sábado, 30 de março de 2013

O Povo Brasileiro. Uma Introdução.

Me propus uma tarefa! Despertar para a curiosidade, através de pequenos tópicos, da formação do povo brasileiro, acompanhando a sua trajetória na busca de identidade, através da obra de Darcy Ribeiro O Povo Brasileiro - A Formação e o Sentido de Brasil e do vídeo homônimo produzido em torno de sua obra e de outras valiosas cooperações. O vídeo é algo fantástico. Mobilizou muitas pessoas, do meio cultural e artístico. Sua idealização e direção é de Isa Grinspum Ferraz e uma co-produção da Superfilmes, da TV Cultura, da GNT e da fundação Darcy Ribeiro. Tem participações especiais de Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Tom Zé, Antônio Cândido, Aziz Ab'Saber, Paulo Vanzolini e Luiz Melodia, entre outros. Pelo encanto que este vídeo me causou é que pretendo fazer este esforço na sua divulgação.
O belo vídeo - dez capítulos de estudo sobre a formação e a invenção do Brasil.

O vídeo é formado por 10 capítulos, seguindo mais ou menos o traçado do livro. Assim temos a Formação do Povo Brasileiro com dez tópicos de análise, ou dez capítulos. darei as principais participações de cada um deles. São os seguintes:
1. A matriz Tupi.
2. A Matriz Lusa.
3. A Matriz Afro.
4. Encontro e Desencontro.
5. O Brasil Crioulo.
6. O Brasil Sertanejo.
7. O Brasil Caipira.
8. O Brasil Sulino.
9. O Brasil Caboclo
10.A Invenção do Brasil.
A presença de Darcy Ribeiro, nas falas do vídeo.

Nos extras, tem três entrevistas. A primeira é com a idealizadora e diretora do vídeo Isa Grinspum Ferraz, que por treze anos trabalhou com Darcy, lhe dando uma assessoria para materiais audiovisuais. Trabalhava também na criação da TV Escola e que, com a leitura de O Povo Brasileiro, e o encanto que este lhe proporcionou, resolveu divulgá-lo de forma mais ampla, com a produção do vídeo. Com a paixão devida, foi em busca de recursos e, entre a montagem do projeto e a sua apresentação às empresas, levou um ano e meio para conseguir o dinheiro necessário, através da lei de Incentivo à Cultura. Outro ano e meio foi utilizado na sua produção, com visitas a museus, escolha de colaboradores, entrevistas e gravações e mais seis meses para a sua edição. E o resultado estava aí.  Um sucesso, conta Isa, em grande júbilo.

A outra entrevista é com Zita Carvalhosa, a produtora do vídeo. Ela conta basicamente o que foi a sua produção, o levantamento de recursos e como as parcerias foram feitas. Os parceiros eram os apaixonados em conhecer e divulgar o Brasil e, a legislação pró cultura garantiu os recursos.

A última das entrevistas é de Tatiana Memória, presidente da Fundação Darcy Ribeiro, que conta do desejo de Darcy como aspirante à imortalidade e que encontrou na Fundação, a possibilidade de sê-lo. A fundação tem como objetivo principal a formação, abrangendo especialmente os campos da educação, da antropologia e a difusão de seus livros. A fundação se dedica, portanto, ao trabalho e não à filantropia, bem de acordo com as convicções de Darcy: acreditar nos resultados do trabalho e não da caridade.
Tatiana ainda nos conta da obsessão de Darcy com este livro, que não conseguia concluir. O fez após a fuga da UTI., diante do espectro da morte. Em apenas 45 dias terminou a sua obra, que vinha escrevendo a mais de trinta anos. Nos conta ainda, que este livro é, entre os livros de Darcy, o que mais vende, cerca de 600 a 700 exemplares por mês.

Isa nos conta com entusiasmo, que Aziz Ab'Saber usa este material em suas aulas introdutórias em todas as suas andanças mundo afora. Por ser um material profundamente abrangente, e acima de tudo extremamente humano é um material que deveria ser trabalhado em cursos de formação, tanto pelas secretarias de educação, quanto pelos sindicatos e, obviamente nos cursos de graduação, num vasto campo de disciplinas.
Se conseguir mais alguns leitores para a obra de Darcy, me darei por muito satisfeito. A minha intenção é provocar para que isso aconteça. Esta é a tarefa dos dez próximos posts.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Povo Brasileiro. Darcy Ribeiro.

O livro O Povo Brasileiro - A formação e o sentido de Brasil é um livro extraordinário. O título do livro é auto-explicativo. Dois são seus tópicos fundamentais que, no entanto, se permeiam ao longo de todo o livro: a formação do povo brasileiro, como um povo absolutamente singular e o sentido de Brasil, onde aponta uma visão de futuro para este povo singular e maravilhoso. Um destino, com certeza grandioso.O livro certamente é o livro da vida de Darcy. O escreveu ao longo de toda a sua vida, concluindo-o apenas em 1995, depois da espetacular fuga da UTI., que já narramos em outro post.Para esta síntese final, ele levou apenas 45 dias, pressionado pela morte.
O livro da vida de Darcy Ribeiro. O escreveu ao longo de toda a sua vida e o terminou, somente, já ao final dela.

Não resisto em transcrever a contracapa do livro, que é uma apresentação do mesmo, feita por Antônio Cândido, outro dos brasileiros, que doa a força do seu intelecto a este tema:

"Para os que chegavam, o mundo em que entravam era a arena dos seus ganhos, em ouro e glórias. Para os índios que ali estavam, nus na praia, o mundo era um luxo de se viver. Este foi o efeito do encontro fatal que ali se dera. Ao longo das praias brasileiras de 1500, se defrontaram, pasmos de se verem uns aos outros tal qual eram, a selvageria e a civilização. Suas concepções, não só diferentes mas opostas, do mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Os navegantes , barbudos, hirsutos, fedentos, escalavrados de feridas do escorbuto, olhavam o que parecia ser a inocência e a beleza encarnadas. Os índios, esplêndidos de vigor e de beleza, viam ainda mais pasmos aqueles seres que saíam do mar".

A descrição de Darcy passa exatamente por aqueles que chegavam e aos que aqui foram encontrados. As simpatias de Darcy são por aqueles que aqui já estavam e não tanto pelos que aqui chegaram, como dá para perceber, já no pequeno texto de apresentação de Antônio Cândido. Também, ao contrário de outros, como Gilberto Freyre, não existe neste encontro nenhuma romantização, pelo contrário, entravam na arena dos ganhos e estes ganhos ditaram a ordem de tudo.
Darcy Ribeiro: uma vida dedicada a estudar a formação do povo brasileiro e a dar a ele, um sentido de identidade e grandeza.

Darcy mostra enorme simpatia pelo povo que foi se formando no cruzamento de brancos, índios e negros e do entrecruzamento do sangue dessas raças, foi se formando o verdadeiro povo brasileiro, não um europeu transportado, como em outras regiões, mas um povo que encontrou uma maneira toda particular de ser. Aqui estes povos foram perdendo muito de suas identidades e configurando uma nova maneira de ser, que não existe em lugar nenhum no mundo, o ser brasileiro.

Outra coisa que Darcy também observa é que o empreendimento de colonização do Brasil, embora todas as dificuldades desse processo, sempre deu certo. O grande problema sempre foi o de que este projeto não era para o povo brasileiro, mas era um projeto - de uma empresa - para os outros. É assim que vê se formar, primeiramente, um projeto colonialista e, logo depois, o imperialista. Mas o destaque sempre foi este: aqui se desenvolvia um projeto para os outros e que estes sempre deram resultados positivos. A economia açucareira da época era algo equivalente a economia do petróleo em nossos dias.

Outro aspecto bem demonstrado foi o da enorme crueldade que sempre foi exercida pelos dominadores com relação aos povos por eles escravizados. Contra eles todos os meios foram utilizados. Simplesmente os coisificaram, os foram gastando, eliminando neles qualquer possibilidade de continuidade de suas culturas e valores ancestrais, sonhos em se realizarem como seres humanos, de formarem famílias e venerarem seus antecessores, de legarem valores e brios. É também neste ambiente que se forja a elite brasileira, que até os dias de hoje, ainda persiste como uma das mais cruéis do mundo, negando aos trabalhadores até as mínimas condições de sobrevivência, quando não os culpam de todas as mazelas do país, pelo atraso em vivem.  Também são destacados os confrontos de interesses entre os colonizadores, pelas diferentes  vias que aqui representavam. Ou eram colonos que representavam os interesses do mercantilismo português ou, os interesses missionários das ordens religiosas. Estas inclusive deixaram piedosos textos de comiseração para com os povos nativos e para com os escravos negros.

A formação passa pelos diversos ciclos econômicos, em torno dos quais se dão os maiores movimentos das populações e conferindo às diferentes regiões brasileiras, diferentes perfis de Brasil. A manutenção da unidade territorial foi, inclusive, um fator muito complexo e que deve ser sumamente louvado.

A parte final do livro descreve cinco brasis bem distintos: o Brasil crioulo, o Brasil caboclo, o Brasil sertanejo, o Brasil caipira e o Brasil sulino. Cada um desses brasis é muito bem descrito, com riqueza e abundância de detalhes, terminando com a chegada , ou não da industrialização, a cada um desses brasis. O grande destaque é dado para a manutenção da unidade, não havendo grandes manifestações de ruptura, por não existirem condições culturais  para a ocorrência desse fenômeno. O que é maravilhoso!

Esta unidade é aliás o grande fator em torno do qual inicia a última parte do livro, que é a de lhe dar um sentido. Além de dar ao povo brasileiro, uma dignidade nunca reconhecida ao longo do processo histórico, pelo acesso aos bens necessários a sua elevação material e cultural, deve ampliar esta luta por inclusão e cidadania para os povos da América do Sul, reafirmando os ideais bolivarianos. Com esta unidade se criaria um bloco econômico com o qual se poderia romper a fase de ser para os outros e construirmos um projeto de um país para si e para o seu povo. Aliás, foi essa a trajetória de vida e luta política seguida por Darcy ao longo de toda a sua vida, que no dizer, ainda de Antônio Cândido, a multiplicou tanto, que viveu tantas vidas em uma só.
Da obra de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro. Muita gente e muitos esforços foram feitos para a produção deste vídeo. Um belo trabalho para se entender o Brasil.

Depois do livro vou me dedicar ao vídeo, em que o livro é destrinchado em dez capítulos, procurando resposta a permanente pergunta; quem são os brasileiros?  O vídeo de 260 minutos permanece original ao descrito por Darcy, mas é acrescido de outras falas do próprio Darcy, além de outros intérpretes de Brasil. O destaque é dado às diferentes regiões brasileiras, mostrando a origem e o destino de cada uma delas. É uma produção grandiosa, com participações de peso e que deveria ser um material obrigatório nos trabalhos de formação inicial e continuada de todos os professores, em todos os níveis de atuação.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O Enfrentamento de Mundos. Choques Culturais.

A primeira grande cena de um choque cultural que eu presenciei foi por ocasião de uma viagem para a Bolívia e para o Peru. Depois de termos visitado Tiwanaku, ainda na Bolívia, local onde se desenvolveu a cultura ancestral dos incas, e de Puno, com as suas monumentais islas flutuantes, visitamos um cemitério inca. O local do cemitério era um desses verdadeiros paraísos terrestres, pela beleza da paisagem, entre lagos e montanhas. O guia que nos acompanhava era culto e sabia do que estava falando. Deu-nos uma aula sobre a cultura inca.
Junto ao lago Titikaka se desenvolveu a cultura Tiwanaku, ancestral da cultura inca. 

O que mais impressionou em suas explicações foi a questão de como os incas tratavam a morte e a vida posterior, o que se justifica, pois, estávamos num cemitério. A bela paisagem não era um acaso. Como os incas piamente acreditavam na reencarnação, o local escolhido para reencarnar, teria que ser realmente maravilhoso. Na noite seguinte, já hospedado em Cusco, não consegui dormir, assimilando e metabolizando os fatos do dia.

Mas o que eu quero relatar é o depoimento de um dos turistas presentes na excursão. Era um católico que não tinha dúvidas em suas certezas. Era para lá de convicto. Diante da maravilhosa explicação para a morte e para a vida no além, ele não se conteve e exclamou: "Nossa! que explicações bonitas para a vida, mas que pena que estavam errados"! A sua cultura, ou a sua visão de mundo entrou em contato com uma outra visão e, lhe brotou a sua magnífica exclamação: um choque cultural, um encontro de diferentes visões de mundo. Uma abertura para a dúvida. Uma abertura para a elaboração própria de uma visão de mundo.

Lendo o magnífico livro de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro, quando ele examina a visão de mundo do índio e o estranhamento diante dela dos colonizadores ele traz um diálogo maravilhoso entre um dos recém-chegados e um nativo. Diálogo sem entendimento, é claro. A distância entre estas diferentes visões era infinita e inalcançável para se entenderem. Vejamos a narrativa de Darcy, que a toma de Léry (LÉRY, Jean de. 1960. Viagem à Terra do Brasil. São Paulo. Martins. Biblioteca Histórica Brasileira. Vol. 7):

O livro de Darcy Ribeiro O Povo Brasileiro - A formação e o sentido do Brasil, donde retiramos este monumental diálogo.

"Os nossos Tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar os seus arabutan. Uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros, maírs e perôs (franceses e portugueses) buscar lenha tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas.

Retrucou o velho imediatamente: e porventura precisais de muito? - Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. - Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? Sim, disse eu, morre como os outros.

Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam? Para seus filhos se os têm, respondi; na falta destes para os irmãos ou parentes mais próximos. - Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados".
Estatueta da Pachamama, da mãe terra. Ah se entendêssemos melhor a relação homem natureza, a Pachamama receberia mais louveres. 

Querer interpretar este diálogo seria professoral demais, porque ele é absolutamente autoexplicativo. Mas não resisto em oferecer mais umas poucas linhas, também tiradas de O Povo Brasileiro. É sobre o caráter antropofágico dos índios e o seu significado. Darcy Ribeiro nos conta a história de Hans Staden, que por três vezes se defrontou com a realidade concreta de ser antropofogiado e nas três vezes escapou ileso. Vejamos a narrativa de Darcy: "[...] Comprova essa dinâmica o texto de Hans Staden, que por três vezes foi levado a cerimônias de antropofagia e três vezes os índios se recusaram a comê-lo, porque chorava e se sujava, pedindo clemência. Não se comia um covarde".

A transcrição deste diálogo me foi inspirado pela escolha franciscana do jesuíta Francisco, por sua simplicidade, humildade e humanidade até aqui demonstrada e com a certeza de que as coisas e a sua acumulação não humaniza ninguém, somente as relações humanas são capazes desta tarefa.



quarta-feira, 27 de março de 2013

A Casa do Rio Vermelho. - Zélia Gattai.

Continuando nas minhas leituras de biografias e memórias, agora foi novamente a vez de Zélia Gattai. A minha agradável leitura, dessa vez foi A Casa do Rio Vermelho. Zélia não é de datar muito as suas histórias, mas uma dica lhe escapa e ajuda a nos situar. Foi em 1962 que compraram a casa da Rua Alagoinhas, nº 33,  no bairro do Rio Vermelho, que se tornaria mais tarde, um dos mais famosos endereços de Salvador. A casa existente foi praticamente destruída e foi construída uma casa ampla, com enormes jardins. A casa fora comprada com o dinheiro da venda dos direitos autorais de Gabriela Cravo e Canela pela Metro Goldwin Mayer. Jorge não cansava de contar que a comprara com o dinheiro do imperialismo americano.
O livro de memórias de Zélia Gattai. A Casa do Rio Vermelho. 

A casa se tornou endereço famoso, especialmente pelos amigos que a visitavam. Todo o mundo cultural, especialmente os artistas mais populares da Bahia, passavam constantemente pela casa. Creio que Carybé, entre todos, tenha sido o amigo mais constante. As memórias de Zélia vão basicamente falar, como não poderia ser diferente, sob pena de o título não corresponder, ao que se passou nesta casa, especialmente em seus dias de festa, que não foram poucos.

Uma das coisas que eu mais gostei do livro foi o encontro de anotações antigas por parte de outro de seus grandes amigos Mirabeau Sampaio, sobre uma liga moralista a que pertenceram na sua juventude. A Liga pela Restauração dos Ideais. Como membros desta Liga, comprometiam-se à elevação moral, phisica e intellectual, juravam ler diariamente um capítulo da Imitação de Christo e se submetiam aos deveres de castidade e obediência e aceitavam as proibições de tudo o que servir para deprimir e rebaixar em vez de levantar para os ideaes, como leituras más, conversas degradantes e indecorosas, brigas e contendas. Zélia ainda transcreve trechos de um inflamado discurso pronunciado por um de seus membros, o próprio Jorge, nos idos de 1926. Fantástico, bem de acordo com Jorge. Jorge, ao longo de sua vida não mudou em nada! A Liga era comandada por padres jesuítas (dou o detalhe pela nova fama súbita dos jesuítas com a eleição do papa Francisco).

Jorge deixou de ser militante comunista, ainda nos anos 50. Por isso e pelo seu renome internacional não foi muito perturbado pela ditadura militar. Mas Zélia também se detém na "redentora de 1964".  Dedica-lhe vários posts, como o Golpe de Estado, uma participação sua numa passeata com a filha Paloma e elabora uma lista de cassações feitas pelo regime. Ontem, já próximo da data da "redentora", dei esta lista da Zélia. Hoje, repito a ordem de demissão de seu posto de diplomata, de Vinícius de Moraes: "Afaste-se esse vagabundo". Assinado: Artur da Costa e Silva.

Zélia se desmancha em elogios a Antônio Carlos Magalhães, apresentando-o como um político corajoso e louvando suas iniciativas de levar a cidade ao aeroporto, por modernas avenidas e pelas obras de saneamento de Salvador, como as redes de água e esgoto.Elogios também não faltam para José Sarney, especialmente no que se refere a construção da casa da Fundação Jorge Amado, no Pelourinho. Este fato, o da sua inauguração se deu em 1987, ocasião em que Jorge recepcionou na casa da Rua Alagoinhas, mais de 300 políticos, de todos os matizes, fato considerado como um verdadeiro milagre. O Toninho, para o casal Gattai/Amado, não tinha nada de malvadeza.
A Fundação Jorge Amado, no Pelourinho, em Salvador.

A casa, de tanto receber convidados e não convidados, se tornou incompatível com o ofício de escritor de Jorge. Construíram outra casa numa praia, ainda deserta, nas proximidades de Itapuã. Esta ,em pouco tempo, se tornou atração turística. Eram Ônibus e e mais ônibus passando pela casa e turistas e mais turistas querendo dar um Oh de casa! para o ilustre escritor. Voltaram para a Rua Alagoinhas.

Viagens também estão presentes no livro, como sempre estiveram presentes na vida do casal. Três viagens recebem destaque. Uma ida à Europa. De Portugal aos países escandinavos, com descrições de todas as aventuras e desventuras do casal, acompanhado da filha Paloma, que estava com casamento marcado, ao término dessa viagem. Outra foi para os Estados Unidos, onde Jorge foi professor de uma universidade, por três meses e a última das viagens foi pela Grécia e pelo Mar Negro, viagem da qual praticamente não participou, de tão envolto que estava com o seu livro de memórias Navegação de Cabotagem, que deixara pronto em Paris, mas que recebia capítulos e mais capítulos de acréscimo.

Por falar em memórias Zélia registra um encontro de três figuras ilustres a falarem de memórias que passo a apresentar. Os ilustres são Ilya Ehrenburg, Pablo Neruda e Jorge Amado: "Somos homens de mil histórias, vivemos muito.Vimos coisas que pouca gente viu. Conhecemos povos os mais distantes. Tivemos algumas alegrias e grandes decepções. Aprendemos a conhecer os homens, os falsos e os verdadeiros, a bondade e a maldade. Damos o que temos de melhor, por dias melhores. Temos compromissos com nossos princípios, com nós mesmos. Nunca poderemos escrever um livro de memórias". No entanto os três escreveram.
A casa de Yemanjá, no Rio Vermelho em Salvador, no bairro onde moravam Zélia e Jorge.

Uma última e importante observação. O livro tem uma dedicatória. "Para Jorge que me ensinou a amar a Bahia". O que seria este amor a Bahia? A Bahia é acima de tudo uma síncrise cultural. Ou seria uma síntese?
Uma das coisas mais maravilhosas em Jorge é o seu trato com as questões religiosas. Não é por nada que a emenda da liberdade religiosa no Brasil, foi inscrita por ele, como deputado constituinte, na Constituição de 1946. Digo tudo isso, porque Jorge realmente ensinou a Zélia o seu amor pela Bahia e isso é demonstrado plenamente pelo amor e carinho com que trata as pessoas da cultura do candomblé, respeitosamente presentes em toda a bela obra.




quinta-feira, 21 de março de 2013

Confesso que Vivi. Pablo Neruda.

O que mais me impressionou na leitura do Confesso que Vivi, de Pablo Neruda, foi a abundância das palavras e a riqueza de detalhes da descrição. Tudo bem, afinal de contas ele é um poeta. Mas ficou a pergunta: qual é a origem de tanta abundância? Só tenho uma resposta. A viva interação do poeta com a natureza, diante da qual está em constante contemplação. É o detalhe da pequena planta até o gigantismo das árvores. É a pequena e tranquila água do menor dos lagos até o mar agitado de ondas revoltas em tempestades. E assim ocorre com os animais, dos pequeninos pássaros aos elefantes gigantes. O mesmo ocorre com os odores, as cores e os sabores. Toda essa abundância e riqueza de detalhes observados só poderia confluir na grandiosidade do poeta.
O belo livro de memórias de Pablo Neruda. Confesso que Vivi. Pela Bertrand Brasil.

Pablo Neruda (para esconder a poesia de seu pai) nasce Neftali Ricardo Reyes Basoalto, em Parral, ao sul do Chile. Seus primeiros passos maiores se darão em Temuco, onde faz os seus estudos básicos, completados depois em Santiago. De Santiago ganha o mundo, levado em primeiro lugar pela sua vida de diplomata, nos lugares mais recônditos do mundo (Rangoon, Colombo, Batávia, Cingapura) e depois levado  aos centros mais cosmopolitas, pela leveza e grandiosidade de sua poesia. Divide anos de longínqua solidão com a sua iniciação à poesia.

Uma passagem marcante de sua vida é o encontro com Federico Garcia Lorca, já trabalhando em Buenos Aires. O poeta lhe abre as portas para a Espanha, onde irá trabalhar, em Barcelona. O encontro com o poeta se deu em 1933 e a sua ida para a Espanha, ocorrerá já no ano seguinte. Possivelmente a Espanha deixou em Neruda as suas marcas mais profundas. Aí viveu os horrores da mais sangrenta Guerra Civil, a Guerra Civil espanhola. Um milhão de mortos e um milhão de exilados.

Neruda conta como esta guerra chegou a ele. Tinha marcado com Lorca, assistir uma luta de catch-as catch-can, convencido pela insistência de um convite de um empresário chileno do ramo. Garcia Lorca, no entanto, faltou ao encontro. Neruda nos dá os detalhes: "Federico faltou ao encontro marcado. Já estava a caminho da morte. Nunca mais nos vimos. Seu encontro era com outros estranguladores. E, desse modo, a guerra da Espanha, que mudou minha poesia, começou para mim com o desaparecimento de um poeta". Lorca havia sido assassinado em Granada.
Outra foto do poeta, que está em seu livro Confesso que Vivi.

Neruda definia Garcia Lorca como um multiplicador de beleza: "No palco e no silêncio, na multidão e na intimidade, era um multiplicador de beleza". O desaparecimento do poeta se deu por assassinato, pois ninguém poderia imaginar que a Espanha mataria um dia, "o mais amado, o mais querido e o mais semelhante a um menino pela sua alegria maravilhosa" de seus poetas. Sentiu profundamente a sua morte e qualificou  este crime como "o acontecimento mais doloroso de uma longa luta". Diante do laboratório de testes do nazismo que foi a ação de Franco na Guerra Civil, o poeta escreveu o livro España en el Corazón.

Mais adiante descreve a escolha de seu caminho como militante político: "Embora eu tenha me tornado militante muito mais tarde no Chile, quando ingressei oficialmente no partido, creio ter me definido como um comunista diante de mim mesmo durante a guerra da Espanha. Muitas coisas contribuíram para a minha profunda convicção". Neruda nunca teve dúvidas quanto a esta sua escolha. Passou por inúmeras tormentas, como as denúncias contra Stalin, no XX Congresso do Partido, mas isso jamais abalou a convicção com que fizera a sua escolha. Considerava que fora devolvida ao Partido a sua capacidade de autocrítica e de análise.
Outra das mais emocionantes passagens do livro é a sua perseguição, na fuga que empreende do Chile, vítima de perseguição do governo anti-comunista ali instalado. A travessia da Cordilheira dos Andes não é coisa para amadores. Mas escapa ileso, chegando ao lado argentino, de onde será levado a Paris. É deste tempo de adversidades que examina a natureza dos governos da América Latina e mais violentamente denuncia a ação dos governos imperialistas, do chamado "mundo livre", que compõe o seu Canto General, possivelmente o seu livro mais conhecido e famoso. 

O livro só vai terminar um pouco antes de sua morte em Santiago em setembro de 1973, alguns dias depois do golpe que derruba o governo da Unidade Popular, de Salvador Allende. O golpe se deu no dia 11 e a sua morte no dia 23. Certamente de amargura por não poder ver os seus ideais de justiça e liberdade se consolidarem no poder. Os autoproclamadores do "mundo livre" tinham aplicado o golpe.

Leio agora, que o corpo de Pablo Neruda será exumado, pois pairam no ar as suspeitas de que teria sido assassinado pelas forças golpistas em seu país, que não precisavam ser necessariamente chilenas. As suspeitas que pairam é de que houve envenenamento como causa de sua morte. Um assassinato, portanto.

Ao final do livro publica uma espécie de poema, - aliás, todo o seu Confesso que Vivi não deixa de ser um belo poema, - intitulado Os Comunistas, que encerra como uma espécie de proclamação de fé e de conclamação em torno de ideais de mudança: "[...] Enquanto isso sobem os homens pelo Sistema Solar... Deixam pegadas de sapatos na Lua... Tudo luta por mudanças, menos os velhos sistemas... A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais... teias de aranha mais duras do que os ferros das máquinas... No entanto, há gente que acredita numa mudança, que tem posto em prática a mudança, que tem feito triunfar a mudança, que tem feito florescer a mudança... Caramba!... A primavera é inexorável"!


quarta-feira, 20 de março de 2013

Habemus Papam. 2 - Francisco.

Quando vi os noticiários que envolveram a sucessão papal e a escolha do novo papa, confesso que fiquei com dó de Bento XVI. Francisco é tão exaltado, ao ponto de parecer, que o seu antecessor não possuía  nenhuma virtude. Pretendo hoje fazer uma análise sobre as primeiras impressões deixadas por Francisco, mas, acima de tudo, refletir um pouco sobre a escolha do nome Francisco e suas simbolizações  e os principais desafios que o esperam
Tropeço Papa Francisco (Foto: Reprodução/TV Globo)Papa tropeçou quando foi se levantar de trono na
audiência (Foto: Reprodução/TV Globo). (Que seja o seu tropeço único).

Em primeiro lugar, o que o poderia desabonar? Foram levantadas questões de envolvimento com a ditadura militar argentina e que teria se desentendido com o casal Kirchner, em função da aprovação do casamento gay pelo Estado argentino. Quanto ao envolvimento com os militares, ele recebeu a absolvição de Adolfo Pérez Esquivel, um ativista dos direitos humanos, e Nobel da Paz. Eu, da minha parte, dou crédito ao laureado Nobel. Quanto ao casamento gay, ele tem todo o direito de ser contra. É o que prega a doutrina da igreja. O que ele não pode, em função de suas crenças, é pregar a homofobia. E isso ele não fez. Como postei ontem, a igreja católica é uma instituição conservadora. Não é uma instituição de vanguarda. Está absolvido, portanto, das acusações. Tem também falas antigas, condenando o uso de preservativos.

Quanto ao gol por ele marcado, com a escolha do nome de Francisco, da minha parte, aprovação mil. Não sei, no entanto, se as instituições conservadoras dentro do catolicismo tem a mesma posição. O papa preside uma instituição de poder e, enquanto poder, os ideais de Francisco não combinam com o seu exercício. O poder exige pompa e duras tomadas de decisão. São Francisco viveu entre 1182 e 1226. Seu pai era um rico comerciante, que bendizia a guerra, ou as guerras - as cruzadas, ocasião em que o povo vendia tudo por quase nada e, ele foi só acumulando riquezas, sob as bênçãos da igreja. Esta riqueza não lhe inspirou sentimentos de humanidade, sentimento este incompatível com a acumulação. Somente a relação humana gera sensibilidade.
Os meus S. Francisco. Ele com o lobo de Gubbio, símbolo de entendimento até com animais ferozes e um da foz do rio São Francisco.

O pai o amaldiçoa, o bispo da cidade o condena e Francisco quer saber do papa, - "por que - por que estou errado"? A corte romana o condena. A sua sorte foi o papa Inocêncio III., que o acolheu. Fosse outro, certamente teríamos tido um Lutero, uns 300 anos antes do próprio Lutero. O envolvimento dos franciscanos com a pobreza e os pobres nunca foi bem assimilada pelas outras ordens religiosas. Francisco via os alvores do surgimento do capitalismo e que, pelo que consta, este sistema econômico só arrefeceu o seu espírito ao longo do tempo. E existem organizações no interior do cristianismo, muito ricas e muito poderosas. O Evangelho de S. Mateus perturbou Francisco, como perturbou a muitos. Até consta que Pasolini, comunista e ateu, fez o seu Evangelho Segundo São Mateus, como uma homenagem ao papa João XXIII. Tenho, portanto, dúvidas sobre a aceitação unânime do nome de Francisco, por tudo o que ele simboliza.

Frei Betto tem belas reflexões sobre a cruz como o símbolo maior do catolicismo. Ele se interroga, inclusive, se o pão não seria um símbolo de maior significado e consequência. Usa muitos argumentos em favor do pão. O pão da eucaristia,o pão da vida, o pão nosso de cada dia e por aí vai. Por que então a pregação em torno do pão de cada dia, para todos, não recebe uma maior centralidade nas homilias e nas diferentes atividades institucionais? O mundo não receberia uma outra configuração, especialmente social, se houvesse esta maior ênfase sobre o pão. Esta escolha do nome de Francisco é profundamente simbólica e animadora para todos aqueles que aspiram por um mundo de maior justiça social. O Evangelho social de São Mateus certamente se fará mais presente.

Bem, mas vamos aos problemas. Vi parte da entrevista de Leonardo Boff, concedida ao Roda Vida, e vi material da BBC, sobre  o que se espera e quais sãos os grandes desafios deste papado. A BBC elencou quatro problemas de premente urgência. Enfrentar de vez a questão da pedofilia; dar mais visibilidade ou transparência às contas do Vaticano e descentralizar a sua administração; trazer para o debate as questões sociais, onde esta matéria envolvia as questões doutrinárias relativas a contracepção, às relações homo-afetivas, ao aborto e à eutanásia, à presença feminina na hierarquia, ao celibato e o trato com as outras confissões religiosas. Em quarto lugar é apontado o problema da constante queda do número de católicos. A análise de Boff foi mais global e interligada. Segundo ele, talvez o problema de maior urgência seria a relação doutrinária para com a sexualidade. Isto abrangeria praticamente todos os temas anteriores, especialmente a questão da sexualidade, envolvendo consequentemente a contracepção, a pedofilia e o celibato.

Boff citava a premente necessidade de ter no Brasil em torno de 120.000 padres (tem apenas 20.000). Por que eles não existem? Todo o debate do Roda Viva girou em torno do celibato, embora todo o esforço de Boff para discutir a sexualidade, em uma perspectiva mais ampla. Ver na sexualidade questões de afetividade e não meramente de pecado. Boff dizia que estes temas não poderiam ser discutidos pela igreja, sob o papado de bento XVI. Se bispos e cardeais os quisessem discutir, eram advertidos e aos teólogos era imposto o silêncio obsequioso. Disse também que Francisco necessariamente terá que se abrir para o debate desses temas e que não viu nenhuma declaração comprometedora, que apontasse em direção contrária à discussão desses temas, após a eleição papal de Francisco.
As belas basílicas de São Francisco, na cidade de Assis.

Os desafios são muitos. A parte capitalista da nossa cultura, como o consumismo, a competição e a acumulação impedem a realização da justiça social, da paz e da humanização. Mas combater estes valores, significa conflito e a igreja sempre foi muito acomodadora nesse sentido. São Francisco sofreu horrores para ser compreendido. Não deve ser mais fácil ser compreendido nos dias de hoje.

Uma outra ideia muito bonita que eu vi, se não me engano, no filme do Zeffirelli, Irmão Sol, Irmã Lua, foi pronunciada pelo papa da época Inocêncio III, de que não devemos focar tudo na ideia do pecado original, mas sim, numa inocência original. Que tal, se o mundo substituísse este conceito do pecado original? Eu gostei muito desta ideia da inocência original. Faz lembrar de Rousseau.

Também me passaram pela mente as imagens do filme Habemus Papam,no qual o papa eleito, após muito refletir sobre as suas responsabilidades, resolveu renunciar ou não assumir o pontificado, diante da enormidade dos problemas e do gigantismo da tarefa de dar direção à condução da igreja e na afirmação de doutrinas e crenças a servirem de guia para a humanidade e ter a aceitação quase plena desta mesma humanidade.

Que os gestos iniciais de Francisco, de humildade e simplicidade e a inspiração permanente de São Francisco, de seu amor aos pobres e as consequentes implicações deste gesto, o acompanhem ao longo de todo o seu pontificado. Creio ser este o desejo de todos os que esperam, e que ainda tem esperanças, de que tenhamos um mundo mais humano.

terça-feira, 19 de março de 2013

Habemus Papam. 1 - Francisco.

Como sempre, quando analiso fatos, não o faço pelo seu ponto de vista religioso. Sempre a faço, pelo ponto de vista da cultura. Assim, não será diferente, a análise sobre a escolha do novo papa. Vou começar com um toque de humor, que tomo emprestado da coluna de Luiz Fernando Veríssimo, do domingo passado. Diz ele, que a escolha do argentino Bergoglio, foi um pedido que Chaves, visando fortalecer o espírito bolivariano, agora concretizado no Mercosul, levou para Deus. Este, ainda comiserado com a sua morte recente e a sua ida ao céu, resolveu prontamente atender o pedido, só que houve uma dificuldade inicial: ninguém sabia, lá em cima,quem era este Bergoglio.
Roma. A sede de uma das mais poderosas instituições do mundo. Dela emana uma doutrina, que historicamente, pretendeu ser universal.

Humor a parte, voltamos a questão cultural. Gosto muito da definição dada por Freud: "Me refiro a tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de suas condições animais e se distingue da vida dos bichos [...] mostra dois lados ao observador. Ela abrange, por um lado, todo o saber e toda a capacidade adquiridos pelo homem com o fim de dominar as forças da natureza e obter seus bens para a satisfação das necessidade humanas e, por outro, todas as instituições necessárias para regular as relações dos homens entre si e, em especial, a divisão dos bens acessíveis". Eu ainda costumo dividir esta segunda parte em duas: as instituições em si e os valores e crenças que dão direção ao destino destas instituições.

Costumo ainda dizer que, quando os homens deixaram de se matar e passaram a se xingar, é que eles criaram a cultura, isto é, criaram as condições para conviverem, para  sobreviverem. No meu modo de ver, é dessa forma que deve ser vista a igreja católica, seguramente, uma das principais instituições do mundo,  e que, em muito transcende a questão puramente religiosa, para dar direção ao mundo como um todo. Tudo está impregnado com as suas crenças, com os seus valores e com as suas suas simbolizações. Por terem  forte coerência interna, coerência buscada na junção da razão com a fé, é que eles passaram a ser dominantes e se constituíram numa das mais aceitas visões de mundo. Constituíram uma Weltanschaung, que tem organização, estrutura, atividade arregimentadora e 1,2 bilhões de seguidores, só pelo seu lado católico. É esta visão de mundo, que por meios imagináveis e inimagináveis, moldou a maneira de ser do mundo.
Poder também é grandiosidade, suntuosidade e liturgia. Tão ou mais grandioso como é esta cúpula da Igreja de São Pedro. Será que isso combina com São Francisco.

Como a cultura tornou a convivência possível, por outro lado, ela também tolheu o indivíduo em seus desejos e em suas vontades. Por isso mesmo, simultaneamente, ela nos faz bem, sendo extremamente necessária, e nos faz muito mal, ao nos impor os limites necessários à convivência. Mas aí já entraríamos no campo dos tratados. Aqui vamos firmar bem esta ideia: a cultura, para tornar a convivência possível, estabelece limites, que, por sua vez, também tem um duplo aspecto. Eles podem ser impostos pela força ou podem ser difundidos por uma espécie de sedução, de aceitação voluntária, doutrinas às quais damos a nossa adesão. Para ser bem moderno, nos encantamos com elas. Mas, novamente estamos abrindo espaço para a elaboração de tratados.

A Igreja como uma instituição cultural se esmerou em sua doutrina, procurando arrebanhar com ela, milhares de seguidores e, em certos momentos históricos, se apresentou como única, universal e imutável. Para atingir estes propósitos ela usou, tanto o convencimento, quanto a força. Usou, como se costuma dizer, tanto a cruz, quanto a espada. O que queremos dizer com tudo isso. Que a igreja como uma instituição, que visa tornar a convivência possível, ela cria limites, cria regras e normas, valores e crenças. É, portanto, uma instituição de permanência e não de mudanças. Ela é por natureza conservadora, mantenedora de suas regras, e que para reforçá-las, as afirma, pelo seu poder temporal, como eternas e imutáveis. Ela não é uma instituição vanguardista.

Assim se dissipam, com o novo papado, as expectativas de mudanças revolucionárias. No entanto, a história é dinâmica. Tudo flui e está em movimento. A história tem o seu curso, movido por forças, que mais uma vez nos dão abertura para as mais diferentes teorias. Quem para no tempo, efetivamente, para e perde substância. Perde seguidores. Outras doutrinas ou outras interpretações delas, mais sedutoras, que prometem mais por bem menos, arrebanham  antigos seguidores. Por isso ela, volta e meia é sacudida por  vendadvais renovadores ou avivadores, ou como, no belo dizer de João XXIII, ela precisa se adaptar aos dias de hoje, ela precisa de aggiornamento. É por essa perspectiva que se abrem as possibilidades progressistas de renovação, como o foi, por ocasião do Concílio Vaticano II.

Por enquanto, sob a perspectiva midiática, Francisco está indo bem. A sua simplicidade, gestos em favor dos pobres, a humildade e o seu sorriso franco, marcam muitos pontos em seu favor. Mas, o que creio que o marcou mesmo, foi a escolha do nome. Foi uma dessas coisas, que se os papas anteriores pudessem falar, certamente diriam, mas como eu não pensei nisso! Como eu não tive essa ideia! São Francisco, além de ser o padroeiro de um dos países católicos do mundo, a Itália, é também um dos santos mais queridos da igreja e as causas por ele defendidas, são causas tão ou mais populares, hoje, quanto as foram em seu tempo. 
A magnífica basílica de Assis. Aliás são duas. A outra está num nível de chão inferior. Aí Bergoglio buscou inspiração para a escolha do nome.

Amanhã falaremos do significado da escolha do nome Francisco e sobre os grandes desafios que o esperam. Mas, desde já, as suas primeiras manifestações o credenciam fortemente, como alguém capaz, na condução dessa sua dificílima missão. Sim, uma recomendação. Muito do que conhecemos da vida de São Francisco, o conhecemos através do filme de Franco Zeffirelli. Por isso mesmo, este filme, apesar de seus limites, mas que pela circunstância, - vale muito a pena ser visto.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Jardim de Inverno. Zélia Gattai.

Zélia Gattai é uma ótima contadora de histórias e como escritora se consagrou como memorialista. Pablo Neruda, o compadre, assim que a via, lhe pedia para contar histórias. Ele as apreciava muito. Em Jardim de Inverno, Zélia conta memórias de exílio, que vão desde o período em que o Partido Comunista é posto na ilegalidade e toda a bancada comunista tem os seus mandatos cassados durante o Governo Dutra. Estamos vivendo o período da Guerra Fria, que para os comunistas brasileiros não foi nem um pouco fria, sofrendo horrores, ou na clandestinidade, ou no exílio. Nos Estados Unidos vivia-se o auge do período do macartismo.
O livro de Memórias de Zélia Gattai. O exílio no castelo de Dobris, nos arredores de Praga. O "mundo livre" persegue as ideias comunistas.

Jorge Amado, com o seu mandato cassado, busca sobrevida em Paris. O partidão lhe dá a missão de denunciar as arbitrariedades do governo Dutra, nos diferentes países europeus. Missão que ele cumpre a risca, em prejuízo de sua carreira de escritor. Zélia, com criança pequena, seguiu ao encontro de Jorge um pouco mais tarde. A criança era João, o primeiro filho do casal. O casal não encontrou sossego, nem mesmo em Paris, seguindo então para Praga, onde foram abrigados no castelo de Dobris, nos arredores de Praga. Eles eram hóspedes da União dos escritores tchecos, proprietários do castelo, assim como inúmeros outros, especialmente, dos países da América latina.

Quando Jorge conta sobre isso, ele destaca os seus contatos com estes escritores e intelectuais e o exílio não parecia ser tão triste, como de fato, - sempre é triste um exílio, - como nos é contado pelas páginas de Zélia. No castelo de Dobris havia um grande jardim e em torno deste jardim, surge o título de Jardim de Inverno. As companhias eram as melhores possíveis. O castelo era frequentado seguidamente por Jan Drda, o presidente da União dos Escritores, por Ilya Ehrenburg, o grande escritor soviético, por Luois Aragón, o francês, e pelos Pablos, o Neruda e o Picasso. Um tema lhes é comum: os horrores da guerra civil espanhola. Estes são apenas os mais conhecidos. O círculo de amigos entre os intelectuais da época é algo invejável.

No castelo de Dobris Jorge exercitava a sua profissão de escritor. Zélia descreve o rigor com que Jorge o fazia. Entre os livros que ele escreve neste período está a trilogia Os Subterrâneos da Liberdade, possivelmente a sua obra mais engajada. Zélia nos dá um detalhe interessante sobre a censura que o partido quis ter sobre o livro. Zélia não fala explicitamente que o livro é este, mas creio, pelas circunstâncias, que seja este. Jorge dedica o livro a este dirigente. Isto se encontra sob um título com o nome de "O capa-preta".Vejamos alguns tópicos da narrativa de Zélia: "Mal chegáramos a Dobris, o telefone chamou Jorge. Diógenes Arruda Câmara, de passagem por Praga, precisava nos falar com urgência sobre assuntos políticos. Pediu a Jorge que, quando fôssemos ao seu encontro para conversar, levasse uma cópia do romance, para que o Partido o lesse".

Zélia descreve o líder do Partidão e a conversa que tiveram. Basicamente lhes pediu muita cautela e que não se metessem em questões internas da Checoslováquia, pois a situação estava muito complicada.Quanto ao livro Zélia continua: "Que novidade era aquela, de Arruda, desejoso de ler os originais do romance? Pela primeira vez ele demonstrava tal interesse. O livro nem estava definitivamente pronto e, a contragosto, Jorge entregou-lhe uma cópia. A direção do partido, coisa das teorias de Jdanov, queria opinar sobre o livro de Jorge, antes que fosse publicado, explicou o dirigente".

Zélia continua a narrativa dizendo que Arruda levara os originais, deixando uma recomendação:"Antes que o Partido opine, você não deve publicar este livro". O livro foi devolvido dois anos depois e Zélia continua: "O manuscrito passara de mão em mão, entre os dirigentes, inclusive de Prestes. Jorge recebeu os originais cheios de anotações nas margens, anotações do próprio punho de Arruda: 'cortar este parágrafo inteiro... cortar os palavrões... excesso de putaria...', e daí por diante. Jorge não levou em consideração a opinião do nosso Jdanov tupiniquim, não tirou uma vírgula sequer".
Zélia com a filha Paloma, nascida na Checoslováquia. O nome Paloma se origina do quadro de Picasso, da pomba como símbolo da paz. Neruda também terá uma filha chamada Paloma.

Zélia volta a citar Arruda, desta vez num tópico intitulado "A volta do capa preta", quando ele requisita a presença de Jorge para um encontro em Berlim, bem no dia em que ela teria a sua filha Paloma. Aliás o nascimento da filha, o seu batizado e o envolvimento da comunidade internacional de intelectuais é impressionante. Paloma é uma referência ao quadro pintado por Picasso, de uma pomba, que era o símbolo usado pelos intelectuais em seu movimento mundial pela paz. Neruda também terá a sua filha chamada de Paloma.

Zélia ainda relata as emoções de Jorge e dela, quando foram receber o Prêmio Stalin da Paz, em 1951 e um longo passeio pela China e Mongólia. Na China aparecem de novo as dúvidas com relação a condução do socialismo, envolvendo o período da chamada revolução cultural, em que muitos amigos do casal, assim como já ocorrera em Praga, são envolvidos. Erros de condução do sistema, mas nunca erros de concepção do sistema. Depois deste passeio o casal volta para Praga e de praga vão para Gênova, onde embarcam no Giulio Cesare, para voltar ao Brasil. O livro terminou de ser escrito em Paris, no ano de 1988.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Os Componentes da Academia Brasileira de Letras.

Esses dias fiz o post sobre a presença feminina na Academia Brasileira de Letras e encontrei no site da própria Academia todos os membros que a integraram, desde o seu fundador até o ocupante atual. Como creio ser este um tema que ativa a curiosidade, o transcrevo aqui. O número é relativo à cadeira ocupada, o nome sublinhado é o do fundador da cadeira e o negrito corresponde ao ocupante atual. Vamos lá:
A sede da Academia, no Rio de Janeiro.

1. Luís Murat. - Afonso d'Escragnolle Taunay. - Ivan Lins. - Bernardo Élis. - Evandro Linas e Silva. - Ana Maria Machado.
2. Coelho Neto.- João Neves da Fontoura. - Guimarães Rosa. - Mário Palmério. - Tarcísio Padilha. Eduardo Giannetti.
3. Filinto de Almeida.   - Roberto Simonsen. - Aníbal Freire da Fonseca. - Herberto Sales. - Carlos Heitor Cony. Joaquim Falcão.
4. Aluísio Azevedo. - Alcides Maia. Viana Moog. Carlos Nejar.
5. Raimundo Correia. - Osvaldo Cruz. - Aloísio de Castro. - Cândido Mota Filho. - Rachel de Queiroz. - José Murilo de Carvalho.
6.Teixeira de Melo. - Artur Jaceguai. - Goulart de Andrade. - Barbosa Lima Sobrinho. - Raimundo Faoro. Cícero Sandroni.
7. Valentim Magalhães. - Euclides da Cunha. - Afrânio Peixoto. - Afonso Pena Júnior. -  Hermes Lima.  - Pontes de Miranda. - Diná Silveira de Queirós. - Sérgio Correia da Costa. - Nelson Pereira dos Santos. Cacá Diegues.
8. Alberto de Oliveira. - Oliveira Viana. - Austregésilo de Ataíde. - Antônio Calado. - Antônio Olinto. Cleonice Bernardelli.
9. Carlos Magalhães de Azevedo. - Marques Rebelo. - Carlos Chagas Filho. - Alberto da Costa e Silva.
10. Ruy Barbosa. - Laudelino Freire. - Osvaldo Orico. - Orígenes Lessa. - Ledo Ivo. Rosiska Darcy de Oliveira.
11. Lúcio de Mendonça. - Pedro Lessa. - Eduardo Ramos. - João Luís Alves. - Adelmar Tavares. - Deolindo Couto. - Darcy Ribeiro. - Celso Furtado. Hélio Jaguaribe - Ignácio Loyola Brandão.
12. Urbano Duarte. - Antônio Augusto de Lima. - Vítor Viana. -  José Carlos de Macedo Soares. - Abgar Renault. - Dom Lucas Moreira Neves. - Alfredo Bosi. Vago.
13. Visconde de Taunay. - Francisco de Castro. - Martins Júnior. - Sousa Bandeira. - Hélio Lobo. - Augusto Meyer. - Francisco de Assis Barbosa. - Sérgio Paulo Rouanet.
14. Clóvis Bevilaqua. - Carneiro Leão. - Fernando de Azevedo. - Miguel Reale. - Celso Lafer.
15. Olavo Bilac. - Amadeu Amaral. - Guilherme de Almeida. - Odilo Costa Filho. - Dom Marcos Barbosa.  - Padre Fernando Bastos de Ávila. - Marco Lucchesi.
16. Araripe Júnior. - Félix Pacheco. - Pedro Calmon. - Lýgia Fagundes Telles.
17. Sílvio Romero. - Osório Duque-Estrada. - Roquette Pinto. - Álvaro Lins. -  Antônio Houaiss. - Affonso Arinos de Mello Franco. Fernanda Montenegro.
18. José Veríssimo. - Barão Homem de Melo. - Alberto Faria. Luís Carlos. - Pereira da Silva. - Peregrino Júnior. - Arnaldo Niskier.
19. Alcindo Guanabara. - Dom Silvério Gomes Pimenta. - Gustavo Barroso. - Silva Melo. - Américo Jacobina Lacombe. - Marcos Almir Madeira. - Antônio Carlos Secchin.
20. Salvador de Mendonça. - Emílio de Menezes. - Humberto de Campos. - Múcio Leão. - Aurélio de Lira Tavares. - Murilo Melo Filho. Gilberto Gil.
21. José do Patrocínio. - Mário de Alencar. - Olegário Mariano. - Álvaro Moreira. - Adonias Filho. - Dias Gomes. - Roberto Campos. - Paulo Coelho.
22. Medeiros de Albuquerque. - Miguel Osório de Almeida. - Luís Viana Filho. - Ivo Pitanguy. João Almino.

Machado de Assis, o fundador. Cadeira 23.

23. Machado de Assis. - Lafayette Rodrigues Pereira. - Alfredo Pujol. - Otávio Mangabeira. - Jorge Amado. - Zélia Gattai. - Luiz Paulo Horta. Antonio Torres.
24. Garcia Redondo. - Luís Guimarães Filho. - Manuel Bandeira. - Ciro dos Anjos. - Sabato Magaldi. Geraldo Carneiro (27.10 2016).
25. Franklin Dória. - Artur Orlando da Silva. - Ataulfo de Paiva. - José Lins do Rego. - Afonso Arinos de Melo Franco. - Alberto Venâncio Filho.
26. Guimarães Passos. - Paulo Barreto. - Constâncio Alves. - Ribeiro Couto. - Gilberto Amado. - Mauro Mota. - Marcos Vilaça.
27. Joaquim Nabuco. - Dantas Barreto. - Gregório da Fonseca. -  Levi Carneiro. - Otávio de Faria. - Eduardo Portella. Antônio Cícero.
28. Inglês de Sousa. - Xavier Marques. - Menotti Del Picchia. - Oscar Dias. - Oscar Dias Correia. - Domício Proença Filho.
29. Artur Azevedo. - Vicente de Carvalho. - Cláudio de Sousa. - Josué Montello. - José Mindlin. - Geraldo Holanda Cavalcanti.
30. Pedro Rabelo. - Heráclito Graça. - Antônio Austregésilo. - Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. - Nélida Piñon.
31. Guimarães Júnior. - João Ribeiro. - Paulo Setúbal. - Cassiano Ricardo. - José Cândido de Carvalho. - Geraldo França de Lima. - Moacyr Scliar. - Merval Pereira.
32. Carlos de Laet. - Ramiz Galvão. - Viriato Correia. - Joracy Camargo. - Genolino Amado. - Ariano Suassuna. Zuenir Ventura 
33. Domício da Gama. - Fernando Magalhães. - Luís Edmundo. - Afrânio Coutinho. - Evanildo Cavalcanti Bechara.
34. Pereira da Silva. - Barão do Rio Branco. - Lauro Müller.- Dom Aquino Correia. - Magalhães Júnior. - Carlos Castelo Branco. - João Ubaldo Ribeiro. Evaldo Cabral de Mello.
35. Rodrigo Otávio. - Rodrigo Otávio Filho. - José Honório Rodrigues. - Celso Cunha. - Cândido Mendes.
36. Afonso Celso. - Clementino Fraga. - Paulo Carneiro. - José Guilherme Merquior. - João de Scatimburgo. Fernando Henrique Cardoso. 
37. Silva Ramos. - Alcântara Machado. - Getúlio Vargas. - Assis Chateaubriand. - João Cabral de Melo Neto. - Ivan Junqueira. Ferreira Gullar. Arno Wheling.
38. Graça Aranha. - Santos Dumont. - Celso Vieira. - Maurício Campos de Medeiros. - José Américo de Almeida. - José Sarney.
39. Oliveira Lima. - Alberto de Faria. - Rocha Pombo. - Rodolfo Garcia. - Elmano Cardim. - Otto Lara Resende. - Roberto Marinho. - Marco Maciel. José Paulo Cavalcanti..
40. Eduardo Prado. - Afonso Arinos. - Miguel Couto. - Alceu Amoroso Lima. - Evaristo de Moraes Filho. Edmar Bacha
Grandes nomes ausentes: Mário Quintana - Érico Veríssimo. Outros presentes mas não tão grandes. Faça a sua lista.

Morreu ontem (22.03.2013) João de Scantimburgo. Está, portanto, vaga a cadeira de número 36.

terça-feira, 12 de março de 2013

Um Paradoxo. Marco Feliciano na Presidência da Comissão de Direitos Humanos.

Vamos iniciar com uma definição do que seja um paradoxo. Recorremos ao Aurélio para dizer que paradoxo é o "conceito que é ou parece contrário ao comum; contra-senso, absurdo, disparate". Depois vamos ver algumas das declarações do pastor/deputado Marco Feliciano, relativas aos direitos humanos e, contrastá-las com as funções da Comissão para a qual foi eleito para ser seu presidente.

Vamos então primeiramente ver quem é o pastor/deputado em questão. Ele nasceu em Orlândia, no estado de São Paulo e é pastor da igreja Assembleia de Deus - Tempo de avivamento, que é presidida por ele. Ele se apresenta como um conferencista internacional, pastor, cantor e empresário. Nas últimas eleições se elegeu deputado federal por São Paulo, pelo Partido Social Cristão (Seu santo nome em vão...) e é integrante da bancada evangélica.
O deputado/pastor Marco Feliciano, eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos. Sobre ele pesam acusações de intolerância, homofobia e de racismo entre, outras. Ele é do Partido Social Cristão!

Mas quais são as suas declarações mais polêmicas? Selecionamos algumas. Sobre os africanos: "Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polêmica. Não sejam irresponsáveis. twitters rsss". Pela repercussão que a frase teve, ela foi retirada de seu Twitter. Sobre recebimento de ofertas. Esta está num vídeo, em que declara o que está recebendo... "desde cheques, motocicleta e até um cartão de crédito", mas do cartão, ele reclama que o fiel não passou a senha: "assim não vale, depois vai pedir milagre para Deus, Deus não vai dar e vai falar que Deus é ruim" diz o pastor /deputado.

A declaração sobre os africanos foi explicitada ou complementada com o seguinte: " A maldição que Noé lança sobre seu neto, Canaã, respinga sobre o continente africano, daí a fome, pestes, doenças, guerras étnicas". Outras "preciosidades" do deputado são as afirmações de que "a podridão dos sentimentos dos homo-afetivos levam ao ódio e ao crime" e a defesa que fez em plenário de que aos gays deveria ser oferecido tratamento psicológico para a sua cura. Fez também a defesa da castração química dos estupradores.

Ainda numa audiência pública, em novembro de 2012 o deputado fez outra declaração bombástica: "Índio nasce índio, não tem como mudar. Negro nasce negro, não tem como mudar. Mas quem nasce homossexual, pode mudar. Até a palavra 'homossexual' deveria ser abolida do dicionário, já que se nasce homem ou mulher". Sobre o deputado/pastor ainda pesa uma ação judicial, uma representação por crime de estelionato, que tramita, pela sua condição de deputado, no STF. A questão envolve o seu não comparecimento a um show gospel na cidade de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, ocasião em que teria feito um show no Rio de Janeiro, com um cachê maior, segundo a acusação. Lembrem que ele se apresenta também como cantor. Deve ter deixado a irmã, lá em São Gabriel, num prejuízo danado!

Por estas e por outras, pesam sobre o deputado pastor as acusações de intolerância, discriminação e preconceito, além da de estelionato. A sua ficha, não é portanto, das melhores, especialmente, para integrar a Comissão dos Direitos Humanos e Minorias e muito menos para ser o seu presidente. Creio que não é necessário aqui explicitar quais são as funções que esta Comissão exerce. O seu nome ou título a auto define: Direitos Humanos e Minorias. Será que o deputado sabe o que são direitos humanos?

A pergunta então seria esta: Como o deputado chegou a esta condição de ser indicado para a sua presidência? A Comissão tradicionalmente era presidida por um deputado do PT., com ligação com os movimentos sociais. A presidência das Comissões, normalmente é definida no conselho dos líderes partidários e a divisão é feita pela representatividade das bancadas, pelo critério numérico. Ao PT. cabe assim, a presidência de três Comissões e por uma decisão sua, escolheu comissões que lhe pareceram mais importantes, com maior visibilidade. Desta forma a Comissão de Direitos Humanos ficou, como que, sobrando. Este fato não passou despercebido pela bancada evangélica, que com apoio do PSDB, do DEM e do PP, conseguiu os votos necessários, até um de sobra, para colocar o deputado/pastor na função. Assim podemos verificar que a eleição do deputado foi uma ação que envolveu toda a Câmara dos deputados, sob os protestos de Domingos Dutra, seu presidente anterior, de Luíza Erundina e de Jean Willis.

A Folha de S. Paulo, na sua página de Tendências/Debates publicou artigos do deputado eleito como presidente e do deputado Jean Willis sobre a questão, no dia 7 de março. Marco Feliciano se considera um perseguido por todos aqueles que atentam contra a "família brasileira". É interessante dar uma olhada!

Bem vamos concluir. Alguém que é acusado de intolerância, de discriminação e de preconceito e sobre quem ainda pesa uma acusação de estelionato pode exercer a presidência de uma Comissão que tem por finalidade defender direitos humanos humanos e das minorias? Ou isto é "conceito que é ou parece contrário ao comum; contra-senso, absurdo, disparate", um paradoxo, portanto. As redes sociais estão fazendo um belo movimento para eliminar este paradoxo da política brasileira, porque um paradoxo desses, já é demais, explícito demais. Já não se está partindo para provocações ou agressões.

Quem aproveitou a onda do paradoxo, já que o deputado/pastor está o tempo todo na mídia, para sorrateiramente e meio despercebidamente  ocupar uma outra Comissão, a do Meio Ambiente. Estamos falando de Blairo Maggi, da bancada ruralista. Não seria também paradoxal?
A indicação do deputado Blairo Maggi, da bancada ruralista, para a presidência da Comissão do Meio Ambiente também não seria um paradoxo?

O grande líder do PSC, partido do deputado Marco Feliciano, aqui no Paraná é Ratinho Júnior. Seria interessante ouvir o que ele teria a dizer a respeito. Mas parece que este se livrou das agruras da função de deputado federal, para usufruir a sua atual condição de Secretário de estado, como neo Betista.

Termino, como o fez o Sakamato no seu blog. Desejo boa sorte, - não ao deputado/pastor, - mas para todos aqueles que precisam da Comissão para verem os seus direitos respeitados..


segunda-feira, 11 de março de 2013

Darcy Ribeiro em Pequenos Tópicos.

Apresento neste post o pensamento de Darcy Ribeiro, em pequenos tópicos, numa seleção que fiz, a partir da leitura de suas Confissões. Apresento o tema e o tópico correspondente, com a indicação de página, para quem quiser contextualizar melhor.
As Confissões. Companhia de Bolso.2012. Desta edição é que retiramos as citações.

Sobre a morte prematura do pai e sobre o fato de não poder ter filhos, que segundo ele, lhe possibilitaram duas liberdades: "A primeira foi ter perdido meu pai, ou ganhando minha orfandade, que me livrou de ter tido um pai para me domesticar. A segunda foi a operação do doutor Schoer, que, me liberando de ter filhos, me abriu o segundo espaço de liberdade: o de não domesticar ninguém. Sou por isso um homem solto na vida para me exercer, pessoal e individualmente, com impávida coragem de mim mesmo" (página 120).

Sobre o forjar de um intelectual: " Intelectual se faz é com leitura.Os tijolos do espírito são os livros" (página 182).

Sobre as belezas do Rio de Janeiro: "Tenho certeza de que Deus estava de muito bom humor quando fez   o Rio de Janeiro. Suspeito, mesmo, que estivesse de pileque. Só assim explico o esbanjamento de beleza que ele pôs no Rio. Pegou uma montanha alta, granítica e fez correr ao longo do mar, entrando às vezes, mar adentro, e até saltando em ilhas. Tudo coberto por uma vegetação tropical esplêndida. Abriu espaços entre as montanhas, formando belas várzeas verdes. E sorriu contente com sua obra" (página 422).
RJ

Darcy tem ou não tem razão.Deus devia mesmo estar de pilequinho, para tanto esbanjamento.

Sobre Roberto Marinho e a rede Globo: "A situação chega a ser tão escandalosa que eu disse uma vez que o senhor Roberto Marinho é conivente com cada crime de estupro, dos que ocorrem no Brasil em número crescente, tal é a incitação ao erotismo de sua cadeia de televisão. Mais grave ainda, sobretudo para a juventude, é sua irresponsável incitação à violência e à criminalidade" (página 432).

Sobre novelas, avós e netos: "Aprendi então que a novela, um gênero inteiramente diferente do cinema e do teatro, é, de fato, uma forma de convivência. Mamãe sabia tudo de novelas. Conhecia intimamente cada personagem, acompanhando diariamente suas vidas românticas e dramáticas, inclusive seus amores, de que ela me dava notícias detalhadas. Tinha inegavelmente muito mais intimidade com eles do que com seus netos e toda a gente do entorno" (página 433).
Um belo trabalho feito a partir do livro de Darcy Ribeiro. São 260 minutos absolutamente indispensáveis para quem minimamente quer compreender o Brasil, lhe dar sentido.

Sobre o melhor tipo de ensino profissionalizante: "Uma pessoa só chega a alfabetizar-se quando alcança a quarta série primária, que é quando aprende a escrever uma carta e a fazer uma conta. Sabendo-se que nada há de mais profissionalizante que ler, escrever e contar, a maior tarefa que se põe aos brasileiros é superar o atraso em que estamos..." (página 442). O sublinhado ficou por minha conta.

Sobre os três requisitos de uma educação popular e civilizatória: "Primeiro, espaços necessários para que alunos e professores possam viver a maior parte dos seus dias, obtendo ali toda ajuda para crescer sadios e vigorosos. Segundo, o tempo indispensável de atenção às crianças, para que elas tenham suas aulas e suas horas de estudos dirigidos atendidas por professoras especializadas, bem como tempo para folgar, realizar esportes e recrear-se. Terceiro, um magistério novo, motivado para a educação popular, que não atribua às crianças pobres a culpa de seu fracasso escolar, mas que reconheça que esse fracasso se deve fundamentalmente à precaridade das escolas" (página 443).

Sobre a caridade bondosa: "Não sou bom no sentido cristão, de bondade caridosa. Essa de contentar-se em dar uma escolinha boa ou uma sopa para os famintos. Odeio essa postura dadivosa, que só serve para consolar os culpados da ignorância e da pobreza generalizadas" (página 479).

Sobre o amor: "O amor é a mais funda, mais sentida e mais gozosa e mais sofrida das vivências humanas, e suspeito muito que o seja também para todo ser vivente. Cada pessoa devia amar todos os amores de que fosse capaz. Sucessivamente, em amores apaixonados, cada um deles vivido e fruído como se fosse eterno. Podem-se amar até simultaneamente amores apaixonados. Mas é um perigo. Faça isso não, arrebenta o coração" (página 500).

Sobre o sexo: "O só desejo de confluir, ainda que irrealizado, porque inalcançável, é ainda amor. A ausência de desejo é, já, desamor. Às vezes, há um ser muito querido, mas que é tão só uma amor amado. Há, concordo, carnalidade sem amor. São prevaricações. Gratificantes por vezes, até demais. Tanto que alguma gente, homens sobretudo, se vicia nelas, só querendo fornicar e variar. São bichos-gente, incapazes de amar" (página 501).

Sobre a diáspora na Universidade de Brasília: "Recordei a seguir, sentidamente, os tantíssimos professores que levei para Brasília e que, indignados com o que os agentes da ditadura faziam, degradando a universidade, demitiram-se. Foi a maior diáspora de sábios de que tenho notícia, só comparável à da Espanha" (página 496).

Sobre a nova classe política formada pela ideologia do lucro: "Assim é que se criou a casta política vigente no Brasil, em que se distinguem uns raros homens bons, que sobreviveram a vinte anos de exílio e de exclusão, e muitos políticos novos, decentes, patriotas que surgiram. Mas em que predomina uma categoria nova de parlamentares e administradores filhos da ditadura, para os quais é legítimo lucrar na condução dos órgãos públicos. E até no Parlamento. Antigamente políticos inatacáveis, ainda que reacionários, porque eram homens honrados, eram ajudados em suas campanhas eleitorais por empresários que confiavam neles. Hoje, os empresários se elegem a si mesmos, nem precisam de um lobby, porque eles são seu próprio lobby de representação, de defesa do latifúndio e dos mais variados grupos de interesse corporativo" (página 283/4).

Belas reflexões!

sexta-feira, 8 de março de 2013

Certezas - Dúvidas e Reflexões. Hugo Chaves.

Não gosto muito da abordagem deste tema. Não é porque eu não tenha posições ou convicções a respeito, porque vivemos em tempos de pós ideologia, de pensamento único, de tentativas de sobrevivência de velhos dinossauros ou de coisas parecidas. É que eu não boto muita fé nos resultados desse tipo de debates. a nossa formação catequética nos ensinou que existe apenas o bem e o mal e que o mal deve ser execrado e o bem, ardorosamente buscado. Não existem caminhos alternativos. Ou é bom ou é mau.

Já se vão os tempos da tragédia grega em que Apolo e Dionísio conviviam bem ou, já que estamos num campo nietzschiano, num tempo em que a águia (a que mais alto se eleva) e a serpente (a que rasteja e ausculta a terra) voavam abraçadas, como amigas e não a águia devorando a serpente.  Os tempos hoje são  definitivos, como o são, os julgamentos emitidos pelas pessoas.
Hugo Chaves, o polêmico revolucionário do socialismo bolivariano, falecido esta semana.

É certo que Hugo Chaves não foi uma pessoa muito polida, de acordo com o imaginário do mundo diplomático. Falava demais, era muito irrequieto, sempre estava em movimento. Se tornou famoso o episódio em que o rei espanhol Juan Carlos, este sim, um diplomata, no sentido bem comportado da palavra, o mandou calar a boca, - Por qué no te callas? - no encontro da cúpula Ibero-americana, em Santiago, em 2007. Incidente contornado, Chaves teria dito que a América, já teria se calado demais. Obviamente, a América Latina. A irritação do rei se deveu a sucessivos ataques de Chaves ao, já então, ex primeiro ministro espanhol, o conservador José María Aznar.

Porque já nos calamos demais. Certamente está aí a tese fundamental do pensamento de Chaves, o seu chamado socialismo bolivariano. Entram aí milhares de componentes históricos, que vão desde a colonização (?), dos movimentos de independência, da exploração imperialista até os golpes militares na América Latina, dos tempos da Guerra Fria, inspirados e ajudados concretamente, de maneira mais ou menos explícita, pelos agentes americanos.O que não se pode negar é que Chaves queria a "América para os Americanos", não aquele movimento, da doutrina Monroe, mas de que a riqueza da América ficasse com o povo dos países da América do Sul. Estes embates são históricos: A guerra do Paraguai, os movimentos de nacionalização das riquezas como o cobre do Chile, do petróleo e das demais riquezas dos diferentes países. Quem quiser recordar, Eduardo Galeano e Pablo Neruda contam esta exploração, em prosa e verso, assim como tanto outros.

Chaves surge no cenário pós-neoliberal, dos ajustes estruturais que empobreceram, tanto o povo, quanto o conceito de Nação, em favor do que se falava então, dos emergentes mercados. Neste contexto, estão junto com Chaves, a quase totalidade dos presidentes da América do Sul. O que une a todos é o combate, em maior ou menor grau, às políticas neoliberais e uma preocupação com as políticas de distribuição de renda, fazendo-a chegar às populações mais desamparadas.

É o velho choque entre as doutrinas do Estado-Nação como indutor de políticas distributivas e ações em favor da cidadania, com as doutrinas da eficiência dos mercados e da ausência neles, das ações do Estado. Nisto não há entendimento. Jamais deixarão de existir mentalidades que responsabilizarão os indivíduos pelos seus êxitos ou fracassos e que adotarão a competição como valor supremo e, os que defendem as ações positivas do Estado em favor da justiça social e, encontrando na cooperação e na solidariedade os seus valores fundamentais. Uns fazem isso com mais veemência que os outros, em ambos os lados. Veemência, com certeza, é uma palavra que se aplicava bem a Chaves.

Estou lendo Jardim de Inverno, as memórias de Zélia Gattai com Jorge Amado no exílio. Este exílio originou-se em função das ideias comunistas que professavam. O mandato de Jorge como deputado constituinte foi cassado pelo governo Dutra e Jorge, junto com Zélia terão que enfrentar os sabores e dissabores do mundo, em outras plagas. O clima da guerra fria não permite a sua permanência, nem na cidade sede e símbolo da "liberdade, igualdade e fraternidade". Praga os receberá. Como pensadores argutos, evidentemente perceberam as contradições no mundo soviético e nos demais regimes socialistas. Como já conheciam o "mundo livre", que os cerceava na liberdade, passaram a conhecer também os cerceamentos no mundo socialista. Encantos e frustrações se mesclam em suas vidas.
O livro de Zélia está repleto de reflexões sobre os regimes socialistas. Os descaminhos dos governantes, no entanto, não abalaram a crença socialista. Na capa, Zélia com Paloma, a filha tcheca de Zélia e Jorge.

Zélia tem neste seu Jardim de Inverno, um capítulo simplesmente extraordinário: Resguardo com reflexões.O resguardo se deve ao nascimento, em Praga, de sua filha Paloma e, as reflexões se devem, especialmente, a dois fatos que ocorrem paralelamente; A missão que Jorge recebe do Partido Comunista Brasileiro, de ir a um festival em Berlim, viagem esta, que o afastaria do convívio com Zélia, no momento do nascimento da filha e, do caso Slansky, os primeiros expurgos do PC tchecoeslovaco, do qual muitos amigos do casal foram vítimas, mesmo que, absolutamente, sem culpa.

Zélia reflete entre os bens sociais que o regime trouxera e que ela sentiu com o nascimento de Paloma e das ajudas do Estado, no casamento de uma empregada e as desconfianças e intrigas dentro do governo, intrigas de disputa de poder. Zélia conclui dessa maneira as suas reflexões:

"Não havia dúvida, não era o socialismo que não prestava, eram, isso sim, os governantes enlouquecidos pela ambição...esses é que deviam ser combatidos, desmascarados... Ao raciocinar assim, eu me sentia, senão de todo satisfeita, pelo menos mais tranquila, capaz de reafirmar meus ideias socialistas e ir em frente, sem, no entanto, abrir mão do direito de liberdade, de lutar por ela, pois começava a entender que qualquer regime, seja ele qual for, sem liberdade não passa de uma ditadura".

Mas afinal, e Chaves? Sem dúvida que, embora polêmico, a Venezuela em particular e a América do Sul, em geral, acabam de perder um de seus revolucionários. Certamente, por isso mesmo, por ser revolucionário,é que se tornou tão polêmico.Particularmente me sensibilizou muito o golpe de Estado contra ele praticado, no início do século e a sua recondução ao poder, por uma operação do povo venezuelano. Uma das acusações mais comuns aos governos populares é a de serem chamados de governos populistas, atribuindo conotações pejorativas a este termo. Conciliar liberdade com igualdade sempre será uma dificuldade, já a partir das definições atribuídas a essas palavras.




quinta-feira, 7 de março de 2013

Città di Roma. Zélia Gattai.

Quando saí do porto de Gênova, numa excursão que fiz no ano passado, à Grécia e à  Itália, para ir a Porto Fino e Milão escrevi o seguinte: "Uma das cenas que mais me emocionou em toda esta viagem foi a saída de barco, do porto de Gênova. É fácil saber o motivo. Pelo porto de Gênova saíram os milhares de emigrantes italianos que vieram ao Brasil. A maioria abandou a região do Vêneto e saíram da Itália pelo porto de Gênova. Quantos corações partidos dali não saíram. Quantas lágrimas não foram ali derramadas, mas acima de tudo, quantas esperanças não foram ali acalentadas".
Città di Roma é o livro de Zélia Gattai, em que ela busca, na memória, seus nonnos, que embarcaram na Itália, no navio com este nome. Os Gattai eram anarquistas.

Pois bem, acabei de ler de um fôlego só o belo livro de memórias de Zélia Gattai, Città di Roma. Città di Roma era um desses navios que saíram deste porto. Nele navegavam duas famílias que não se conheciam. A família Gattai, da Toscana e anarquistas fervorosos e a família Da Col, do Vêneto, tão fervorosos quanto os Gattai, só que de outra crença, o catolicismo. Ambas tinham um problema em comum. Rezar para que a filha doente de cada uma dessas famílias, ao menos chegasse viva ao Brasil, não ser jogada ao mar e, ali então, ser enterrada. Foi o que aconteceu. Se o Nonno Gattai não rezava, por causa de sua fé anarquista, esta tarefa certamente coube a Dealma, a mãe zelosa.

Depois de chegarem a Santos e cada casal enterrar a sua filha, seguiram para destinos distintos. Enquanto    os Gattai vieram para Palmeira, no Paraná, para a famosa mas efêmera Colônia Cecília, os Da Col foram para Cândido Mota, no interior de São Paulo. Anos depois as famílias se conheceram, se encontrando em São Paulo e, quis o destino que suas vidas se cruzassem. Destas famílias saíram Ernesto e Angelina, os pais de Zélia.

Quando se fala da imigração italiana sempre surge uma grande curiosidade em torno da Colônia Cecília. Pois é. O Nonno Gattai veio para ela. Pouco tempo ficou. Ali até conceberam uma filha brasileira. A mudança no Brasil, de monarquia para república foi fundamental para que a experiência não desse certo. Zélia busca na memória. "A filha brasileira dos Gattai foi criada na Colônia até os dois anos de idade, quando o pai, não vendo mais perspectivas de sucesso, decidiu desistir da experiência". E revela os motivos:

"As terras que haviam sido doadas pelo imperador agora eram cobradas pelos republicanos. Onde arranjar dinheiro para pagar? Os pioneiros, chegados pelo Città di Roma, iam sendo substituídos por novas levas de imigrantes, atraídos pela aventura, gente de toda espécie, até criminosos, foragidos da justiça, dizem ter havido". os Gattai foram para São Paulo. A Colônia Cecília teve vida curta, na região de Palmeira. Inimaginável, uma colônia de anarquistas. Certamente haveria outras razões para o fracasso se não existissem esses.
Zélia Gattai
Zélia Gattai, a grande memorialista brasileira. No livro Città di Roma, as   aventuras e desventuras dos imigrantes italianos no Brasil.


A vida em São Paulo não foi nada fácil. Zélia vai relembrando, complementando basicamente o seu livro anterior Anarquistas Graças a Deus. Chama atenção o fato de as meninas não poderem estudar para além da escola primária. Estudar, para escrever bilhete para os namorados, não fazia sentido. O preparo para o casamento, isto sim era coisa séria e absorvia todas as tarefas. A oficina dos Gattai, o namoro e casamento da meninada, os parentes... vão preenchendo as páginas do livro. Este ganha grande intensidade no seu final.

A velha raiz anarquista da família traz desventuras para o seu Ernesto e, praticamente, o levam a morrer. As perseguições ocorrem após a ditadura Vargas, na caça aos comunistas, depois da Intentona de 1935 e da decretação do Estado Novo, em 1937. Como o anticomunismo serviu, e continua servindo, de pretexto para tanta coisa! O único envolvimento que o seu Ernesto tinha com os comunistas, eram velhos amigos italianos, que de vez em quando o visitavam. Um deles até levou para Zélia um livro de um escritor já muito famoso. Jorge Amado.

As palavras finais do livro são exatamente dedicadas a Jorge. Zélia passa por cima do primeiro casamento e apenas fala de Luiz Carlos, o neto que este casamento deu para a avó Angelina. O mais são conversas de Jorge com Angelina e os netos do casal Jorge e Zélia. Ela conta: "Dona Angelina adorava João Jorge e Paloma, meus filhos (com Jorge) e sentia um carinho muito especial pelo neto Luiz Carlos, filho de meu primeiro casamento, casamento sobre o qual prefiro não falar, não sinto prazer nisso. Trata-se apenas de uma página virada de minha vida". Maiores detalhes do encontro de Jorge com Zélia são dadas por Jorge no Navegação de Cabotagem.

Do livro, terminado em Salvador, em fevereiro de 2000, na famosa casa do Rio Vermelho, quero ainda apresentar a sua belíssima conclusão: "Aos oitenta e três anos, dona de imensa experiência de vida, de alegrias e tristezas, sucessos e decepções, chego a uma conclusão: só morrem, desaparecem de vez, as pessoas que não foram amadas, pessoas que, por terem sido más, não deixaram saudades na terra, não são lembradas. Dessas, mesmo em vida, esqueço seus nomes".