quinta-feira, 30 de junho de 2022

Um banquete no trópico. 4. Autobiografia. Visconde de Mauá.

Tenho a grata satisfação de apresentar a  quarta resenha para o presente projeto. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html. Trata-se da análise, feita pelo escritor Jorge Caldeira da obra do Visconde de Mauá, Autobiografia, contida no livro Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. Jorge Caldeira é autor do livro Mauá - empresário do império, autor credenciado, portanto, para fazer a resenha para o livro que estamos trabalhando. Creio que os escritos de Mauá poderiam ser, mais apropriadamente, denominados de Exposição aos credores, que é o que ele realmente fez. Mas como a sua biografia se confunde com o seu trabalho, tudo bem.

Introdução ao Brasil. Mauá ocupa a quarta resenha do volume I.

Exposição aos credores foi escrita em 1878, ao longo de 15 dias, provavelmente os 15 dias mais sofridos da vida do Visconde. Em 1875, o governo imperial decretara a moratória da Mauá & Cia. e, como não conseguiu saldar todos os débitos ao longo de três anos, conforme a legislação da época, teve a sua falência decretada. Ele se considerava profundamente injustiçado e, pela sua Exposição procurava dar uma explicação aos que a ele confiaram as suas economias. Jorge Caldeira nos mostra um pouco dessa exposição. Mauá, pelo comum das escolas, é mostrado como um empresário bem sucedido, muito rico, mas que perdeu tudo o que acumulou. E só.

Mauá nasceu em Arroio Grande - RS., cidadezinha nas proximidades de Rio Grande, que hoje mal e mal chega a vinte mil habitantes, no ano de 1813 e morreu em Petrópolis, em 1889. Tornou-se órfão de pai aos cinco anos e aos 9, foi mandado ao Rio de Janeiro. Ali trabalhou com o comerciante escocês Richard Carruthers, do qual se tornou gerente e, aos 23 anos, já era seu sócio. Aos 30 era o homem mais rico do Brasil. Já vimos que a sua falência foi a razão de sua Autobiografia. O livro foi considerado por Celso Furtado como um dos 15 livros básicos para se entender o Brasil.

A sua Autobiografia ou Exposição aos credores tem uma estrutura simples, compondo-se de duas partes. Na primeira, em 25 capítulos, ele detalha para os credores os seus principais empreendimentos, mostrando seus resultados e, mais ao final, entra em questões teóricas da economia. Vamos detalhar um pouco da fortuna desse empresário empreendedor. O seu primeiro empreendimento o Estaleiro Mauá teve 1200 funcionários e produziu 72 navios, guindastes, canos, engenhos e motores. Construiu estradas de ferro, instalou iluminações públicas com lampiões a gás e teve companhia de navegação na Amazônia. Sempre foi dono de banco, do qual sempre fazia a empresa mãe, usando o dinheiro como fonte de financiamento de seus negócios. Fazia dele um banco de investimentos. Em 1853, o seu banco foi estatizado mas ele imediatamente criou outro. Esse banco estatizado é a origem do atual e poderoso Banco do Brasil.

Jorge Caldeira nos dá uma ideia de sua fortuna, traçando alguns parâmetros de atualização. A sua fortuna pessoal era equivalente a fortuna de todo o império. Era tão rico quanto o é Bill Gates nos dias atuais, Os homens muito ricos o procuravam para orientar seus investimentos. Tinha a confiança dos ingleses mas não a dos brasileiros, que o atacavam constantemente. Em sua falência foi defendido pelo jornal inglês The Times, que afirmava que se "tratava de uma infelicidade acontecida com um homem honrado e, pedindo aos eventuais credores que tivessem confiança em sua capacidade de honrar os compromissos". E, ao fim, eles tiveram o seu dinheiro de volta.

O que aconteceu efetivamente ao "empresário do império"? Uma crise de liquidez. Do que ele necessitava? De créditos para manter o fluxo de caixa. Os seus ativos eram muito superiores aos seus passivos. Saldou esses passivos em mais de 80%. Mesmo assim a sua falência foi decretada. É sobre isso que ele escreve ao longo dos 15 dias de 1878, escrevendo a sua Exposição aos credores. Quem não deu o crédito foi o governo imperial e os homens que compunham o entorno de Dom Pedro II. Era tudo uma questão de visão de economia. Mauá teve uma visão de futuro, de uma economia capitalista, de grandes empreendimentos, com necessidade de capital financeiro para continuar a empreender. Os senhores do império desejavam riquezas sólidas, fundadas na terra e na propriedade de escravos. Mauá não tinha terras e odiava a escravidão.

Creio que já deu para perceber porquê o seu folheto explicativo para os seus credores se transformou num grande clássico da economia brasileira. Ele levantou questões que até hoje acompanham a economia brasileira, como a questão do papel do Estado na economia e a questão dos financiamentos públicos. Todos os seus negócios também tinham a ver diretamente com o Estado. Trabalhos de infraestrutura. Se fosse nos dias atuais, Mauá simplesmente recorreria aos Bancos de Fomento ou ao BNDES. Mas ele era um homem à frente de seu tempo, que recebeu da elite do atraso de sua época, o desprezo e a derrota. Creio também ser de fácil compreensão o fato de Celso Furtado considerar o seu livro como um dos 15 mais importes para se compreender o Brasil. O tema é a própria obra de Celso Furtado. Deixo o último parágrafo da resenha de Jorge Caldeira, para mostrar a real grandeza do grande empresário do império:

"Entra-se assim de volta no terreno da ética, no julgamento dos atos em função do bem que podem trazer. Nesse campo, e não no das finalidades últimas, é que Exposição aos credores é efetivamente um livro exemplar sobre o Brasil: toca, como nenhum outro texto que trata da economia brasileira, numa questão ética: qual o correto caminho para colocar em ação empresários privados e governo para o desenvolvimento nacional?  Mais que isso, apresenta, numa leitura agradável, a maior parte dos dados necessários para uma resposta - e esse 'agradável' é um desvio que ajuda a tornar convincente o argumento liberal. Isso, no entanto, está longe de invalidar o restante: apesar da questão pessoal, os temas fundamentais do país estão presentes. Tocados de maneira profunda, desenvolvendo pontos essenciais. tanto quanto o autor, o leitor é levado a um dilema: vencer-se pela leitura, ou convencer o narrador de seu erro. Uma questão que as mudanças econômicas ao longo de mais de um século deixaram como alternativa intocada, drama vivo da interpretação econômica do país, ponto de separação de visões de mundo. Nos quinze dias mais duros de sua vida, Irineu Evangelista de Sousa foi capaz de exprimir o dilema de um século".

Ao ver a contraposição das elites ao visionário empreendedor me lembrei muito de uma frase de Millôr Fernandes: "O Brasil tem um enorme passado pela frente". Quando não conseguem deter a irreversibilidade do tempo sempre apelam para golpes de Estado, recorrendo a violências institucionais e a meios há muito banidos no mundo civilizado para se manterem no poder. Vide a última experiência, de 2016. Deixo ainda a resenha do terceiro trabalho, Projetos para o Brasil, de José Bonifácio. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/um-banquete-no-tropico-3-projetos-para.html

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Um banquete no trópico. 7. Os sertões. Euclides da Cunha.

Eis a sétima resenha do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se do livro de Euclides da Cunha (1866-1909) Os sertões. A resenha ficou a cargo de Walnice Nogueira Galvão, professora de Teoria Literária e Literatura Comparada, na Universidade de São Paulo. O texto da professora encontra-se no livro Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, entre as páginas 151 e 170. A primeira edição de Os sertões é de 1902.

No primeiro volume, a sétima resenha.


á li o livro, como também já tinha lido A guerra do fim do mundo, do Nobel de Literatura Mário Vargas LLosa. Mas ainda não tinha lido um comentário escrito por algum especialista. E nesse sentido, o trabalho da professora é exemplar. Eu destacaria os pontos iniciais de sua apresentação como os fundamentais. Ela dá grande destaque à formação do escritor, uma formação militar. Também cursou a Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Euclides da Cunha era militar, assim como os outros repórteres que cobriram a guerra. Foram, simultaneamente, algozes e testemunhas dos acontecimentos. Deixo a resenha minha sobre A guerra do fim do mundo e de Os sertões.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/01/a-guerra-do-fim-do-mundo-mario-vargas.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/02/os-sertoes-euclides-da-cunha.html

O trabalho de Walnice começa por uma espécie de pequena apresentação, datando o fato (1896-1897) e o situando no contexto das revoltas ocasionadas pela proclamação da República e da libertação dos escravos. Depois analisa a sua formação. Ele era fruto da Escola militar, fundada em 1810, por Dom João VI. Antes, os oficiais eram formados na Europa ou, mais particularmente, em Portugal. A escola iria suprir a necessidade de engenheiros públicos civis para a construção de estradas, portos e pontes. Eram uma cópia das escolas francesas e movidas pelo espírito da ciência e da tecnologia. Instigavam para comportamentos de vanguarda e contestação. Era a França da Revolução, com o despertar para a consciência da cidadania e da militância política. Euclides da Cunha nela ingressou em 1885. Ele era republicano e antiescravista.

Ele foi o enviado especial para a cobertura da guerra pelo jornal A Província, atual Estado de S. Paulo. Todos os grandes jornais mandaram correspondentes. Mandavam as notícias pelo telégrafo, uma invenção desses tempos. Todos eram militares. Euclides da Cunha transformou os seus relatos no monumental livro Os sertões. É óbvio que fez um trabalho de reelaboração, para muito além do que havia escrito. Euclides da Cunha se transformou muito ao longo desse seu trabalho de cobertura da guerra e, especialmente, com a escrita do livro, mudando inclusive o seu posicionamento. Além de repórter Euclides da Cunha era tenente e chegou a ser o adjunto do ministro da guerra, que, por um breve tempo, se deslocou para o cenário do conflito, durante a quarta expedição.

A partir dessa contextualização a professora entra na análise da obra. Mostra todo o seu encanto com a descrição da terra, do Planalto Central Brasileiro, com características tão heterogêneas. Essa análise é feita a partir dos pontos de vista astronômico, topográfico e geológico. Descreve a região como uma região privilegiada, uma verdadeira oficina da natureza. Observa que os rios correm ao contrário. Do litoral para o interior. A descrição da caatinga é belíssima. Lá os verões queimam e o inverno inunda. É um martírio da terra. As forças da terra se constituem em antíteses. De dia 35º à sombra, seguidos de madrugadas frias. Considera a vegetação da caatinga como um "mato doente", com exceção do juazeiro. Mas esse "mato doente" se recupera a partir das primeiras chuvas, "a ressurreição", transformando o ambiente, de inferno, em paraíso. Apresenta ainda essa região como "o martírio secular da terra".

Depois da terra, o homem é apresentado. É a parte mais complexa da obra. Esse é apresentado como o fruto da miscigenação, com três séculos de isolamento, que transformaram o sertanejo em gente "atrasada e supersticiosa". Assim é Antônio Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel, o Peregrino). Apresenta-o como um "doente grave", afetado pela paranoia e praticante de um cristianismo primitivo, que o levou para as suas andanças, até se fixar em Canudos, nome de uma antiga fazenda abandonada. Foram 30 anos fazendo sermões e arregimentando seguidores. A situação começa a ficar tensa. Conselheiro seria o obscurantismo da miscigenação das três raças.

A autora, de acordo com o próprio Euclides da Cunha, considera essa parte "um parêntese irritante". Afinal de contas, quem é o sertanejo? Um degenerado ou um forte? Na época prevaleciam as teorias de que a miscigenação provocavam o enfraquecimento e a degradação, mas na prática, Euclides os via como uns fortes. Isso provocou reviravolta em suas convicções. E, de acordo com o romantismo da época, ele passa a exaltar os índios como os povos originários.

Depois dessas análises, entra o conflito (a terra, o homem e a luta), com a descrição de suas origens. O exemplo de Conselheiro cativa os povos abandonados. Ele praticava um cristianismo acompanhado de boas obras, de repartição, o que provoca conflitos com padres e policiais. Mas as medidas tomadas pela República se transformaram na causa imediata dos conflitos: Separação entre Igreja e Estado, liberdade de culto e a instituição do casamento civil. Esses fatos dão ao movimento um caráter anti republicano, em favor da restauração da Monarquia. Euclides da Cunha considera Canudos como "a Troia de taipa". O início do conflito ocorre efetivamente, com a não entrega de madeira, comprada e paga em Juazeiro para a construção da nova igreja de Canudos. Segue a descrição das quatro expedições militares contra Canudos e contra o povo de Conselheiro, as primeiras estaduais  e as últimas com tropas federais, sendo a última comandada por general. Na terceira expedição ocorreu um verdadeiro abandono das tropas, fato que armou o guerreiros beatos. Sobre esses fatos o correspondente enviou dois artigos sob o título de A nossa Vendeia".

Na quarta expedição, Euclides comenta a utilização de incêndios para a destruição final. Walnice considera que o instrumento utilizado foi uma antecipação do uso do "napalm primitivo". Jogavam gasolina e depois incendiavam os casebres. Mesmo assim os beatos não se renderam. Foram destruídos cinco mil e duzentos casebres, que, em média abrigavam cinco pessoas. Assim a população de Canudos foi avaliada em vinte e seis mil habitantes, quando São Paulo tinha duzentos mil. O crâneo de Conselheiro foi levado para a Faculdade de Medicina da Bahia, para nela se comprovarem as teorias de Lombroso, mas os resultados esperados não foram comprovados.

Entre a repercussão dos fatos se registra uma mudança da opinião pública. De uma visão favorável ao governo passou a se ter uma visão de uma guerra de brancos da elite contra povos fanatizados, transformados em pobres diabos. O texto termina com a transformação do escritor e o salto que ele deu entre as reportagens e a escrita do livro. Apresenta Canudos como a "Troia de taipa" e os sertanejos como os "Hércules Quasímodo" à espera do juízo final e compara o movimento à Bíblia, do gênesis ao apocalipse, do início do movimento à sua destruição pelo fogo.

A coleção da Folha de S.Paulo - Grandes nomes do pensamento brasileiro - tem um de seus livros dedicados a Os sertões. Uma bela edição. Tem, ao final, um belo guia de leitura, de autoria de Roberto Ventura, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo. Recomendo.

Deixo ainda a resenha do último trabalho apresentado, sobre Eduardo Prado - A ilusão americana.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/um-banquete-no-tropico-6-ilusao.html


Um banquete no trópico. 6. A ilusão americana. Eduardo Prado.

A sexta resenha lida para o presente projeto http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html foi sobre o livro de Eduardo Prado A ilusão americana. A resenha foi feita por Lúcia Lippi Oliveira, professora de história contemporânea, da Fundação Getúlio Vargas - Rio de Janeiro. Tenho esse livro em minha biblioteca e em sua capa tem uma anotação, que serve de publicidade para o mesmo. Diz assim: O primeiro livro apreendido pela polícia, na República.  Já explico. O motivo não foi o do título, mas por ser um livro a favor da monarquia e contra a república. A sua publicação é de 1893.

No volume I, a sexta resenha.

A resenha começa pela contextualização. Eduardo Prado, da tradicional família Prado, nasceu em 1860 em São Paulo e morreu no Rio de Janeiro em 1901. Como podem observar, teve uma vida breve. Morreu de febre amarela, quando foi ao Rio de Janeiro tomar posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A família não era rica apenas em dinheiro, mas também em cultura e amigos eruditos. Ele é, inclusive, um dos personagens do livro A cidade e as serras, de Eça de Queirós, com quem convivia em Paris, junto com altas rodas de intelectuais. Foi representante brasileiro junto a Exposição Internacional de Paris, por ocasião das comemorações do aniversário da Revolução Francesa em 1889.

Viveu as agitações da proclamação da República e o "caos" que a seguiu: A Revolução Federalista (1893-1895 - RS), Canudos (1896-1897 - Bahia) e a Revolta da Armada (1893-1894- Rio de Janeiro), além de um atentado contra o presidente Prudente de Morais (1897).  A década de 1890 foi considerada a Década do Caos. Esse é um período de ascensão dos Estados Unidos, com o seu regime republicano. Prado considerava que a "quartelada" que transformou o Brasil em República, teria ocorrido para que ocorresse a cópia do sistema de governo daquele país. Vejamos a professora: "Para Eduardo Prado, a "quartelada" do Campo de Santana substituiu o país ético, tradicional, monárquico e católico - o Brasil que aprendeu a amar - por um arremedo de Estado, sem tradições na história portuguesa e brasileira, anticatólico, cópia malfeita do modelo norte-americano. A virada institucional no país sepultou o pensador aristocrático e fez nascer o agitador político".

A República trouxe para o Brasil os vícios do caudilhismo e do militarismo e logo foi - do respeito à Constituição, ao fechamento da Câmara e da transformação do presidente em ditador. Iniciamos uma era de amarguras. O alvo, portanto, de seu livro era a República e, apenas secundariamente, um ataque à política externa dos Estados Unidos. Mas não deixava de advertir: "Não se iludam com a América". O impulso expansionista dos USA sempre representará um perigo para o Brasil. O Brasil jamais poderia ter copiado as instituições dos EUA, pois, entre eles havia uma profunda separação cultural, de raça, de língua, de história e de tradições.

A resenha começa pela contextualização. Eduardo Prado, da tradicional família Prado, nasceu em 1860 em São Paulo e morreu no Rio de Janeiro em 1901. Como podem observar, teve uma vida breve. Morreu de febre amarela, quando foi ao Rio de Janeiro tomar posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A família não era rica apenas em dinheiro, mas também em cultura e amigos eruditos. Ele é, inclusive, um dos personagens do livro A cidade e as serras, de Eça de Queirós, com quem convivia em Paris, junto com altas rodas de intelectuais. Foi representante brasileiro junto a Exposição Internacional de Paris, por ocasião das comemorações do aniversário da Revolução Francesa em 1889.

Viveu as agitações da proclamação da República e o "caos" que a seguiu: A Revolução Federalista (1893-1895 - RS), Canudos (1896-1897 - Bahia) e a Revolta da Armada (1893-1894- Rio de Janeiro), além de um atentado contra o presidente Prudente de Morais (1897).  A década de 1890 foi considerada a Década do Caos. Esse é um período de ascensão dos Estados Unidos, com o seu regime republicano. Prado considerava que a "quartelada" que transformou o Brasil em República, teria ocorrido para que ocorresse a cópia do sistema de governo daquele país. Vejamos a professora: "Para Eduardo Prado, a "quartelada" do Campo de Santana substituiu o país ético, tradicional, monárquico e católico - o Brasil que aprendeu a amar - por um arremedo de Estado, sem tradições na história portuguesa e brasileira, anticatólico, cópia malfeita do modelo norte-americano. A virada institucional no país sepultou o pensador aristocrático e fez nascer o agitador político".

A República trouxe para o Brasil os vícios do caudilhismo e do militarismo e logo foi - do respeito à Constituição, ao fechamento da Câmara e da transformação do presidente em ditador. Iniciamos uma era de amarguras. O alvo, portanto, de seu livro era a República e, apenas secundariamente, um ataque à política externa dos Estados Unidos. Mas não deixava de advertir: "Não se iludam com a América". O impulso expansionista dos USA sempre representará um perigo para o Brasil. O Brasil jamais poderia ter copiado as instituições dos EUA, pois, entre eles havia uma profunda separação cultural, de raça, de língua, de história e de tradições.

A resenha começa pela contextualização. Eduardo Prado, da tradicional família Prado, nasceu em 1860 em São Paulo e morreu no Rio de Janeiro em 1901. Como podem observar, teve uma vida breve. Morreu de febre amarela, quando foi ao Rio de Janeiro tomar posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A família não era rica apenas em dinheiro, mas também em cultura e amigos eruditos. Ele é, inclusive, um dos personagens do livro A cidade e as serras, de Eça de Queirós, com quem convivia em Paris, junto com altas rodas de intelectuais. Foi representante brasileiro junto a Exposição Internacional de Paris, por ocasião das comemorações do aniversário da Revolução Francesa em 1889.

Viveu as agitações da proclamação da República e o "caos" que a seguiu: A Revolução Federalista (1893-1895 - RS), Canudos (1896-1897 - Bahia) e a Revolta da Armada (1893-1894- Rio de Janeiro), além de um atentado contra o presidente Prudente de Morais (1897).  A década de 1890 foi considerada a Década do Caos. Esse é um período de ascensão dos Estados Unidos, com o seu regime republicano. Prado considerava que a "quartelada" que transformou o Brasil em República, teria ocorrido para que ocorresse a cópia do sistema de governo daquele país. Vejamos a professora: "Para Eduardo Prado, a "quartelada" do Campo de Santana substituiu o país ético, tradicional, monárquico e católico - o Brasil que aprendeu a amar - por um arremedo de Estado, sem tradições na história portuguesa e brasileira, anticatólico, cópia malfeita do modelo norte-americano. A virada institucional no país sepultou o pensador aristocrático e fez nascer o agitador político".

A República trouxe para o Brasil os vícios do caudilhismo e do militarismo e logo foi - do respeito à Constituição, ao fechamento da Câmara e da transformação do presidente em ditador. Iniciamos uma era de amarguras. O alvo, portanto, de seu livro era a República e, apenas secundariamente, um ataque à política externa dos Estados Unidos. Mas não deixava de advertir: "Não se iludam com a América". O impulso expansionista dos USA sempre representará um perigo para o Brasil. O Brasil jamais poderia ter copiado as instituições dos EUA, pois, entre eles havia uma profunda separação cultural, de raça, de língua, de história e de tradições.

Prado vê a história dos Estados Unidos em dois momentos diferentes. Tem alta consideração com os heróis fundadores, apoiados em seus projetos pelas monarquias europeias, mas que se perdeu ao longo da história, especialmente, após a Doutrina Monroe (1823), que se transformou num mero tratado de interesses econômicos, distante de qualquer princípio de solidariedade. Para atestar suas afirmações cita as políticas contra o México, de quem tomou a metade do território, a ação nas Malvinas, ajudando a Inglaterra contra as pretensões de posse argentinas, o protelamento da independência cubana em favor dos espanhóis e, ainda, sua atuação no Panamá, no interesse do controle do canal, transformando-o num país "independente", da Colômbia. Os Estados Unidos sempre foram arrogantes e grosseiros em suas pretensões na América Latina, onde sempre favoreceram a instalação de governos militares e caudilhescos que os favorecessem. Cita ainda os casos do Peru (guano) e do Chile. Vejamos como a professora descreve a situação:

"O autor quis mostrar que aventureiros americanos faziam alianças com políticos corruptos sul-americanos e, diante dos problemas que enfrentaram, passaram a exigir e obter indenizações milionárias, já que suas demandas eram colocadas sob a proteção da diplomacia e da marinha norte-americana. Os Estados Unidos são acusados por Prado de prepotência, vulgaridade, cinismo, rapinagem e especulação, e sua política externa é qualificada como invasora, tirânica, arrogante e oportunista. As repúblicas da América espanhola são, por outro lado, identificadas com o militarismo e o caudilhismo". Vejam que o livro não é apenas um panfleto contra os regimes republicanos mas também um libelo de condenação aos Estados Unidos.

Depois, Prado analisa a Doutrina Monroe e a atuação do então Secretário de Estado, Blaine. Reconhece a grandeza do país por suas riquezas naturais, ao mesmo tempo que denuncia os novos valores da sua civilização industrial e burguesa. Daí decorre que não podemos ser copiadores, por transplante, de um sistema longe de nossas tradições europeias. Num regime de transplante sempre se copiam os erros e os vícios e nunca os valores e a força empreendedora. Em mais um argumento em favor do regime monárquico cita que os Estados Unidos sempre se moveram na brutalidade de relações, se envolvendo em lutas fratricidas, enquanto que, sob o regime monárquico, nós promovíamos ponderadamente as reformas exigidas, sob os ditames dos valores cristãos, da solidariedade e da fraternidade. Ave!

A professora termina a sua resenha com uma análise da recepção da obra ao longo do século XX. Ela afirma que o livro sempre foi visto, mais como o libelo contra os Estados Unidos, do que contra a instauração da República no Brasil. Cita ainda o livro de Viana Moog, por tratar também do "paralelo entre as duas culturas".  A professora ainda constata que as influências dos Estados Unidos sobre o Brasil cresceram ao longo do século XX, quando o país atingiu a primazia econômica mundial. Eu chamaria a atenção, nesse sentido, para o livro de Moniz Bandeira Presença dos Estados Unidos no Brasil. Deixo ainda os dois parágrafos da conclusão da resenha da professora da FGV.

"As observações e os exemplos citados por Eduardo Prado em suas análises sobre os Estados Unidos expõem com clareza as bases de seu pensamento - a defesa dos valores do mundo - ibérico ou europeu, do catolicismo, da honra e do respeito à hierarquia. Esses são os valores que reaparecem toda vez que se condena o mundo capitalista e se denunciam os males da civilização burguesa.

A análise das diferenças e distâncias entre o Brasil e os Estados Unidos constitui uma trilha que teve continuadores ao longo do século XX, valendo citar o livro de Viana Moog" (Bandeirantes e pioneiros).  Deixo ainda duas resenhas. A primeira, a resenha que eu fiz na leitura do livro e a segunda, o quinto trabalho do presente projeto sobre a obra de Joaquim Nabuco, Um estadista do império. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/08/a-ilusao-americana-eduardo-prado.html

Um banquete no trópico. 5. Um estadista do império. Joaquim Nabuco.

O quinto trabalho desse projeto http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html é a resenha do livro de Joaquim Nabuco Um estadista do Império, escrita por Luiz Felipe de Alencastro, para o livro Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, organizado por Lourenço Dantas Mota. O livro retrata a vida de José Thomaz Nabuco de Araújo, o pai de Joaquim Nabuco e é uma das maiores referências para se estudar o 2º Reinado, de D. Pedro II (1840-1889). Alencastro é historiador e cientista político, pesquisador do CEBRAP e professor da Unicamp. A resenha ocupa as páginas 113 a 131.

No primeiro volume, a quinta resenha.

Nabuco de Araújo foi um dos mais proeminentes personagens do Segundo Reinado, tendo sido magistrado, deputado, senador e ministro. Nasceu em Salvador em 1813 e morreu no Rio de Janeiro, em 1889. Era formado pela Faculdade de Direito do Recife. O seu filho, Joaquim Nabuco (1849-1910), temendo que o rico acervo de documentos de seu pai se perdesse, resolveu preservá-los. Esse seu trabalho se constitui no livro Um estadista do império, escrito entre os anos de 1897 e 1899. Ele cita as razões: "Foi o receio de que, se eu mesmo não o fizesse, nunca fosse utilizada essa para mim preciosa coleção que me decidiu a empreender a obra". O acervo contava com trinta mil documentos, livros, discursos e anais parlamentares. É a base para a obra.

Joaquim Nabuco dividiu esse acervo em três tipos diferentes de fontes: os discursos do pai como senador, como ministro, seus estudos ministeriais, tratados diplomáticos e projetos de lei; artigos e comentários que ele regularmente publicava na imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo e, ainda a sua correspondência, livros lidos e depoimentos dados. Além dessas fontes, fez também entrevistas com contemporâneos de seu pai. 

Vale destacar o trabalho que Joaquim Nabuco fez no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Uma das especialidades do Instituto era o de redigir biografias de pessoas proeminentes da política, caminho que certamente contribuiu para que biografasse o seu pai. O olhar mais perspicaz que norteou o seu trabalho foi a visão de que a essência da vida política do Segundo Reinado se desenvolveu no Congresso, na Câmara dos Deputados e no Senado. Por isso a importância dos discursos e projetos de lei feitos e apresentados por Nabuco de Araújo. Ele privilegiou o Parlamento como a sua principal fonte. Posteriormente fez críticas a D. Pedro II pela sua forma "imperialista" de atuar, julgando ser a atuação do parlamento como uma concessão de sua majestade.

Do que tratam essas fontes utilizadas? Quais foram os grandes temas tratados pelo seu pai ao longo de suas atividades políticas? É a própria história do Segundo Reinado. Alguns temas foram tratados em maior profundidade e outros não mereceram tanto a sua atenção. O livro (originariamente com três volumes e hoje com dois) é composto de oito partes e desenvolvido ao longo de quarenta e quatro capítulos. Alencastro, em sua resenha, não faz uma análise linear ou sequencial dessas partes. Prefere uma abordagem pelos temas. Após depoimentos sobre a sua infância e juventude (primeira parte), Joaquim Nabuco entra nas diferentes atividades desenvolvidas pelo estadista. Assim na segunda e terceira parte temos a sua atividade parlamentar, na quinta, temos as questões jurídicas, com destaque para a organização do Código Civil. As outras partes são dedicadas à legislação do período, leis referentes ao tráfico e abolição gradativa da escravidão, sua atuação como presidente da Província de São Paulo, à guerra do Paraguai e questões diplomáticas posteriores, a questão da imigração e uma análise geral do sistema monárquico. As questões regionais foram apenas tocadas de leve. O tema da escravidão será melhor abordado em seu O abolicionismo.

Creio que conseguimos dar uma ideia geral do que é o livro Um estadista do império. Para dar, no entanto, uma visão mais abrangente da obra deixo os últimos dois parágrafos da resenha de Alencastro: "Por todas essas razões, Um estadista do império se tornou um clássico da literatura política brasileira. Em 1945, no final da ditadura varguista, depois dos anos de eclipse da atividade parlamentar, a classe política brasileira dará novo destaque às ideias de Nabuco. O mesmo fenômeno ocorrerá nos anos recentes, após a ditadura de 1964-1985. Mais uma vez, a obra vai ser apresentada como a prova argumentada e documental da elevação de vistas e da dignidade do Congresso, frente aos presidentes-ditadores.

Mas os dados mudaram substancialmente entre 1889 e 1985, e até mesmo entre entre 1945 e 1985. O Congresso não é o Parlamento e a Brasília do final do século XX (quando a resenha foi escrita) não tem, nem jamais terá, a importância e a influência nacional que o Rio de Janeiro exercia no final do século XIX. Além do mais, Um estadista, ao invés de estimular o otimismo sobre a eficácia e a perenidade da política parlamentar brasileira, pode também dar lugar a uma leitura pessimista. Ao fim e ao cabo, o livro narra a história de uma miopia política quase secular que redunda num enorme fiasco: confrontado ao escravismo desde a sua fundação, o Parlamento temporizou o quanto pode, deixou o problema tomar dimensões nacionais e internacionais insustentáveis e, quando resolveu agir, provocou a queda da monarquia e do regime parlamentarista". Deixo ainda a resenha do trabalho anterior Autobiografia, do Visconde de Mauá. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/um-banquete-no-tropico-4-autobiografia.html


Um banquete no trópico. 3. Projetos para o Brasil. José Bonifácio.

O terceiro trabalho para o presente projeto http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html - é a resenha que Carlos Guilherme Mota, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo, fez da obra do "Patriarca ou Patrono da Independência Brasileira", José Bonifácio de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil. O texto encontra-se no livro Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, Volume I, organizado por Lourenço Dantas Mota. É o terceiro na lista de escolhas e ocupa as páginas 75 a 95. 

José Bonifácio comparece na terceira resenha. Um brasileiro de destaque.

Se nos dois textos anteriores apresentamos padres jesuítas (Antônio Vieira e Antonil), apresentamos agora um homem do Iluminismo e do tempo das revoluções por ele provocadas. José Bonifácio  nasceu em Santos (1763), vindo a morrer em Niterói (1838). Toda a sua formação foi europeia (Direito em Coimbra), com muitas viagens pela Europa em busca de sua especialização em mineralogia. Viveu as crises provocadas por Napoleão Bonaparte e resolveu permanecer na Corte de Lisboa em vez de acompanhá-la para o Rio de Janeiro, em 1808. Voltou ao Brasil apenas em 1817. Era muito próximo de D. Pedro I, de quem foi Conselheiro. Muito cedo com ele se desentendeu e a relação se agravou na Assembleia Constituinte, quando foi exilado. Reconciliado, volta ao Brasil para ser o tutor de D. Pedro II (com cinco anos) mas logo é destituído da função e preso por perturbação da ordem pública. Passa então a viver em Niterói e na Ilha de Paquetá, numa espécie de exílio consentido, em sua própria pátria.

Num sentido mais específico José Bonifácio não escreveu livros, mas, como Constituinte, apresentou dois projetos e, ao longo de sua vida fez muitos outros apontamentos de ordem  pessoal. Posteriormente tudo isso foi agrupado em livro. Nele prevaleceram os dois projetos, razão pela qual o livro foi denominado de Projetos para o Brasil. Eles se ocupavam dos relevantes temas da integração dos povos indígenas à nação brasileira, do fim do tráfico negreiro e da abolição gradativa da escravidão. Esses projetos é que lhe conferiram o honroso título de Patriarca da Independência, com o significado de ele ter oferecido os primeiros elementos para a criação das instituições do Estado e da Nação Brasileira. Eram projetos que diziam respeito a integridade e identidade da emergente nação brasileira. Ele foi o que o povo norte-americano denominava de funding father.

No ano 2000, a Folha de S. Paulo lançou, em edição comemorativa dos "500 anos do descobrimento", a coleção Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. São 12 livros e entre eles está o de José Bonifácio. Esse livro teve a seleção e edição de textos feita pela historiadora Miriam Dohlnikoff. Nele constam os dois projetos, além de outros textos. A resenha de Carlos Guilherme Mota se refere apenas aos dois projetos, citando os demais para a contextualização geral de seu pensamento. 

Carlos Guilherme mostra primeiramente o personagem, nos apontando alguns dados biográficos, especialmente os relacionados à sua formação e atuação política, o que praticamente já fizemos. Depois segue, situando o "Patriarca" no seu contexto histórico, destacando o seu viver na Europa. Lá recebe as influências do Iluminismo, tornando-se um homem de grande erudição e grande sensibilidade humana. Por essa razão se envolveu em tantas desavenças com os homens do poder. O seu projeto inicial não passava pela independência do Brasil, mas pela constituição de um moderno Império Português, em território Europeu, americano e africano. No entanto, com a alteração da conjuntura, dedica toda a força de seu pensamento à construção da identidade da nascente nação brasileira. Ele vislumbrava constituir um país moderno, com feição de país europeu, moderno e desenvolvido.

Essa é a razão de ser de seus dois projetos. Sigo a ordem da resenha. Primeiramente apresenta toda uma fundamentação teórica sobre os povos indígenas, uma verdadeira metodologia para a sua integração. Os seus estudos serviram de base, para, no século seguinte, o jovem Rondon apresentar os princípios que constituiriam o Serviço de Proteção ao Índio, criado em 1910. As ideias do Patriarca seguramente integram o rol das grandes obras do humanismo, ao rechaçar a tradição portuguesa da integração pela catequese dos jesuítas e da carabina e do bacamarte dos bandeirantes. 

Na primeira parte ele apresenta seus estudos sobre as populações indígenas, apontando para seus problemas, como os erros da colonização, pela qual eram vistos como vagabundos, propensos ao mal e sem freios morais. Mostrava seus diferentes estágios civilizatórios, passando da economia de coleta e  nômade, para a agricultura sedentária. Apresenta-os ainda, como herdeiros de vícios e doenças e não de talentos e virtudes. Sob as influências de Rousseau, chamava a atenção para o seu estado de natureza e respeito a ele.

Na segunda parte, apresenta as propostas, começando pelo reconhecimento de serem os legítimos proprietários das terras que ainda não lhes haviam sido usurpadas. Continua, defendendo criação de instituições em seu favor pelo Estado, pela instituição de relações comerciais, organização de feiras para a comercialização da produção, promoção da miscigenação por meio de casamentos, da formação de aldeamentos e vilas, melhoria em suas habitações e cuidados com hábitos de saúde e higiene. Ao Estado caberia ainda a regulamentação de relações justas de trabalho, o favorecimento de estudos avançados para os mais talentosos, o estimulo para seguirem a carreira eclesiástica, além de manifestar preocupações com vestuário e programas de vacinação. E, sobretudo, abandonar de vez a cultura da integração civilizatória pelo uso das armas. Uma grande mudança na concepção sobre o ser humano. Por influências de Voltaire era profundamente anticlerical. Ah! Os maus exemplos.

O seu segundo projeto versava sobre o fim do tráfico e a abolição gradativa da escravidão. Mais uma vez apresentou uma introdução com os fundamentos avançados do humanismo, com destaque para os princípios da racionalidade e da justiça nas relações humanas. Para ele, a escravidão corrompia todas as instituições da sociedade. Para uma nação, construída sob os pilares da modernidade e da justiça e com identidade definida, bons exemplos de experiências bem sucedidas deveriam ser incorporados às suas instituições. Caso isso não acontecesse, alertava para os perigos das rebeliões, como as ocorridas em Pernambuco (1817) e em São Domingos, hoje Haiti (1791). Também já manifestava preocupações com o meio ambiente.

Em suma, para construir uma nação, ela precisaria de projetos para as instituições do Estado, voltadas a propiciar o máximo de civilização possível. Só assim teríamos um país efetivamente independente. Mas, os interesses dos poderosos não o permitiam. É por isso que no curso de nossa história temos tantos golpes de Estado. José Bonifácio sentiu de perto o que era almejar a construção de um país independente, com identidade definida e com justiça social. Dois problemas que, ainda hoje, pairam em nosso horizonte.  Vejamos o parágrafo final do texto de Mota:

"Monarquista e constitucionalista ferrenho, a figura mais importante e visível da jovem nação (tanto quanto Benjamin Franklin, "The Doctor", nos Estados Unidos), nosso sábio foi apeado do poder, aviltado, exilado em Talence, nos arredores de Bordeaux, na França. Fez-se a independência, mas escravos e índios continuariam no limbo de sua "incorrigível barbaridade", sem saber exatamente qual era seu lugar no mundo que o português criou".

Já, no "guia de leitura" que acompanha a coleção da Folha, temos uma bela conclusão de texto, escrito pelo antropólogo Osmar Ribeiro Thomaz: "Projetos para o Brasil surpreende o leitor: de um lado, o pensamento de José Bonifácio nos leva aos dilemas de uma época, muito para além dos problemas nacionais; de outro, nos revela a modernidade de sua reflexão. Não podemos deixar de notar o quanto de seus projetos fazem sentido ainda nos dias atuais".

Há uns dez anos, num passeio pelo Rio de Janeiro, tomei a barca que leva até a Ilha de Paquetá. Um passeio maravilhoso. Me chamou muita atenção a casa em que José Bonifácio viveu o seu exílio, numa espécie de confinamento consentido, na bela e tranquila ilha. A casa, por sinal, estava à venda. Confesso que nunca estudei esse período de nossa história em maior profundidade e, por isso mesmo, José Bonifácio foi para mim uma agradabilíssima surpresa. A modernidade de seu pensamento. Vi nele muito de Joaquim Nabuco e de Florestan Fernandes, quanto a questão da abolição da escravidão e da integração do negro na sociedade brasileira. Deixo ainda o link do segundo trabalho, Cultura e opulência do Brasil. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/um-banquete-no-tropico-2-andre-joao.html

Um banquete no trópico. 2. André João Antonil. Cultura e opulência do Brasil.

 O segundo trabalho apresentado no livro Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, é Cultura e opulência do Brasil, de André João Antonil, ou João Antônio Antonioni S.J. Assim como no primeiro trabalho, em que nos são apresentados os sermões do padre Antônio Vieira, Antonil também era um padre jesuíta e, de alguma forma, mais ou menos da mesma época. Antonil nasceu  na Itália, em 1649 e morreu em Salvador, no ano de 1716. A obra em análise data do ano de 1711. Antonil era formado em Direito pela Universidade de Perugia. Chegou ao Brasil como visitador e provincial dos padres jesuítas, com 32 anos de idade. Deixo aqui a resenha da apresentação do presente projeto: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

A segunda resenha é a da padre Antonil. 

Antonil e a sua obra tem apresentação de Janice Theodoro da Silva, professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo. Fundamentalmente a obra nos dá detalhes sobre os homens que aqui viviam e sobre as riquezas com que trabalhavam. O meu primeiro contato com o autor foi em janeiro de 1971, quando prestei concurso para o quadro próprio do magistério do Estado do Paraná, na disciplina de História. Nunca havia ouvido falar dele. Se acertei a questão, foi no chute. Eu era formado em Filosofia, que, na época também habilitava para a disciplina de História. O texto da professora ocupa as páginas 55 a 73.

Na primeira parte de seu texto a professora nos apresenta o autor e o contextualiza em seu tempo histórico, bem como nos dá uma síntese de seus trabalhos realizados. A obra de 1711 foi, em parte, destruída e vetada pelo governo português, não por censura, mas para ocultar as riquezas da colônia do apetite e dos saques de franceses, holandeses e ingleses. A obra retrata 25 anos de suas perspicazes observações e as riquezas descritas são a cana de açúcar, o tabaco, a mineração e a criação de gado. O nome completo do livro é: Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e
minas. 
Cada  uma das riquezas merece uma parte de seu livro. 

Antes de apresentar cada uma dessas partes, lembro a advertência da autora sobre alguns cuidados que devemos ter com a leitura, uma vez que o teor do livro transcende em muito a mera descrição das riquezas, para buscar nelas o homem que nelas trabalha, emitindo juízos de valor moral nas relações que se estabeleceram. É um padre jesuíta que está escrevendo. Os juízos que o padre Vieira emitia em seus sermões, Antonil os emite em sua escrita. E é isso que tornou o livro um grande clássico. Ele nos faz retroceder na história, até os séculos XVII e XVIII (O livro é de 1711) para vermos o "engenho" dos homens em sua relação com o trato das riquezas, por isso, um livro superior. Por óbvio, o tema da escravidão, nunca contestada, permeia toda a análise. Ele ressalta a necessidade do equilíbrio para uma eficiente gestão econômica. Ao ler o texto, imaginei Antonil, tanto um administrador quanto um gestor de relações em todo o complexo da economia açucareira e das relações de produção estabelecidas.

Depois dessa observação a professora apresenta as quatro partes do livro, usando os títulos das mesmas, para então fazer a descrição. Então vamos: Primeira parte. Cultura e opulência do Brasil na lavra do açúcar - engenho real moente e corrente. Segunda parte: Cultura e opulência do Brasil na lavra do tabaco. Terceira parte: Cultura e opulência do Brasil pelas minas de ouro. Quarta parte: Cultura e opulência do Brasil pela abundância do gado e courama e outros contratos reais que se rematam nesta conquista.

A primeira parte é a mais longa e se estende, por aquilo que ele denomina, três livros (capítulos). Creio que, dando os subtítulos já deixo mais ou menos claro o teor das minuciosas descrições que são feitas, a partir da qualificação desta atividade como bastante complexa. Vejamos: O feitor-mor e outros feitores; O mestre do açúcar, o purgador e o caixeiro; o senhor de engenho e os escravos; governo da família e hospitalidade; do corte da cana ao engenho; do engenho ou casa de moer a cana e a moenda d'água; do modo de limpar e purificar o caldo. No terceiro livro ele apresenta dados quantitativos e qualitativos sobre o açúcar. Número e tipos de engenho, a repartição de seus resultados, os impostos e o dízimo e a ocupação territorial da cultura, entre tantas outras observações. Para mim, por ter tido uma infância na roça, esta cultura me é bastante familiar. Em casa fazíamos Schmier, uma espécie de geleia para passar no pão. Dá uma boa ideia do processo.

A parte dedicada ao tabaco é bem interessante. Nos fala dos meses de plantio, da limpa, da colheita, do beneficiamento, da cura e do enrolamento. Fala da comercialização, da distribuição dos resultados e da sua repartição, além dos cuidados necessários no seu fabrico, como a secagem à sombra, da retirada dos talos, da cura e do enrolamento. Fala também dos diferentes usos, cachimbo, pó, com aromas ou sem aromas e de sua denominação de "erva santa". Fala também dos controles e dos castigos para os que se envolviam no seu contrabando. Era uma cultura muito lucrativa. Essa leitura também me foi bastante familiar, uma vez que na minha infância também cultivávamos fumo. Meu pai falava que era para pagar as dívidas da terra comprada. Era, portanto, uma cultura bem lucrativa. Era um trabalho nojento de fazer, muito gosmento.

A parte dedicada às minas, ainda estava mais no horizonte, com as primeiras notícias de descobertas das jazidas. Mas já era o suficiente para mostrar uma verdadeira revolução em tudo, especialmente, pelo deslocamento das populações (mais de trinta mil) na troca de atividades econômicas em função das descobertas. Fala da descoberta de minas de ferro, de prata e de ouro, da repartição das "datas" auríferas, do fator sorte, da qualidade das terras, da profundidade em que o ouro era encontrado, ou então, nos veios dos cursos dos rios. Era encontrado em terras montanhosas e provocava toda a sorte de males. A cobiça havia gerado homens arrogantes, violentos, vadios e criminosos. Faz também a perspicaz observação de que o ouro não enriquecia a metrópole, mas que ele se aninhava em outros países. Também alimentava "mulatas do mau viver". 

A quarta parte dedicada ao gado e ao couro recebe a primeira observação relativa às enormes extensões de terra que ocupava, as fazendas e os currais da Bahia e de Pernambuco, geralmente situados ao longo dos rios. Me chamou atenção o uso do couro como embalagem. Todo o tabaco era encourado para ser vendido na Europa. Também trata das lides com o gado. Gostei da forma como faziam a travessia dos rios. Os homens usavam cabeças de gado em suas cabeças para servirem como guias.

Deixo ainda, para uma melhor compreensão, o inteiro teor da conclusão da professora: "Concluindo o seu estudo sobre a opulência da economia brasileira, Antonil defende a proposta de que é justo, tanto para a Fazenda real quanto para o bem público, favorecer a conquista e o desenvolvimento econômico do Brasil. 

O lucro que a colônia gerava para Portugal, proveniente das lavouras de açúcar e tabaco, da mineração e do gado era grande, sendo, portanto, justo que os requerimentos e demandas elaborados na colônia fossem expedidos rapidamente para Portugal, o que nos leva a pensar que a máquina administrativa da colônia era muito morosa. Da mesma forma Antonil estimava a multiplicação de igrejas, para que todos tivessem mais perto remédio para suas almas.

A organização da economia colonial brasileira e o aprimoramento da vida religiosa sem dúvida garantiriam a expansão do processo produtivo e da comercialização do açúcar, tabaco, ouro e gado, mediante práticas econômicas baseadas no mercantilismo.

É admirável neste livro não apenas a lucidez de Antonil quanto à importância da colônia nos quadros do sistema colonial português, como também o fabuloso custo humano necessário para a produção do açúcar, tabaco e ouro. Trata-se de um homem com uma profunda visão não só do presente como do futuro; não apenas das riquezas como do custo para produzi-las; não apenas dos senhores como, principalmente, dos escravos, mãos e pés do senhor". 

Deixo ainda o link do primeiro trabalho que versou sobre os Sermões do padre Antônio Vieira,   http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/um-banquete-no-tropico-1-padre-antonio.html


O abolicionismo (1883). Joaquim Nabuco.

 O abolicionismo é uma obra de propaganda. A sua finalidade foi a de fornecer subsídios para a causa abolicionista, que arrefecera com a Lei Rio Branco, de 28 de setembro de 1871, também conhecida como Lei do Ventre Livre. Era uma lei de caráter protelatório.  O abolicionismo foi escrito em Londres, no ano de 1883, onde Joaquim Nabuco fora trabalhar, depois de perder o seu mandato de deputado, da legislatura de 1879-1880, não conseguindo a reeleição. Ele volta para Pernambuco em 1884, participando da campanha e, aí sim, se elegendo novamente para o Parlamento. Os seus vibrantes discursos ficaram registrados no livro Campanha abolicionista no Recife: eleições de 1884. Possivelmente estes dois livros sejam a obra mais bem fundamentada sobre as campanhas em favor da abolição.

Para além da questão humana, a ideia motriz de seu livro é a força e o vigor do trabalho livre e o caráter destruidor de todas as instituições civilizatórias que ocorre com o apresamento desse trabalho pela escravização de seres humanos por outros seres humanos, criando a esdrúxula relação entre senhores e escravizados, em contradição com todos os princípios afirmados por crenças morais e religiosas e pela evolução da civilização e afirmação dos direitos universais dos seres humanos, contando entre eles, a igualdade de raças. Os malefícios da escravidão estão presentes na corrosão e destruição generalizada provocada por esta instituição que fundamentou a economia brasileira por mais de trezentos anos. 

O livro que eu li é uma publicação da Folha de S.Paulo, do ano 2000, da coleção Brasil 500, Grandes nomes do pensamento brasileiro. Essa publicação tem um precioso prefácio de autoria de Leonardo Dantas Silva, da Fundação Joaquim Nabuco e um guia de leitura, ao final, de autoria de Jean Carvalho França, sob o título, Joaquim Nabuco e a construção do Brasil. O corpo do livro tem 17 capítulos, que constituem uma obra de rara profundidade em termos de história e da iniciante sociologia brasileira, sem deixar de ser também uma obra de economia e de fundamentos éticos, morais e filosóficos. Um livro a figurar entre as grandes obras da humanidade.

Rapidamente passarei a enunciar os títulos dos capítulos e me deter em alguns deles: Prefácio. I. Que é o abolicionismo; II. O partido abolicionista; III. O mandato da raça negra; IV. Caráter do movimento abolicionista; V. "A causa já está vencida"; VI. Ilusões até a independência; VII. Antes da lei de 1871; VIII. As promessas da lei da emancipação; IX. O tráfico de africanos; X. Ilegalidade da escravidão; XI. Fundamentos gerais do abolicionismo; XII. A escravidão atual; XIII. Influência da escravidão sobre a nacionalidade; XIV. Influência sobre o território e a população do interior; XV. Influências sociais e políticas; XVI. Necessidade da abolição - perigo da demora; XVII. Receios e consequências - conclusão.

Os capítulos em que mais me detive com anotações foram o XII, onde ele vai fundo nas dores do cotidiano do escravizado, pelo constante assédio moral que sofre e que provoca a total anulação de sua personalidade; o XV, que versa sobre a total atrofia das faculdades humanas e de todas as energias de que os indivíduos são portadores, tanto dos senhores, quanto dos escravizados. Me lembrei muito da Dialética do Escravo, de Hegel. Também me vieram à mente, embora já em desuso nas ciências humanas, fortes imagens do parasitismo entre os vegetais e a atrofia de parasitas e parasitados; e o XVII, o capítulo da indignação e das denúncias dos malefícios da escravidão. 

O primeiro olhar de Nabuco sobre a escravidão é histórico. Primeiro, do movimento do qual ele é um dos mais ativos participantes, que é o do movimento abolicionista, causa que passou a ser defendida pelo seu partido, o Partido Liberal. Depois o seu olhar histórico se volta para a escravidão em si. Mostra os seus três momentos de dor maior: a captura, o tráfico e o cotidiano. Crimes contra a humanidade. Esses três momentos são o roteiro de muitos livros que hoje se ocupam do tema. Também denuncia a total ilegalidade da escravidão, pelas leis acordadas com os ingleses, relativas ao tráfico (Lei de 7 de novembro de 1831, que declarava livres todos os escravos vindos de fora do Império).  

O livro ganha maior intensidade na fundamentação a partir da abordagem dos fundamentos do abolicionismo e da necessidade de sua abolição total. No capítulo XI, contra a escravidão, aponta os princípios cardeais do processo civilizatório, que tem a sua raiz mais profunda no princípio maior - de que não há propriedade do homem sobre o homem, -, e indica casos mais específicos para que o Brasil proceda imediatamente a abolição em função da ruína econômica que ela provoca, que escancara a vergonha brasileira perante as outras nações, e que, uma pátria comum só pode se edificar sobre os princípios da liberdade, da igualdade e da solidariedade humana.

No capítulo XII a atenção recai sobre o ano da escrita do livro, o ano de 1883. Neste ano todas as instituições brasileiras, toda a organização do Estado estavam ainda a serviço da escravidão. Mostra o absurdo de uma nação livre, em que juízes, o exército e a armada estão a serviço de uma instituição ilegal, imoral e contrária à liberdade. Mas a força maior do capítulo está em mostrar as pressões que o cotidiano da escravidão exerce sobre o escravizado. Este cotidiano lhe atrofia o trabalho livre, a força da inteligência, bem como todos os seus movimentos e atividades. Esse assédio moral, de 24 horas diárias, se repete diariamente até a obtenção total da anulação da personalidade, anulação marcada pela obediência cega, pela ausência da reflexão e pela total resignação e sujeição. Já não existem mais sujeitos, ou então, sujeitos que foram anulados em sua essência. A essa resignação de sujeição total, é que alguns historiadores querem chamar de escravidão abrandada, de escravidão suavizada.

No capítulo XIII, ao final do mesmo, encontramos uma citação em alemão, que sintetiza o capítulo: Die Luft leibeigen war. traduzindo, o ar era servo. O ar que se respirava estava contaminado pela escravidão. Como construir uma nação sob os princípios inibidores das capacidades humanas? Observo que este capítulo precisa ser lido com cuidado, pois ele reflete pensamentos dominantes deste momento histórico. Mas o fundamental é que sob a escravidão não se constrói uma grande nação. No capítulo XIV, além da questão humana, o abolicionista mostra também a relação incompatível entre o homem e a natureza, marcada pela exploração, sem nenhum cuidado com a preservação. No interior brasileiro a situação era ainda mais grave. A distância provocou o desconhecimento das reais situações de abusos. Tudo acontecia longe de qualquer olhar.

Já chamei particular atenção para o capítulo XV. Mas, quero realçar o teor da análise sobre os impactos sociais e políticos da escravidão. Isso é o fundamental e exige toda uma reflexão filosófica sobre o trabalho e o seu mundo de relações. A escravidão impossibilita qualquer desenvolvimento humano. Ela é o impedimento de qualquer perspectiva de ascensão e de transcendência do humano. O que significa ter diante da vida a única dimensão da dependência e da sujeição? É a morte das faculdades humanas, da iniciativa, da invenção e de toda a energia individual. A escravidão representa um fechar-se em si mesmo em termos econômicos, inibindo todo o seu dinamismo de expansão de oportunidades e de possibilidades. É uma condenação perpétua a uma vida rudimentar e de limites no campo da economia. Não haverá comércio, não haverá indústria, não haverá imigração. Pela prática da usura, toda a economia acabará concentrada nas mãos dos traficantes. Significa a morte das pessoas de talento e o abrigo de bajuladores e aduladores no serviço público, custeados pelos impostos e pelo endividamento. Essa situação de paralisia amealhou todas as forças a serviço dessa força bruta, altamente contagiosa e profundamente impregnada em nossas instituições. A escravidão é altamente refratária ao progresso.

O capítulo XVI vem na sequência com a grave interrogação. Por que perpetuar esta absurda situação, quem são os beneficiados desse sistema, por que retardar a abolição? Por que deixar para o dia seguinte o que já deveria ter sido feito na véspera?

Sob o brado de que a escravidão avilta o país e paralisa a economia ele lança a sua indignação final, sobre o seu significado para a moral, para a política, para a economia e para a organização social. Me permitam a transcrição. "O que esse regime representa, já o sabemos. Moralmente é a destruição de todos os princípios e fundamentos da moralidade religiosa ou positiva - a família, a propriedade, a solidariedade social, a aspiração humanitária: politicamente, é o servilismo, a degradação do povo, a doença do funcionalismo, o enfraquecimento do amor da pátria, a divisão do interior em feudos, cada um com seu regime penal, o seu sistema de provas, a sua inviolabilidade perante a polícia e a justiça; econômica e socialmente, é o bem-estar transitório de uma classe única, e essa decadente e sempre renovada; a eliminação do capital produzido, pela compra de escravos; a paralisação de cada energia individual para o trabalho na população nacional; o fechamento dos nossos portos aos imigrantes que buscam a América do Sul; a importância social do dinheiro, seja como for adquirido; o desprezo por todos os que por escrúpulos se inutilizam ou atrasam uma luta de ambições materiais; a venda dos títulos de nobreza; a desmoralização da autoridade desde a mais alta até à mais baixa; a impossibilidade de surgirem individualidades dignas de dirigir o país para melhores destinos, porque o povo não sustenta os que o defendem, não é leal aos que se sacrificam por ele, e o país, no meio de todo esse rebaixamento do caráter, do trabalho honrado, das virtudes obscuras, da pobreza que procura elevar-se honestamente, está, como se disse dos estados do Sul, 'apaixonado pela sua própria vergonha'" (Página 164).

Joaquim Nabuco era um liberal e um monarquista. Era um reformador e não um revolucionário. Era admirador da monarquia inglesa, por ela ter feito, sempre no seu devido tempo, as reformas que evitaram revoluções. O livro foi muito bem recebido pelo público e no ano de 1884 o teremos de volta ao Recife, em nova campanha eleitoral para o Parlamento. Vitorioso, assiste ao desfecho da escravidão, com o alerta, de que deveríamos também acabar com a obra da escravidão, se não quisermos a sua continuidade por outras formas. Em seu Campanha abolicionista no Recife: eleições de 1884,ele é mais contundente na apresentação das reformas que ele pleiteava e deixo a sua frase mais explosiva, revestida do calor da oratória, própria dos discursos. "Senhores, a propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra à propriedade, como não faz honra aos poderes do Estado. Eu, pois, se for eleito, não mais separarei as duas questões, - a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão".

Ainda antes da abolição houve outra lei de caráter protelatório, a lei 3.270, de 28 de setembro de 1885, a Lei Saraiva-Cotegipe, que declarava livres todos os escravos ao completarem 60 anos de idade.

 Deixo também o link da análise dos discursos pronunciados no Recife no ano de 1884.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/06/campanha-abolicionista-no-recife-1884.html   



Um banquete no trópico. 1. Padre Antônio Vieira. Sermões.

O padre Antônio Vieira e os seus Sermões nos são apresentados por João Adolfo Hansen, professor de Literatura Brasileira da USP. Uma belíssima apresentação que ocupa as páginas 23 a 53 do livro que estamos trabalhando - Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. O seu forte é uma bela contextualização do padre em seu tempo histórico e os espaços geográficos que ele ocupou. O padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e morreu em Salvador em 1697. Dividiu o seu tempo, vivido em cidades como Lisboa, São Luís do Maranhão e Salvador. Se tivéssemos que apontar um fato histórico relevante nesse período, eu apontaria para a dominação espanhola sobre Portugal (1580-1640) e a Restauração e ainda para a invasão holandesa em Pernambuco (1630-1654). Antes Salvador também havia sido invadida pelos mesmos holandeses (1624-1625). São temas de seus sermões. Antes de continuar a resenha deixo o link, do projeto de trabalho: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico. Os sermões. Na primeira resenha.

Segundo o professor de literatura da USP, que apresenta o texto, o padre Vieira tinha um objetivo bem claro em seus sermões, que era o de apresentar Portugal como o Império de Deus na terra, pela família dos Bragança, na pessoa do rei D. João IV. São os tempos de Restauração. O Brasil dessa época era o das províncias da Bahia, do Maranhão e Grão Pará. Os sermões são os de um padre jesuíta da contra reforma, a apresentar os princípios da metafísica cristã para um povo a ser salvo. Os sermões ganhavam uma grande força de dramatização em sua apresentação.

Para um protestante da época bastava o sola scriptura, o crente e a sua bíblia, mas para um católico tridentino também era necessária a traditio, isto é, ritos, cerimônias, magistério, governo e textos canônicos. Com isso ganhou forma a pregação, grandes celebrações, festas populares e santos. Os púlpitos ganhavam espaços privilegiados nas igrejas. A pregação passa a ser uma exortação dramatizada que visava uma intervenção na prática dos fieis. Cultivava-se a eloquência sacra. O sermão se compunha de seis partes: o exórdio, a narração, a divisão, a confirmação, a peroração e o epílogo. Os sermões do padre Vieira seguiam Aristóteles: eram deliberativos (propunham ações futuras), judiciais (juízos sobre o passado) e epidíticos (celebravam ações e personagens do presente). Eles tinham caráter doutrinário dogmático, eruditos, cultos e letrados. Apesar disso eram de fácil compreensão para o seu público alvo, geralmente o povo simples. Os temas eram impostos pelo calendário litúrgico, indo além, para temas econômicos e políticos.

O sermão jesuítico era um teatro sacro em que a palavra de Deus, pelas escrituras, era o essencial, sendo a ortodoxia e a lógica, os seus instrumentos. Os sermões do padre Vieira, embora o barroco fosse um modo de expressão artística posterior, eram considerados como tais. O grande mote, voltamos a destacar, era a força de Portugal, após a Restauração, em consonância com o poder papal, contra os reinos protestantes. Celebravam um pacto de submissão ao Rei, um pacto natural, cumprindo cada um a sua tarefa dentro da lei natural divina. É o caminho para o bem comum. Seus sermões são permeados por questões éticas, econômicas, religiosas e jurídicas. A casa de Bragança deve ter ficado agradecida.

Depois dessa belíssima contextualização geral, segue uma divisão da vida do padre, de acordo com os locais para os quais havia sido designado e o teor específico de seus sermões. São seis fases: 1. Bahia, 1632-1641; 2. Restauração, 1641-1651; 3. Missão no Maranhão e Grão-Pará, 1652-1662; 4. Santo Ofício 1661-1669; 5. Roma, 1669-1675; 6. Brasil, 1681-1697.

Em sua primeira fase, desenvolvida entre Salvador e Olinda, irá proferir os seus primeiros sermões. Um tema presente é a escravidão negra, que considera normal e integram o plano da Divina Providência para que Portugal conquistasse a hegemonia católica no hemisfério sul. Condenáveis eram os excessos. Ele simplesmente naturaliza a escravidão. Dentro dessa lógica defende a destruição do Quilombo de Palmares. Reconhece o sofrimento dos escravos, sofrimento maior que o do próprio Jesus Cristo. Também profetiza, dentro dos desígnios divinos, a ajuda divina para vencer os inimigos holandeses.

A sua segunda fase se desenvolve especialmente em Portugal, com incursões para Holanda, em missões diplomáticas, visando reaver Pernambuco. Os sermões passam a ser feitos na Capela Real. O grande tema será a grandeza de Portugal, pós Restauração. O país será transformado no Quinto Reino (depois de assírios, persas, gregos e romanos), um reino católico, do qual fará parte o Brasil com os seus índios devidamente cristianizados. O Sebastianismo agora será efetivado sob o governo de D. João IV. Na Holanda negocia reaver Pernambuco, aproximando-se perigosamente dos cristãos-novos visando obter financiamentos. Os inquisidores estão à espreita. 

A sua terceira fase se desenvolveu no Maranhão e Grão-Pará. Aí começa a sua grande derrocada. Ele assume a defesa dos povos indígenas contra a sua escravização pelos colonos, usando todos os recursos de sua oratória em favor desses povos. Chega a haver uma sublevação popular e ele chega a ser preso. Com a morte de D. João IV, e as acusações das outras ordens religiosas, os carmelitas e os beneditinos, que ele acusa frontalmente, estes o envolvem em acusações perante o Santo Ofício. Os sermões desta fase refletem grande indignação e já prenunciam o declínio dos jesuítas.

A quarta fase ele a desenvolve em Portugal, em várias cidades, onde recebe o enquadramento nas penalidades do Santo Ofício. Fica recluso em colégio e recebe a proibição de fazer pregações. Ele é reabilitado após mudanças na política de Portugal, com a ascensão do regente D. Pedro. Suas punições são suspensas.

A quinta fase, ele a desenvolve em Roma, obtendo do papa a sua plena absolvição. Em Roma desenvolveu forte amizade com a rainha Cristina, da Suécia. Mas depois de absolvido volta a Lisboa, mas a questão dos cristãos novos ainda o mantém distante do poder.

A sexta e última fase, ele a cumpre numa espécie de desterro em Salvador. Só complicações. Briga com o governador. Este é assassinado e ele é acusado de envolvimento por causa de seu irmão. Faz ainda a defesa das missões do jesuítas no sul, onde acusa uma escravização generalizada de negros e índios pelos bandeirantes. Em Salvador, no ano de 1697, ocorrerá o seu momento derradeiro.