissário. A força da peça está nos diálogos provocantes, refinados de ironia e sarcasmo e também fortes conotações de refinado erotismo. As mulheres, antes do ato da greve e usando de seus atributos de sedução, deixavam os maridos em total estado de pane, à beira de incontidas explosões. Resta dizer que as mulheres serão as vencedoras, a greve é bem sucedida e tem um final feliz. A tão desejada paz.

A peça termina numa grande confraternização. Vejamos o encerramento da comédia, num convite à festa, por um espartano e uma admoestação final de Lisístrata: " Venham todos depressa que a dança é bela, a música contagia, nossas donzelas são lírios a serem colhidos pelas mãos mais hábeis. Nossas mulheres estão lindas. Nunca foram tão lindas! Batem no chão com os pés velozes, lançam ao vento as longas cabeleiras; e as bacantes ondeiam o corpo sensual, em louca tentação, estimuladas pelo Deus do Vinho. Evoé! Evoé! Venham todos dançar e cantar em honra da vitória da mulher!"

Lisístrata: "E agora, basta! partam todos que eu também tenho direito ao meu descanso (risos, alegres, palmas, concordância). A comemoração pública terminou. Que cada um, agora, aproveite bem o seu prazer particular. Cada homem recolhe sua mulher e volta para casa. Mas atenção: os espartanos, as suas, os atenienses, as deles. Cada um deve se contentar com o que tem. Que ninguém se engane de propósito, trocando sua mulher por outra melhor, pois isso pode começar uma nova guerra".

Quanta atualidade está contida nessa comédia de 411  anos a. C.. O tema do machismo, proeminência masculina nos debates públicos, mulher e finalidades de procriação e afazeres domésticos, a ganância humana, desejos de riqueza fácil pela pilhagem das riquezas dos outros, a busca pela paz e a aversão à guerra, ainda mais quando se trata de uma guerra entre cidades de um mesmo país. Uma outra coisa também não passa despercebida. Eles não eram tão moralistas como os moralistas de hoje. As hipocrisias do tempo presente. Não é por nada que uma das grandes características dos conservadores extremistas (fascistas) é a sua preocupação com o comportamento sexual dos outros.

O livro que eu li é da L&PM Pocket (2023). A tradução é de Millôr Fernandes. Ao final existe uma nota - sobre a peça. Na parte final lemos o seguinte: "Em meio a tal panorama de perigo iminente e de surda guerra civil foi encenada Lisístrata. Neste libelo pacifista, pró união dos estados gregos, as mulheres - que na vida real sequer eram consideradas cidadãs atenienses - reúnem-se, deliberam sobre o futuro de sua sociedade e dos seus, ameaçado pela guerra, e tomam uma atitude drástica. O caráter satírico dos gêneros cômicos facilitava com que se invertessem os costumes e fossem colocadas em cena mulheres com papéis importantes (o que também acontece com outras peças do autor). A obra de Aristófanes é recheada de recursos cênicos satíricos, por vezes absurdos e burlescos, e o tom obsceno do enredo - como as megaereções dos maridos das grevistas - provém, em parte, das origens mágicas e ritualísticas do teatro e das relações deste com os cultos pagãos e humanistas à fecundidade e à fertilidade.

Embora fizessem parte do caráter carnavalesco das comédias os mais diversos disparos contra as instituições e os cidadãos ilustres, Aristófanes usa e abusa de acusações e referências críticas a políticos, administradores da época e demais cidadãos (depois da encenação de Os babilônios, chegou a sofrer um processo judiciário devido aos ataques contidos na peça). A despeito do tom cômico, em Lisístrata - assim como nas outras obras do comediógrafo - há seriedade no trato de alguns sentimentos: o amor pela paz, a nostalgia pelos primórdios da democracia ateniense, ataques aos sofistas e aos seus novos princípios educativos, a ode ao campo e a denúncia dos perigos da cidade, local de perdição e corrupção.

Aclamado pelo público e desprezado pelos eruditos, mesmo assim o gênero da comédia antiga se desenvolveu e sua chama perdura até hoje, nas incontáveis formas cômicas que são suas herdeiras. Mas daquela comédia dramática antiga, que tanto sucesso obtinha, apenas peças de Aristófanes chegaram até nós". Uma notável indicação de leitura.


sexta-feira, 14 de julho de 2023

O HOMEM REVOLTADO. Albert Camus. Nobel - 1957.

O homem revoltado ficou na minha estante desde 2001 para ser lido por inteiro. Não foi por falta de tentativas anteriores. Falta de fôlego e outras ocupações me fizeram desistir, ao menos em duas oportunidades. Confesso que não terminar a leitura de um livro não é uma característica minha. Ler O homem revoltado, de Albert Camus não é uma tarefa fácil. Trata-se, com certeza, de um dos livros mais eruditos que eu já li. Trata-se de um ensaio que analisa o ser humano em seu inconformismo ao longo de toda a história.

O homem revoltado. Albert Camus. Record. 1999.

Albert Camus é franco argelino. Nasceu na Argélia em 1913 e morreu na França em 1960, num acidente automobilístico, nas proximidades de Paris. Sobre este acidente pairam dúvidas de que foi um assassinato comandado a partir de Moscou. Haveria motivos para tal? Se considerarmos a possibilidade do sim, certamente - O homem revoltado - deverá ser apontado como uma das principais causas. Um dos temas preferidos do filósofo, escritor e jornalista era o totalitarismo soviético sob o comando do stalinismo. Assassinatos em série, em nome de uma causa, era um grande absurdo que ele reafirmava constantemente.

Albert Camus era um menino pobre a quem a primeira guerra fez órfão prematuramente. Viver, para ele, passou a ser um imperativo do sobreviver. Desde cedo, professores atentos perceberam o seu gênio e o ajudaram, até mais tarde, em seus estudos universitários. Certamente toda essa trajetória de dificuldades pessoais, das injustiças do colonialismo francês sobre a Argélia e o viver ao longo de duas guerras o transformaram, ele próprio, em um homem revoltado. A revolta o levou à militância. Causas não lhe faltaram.

Abri este post falando que O homem revoltado é uma obra de rara erudição. Quem é o homem revoltado? Quais são as suas características? Quando ele efetivamente existiu? Este é o tema deste monumental ensaio. A análise começa pelos gregos e não tem um término. Só acabará efetivamente com a morte do último homem. A revolta acompanha o ser humano em sua luta contra o seu destino, desde os gregos, passando por todos os grandes seres humanos que tiveram consciência do seu existir: filósofos, literatos, ideólogos, pintores, políticos. O homem revoltado se defronta com os temas comuns à filosofia: a revolta, a insubordinação, a revolução, justiça, injustiça, liberdade, igualdade, sofrimento, racionalidade, irracionalidade, autoritarismo, ideologias, alienação, massas e por aí vai, passando também pelos principais pensadores.

O livro teve a sua publicação no ano de 1951, e como lemos na orelha da capa, ele lhe rendeu um verdadeiro linchamento: "Quando foi publicado pela primeira vez em 1951 O homem revoltado valeu a Albert Camus um verdadeiro linchamento promovido por intelectuais franceses encabeçados pelo romancista e filósofo Jean-Paul Sartre". E qual teria sido o motivo? Continuamos, na mesma orelha: "O ataque a Camus aos crimes perpetrados em nome da revolta repercutiu mal, e ele ainda foi acusado de defender a liberdade  de forma simplista, privilegiando a questão individual. Foi assim que, por várias décadas, a complexidade de seu pensamento foi reduzida a uma tese de direita". A explicação continua:

"Stálin ainda vivia, muita gente começava a se desentender com o Partido Comunista, mas apesar disso Camus não podia ser perdoado ao criticar igualmente a violência e o totalitarismo de direita e esquerda. Não se podia aceitar uma crítica tão forte contra as prisões e os assassinatos perpetrados em nome da revolução. O novo humanismo de Camus - talvez por vezes contraditório, mas certamente sincero - era repudiado radicalmente". 

A descrença no mundo do socialismo real, aquele que efetivamente existiu, ou o stalinismo entrou em decadência, em favor de um socialismo democrático, após 1956, com a realização do XX Congresso do Partido Comunista (XX - PCUS), quando Nikita Krushchov tornou públicos os crimes cometidos pelo regime stalinista. A partir de então, os próprios partidos comunistas, sob orientação da Terceira Internacional perdem terreno em favor dos partidos socialistas, que defendem o socialismo com democracia. (Citaria como exemplo, aqui do Brasil, o caso da ascensão de Lula e do PT e a queda do Partidão na luta hegemônica dos ideais socialistas). Este será o tempo da reabilitação de Camus e do seu O homem revoltado. Vejamos a parte final da apresentação do livro, agora já na orelha da contracapa.

"Mais de cinquenta anos depois de sua primeira publicação, com as disputas ideológicas e os questionamentos existenciais da humanidade radicalmente deslocados de seus eixos, o livro adquire uma dimensão especial. Não é possível mais ignorar crimes contra a humanidade seja quais forem seus pretextos revolucionários. A revolta não desculpa tudo. É assim que o humanismo proposto por Camus revela-se fundamental para aqueles que preferem defender os seres humanos antes de defenderem sistemas teóricos abstratos. E é por isso e muito mais que O homem revoltado é um dos livros mais importantes do século (XX)".

Em algum lugar, nas consultas que eu fiz ao longo da leitura, eu li que as polêmicas entre Sartre e Camus em torno de O homem revoltado se transformaram na "Guerra Fria Cultural" desse período. Muito apropriado. Já localizei. Trata-se de uma observação que fiz na primeira página do livro. Tem outra, que remete ao livro de Tony Judt, O mal ronda a terra, de que o livro promoveu a ruptura de Camus com o seu próprio passado.

O ensaio é longo. São, no total, 351 páginas divididas entre uma introdução, sob o título de - o absurdo e o assassinato -, e cinco capítulos: I. O homem revoltado; II. A revolta metafísica; III. A revolta histórica; IV. Revolta e arte; V. O pensamento mediterrâneo. A introdução merece um destaque todo especial. O seu primeiro parágrafo também aparece na contracapa como apresentação do livro. Vejamos:

"Há crimes de paixão e de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes". Albert Camus recebeu o Prêmio Nobel de Literatura do ano de 1957.


sexta-feira, 7 de julho de 2023

Tempo de reportagem. Histórias que marcaram época no jornalismos brasileiro. Audálio Dantas.

Dia de festa. Jantar na casa de Regina e Valdemar. Levo um livro (Padura) e um vinho. Lá também se encontrava o Pai Firmino, o venerável da sátira e do humor. Pai Firmino e a excelentíssima também trouxeram livros. Ganhei um. Devo dizer que meus olhos brilharam quando vi que o livro era de autoria do Audálio Dantas. Tempo de reportagem - histórias que marcaram época no jornalismo brasileiro. Era um encontro/celebração no moderno Jardim de Epicuro, numa de suas melhores versões.

Tempo de reportagem. Audálio Dantas. LeYa. 2012.

De Audálio Dantas eu sabia apenas o essencial, até o dia em que eu li, As duas guerras de Vlado Herzog - da perseguição nazista à morte sob tortura no Brasil. A partir daí, virei admirador incondicional. O que eu mais apreciei no livro e que eu agora localizei com facilidade, porque devidamente sublinhado, é a história de um jovem que estivera na Praça da Sé, por ocasião do culto ecumênico, na Catedral da Sé, em memória de Vlado, sétimo dia. O jovem tinha por nome Márcio José de Moraes. O que eu sublinhei estava num entre parênteses: "(Três anos mais tarde, iniciando sua carreira na magistratura, o jovem Márcio tomaria uma decisão que teria tudo a ver com a história que estava sendo contada naquela praça, acrescentando-lhe um novo capítulo - a sentença que condenou a União pela prisão ilegal, tortura e morte de Herzog -, o qual marcaria sua vida e a própria história do país"). Por ocasião da leitura fiz um post especial.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/01/a-sentenca-de-condenacao-da-uniao-pela.html

Agora eu li atentamente o livro com o qual eu fui agraciado. É uma preciosidade. São treze reportagens selecionadas e comentadas por Audálio, publicadas originalmente na Folha da Noite, revista O Cruzeiro, revista Realidade e, uma delas, na Playboy. A revista Realidade tem toda uma história singular no jornalismo brasileiro. Foi uma das que mais sofreu na ditadura militar brasileira. Ela simplesmente trombou com os "anos de chumbo". Eu falo das reportagens:

1. Diário de uma favelada: a reportagem que não terminou. Esta reportagem, desnecessário dizer, se transformou no famoso livro Quarto de despejo, da escritora favelada Carolina Maria de Jesus. A favela era o quarto de despejo da maior e mais rica metrópole brasileira. A dor da fome é a nova escravidão, ou a escravidão remanescente, a indenização permanente pela abolição. A reportagem foi publicada pela Folha da Noite, em maio de 1958, sob o título: O drama da favela escrito por uma favelada.

2. O circo do desespero. O fato narrado, um verdadeiro horror. Um concurso carnavalesco de resistência de dança. Das 15h00 de sábado até as 9h00 de terça-feira, com breves intervalos, controlados por rigorosos e empolados juízes. Uma promoção da TV Record, com patrocínio de um produto de limpeza. O local do surreal espetáculo era o Ibirapuera. Haja frevo, a dança que mais cansava os participantes. A premiação era uma merreca em dinheiro, necessidade primordial dos participantes. Profundamente desumano. A reportagem foi publicada na revista O Cruzeiro, em março de 1963, sob o título: O circo do desespero.

3. Nossos desamados irmãos loucos. Uma reportagem de inimaginável sofrimento humano. Mostra como eram tratados os "loucos", nessa época. Trata-se do hospital psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, em São Paulo. É a descrição do "espetáculo" da miséria humana. Hoje o Juqueri está em toda parte. Nossos amados irmãos loucos foi publicada na revista O Cruzeiro, em março de 1963.

4. A nova guerra de Canudos. Possivelmente seja a mais impactante das reportagens. A nova guerra e a nova destruição é uma referência à construção de uma barragem no rio Vaza-Barris, soterrando a área do conflito. A história da primeira guerra também é recontada, por um menino sobrevivente, o menino Bruega, agora o velho Bruega. Nada, ou muito pouco, mudou. A nova guerra de Canudos foi publicada na revista O Cruzeiro, em dezembro de 1964.

5. Oh, Minas Gerais! Uma reportagem sobre o jeito mineiro de ser. Narra a chegada da minissaia na terra da Tradicional Família Mineira. Uma revolução nos costumes. Um desnudar de hipocrisias. Minas Gerais se industrializa Surge uma Belo Horizonte moderna. Oh, Minas Gerais! é uma publicação da revista Realidade, de janeiro de 1970.

6. Doença de menino. A mais triste das reportagens. A doença descrita é a mortalidade infantil. O cenário é o estado de Pernambuco, o bairro de Beberibe, no Recife e a cidade de Amaraji, na rica Zona da Mata-sul, em meio aos canaviais. Uma vida nada doce. A doença de menino é simplesmente naturalizada. É a vontade de Deus se cumprindo! (Pensei muito no SUS, criado junto com a Constituição de 1988. Não canso de dizer, em todas as minhas falas, que o SUS é o maior patrimônio do povo brasileiro). Doença de menino foi publicada na revista Realidade em fevereiro de 1970.

7. Povo caranguejo. Reportagem sobre a captura de caranguejos nos mangues da foz do rio Sanhauá, na Paraíba. Nessa reportagem, além de mostrar as aflições dos caçadores de caranguejo, da captura até a venda, ele também interpreta a subjetividade dos coitados dos bichinhos, em busca da manutenção de sua liberdade. Povo caranguejo foi publicada na revista Realidade, de março de 1970.

8. Chile 1970. É uma reportagem sobre a cobertura das eleições chilenas do ano de 1970, que levaram Salvador Allende à presidência da República. O antes e o depois, com todos as suas tensões. Na volta, muitos amigos o esperavam no aeroporto em São Paulo, em função de boatos de sua prisão. Tempos da ditadura. Três anos depois o Chile sofreria o sanguinário golpe do general Pinochet. Chile 1970 foi publicada na Realidade, de novembro de 1970.

9. Oh, Canadá!. Mais uma reportagem internacional. É a tensão no pacífico e próspero país, causada pela sua dualidade na colonização. A parte francesa de Quebec queria se tornar independente do resto, de colonização inglesa. Audálio chegou a entrevistar o primeiro ministro Trudeau, que tinha um pé nas duas origens históricas. Em Toronto teve um encontro com Florestan Fernandes, então ali exilado. Oh, Canadá! foi publicada em Realidade, em dezembro de 1970.

10. Joaquim Salário Mínimo. Nessa reportagem, além de contar a história do salário mínimo, conta também as dificuldades de quem o recebe e dele tem que viver. Reportagem difícil de fazer, pois, pelo medo da censura, o governo deveria estar totalmente isento de culpa, embora fosse ele a fixar o seu preço. A Vila Guilherme, na cidade de São Paulo é o cenário dessa reportagem. É lá que morava o Joaquim Salário Mínimo. Reportagem publicada em Realidade, no mês de janeiro de 1971.

11. O prédio. Outra reportagem de cunho social. O "personagem" da vez é o edifício Martinelli. De seu esplendor até a sua mais degradante decadência. É um relato do que se passava nesse verdadeiro antro da esplendorosa São Paulo. Tem muito da história de São Paulo, de um dos seus centros de maior efervescência, sob todos os aspectos, no triângulo traçado entre as ruas São João, São Bento e Líbero Badaró. O edifício sobrevive, sendo a Prefeitura de São Paulo, a proprietária. O Prédio foi publicada em Realidade, em abril de 1971.

12. À margem. Belíssima reportagem descrevendo as margens do rio São Francisco, o rio da integração nacional. Quanta miséria e quanta tristeza. Personagens únicos. Essa reportagem me proporcionou um reencontro. Nos meus tempos de filosofia, em Viamão, RS., nossos olhares de reverência estavam voltados para um estudante, já da teologia. Era Carlos Moraes, tido por todos como a maior inteligência que já passara por Viamão. Sabíamos, por boatos, que ele estava encrencado com a ditadura e que fora trabalhar na revista Realidade. Nunca mais tinha ouvido falar. Ele era da diocese de Bagé. As dioceses circunscreviam a geografia do imenso seminário de Viamão. Já encomendei livros seus. Faleceu em São Paulo, onde foi jornalista e escritor, em 2019. Carlos propôs o Nobel da Paz para o rio São Francisco. Ele teve que interromper sua participação nessa reportagem por ordem militar, vinda da cidade de Bagé. Os horrores da ditadura militar. Reportagem da Realidade, março de 1972.

13. A maratona do beijo. Uma reportagem semelhante a de O circo do desespero, o concurso sobre a resistência de dançar no carnaval. Agora era o tempo da maior duração de beijo. Uma maratona de sessenta dias, com os intervalos mínimos possíveis e necessários. Reportagem para a Playboy, de agosto de 1993. Na apresentação dessa reportagem é contado um pouco de sua história à frente do Sindicato dos jornalistas, em 1975.

São estas as treze reportagens, mas o livro não acaba ali. Ele tem um apêndice, tão precioso quanto o próprio livro. Uma entrevista/ homenagem, conduzida por Claudiney Ferreira, com a participação de Eliane Brum e Ricardo Kotscho. A reconstituição de sua vida, desde Tanque d'Arca (AL), até a sua trajetória de vida e resistência em São Paulo. Audálio traz em sua vida um prêmio da ONU, por sua atuação em defesa dos Direitos Humanos. O livro teve a sua publicação no ano de 2012, numa publicação da LeYa. O livro é prefaciado pelo amigo Fernando Moraes. Deixo ainda a resenha do livro sobre Herzog, com um adendo.

As duas guerras de Vlado Herzog. Audálio Dantas. Civilização Brasileira. 2012.


http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/01/as-duas-guerras-de-vlado-herzog-audalio.html

segunda-feira, 3 de julho de 2023

BRANDEMBURGO. Henry Porter. Romance de espionagem.

Me aposentei definitivamente da sala de aula no segundo semestre do ano de 2012. Para não ter uma recaída e permanecer por mais tempo, empreendi uma viagem para o berço da civilização (Grécia e Itália) para os dias que teria que voltar para o segundo semestre. Não queria ter mais obrigações sistemáticas. Após a volta, lembro, havia muitas promoções de livros em liquidação nas Livrarias Curitiba. Comprei muitos, mesmo sem os ler de imediato. Semana passada retomei um deles, que como está assinalado, foi comprado em 2012. Ele ainda tem a etiqueta com o preço: $ 12,90.

Brandemburgo. Hernry Porter. Record.2005.

Trata-se de Brandemburgo, romance de espionagem do editor britânico da Vanity Fair, Henry Porter. Devo dizer que não sou muito afeito a esse tipo de leituras, mas como o livro mistura muita história com a espionagem, eu me dei como muito satisfeito com a leitura. A narrativa fluiu bem e sempre colocava o passo seguinte em perspectiva. Foram 487 páginas, lidas de um só fôlego. O livro oferece grandes surpresas ao longo de sua leitura e um final absolutamente surpreendente. Na capa, junto com o título e o autor há uma observação do The Economist: Brandemburgo é uma reconstrução minuciosa da Guerra Fria em seus momentos mais insidiosos..."

Ao final do livro Porter insere uma Nota do autor. Dela selecionei algumas passagens, a começar pelo parágrafo inicial: "A Alemanha Oriental foi o único integrante do bloco comunista a desaparecer como um Estado. Uma década e meia após o Muro ter caído e o processo de unificação alemão ter começado, muitas pessoas teriam dificuldades em traçar num mapa a fronteira entre as Alemanhas Ocidental e Oriental. A própria noção de duas Alemanhas, de uma Cortina de Ferro cortando a Europa em duas, parece surpreendente hoje, especialmente para aqueles nascidos depois de 1975. E nada era mais bizarro durante essa era de divisão que a situação de Berlim Ocidental, um enclave livre 160 quilômetros para dentro do território comunista, inabalavelmente garantido pelos aliados ocidentais, mas cercado por torres de vigia, arame farpado e concreto do Muro de Berlim".

O famoso portão de Brandemburgo, cenário da parte final do romance.

Creio que estão dadas as primeiras dicas em torno do romance, mas tem mais: "Tentei o máximo possível tecer minha história em torno da sucessão de eventos que ocorreram entre o começo de setembro e o fim de semana de 11-12 de novembro de 1989. As datas do fechamento das fronteiras na Tchecoslováquia, do transporte de refugiados orientais para a Alemanha Ocidental, os horários e as rotas das manifestações de Leipzig, e a sequência de eventos de 9 de novembro são todos, espero, acurados. Também tive o cuidado de usar as palavras exatas ditas por Gorbachev em 6 de outubro, pelos pastores da Nikolaikirche, em Leipzig, e pelas pessoas que estavam presentes na crucial entrevista que Gunther Schabowski deu em Berlim Oriental em 9 de novembro. Trechos de transmissões de rádio e televisão dos dois lados do Muro também foram reproduzidos palavra por palavra"

Tem mais, agora envolvendo personagens: "Embora esta seja claramente uma obra de ficção, algumas pessoas reais nela aparecem. Erich Mielke, o chefe da Stasi, faz uma ponta. Espero ter feito justiça a ele. O tenente-coronel Vladimir Putin era na época da ação um agente da KGB em Dresden. Seus deveres incluíam espionar a Universidade Técnica da cidade e depois que o Muro caiu foi ele de fato responsável por resgatar alguns arquivos importantes do quartel-general da Stasi em Dresden. Mas seu papel nesta trama foi inteiramente inventado, claro...."

Uma foto da histórica cidade de Dresden, um dos cenários do romance.

Também tem sobre o personagem principal, Rosenharte: "Nunca houve alguém sequer remotamente semelhante ao Dr. Rudi Rosenharte trabalhando na Dresden Gemäldegalerie durante a década de 1980. O passado de Rosenharte foi inspirado num relato sobre o programa Lebensborn dos nazistas que se encontra no excelente estudo de Caroline Moorehead sobre a Cruz Vermelha, Dunart's Dream (Harper Collins)". Que horror esse programa. Ele dá a tonalidade dos dois últimos capítulos.

O livro é dividido em três partes e quarenta capítulos. Se inicia em Trieste, na Itália e termina na quinta feira do dia 9 de novembro de 1989, no Portão de Brandemburgo, com a queda do Muro de Berlim, passando pelas cidades de Leipzig e Dresden, especialmente. Na página final, de agradecimentos, Hernry Porter lista os principais livros sobre a RDA e a queda do Muro de Berlim. O livro foi escrito em Londres, no ano de 2004.

O tema do livro está assim enunciado na orelha e na contracapa do livro: "Historiador de arte e agente aposentado da Stasi, Rudi Rosenharte recebeu uma missão impossível: arrancar segredos de Annalise Schering, sua antiga amante, que mora na Itália. O problema: Rudi sabe que Annalise morreu há 15 anos, mas os chefes da espionagem comunista não acreditam nisso. Para eles, Rudi está escondendo uma valiosa informação. Agora, a sobrevivência dele e da família está em risco. Um thriller histórico emocionante, ambientado nos dias que antecederam o colapso do Muro de Berlim".