sábado, 27 de dezembro de 2025

A IDEOLOGIA DA VERGONHA e o clero do Brasil. William Cesar Castilho Pereira.

Um passeio pelo facebook me levou a este livro. O seu título e um breve comentário. Por que este título me chamou tanta atenção? Ele não deixa de ser um bom pedaço de minha formação inicial. Além disso ele me trazia uma das características mais fortemente presentes em mim nesta fase de minha vida: uma timidez paralisante e uma vergonha que me induzia a um desejo de invisibilidade quase absoluta. O resultado disso seria uma dificuldade enorme de uma inserção no mundo, ou então me reservaria um espaço de absoluta subordinação. Quanto sentimento de inferioridade! Eu nasci em Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro, no Rio Grande do Sul.

A ideologia da vergonha e o clero do Brasil. William Cesar Castilho Pereira. Vozes. 2025.

Naquele tempo, nasci no ano de 1945, imperava o conceito de que uma família que não tivesse um filho padre, os pais não iriam para o céu. Eu era o filho mais novo, entre cinco irmãos. Coube a mim prover o passaporte de salvação de meus pais. E, ainda criança, fui para o seminário de Bom Princípio, continuando depois em Gravataí e terminando em Viamão. E lá se foram doze anos: admissão, ginásio, clássico (ensino médio) e a faculdade de filosofia. Eu nunca quis ser padre. Eu sonhava alto. Eu queria ser bispo. Ao final do ano de 1968 me defrontei com a primeira encruzilhada mais séria da vida. Fazer mais quatro anos de teologia ou enveredar pela carreira do magistério. Foi o que eu fiz. Abandonei os pagos e me enveredei pelo Paraná. Dois fatos ocorridos em dezembro de 1968. No dia 4 eu recebia o meu diploma de filosofia e no dia 13 ocorria o mais grave ataque à democracia de toda a nossa história. O AI-5.

Mas, vamos ao livro. Trata-se de A ideologia da vergonha e o clero do Brasil. O autor é William Cesar Castilho Pereira. Vejamos alguns dados biográficos seus, contidos na orelha da contracapa: "Mineiro, estudou psicologia e é doutor pela UFRJ. Psicólogo clínico, atuou por várias décadas como professor da PUC Minas. Foi docente da Faculdade dos jesuítas (Faje). Assessor em trabalhos comunitários e analista institucional. Assessor da Arquidiocese de Belo Horizonte e do Conselho Latino-americano - Bogotá - Colômbia (Celam) Escreveu pela Editora Vozes: Sofrimento psíquico dos presbíteros: dor institucional e Os sete pecados capitais à luz da psicanálise. Uma vida dedicada à formação, à compreensão do ser humano e das formas de atuação que deem sentido à vida. Com certeza, de bem com a vida. Ele pratica uma frase de Paulo Freire que eu aprecio muito: "É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática".

É um livro que busca a superação. Uma frase ilustra bem o livro: "A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão. A coragem, a mudá-las". A frase é atribuída a Santo Agostinho ou a Pablo Neruda. O caminho percorrido entre a indignação e a coragem é longo e passa por toda uma formação teórica. De novo, Paulo Freire: "A leitura de mundo precede a leitura da palavra". Muita análise, muita indicação bibliográfica. A caverna de Platão, La Boétie e e seu Discurso sobre a servidão voluntária, Marx e o conceito do trabalho como práxis, a divisão social do trabalho e a divisão da sociedade em classes, a minha identidade como classe, a construção da minha individualidade e a superação da alienação pela tomada de consciência crítica.

Outra coisa notável do livro é a análise dos fatos que eu presenciei e vivi. A imensa grandeza do papa João XXIII (28 de outubro de 1958 a 3 de junho de 1963) com a convocação do Concílio Vaticano II, que teve continuidade com Paulo VI. Tempos de aggiornamento da Igreja. Um papa humilde, mas decisivo. Renunciou à sua infalibilidade e buscou soluções no coletivo de um concílio. Outra coisa foi a organização do clero brasileiro com a criação da CNBB (outubro de 1952). Antes as coisas da Igreja corriam meio desordenadas, meio espontâneas. Dom Hélder Câmara lhe conferiu organicidade. Aqui devo uma confissão: João XXIII foi uma das maiores presenças em minha vida.

Mas vamos a organização do livro: O livro, de 292 páginas, tem em seu corpo principal, cinco capítulos, além de introdução, do próprio autor, de agradecimentos e de um belíssimo prefácio assinado por Dom Leonardo Steiner, cardeal arcebispo de Manaus, que apresenta a vida como uma tecitura de transformações. Um longo tecer de relações. Na introdução o autor apresenta os três grandes temas do livro: a ideologia, a vergonha e o clero brasileiro. Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. Regiões brasileiras e diferenças pastorais; 2. Questões etárias e raciais entre os presbíteros; 3. Aspectos familiares, sociais e educacionais; 4. Aspectos socioeconômicos dos presbíteros; 5. A ideologia da vergonha e o clero do Brasil. O posfácio, assinado por Dom Esmeraldo Barreto de Farias, bispo emérito de Araçuaí, MG, tem por título - Da vergonha à esperança: por uma igreja enraizada no Evangelho, em diálogo com as culturas. Na parte final, ricas referências bibliográficas.

Evidentemente que o quinto capítulo, que deu o título ao livro, é o que me levou à compra e à leitura. Mas, isso não significa que os demais capítulos não tenham a sua importância. Muito pelo contrário. No primeiro capítulo temos uma aula de realidade brasileira profundamente atual, que é uma verdadeira aula de sociologia, que inclusive recomendo aos professores da disciplina. O segundo capítulo é um mergulho na vida do clero e o terceiro e o quarto aprofundam este mesmo mergulho. A minha conclusão foi a de que a vida de um bispo não é uma vida fácil. Os padres são seres humanos que vivem dentro do mundo capitalista que estimula hiper-indivíduos, sob as marcas do narcisismo, do consumo e da vaidade. Lidam com dinheiro e perspectivas de futuro. São seres com instintos e com desejos. São humanos. Tentaram até formar um sindicato.

Agora, o quinto capítulo é um primor. Em primeiro lugar é um retrato desses tempos de pós-modernidade. Tempos líquidos. tempos de hedonismo e simultaneamente de contenção, tempos de cobrança de metas inalcançáveis. Tempos de muitas dores, especialmente dores psíquicas. Tempos de adoecimento.  Tempos de melancolia e de acídia. Vou me ater um pouco mais a este termo. Duas elucidações: "Evrágio Pôntico (345-399) parece ter sido o primeiro pensador a identificar como "demônio do meio-dia". O período da tarde e as práticas de jejum, provavelmente, teriam influenciado mais a indolência dos monges do que as tentações do demônio. Na tradição da Igreja, Delumeau percebe a acídia como sonolência espiritual, dificuldades dos exercícios religiosos, tristeza que apagava da alma o desejo de servir a Deus". Triste.

A segunda ilustração é de Maria Rita Kehl: "A metáfora para a acedia - "demônio do meio-dia"- remete à fraqueza corporal produzida pelo prolongado jejum a que os monges se submetiam por amor a Deus. A fome, o calor, a prostração do corpo enfraquecido abatem também a vontade da "alma", que recua diante da impossível proposta de encontro puramente espiritual com Deus - o que comprova que nem tudo, da pulsão, pode ser sublimado". E por aí seguem as descrições dos sofrimentos psíquicos de nossos tempos. Aqui deve ser dito que não são somente os padres que são acometidos pela acídia. É uma doença comum a todos e que se abriga no conceito comum da depressão.

O último tópico do quinto capítulo tem por título - A vergonha, enquanto fecundidade de emancipação. Depois de percorridos os caminhos teórico-práticos dessa emancipação tem uma pequena frase, enorme em seu significado: "A maior solidão é a dos seres que não amam e não se abrem ao outro". Afinal, a vida é um enorme tecer de relações. Um livro para todos.

E, a resenha de um livro fantástico sobre as dores psíquicas modernas. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/sociedade-do-cansaco-byung-chul-han.html

sábado, 20 de dezembro de 2025

Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister. Johann Wolfgang von Goethe.

A visita dos meus netos à minha biblioteca sempre é uma festa. Primeiramente eles queriam mexer nos livros mais volumosos, depois sempre quiseram ver e folhear o Drácula e na última visita quiseram saber dos livros que eu ainda não lera. Efetivamente eu tenho alguns livros não lidos. Eu os comprei em liquidações e os punha na lista de espera. Eles retiram os livros da estante e vou falando sobre eles. É uma curiosidade lindíssima de se ver. Momentos de raro encanto.


Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. Johann Wolfgang von Goethe. Tradução: Nicolino Simone Neto. Editora 34. 2015.

Pois bem, dessa vez eles retiraram o Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Johann Wolfgang von Goethe. Eu o comprei no ano de 2017, certamente motivado pelo nome do autor, Goethe simplesmente. Outro motivo certamente foi o de se tratar de um romance de formação. Estes sempre mereceram de minha parte uma atenção toda especial. Coisas de quem dedicou uma vida inteira à formação. Me assombra o fato de hoje em dia a educação estar entregue a pessoas sem nenhuma compreensão do tema e somente por isso é que fazem o que estão fazendo. Isso quando não a usam para fins meramente comerciais. Isso é efetivamente criminoso. A formação de um ser humano é de uma responsabilidade suprema. E lá estou eu a ler este maravilhoso e complexo livro.

O romance tem uma história complexa mas de leitura extremamente atrativa. Por óbvio, Wilhelm Meister é o protagonista. Ele é filho de uma família da emergente classe burguesa. Mas ele não quer seguir os passos familiares e busca no teatro a realização de seus sonhos, apesar de não se sair mal nas missões que a família lhe confia. No roteiro entram ainda duas crianças maravilhosas, a pequena Mignon e o menino Felix. Atentem a esses personagens. O romance se passa na Alemanha, um país ainda relativamente atrasado e por isso o teatro analisado é o inglês e o francês. Hamlet então... Ainda..., os personagens burgueses se misturam com personagens da nobreza, que é bem vista. O romance é longo, 606 páginas. Ele é dividido em oito partes ou livros. Os cinco primeiros mostram Wilhelm envolvido com o teatro, o sexto é dedicado à formação feminina e os dois últimos, à Sociedade da Torre, com certeza, os mais interessantes e significativos.

O livro que eu li é da editora 34, uma editora que prima pela qualidade. Ele tem uma bela apresentação, de autoria de Marcus Vinícius Mazzari e um primoroso e valorizado posfácio, de ninguém menos do que Georg Lukács. Este posfácio é muito esclarecedor. Ele historia o romance, o data e o situa. O primeiro dado importante é a sua caracterização como um romance de transição. Acompanhemos os primeiros apontamentos de Lukács: "O Wilhelm Meister de Goethe é o mais significativo produto de transição da literatura romanesca entre os séculos XVIII e XIX. Exibe traços de ambos os períodos de evolução do romance moderno, tanto ideológica quanto artisticamente, na verdade".  As próximas linhas são dedicadas à escrita da obra, que apareceu no ano de 1795-1796, mas cuja escrita começou bem antes. Vejamos:

"As origens desse romance remontam decerto a época bem anterior. A concepção e possivelmente também as primeiras tentativas de redação podem ser comprovadas já em 1777. Em 1785 já estavam escritos os seis livros do romance - A missão teatral de Wilhelm Meister. Essa primeira versão, perdida durante muito tempo e redescoberta só em 1910 por um feliz acaso, oferece a melhor possibilidade de esclarecer em que momentos artísticos e ideológicos se manifesta aquele novo caráter transitório de Os anos de aprendizado". Que tempos são estes? Uma velha mania minha de professor era a de sempre perguntar pelo fato mais importante ocorrido no entorno das datas apresentadas. Fica mais fácil. É evidente que o fato mais importante nesse contexto é o da Revolução Francesa, ou melhor, o da Revolução burguesa da França, ocorrida no ano de 1789. Profundas mudanças.

A Revolução Francesa se enquadra dentro de acontecimentos que permitiram o surgimento de uma nova classe social, a partir da expansão comercial e dos descobrimentos marítimos e de um novo ordenamento ideológico que revolucionou as estruturas sociais do período: humanismo, renascimento, iluminismo, revolução científica. Tempos da Aufklärung. Tempos em que a razão prometia substituir a importância do trono e do altar. Tempos de emancipação, tempos de autonomia do ser humano. 

Marcos Mazzari inicia o seu prefácio citando vários comentários sobre o livro e o enquadra dessa forma: "... Então o romance Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister perfila-se certamente na linha de frente dessas grandes obras literárias (as que fundam ou dissolvem um gênero). Pois ao publicá-lo entre os anos de 1795 e 1796, Goethe criou o gênero que mais tarde foi chamado de 'romance de formação' (Bildungsroman), a mais importante contribuição alemã à história do romance ocidental". Lukács, no posfácio confirma que se trata de um romance de educação, de formação: " Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister é um romance de educação: seu conteúdo é a educação dos homens para a compreensão da realidade".

Mas Lukács, um pouco antes dessa afirmação, já assim se expressara sobre a centralidade da obra; "Assim, coloca no centro deste romance o ser humano, a realização e o desenvolvimento de sua personalidade, com uma clareza e concisão que dificilmente um outro escritor haverá conseguido em alguma outra obra de literatura universal. É claro que essa visão de mundo não é propriedade particular de Goethe. Ela domina antes toda a literatura europeia, desde o Renascimento; constitui o ponto central de toda a literatura do Iluminismo. O traço peculiar do romance goethiano mostra-se contudo no fato de que, por um lado, essa visão de mundo se põe no centro de tudo com uma elevada consciência, acentuada permanentemente de modo filosófico, ou pelo estado de ânimo, ou relacionada com a ação, a ponto de se transformar na força motriz consciente de todo o mundo configurado; e, por outro lado, essa peculiaridade consiste em que Goethe nos apresente como um devir real de seres humanos concretos  em circunstâncias concretas essa realização da personalidade plenamente desenvolvida com que o Renascimento e o Iluminismo sonharam, e que na sociedade burguesa tem sempre permanecido como utopia". 

Considero esses elementos fundamentais para a leitura e o início de uma compreensão desse monumental livro. Eu o considero como um livro, não apenas para ser lido, mas um livro para ser estudado em grupos, e, de preferência, acompanhado por algum professor de literatura, com algum aprofundamento em Goethe. Mas, ainda para uma visão inicial deixo a contracapa do livro.

"'Ponto culminante na história da narrativa'. É, em termos como esses que Georg Lukács se refere a Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, livro que deu origem a um novo gênero literário - O Bildungsroman, ou o romance de formação, a mais importante contribuição alemã à literatura mundial.

Reunindo e superando as formas narrativas anteriores, o livro conta o percurso aventuroso do jovem Wilhelm Meister em busca do pleno desenvolvimento de suas potencialidades. Atraído inicialmente pelo teatro, Meister abandona o ambiente burguês de sua família e, como ator e poeta, viaja por povoados e cortes da Alemanha, convive com os tipos mais diversos e experimenta várias ligações amorosas antes de cumprir uma trajetória que, repleta de reviravoltas, desenha um esplêndido painel da sociedade de seu tempo.

Com meios inéditos para a época, Goethe se debruça aqui sobre o problema da formação do indivíduo em condições históricas concretas. De fato, para o autor do Werther e do Fausto, a realização do homem não dependia apenas da harmonia de sua vida interior, mas do modo como este se insere no contexto social. Pois é exatamente esta rara aliança entre valores individuais e coletivos que constitui o cerne deste livro extraordinário, em que se combinam, como num concerto de Mozart, paixão e senso de medida, leveza e profundidade". E uma provocação: "Que és tu? Que tens tu?".

Não posso também deixar de apresentar um texto de Kant, que considero o mais belo texto da filosofia em que ele fala da Aufklärung como a maioridade do ser humano. Atingir esta maioridade é a finalidade primeira da formação.


Mas o Iluminismo também teve profundas contradições. A razão, rapidamente se transformou em razão instrumental. Vejam a resenha de um livro que desvela essas contradições.





sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

OS INTELECTUAIS NA IDADE MÉDIA. Jacques Le Goff.

Que livro maravilhoso. Um dos intelectuais mais brilhantes de nossos tempos, ou mais precisamente, dos tempos recentes. Estou falando de Jacques Le Goff (1924-2014) e de seu maravilhoso livro Os intelectuais e a idade Média. É sabido que Le Goff é um dos maiores especialistas neste tema. É um livro fundamental para conhecer as transformações que mais tarde desembocariam na chamada modernidade. Ao contrário do que se imaginava e se propagava, a Idade Média não era a época de trevas, mas uma época em ebulição. Tudo fervilhava. Era água nova, teimando em brotar. Lembrando que a história considera como Idade Média, o tempo entre os anos de 476 e 1453. As datas marcam a Queda do Império Romano e a Tomada de Constantinopla, respectivamente. Período entre os séculos V e XV.

Os Intelectuais e a idade Média. Jacques Le Goff. José Olympio. 2003. Tradução: Marcos de Castro.

O livro aborda o surgimento dos intelectuais, algo que tem a ver com as universidades. Estas, por sua vez, surgem junto ao movimento de urbanização e das consequências ligadas a este fenômeno. O conhecimento sai dos mosteiros e faz das cidades o seu novo habitat. Mas ele continua sob o controle da Igreja, dividindo-o com o Estado, este também um fenômeno emergente, ao menos na tomada de suas novas formas. É um fenômeno dos séculos XII e XIII, e como lemos, já no prefácio do próprio autor, ele tinha por objetivo maior o controle do poder. Das universidades sairiam os funcionários mais graduados, as mais altas hierarquias dessas instituições. Bolonha, Paris e Oxford são os grandes centros ligados a essas universidades.

Le Goff também nos indica os pensadores mais influentes desse período. Como se trata de um período de transformações, estas também atingem os campos do conhecimento. Um mundo de certezas passa por questionamentos. A fé revelada passa a ser cada vez mais questionada e a questão da fé versus razão atinge novos patamares de questionamentos. Platão e Santo Agostinho passam a ser confrontados com Aristóteles, que chega às universidades pela retomada dos estudos e da tradução direta dos pensadores da Grécia clássica e também pela via dos árabes que chegam a Europa. O período marca sobretudo uma volta ao esplendor da cultura greco-romana. Os intelectuais viviam perigosamente, sempre beirando às heresias. Entre os pensadores, entre outros, encontramos os nomes de Pedro Abelardo (1079-1142), Roger Bacon (1214-1294), Santo Tomás de Aquino (1227-1274 e Guilherme de Ockham (1288-1348). As faculdades mais tradicionais eram cinco: Artes,  Medicina, Direito Civil, Direito Canônico e Teologia. A ciência permeava todas elas. O estudo da natureza povoava cada vez o imaginário dos intelectuais, especialmente, à medida em que o tempo passava. No século XV o intelectual medieval entra em declínio. Este século XV também é o limite do estudo de Le Goff neste livro.

Vamos à estrutura do livro. Ele tem um belo prefácio do próprio autor, uma pequena introdução e o corpo do trabalho, formado por três capítulos. Termina com algo meio inédito, um ensaio bibliográfico, sublinhando os livros mais importantes que abordam o período, um índice remissivo e preciosas referências cronológicas, obviamente relativas ao período trabalhado. Vamos então aos três capítulos do corpo do trabalho: I. O século XII. Nascimento dos intelectuais. II. O século XIII. A maturidade e seus problemas. III. Do universitário ao humanista.

Vejamos os temas abordados nos capítulos: I. O século XII. Nascimento dos intelectuais: Renascimento urbano e nascimento do intelectual no século XII; Antigos e modernos; A contribuição greco-árabe; Os tradutores; Paris: Babilônia ou Jerusalém?; Os goliardos (maravilhoso); A vagabundagem intelectual; O imoralismo; a crítica da sociedade; Abelardo; Heloísa; a mulher e o casamento no século XII; Novos combates; São Bernardo e Abelardo; O lógico; O moralista; O humanista; Chartres e o espírito chartriano; O naturalismo chartriano; O humanismo chartriano (Percebam a importância de Chartres como centro intelectual); O homem microcosmo; A usina e o homo faber; Figuras; Brilho; o trabalhador intelectual e o canteiro urbano; Pesquisa e ensino; As ferramentas.

II. O século XIII. A maturidade e seus problemas: Perfil do século XIII; Contra os poderes eclesiásticos; Contra os poderes leigos; Apoio e embargo do papado; Contradições internas da corporação universitária; Organização da corporação universitária; Organização dos estudos; programas; Exames; Clima moral e religioso; A piedade universitária; O equipamento; O livro como instrumento; O método: a escolástica; Vocabulário; Dialética; Autoridade; Razão: a teologia como ciência; Os exercícios: quaestio, disputatio. quodlibet; Contradições - Como viver? Salário ou benefício?; A querela dos regulares e dos seculares; Contradições da escolástica: os perigos da imitação dos antigos; As tentações do naturalismo; o difícil equilíbrio da fé e da razão: o aristotelismo e o averroísmo; As relações entre a razão e a experiência; As relações entre a teoria e a prática (É como uma visita à universidade para conhecer a sua estrutura e funcionamento). 

III. Do universitário ao humanista. O declínio da Idade Média; A evolução das vicissitudes dos universitários; Rumo a uma aristocracia hereditária; Os colégios e a aristocratização das universidades; Evolução da escolástica; Divórcio entre a razão e a fé; Limites da ciência experimental; O antiintelectualismo; A nacionalização das universidades: a nova geografia universitária (Uma bela mostra da expansão das universidades); Os universitários e a política; A primeira universidade nacional: Praga; Paris: grandezas e fraquezas da política universitária; A esclerose da escolástica; Os universitários se abrem ao humanismo; A volta à poesia e à mística; Em torno de Aristóteles: a volta à linguagem bonita; O humanista aristocrata; A volta ao campo; A ruptura entre a ciência e o ensino.

As orelhas do livro são ocupadas pela historiadora Mary Del Priore. Na orelha, além de apresentar um retrato da obra, apresenta também um perfil do autor. Ela ocupa também a contracapa: "Capítulo fundamental da história medieval, este livro feito de limpidez, sutilezas e erudição apresenta ao leitor um autor fundamental, íntimo dos arquivos, hábil em criticar os documentos, ágil em interpretar seus silêncios, enérgico em revelar suas contradições. Passando com maestria da longa duração aos fatos pontuais, do material ao espiritual, Jacques Le Goff explica a história dos intelectuais medievais. Mas ele também confirma seu papel e seu lugar dentre os maiores intelectuais de nosso tempo".

O livro me lembrou muito das aulas de história. Humanismo e Renascimento. Agora visto em profundidade e com rara e cativante beleza que te prende à leitura. Simplesmente um livro imperdível e maravilhoso. Esta já foi uma releitura.