Haja imaginário! E acima de tudo imaginário doentio. Estou falando do livro O diabo no imaginário cristão, do professor de História Medieval, Carlos Roberto F. Nogueira. Da primeira leitura do livro lembrei perfeitamente - que num determinado catecismo, o número de referências ao diabo era maior do que o número de citações de Jesus Cristo. Com facilidade localizei novamente a passagem:
O diabo no imaginário cristão. Carlos Roberto F. Nogueira. Edusc. 2002.
"A essa situação (da teologia aterrorizante - e muitas vezes incompreensível - da cultura erudita) a Igreja respondia com a missão de convencer os ignorantes da verdadeira identidade do Maligno, através dos sermões, dos catecismos, das obras demonológicas e dos processos de bruxarias. Os demônios tudo podem, e sua presença nos discursos religiosos é muito maior do que a de Deus. No Grande Catecismo de Canisius, tornado obrigatório em diversas regiões no século XVI, o nome de Satã é citado 77 vezes, enquanto o de Cristo, apenas 63, como de resto na maioria das obras demonológicas" (Página 99).Satã maior do que Cristo. O que é isso?!
Antes de entrar na resenha do livro quero destacar uma parte de minha formação inicial, totalmente religiosa. Nasci em meio a uma comunidade de católicos de origem alemã, em que tudo na vida se centrava na prática religiosa. Tudo mesmo. Assim, já aos doze anos de idade eu me mandava para o seminário, para ingressar na vida religiosa. Seria a suprema honra para a família e meio seguro para eles obterem a sua salvação. Mas posso afirmar aqui, que o tema do demônio, raras vezes me assombrou. Já na comunidade havia a pregação de missões e, depois, no seminário, havia os chamados retiros espirituais. Aí sim, havia cenas de apavoramento, com a lembrança dos Novíssimos. Eram pregações sobre o pecado, a morte, o inferno e o paraíso. Tudo terminava numa grande confissão, confissão da vida toda. Foi numa dessas pregações que eu me encontrei. Me fez muito bem. De Deus não vem os temores, d'Ele vem apenas o Bem. Repito, isso me fez muito bem.
Uma outra cena também me perturbava bastante. Os enterros na vida da comunidade eram solenes. Missas de corpo presente, com cantos fúnebres. Não faltava o Dies irae, dies illa e muitos asperges com água benta. Mas a cena que mais mexia comigo ocorria no cemitério, ao final do enterro. O padre puxava um último Pai Nosso, destinado para aquele "que entre nós haverá de morrer em primeiro lugar". Quem seria? Era a dúvida que persistia. Isso acontecia na comunidade de Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro. Mas vamos ao livro.
Ele tem apenas 125 páginas. Tem Prefácio e Introdução. O prefácio é de autoria de Luís Adão da Fonseca. Ele destaca os momentos maiores da eterna briga entre o Bem e o Mal, com destaque para os efeitos diabólicos que se impregnaram na Moral. Na Introdução o autor retoma esta mesma luta e os seus efeitos nas lutas do cotidiano, com um destaque todo especial para o Juízo Final, a data do Grande Desfecho. Seguem sete capítulos, onde estão incluídos Epílogo, Vocabulário Crítico e Bibliografia. Capítulos mesmo, então somam quatro, que eu destaco:
I. As origens do anjo rebelde; II. Cristianismo e demonolatria; III. Deus e o diabo: a pedagogia do medo. IV. O triunfo de Satã. No primeiro capítulo encontramos a construção do arquétipo do demônio, qual seja a do anjo caído, o anjo derrotado na rebelião contra Deus. Por óbvio, como o cristianismo deriva do judaísmo e da Bíblia, na parte do Antigo Testamento, encontramos aí as raízes de sua construção. Como os hebreus passaram por diversas andanças, eles receberam as influências dos povos por onde passaram e onde se cristalizou a imagem da dualidade, da luta entre o Bem e Mal.
No segundo capítulo, com o advento do cristianismo e a sua destinação como uma religião universal, novas incorporações foram feitas. O demônio passa a ser visto como o Pai da desobediência e ele se impregna nos dogmas cristãos. A construção de um demônio institucionalizado levou ao surgimento de muitas heresias. O demônio passa a ser visto como alguém muito poderoso e em permanente combate com Deus. A eterna luta do Bem contra o Mal. No terceiro capítulo, já alcançamos a Idade Média. Como afirmado no título, se instaura uma pedagogia do medo, o medo da força diabólica. A mulher é identificada como a vítima preferida pelos demônios e se promove a caça às bruxas. São criados os instrumentos da Guerra, como o sinal da cruz e a água benta. As representações apavorantes do Demônio, do Inferno e do Juízo Final como componentes da pedagogia do medo. O medo chega a superar a confiança.
No quarto capítulo nos é mostrado o Império do Demônio e a sua relação com os pecados capitais. Novas imagens de apavoramento das consciências e a identificação do Demônio com os inimigos. A disseminação do ódio. A vinda do Anticristo. Quem é o Anticristo? Novas heresias. O otimismo cede à angústia generalizada. Um mundo em pânico. Sobre o número de demônios. (Para ilustrar - "No meio do caminho em nossa vida // eu me encontrei por uma selva escura" - o início de A Divina Comédia, de Dante Alighieri). No quinto capítulo, ou epílogo temos uma retomada do tema da luta do Bem contra o Mal e criação de uma espécie de estética do satanismo com o surgimento das seitas satânicas e o ocultismo, um verdadeiro flerte com o Demônio. Vejamos o Mefistófeles de Goethe.
Vamos ainda às orelhas do livro: "O diabo é uma das figuras centrais do imaginário cristão ocidental. Entretanto, o estudo de suas origens e dos papéis históricos que esta figura curiosa desempenhou ao longo dos séculos não tem merecido a atenção necessária.
Nesta obra, Carlos Roberto Nogueira aprofunda com a erudição necessária esta problemática, pesquisando e apresentando a fusão existente entre a história do Cristianismo e a história do próprio Diabo. O papel decisivo desempenhado pela presença deste personagem e seus agentes dentro de uma crença oficial - o Cristianismo - é analisado a partir da necessidade desta crença personificar um elemento como o representante do Mal.
A tentativa, tão característica ao longo da história do Cristianismo, de tranquilizar e uniformizar as consciências é aqui estudada em suas causas e efeitos, destacando-se que estes últimos não foram os definidos e esperados segundo seus objetivos originais, pois acabaram gerando aspectos considerados nefandos por seus proponentes, que culminaram até num certo "prazer estético" em relação ao Mal.
Após as revoluções burguesas na Europa, há uma certa reabilitação do Diabo, possibilitada sobretudo pela separação entre Igreja e Estado. Este momento merece uma análise especial do autor, que comenta e aprofunda abordagens existenciais e mesmo consagradas deste novo período histórico. É o momento em que o Demônio passa a ser um dos símbolos da revolta humana, encontrando seu ápice em muitos autores do romantismo".
Mas eu não posso terminar um post sobre a questão do Diabo sem me remeter a José Saramago. A dois de seus mais memoráveis livros. Caim é um acerto seu com o Antigo Testamento e O Evangelho segundo Jesus Cristo, um acerto com o Novo Testamento. Neste tem a memorável cena em que o Demônio e Deus passam 40 dias numa barca. Nela o Demônio promete abrir mão de sua missão se Deus fizer o mesmo, de continuar a ser apenas o Deus do povo judeu e não um Deus universal. Eu deixo o link desses livros, onde há elucidações a respeito do comentado.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/09/saramago-e-os-temas-religiosos-caim-e-o.html