blog do pedro eloi
cultura, política e viagens __________________________________________________________________ "A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original" Albert Einstein
terça-feira, 26 de maio de 2026
A SANGUE FRIO. Truman Capote.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
LULA - Biografia. Volume 2. Fernando Morais.
Um presente valioso. Mal e mal fiquei sabendo que o volume número 2 da biografia de Lula acabava de ser lançado, recebo um telefonema, me perguntando se eu já o havia comprado. Como disse que não, veio o pedido para não comprá-lo, que eu iria ganhá-lo de presente. Coisas da minha maravilhosa amiga Suzi. Sem demora recebi Lula - biografia. Volume 2, de autoria de seu consagrado biógrafo Fernando Morais. O Brasil está muito bem de biógrafos.
Lula - biografia. Volume 2. Fernando Morais. Companhia das Letras. 2026.
Como recentemente li a biografia de Castello Branco, de autoria de outro grande biógrafo, o Lira Neto, (Também autor dos três maravilhosos volumes sobre Getúlio), me veio a tentação de fazer uma comparação. Resultado: Empate. Estava maravilhado com a aula de história do Brasil dada pelo Lira Neto com a biografia do Castello, riquíssima em análise de conjuntura de época. Mas agora, com o término da leitura da biografia do Lula, também riquíssima em detalhes de bastidores, além de precisas análises conjunturais, é que eu optei pelo empate, ou melhor, pela vitória dos dois.
O primeiro volume de Lula, lançado em 2021, não obedeceu ao ritmo normal de uma biografia, começando pela infância, anos de formação e primeiras atividades que lhe deram projeção. Começou pelos movimentos mais recentes de sua vida, pela sua prisão e exclusão do processo eleitoral de 2018, por obra da nefasta ação em dupla de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Dobradinha entre acusador e juiz. O movimento se tronou conhecido como Lava-jato, ou República de Curitiba. Apenas após a narrativa desses absurdos, é que começa a história da infância do filho de Dona Lindu, de sua vida de retirante, vindo para São Paulo, onde mais tarde o veríamos ascender como líder sindical e dar os seus primeiros passos na vida política. Apenas lembrando que em 2021 Lula foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal de todas as acusações de que fora vítima. Enquanto isso, a dupla Moro e Deltan continuam atormentando a vida política dos paranaenses.
Feita essa digressão vamos ao segundo volume. O seu teor abrange um dos momentos mais bonitos de nossa história, o período da saída dos intermináveis 21 anos da ditadura militar e o florescer dos maiores movimentos de participação popular, com a redemocratização. Por ela passamos pelo movimento em favor das eleições diretas - Eu quero votar para presidente -, pelo movimento em favor da anistia e da constituinte e do retorno das eleições diretas para presidente da República. Água nova brotando e inúmeras novas demandas da democracia encontraram espaço de manifestação e realização. Demandas reprimidas, feito água caçando jeito, para usar a bela expressão do nosso querido poeta Manoel de Barros. E Lula, em todos esses movimentos, sempre protagonista. Este segundo volume termina com a sua eleição em 2002, o primeiro operário a ocupar a Presidência do Brasil.
O próprio Fernando de Morais conta o teor deste segundo volume, ao seu final: "Neste segundo tomo eu reencontro Lula já refeito de sua primeira derrota, como candidato a governador de São Paulo, em 1982. Este volume acompanha os bastidores de sua trajetória na campanha das Diretas Já, a retumbante eleição para Constituinte e as Caravanas da Cidadania, em que ele esquadrinha o Brasil de cima a baixo. Trata também das três derrotas nas frustradas campanhas presidenciais, sua tentativa de aliança com o PSDB, na eleição presidencial de 1994, e encerra com o coroamento de sua carreira, na vitória para a Presidência da República de 2002".
O grande valor do livro está na narrativa dos bastidores, nos detalhes que não foram suprimidos, no cotidiano de uma pessoa viva e ativa participante dos fatos, assumindo postura e compromissos sem jamais se omitir. Responsabilidades enormes. O livro é de fácil compreensão por um motivo muito simples. É a narrativa de fatos contemporâneos. Eu pessoalmente, vivenciei esses fatos. Participei de todos esses movimentos. Em Umuarama, lembro perfeitamente da campanha pelas Diretas Já, da Constituinte (Junto com a companheirada da APP, estive três vezes em Brasília), dos comícios pró-Lula, de 1989, dos cara-pintadas e do Fora Collor. Naquele tempo já havia muito ódio contra Lula, um operário querendo disputar um lugar, sempre de exclusiva competência da classe patronal. Nesse tempo eu exercia funções de direção sindical, de direção no Partido dos Trabalhadores, de formação de quadros do PT na escola de Cajamar e na participação do processo eleitoral de 1990, como candidato a deputado federal, na única certeza de ajudar a somar votos para a bancada do PT. Em 1990 o Paraná elegeu três deputados federais: Edésio Passos, Paulo Bernardo e Nedson Nicheletti. Neste micromundo também fui um pouco protagonista. Com a leitura consegui me situar melhor no meu próprio mundo. E isso foi maravilhoso.
O capítulo que mais profundamente me marcou foi de número dez - Lula roda 30 mil quilômetros para fazer um doutorado sobre o Brasil profundo -. É o capítulo da primeira das Caravanas da Cidadania, na qual ele reproduz o seu caminho de retirante nordestino para o sudeste brasileiro, caminho percorrido por tantos outros brasileiros, em busca de trabalho e um pouco de dignidade humana em centros mais desenvolvidos, que, mais cedo que outras, receberam os investimentos do Estado. Essa caravana deve ter contribuído em muito na formação de toda a sensibilidade social da qual Lula é dotado. Não tem como ficar indiferente a tanta miséria sentida por Lula, na repetição de sua trajetória de vida.
O livro, ao todo, contem 333 páginas, divididas em 14 capítulos. E, reforçado pela leitura da trajetória nada fácil da vida do Lula, de suas dificuldades e de seus êxitos, me confesso reconfortado e animado para mais uma batalha, a batalha deste ano de 2026. É luta por democracia. É luta por civilização. É luta por direitos e dignidade. É luta por humanidade. Vamos continuar construindo o terceiro volume da biografia do maior personagem contemporâneo de nossa história. Concluo como Fernando Morais termina este segundo volume, citando Gilberto Freyre, diante das transformações brasileiras de 1930. Não estranhem:
Eu ouço as vozes
Eu vejo as cores
Eu sinto os passos
De outro Brasil que vem aí.
Este verso motivou a campanha de 2002 - (Duda Mendonça) da Esperança vencendo o medo.
E o post do volume I.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/02/lula-biografia-fernando-morais.html
terça-feira, 12 de maio de 2026
CHINA - O socialismo do século XXI. Elias Jabbour e Alberto Gabriele.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Memórias do cárcere. Graciliano Ramos.
Uma antiga dívida ou um grave déficit em minhas leituras. Conheço razoavelmente bem o escritor Graciliano Ramos, mas ainda não tinha lido a sua grande obra - Memórias do cárcere. Como já relatei em post anterior, no dia 11 de fevereiro de 2026 fiz uma cirurgia de prótese de quadril, uma cirurgia que exige um longo tempo de recuperação. Me preparei para enfrentar esse período com a compra de alguns livros. Entre eles figurava o livro de Graciliano em que ele relata os horrores da prisão, de um período conturbado de nossa história, ainda mais, quando não se sabia exatamente o teor da acusação que pesava contra ele. Os conturbados tempos da ditadura de Getúlio Vargas, do Estado Novo.
Memórias do cárcere. Graciliano Ramos. Record. 2025.Na memorável biografia do escritor, de autoria de Dênis de Moraes, ele cogita sobre as possíveis motivações: "Ignoro as razões por que me tornei indesejável em minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei 20 mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas 50 mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem". Sobre ele pairava a genérica acusação de ser comunista, pecha aplicada a todos os intelectuais que confrontavam a ordem, a ordem estabelecida.
A prisão ocorreu em março de 1936 e perdurou até janeiro de 1937. Ocorreu após o levante comunista de 1935. O livro acima de tudo é uma grave denúncia desse período em que se cometeram todo o tipo de atrocidades e arbitrariedades. E eu lamento dizer, um período um tanto esquecido de nossa história. O livro de 685 páginas, é dividido em quatro partes, a saber: Parte I. Viagens (ela contém, como afirma o título, as viagens que ele foi obrigado a fazer, já a partir de sua prisão, em Maceió, donde foi levado até Recife e de Recife, em navio, até o Rio de Janeiro. Essa viagem de navio é constituída por páginas que figuram entre as mais horrorosas do livro. Um verdadeiro navio negreiro, lembrando o tempo do tráfico negreiro).
Parte II. Pavilhão dos primários. (Aí está relatada a chegada ao Rio de Janeiro e os tempos em que aguardavam julgamento. Um tempo de indefinições e o grande temor de que o pior pudesse acontecer. Serem levados para a Colônia Correcional, na Ilha Grande, onde os presos políticos teriam que conviver com os presos comuns, criminosos dos mais diversos matizes. Com certeza, os momentos mais angustiantes desse período de prisão). Parte III. Colônia Correcional. (Na Ilha Grande. Aumentam os sofrimentos em que se somam os tormentos psicológicos com as dores do sistema prisional. Ao final são devolvidos à cidade do Rio de Janeiro).
Parte IV. Casa de correção. (São devolvidos ao Rio de Janeiro, no mesmo local da prisão anterior. Nesse período recebe, na prisão, a visita do advogado Sobral Pinto, que assume a sua defesa. A situação melhora, prenunciando os tempos da volta da liberdade. Nunca sofreu qualquer tipo de acusação formal). Para melhor entender o valor da obra, além da denúncia do sistema penal e dos sofrimentos psicológicos a que um preso, ainda mais quando inocente, é submetido é importante analisar o perfil psicológico do escritor, que por certo em muito lhe agravou o sofrimento. Vamos buscar esse perfil, na já mencionada biografia de Dênis Carvalho:
"Casmurro ou cordial, arredio ou língua solta movida à cachaça, irritadiço ou afável - o velho Graça talvez tenha sido um pouco de tudo isso. Importam menos a fisionomia austera, os gestos contidos, as palavras ao sabor do humor. Protegia-se com a casca, feito um caracol. O segredo para descobrir o âmago de seu coração era remover a armadura, flagrá-lo desprevenido em seus afetos, nunca fugindo às dúvidas". Vejamos um pouco mais:
Dênis deixa a palavra aberta para que Jorge Amado também pudesse caracterizá-lo: "Graciliano parecia seco e difícil, diziam-no pessimista; era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro". E o biógrafo arremata: "Permanecem vivos entre nós o ser humano alinhado aos semelhantes em qualquer circunstância, se fosse o caso em uma cela abjeta e imunda; o militante comunista que sustentou a tensão entre as exigências da lealdade partidária e os seus princípios morais, literários e estéticos; o magnífico escritor de um tempo de conflitos, que acreditou sempre que o homem tudo pode na terra - até mesmo construir a felicidade".
Graciliano, pelo seu Memórias do cárcere e pelo conjunto de sua obra é comparado a escritores do nível de um Dostoievski ou Tolstói, comparações que lhe fazem absoluta justiça. No caso das memórias, também me veio à lembrança de Kafka e os meandros de seu O processo. Defender-se de algo sem saber os motivos que levaram à situação vivida. Uma explosão da condição humana, de suas angústias mais profundas.
Para uma melhor aproximação deixo, da orelha da contracapa, a parte referente à obra: "Em março de 1936 é preso, em Maceió, sem culpa formada, sob a alegação de que seria comunista. Passa por várias prisões, em Maceió e Recife. Segue no porão de um navio para o Rio de Janeiro, onde fica quase um ano na cadeia. Diz em uma carta à mulher: 'Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer maneira eu seria um péssimo ator'. Em agosto, ainda na prisão, publica o romance Angústia. Ao sair, vai morar no Rio de Janeiro com a família. Inicia a publicação de alguns contos no jornal argentino La Prensa, entre eles o texto 'Baleia', que faria parte da edição de Vidas secas, publicado em 1938.
Ao completar 50 anos, recebe o prêmio Felipe de Oliveira pelo conjunto de sua obra. Em 1945, filia-se ao Partido Comunista, a convite de Luís Carlos Prestes, e lança Infância. Dois anos depois, sai do prelo seu sexto livro: Insônia. Em 1952, viaja com a mulher, Heloísa, à União Soviética, e as impressões dessa viagem são reunidas em livro póstumo. Sua saúde se agrava no decorrer desse ano. Em setembro é operado sem sucesso e em janeiro do ano seguinte é internado. Morre no dia 20 de março, pela manhã. No mesmo ano, é publicado postumamente Memórias do cárcere".
E uma explicação necessária. O livro está inconcluso. Lhe falta um quinto capítulo. O filho, Ricardo Ramos explica: "Faltava apenas um capítulo destas memórias, quando morreu Graciliano Ramos. Escrevera todos os volumes em trabalho contínuo, lento é verdade, mas sem interrupções. Uma viagem ao estrangeiro, no entanto, ofereceu-lhe o suficiente para um novo livro, um livro que o interessou e o fez abandonar - por algum tempo, supunha, - a obra quase terminada. Já doente, registrando com dificuldade as impressões que os países visitados lhe haviam deixado, não tentou concluir suas memórias do cárcere. E se às vezes procurávamos lembrar-lhe esse fato, respondia: Não há problema. É tarefa de uma semana".
E o que conteria esse capítulo? Ricardo Ramos também nos dá a resposta: "Sensações da liberdade. A saída, uns restos de prisão a acompanhá-lo em ruas quase estranhas". Na contracapa lemos um trecho de suas memórias. Vamos a uma pequena amostra de sua escrita: "Indivíduos tímidos, preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere. Eu, que não gosto de andar, nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas, embrenhando-me em caraminholas, porque não haveria de acostumar-me também? Não seria mau que achassem nos meus atos algum, involuntário, digno de pena. É desagradável representarmos o papel de vítima. - Coitado!
É degradante. Demais estaria eu certo de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões do Jacob. Isso constituiria um libelo mesquinho, que testemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação". Para ser acusado de comunista basta lutar pelos ideais de igualdade e de justiça social. Deixo ainda o post da biografia de Graciliano, a de Dênis de Moraes, a qual já nos referimos.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/o-velho-graca-uma-biografia-de.html
sexta-feira, 1 de maio de 2026
A milésima segunda noite da Avenida Paulista. Joel Silveira.
sexta-feira, 24 de abril de 2026
1964. A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. René Armand Dreifuss.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
CASTELLO. A marcha para a ditadura. Lira Neto.
Passei por alguns contratempos. Cirurgia marcada para o dia 11 de fevereiro de 2026. A cirurgia seria simples. Em torno de uma hora e o serviço estaria concretizado. Em contraposição, a recuperação seria lenta, com dias intermináveis. Uma prótese de quadril. Na recuperação, muitas sessões de fisioterapia. A dependência pós cirurgia é quase total. Fiquei amparado na casa do meu filho, o Alexis, aonde permaneci até o dia 6 de abril, quando após uma consulta de revisão médica, retornei para casa e aqui para o meu posto. Tudo transcorreu sem dores. A todos os envolvidos, os meus melhores agradecimentos.
Castello - a marcha para a ditadura. Lira Neto. Companhia das Letras. 2020.
No preparo para a cirurgia e, especialmente para a recuperação, fiz a encomenda de alguns livros. Teriam que ser leituras simples, livros para serem lidos na cama. Eu teria que mudar um velho hábito meu. A leitura acompanhada por um caderno de anotações. O máximo que eu consegui foi o de anotar algumas páginas e o tema abordado. Entre os livros encomendados figuravam: Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, China - o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele e Castello - a marcha para a ditadura, do grande Lira Neto. Pai Firmino, em visita ao enfermo, ainda me trouxe A milésima segunda noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira, o primeiro que eu li. Leitura, por sinal, muito agradável.
Hoje é dia 25 de março, quase um mês e meio após a cirurgia. Terminei a leitura do livro do Lira Neto sobre o primeiro dos ditadores militares, da ditadura civil-militar, implantada no dia 1º de abril de 1964, mais militar do que civil. O golpe aplicado era para ser uma "correção de rumos" e duraria até o final do mandato de João Goulart, o presidente golpeado em razão de seu governo que propunha reformas de base, reformas estas, diga-se de passagem, que ainda estão para serem feitas. A "correção de rumos" visava exatamente impedir que estas reformas fossem transformadas em realidade. Esta é a centralidade da monumental obra de Lira Neto datada de 2004 e reeditada em 2019.
Recentemente li o livro do historiador Carlos Fico - Utopia autoritária brasileira - Como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje. O livro, como vemos no subtítulo, mostra o comportamento dos militares ao longo de toda a história política brasileira. Uma espécie de missão salvífica paira no ar ao longo de toda esta história. Ela tem um passado que nos remete à Guerra do Paraguai e à Proclamação da República. Trago esta lembrança para chamar a atenção da primeira página que eu anotei, a página 77. Junto a ela eu anotei - Os tenentes - salvadores da pátria. Eis o texto: "Os conspiradores (os tenentes), que não tinham programa de governo elaborado ou mesmo manifestos políticos definidos, eram movidos pela ideia comum de que caberia aos militares a missão natural de "guardiões" das instituições nacionais. Consideravam que os destinos do país corriam perigo nas mãos dos "paisanos", tidos por eles como uma corja corrupta, movida por interesses pessoais inconfessados. Não hesitaram em assumir eles próprios, os militares, o papel de "salvadores" da Pátria, inaugurando a tradição que irá vigorar nos quartéis ao longo de toda a história republicana brasileira e, mais tarde, irá desaguar no golpe de abril de 1964". Página 77.
Lembrando que o tenentismo foi um movimento da década de 1920, 1922 de modo particular, que visava derrubar o presidente Epitácio Pessoa e impedir a posse do presidente eleito, Arthur Bernardes. Entre os tenentes figuravam nomes como Juarez Távora, Eduardo Gomes, Siqueira Campos, nomes que, por muitos anos continuariam presentes como protagonistas na nossa política. A frase citada já faz parte do tempo da biografia de Castello, quando o encontramos como um jovem tenente de 25 anos no 12º Regimento sediado em Belo Horizonte. O capítulo em que encontramos a citação tem por título - um tenente contra os tenentes. Mas o fato de ser contra não significou um ato de despolitização do futuro ditador, de não sentir o gosto pela política. Castello nasceu em Fortaleza em 1897 e morreu no dia 18 de julho de 1967, em acidente aéreo, nas proximidades de Fortaleza. Exerceu o poder entre 15 de abril de 1964 e 15 de março de 1967.
O livro de Lira Neto, o seu primeiro livro biográfico, passa longe de ser a obra de um iniciante. Ele é profundo e meticuloso e extremamente abrangente, envolvendo a estrutura e a conjuntura brasileira e mundial de toda um época, como deu para perceber com a nota acima citada, dentro do contexto de nossa República Velha. O livro tem 460 páginas, que, para serem lidas, precisam praticamente ser acompanhadas por uma lente de aumento das letrinhas. A vida de Castello é bastante conhecida, mas não os seus bastidores. Por isso antes de dar uma visão geral do livro, vou me ater a fatos que mais de perto mereceram a minha atenção.
Primeiramente quero destacar a enorme rede de picuinhas e intrigas da vida da caserna. Ciumeiras nas promoções, artimanhas nas transferências de quartéis e nas posições e postos estratégicos de comando. Inúmera páginas são dedicadas às intrigas entre ele, Castello, e o seu arqui-inimigo Costa e Silva. Nesse sentido merece especial atenção a disputa entre os dois pelo comando do processo "revolucionário". É uma luta entre os considerados "moderados" (Castello, Geisel) e os da "linha dura" (Costa e Silva, Médici). Por que atento para isso? Porque é um fato que permanece em nossa história. Basta lembrar o voto do então deputado Jair Bolsonaro, proferido na votação do impeachment da presidente Dilma, junto com uma homenagem ao famoso torturador da "linha dura", Carlos Brilhante Ustra. Esta divisão no exército tem raízes profundas.
O livro passa pela visão das entranhas do governo daquele que pretendia apenas concluir o mandato do presidente deposto, João Goulart, mas, que na verdade, abriu o caminho para A marcha para a ditadura. Castello abriu, pelos Atos Institucionais, o caminho para os militares da "linha dura", ou melhor, para Costa e Silva, para o AI-5 e para os "anos de chumbo", como o período ficou caracterizado em nossa história. Castello pavimentou o caminho para A marcha para a ditadura para, como lemos no epílogo do livro, em seu penúltimo parágrafo: "De 1964 a 1985, os generais ficaram 21 anos à frente do poder. Deixaram um saldo de cerca de 10 mil exilados, 7.387 acusações formalizadas por subversão; 4.682 cassados e cerca de 300 mortos e desaparecidos". Página 428.
Também não poderia deixar passar em branco o fato da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, nas campanhas da Itália, na tomada de Monte Castelo. Castello era um dos protagonistas brasileiros dessa expedição, de tanto heroísmo, como lemos nos livros de nossa história oficial, que, no entanto, teve inúmeras trapalhadas. Mas a minha atenção ao capítulo se dá por um outro motivo. Lutamos sob o comando do exército dos Estados Unidos, em uma aproximação dos comandantes dos dois exércitos. Essa aproximação será decisiva nos anos posteriores à Guerra. Os anos da Bipolaridade do mundo e da Guerra Fria. Como consequência dessa aproximação surge a Escola Superior de Guerra e a doutrina da Ideologia da Segurança Nacional. Esta doutrina, somada ao IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e ao IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), órgãos da sociedade civil, foram fundamentos na formação da Opinião Pública favorável ao golpe. Também as medidas econômicas merecem um merecido destaque, como a desnacionalização da economia e a política de concentração de rendas.
Mas vamos à estrutura do livro: são nove capítulos, prefácio, prólogo e epílogo. Os capítulos tem por título passagens do hino nacional, em interação com o fato histórico abordado. Os capítulos são: Capítulo I. "As margens plácidas": infância e juventude (1897-1922); Capítulo II. "Um povo heroico": A rebeldia nos quartéis (1922-38); Capítulo III. "Filho teu não foge à luta": O Brasil e a Segunda Guerra Mundial (1939-45); Capítulo IV. "O sol da Liberdade": O frágil interlúdio democrático (1945-63); Capítulo V. "A Terra desce": O golpe contra a democracia (1963-64); Capítulo VI. "A clava forte": Os miliares no poder (1964-65); Capítulo VII. "És tu Brasil": À sombra da linha dura (1965); Capítulo VIII: "Entre outros mil": A Batalha da sucessão (1966-67). Capítulo IX. "À luz do céu profundo: A morte veio do ar (1967).
Vamos ainda à contracapa, uma parte do prefácio de Heloísa Starling: "Primeiro presidente da ditadura instaurada em 1964, Humberto de Alencar Castello Branco é um personagem-chave da história do Brasil contemporâneo. Seu curto mandato ainda hoje enseja reavaliações e revisionismos. Exercendo com habilidade e discrição o poder quase absoluto, Castello lançou as bases do regime de força que atormentou o país durante duas décadas. Ora visto como monstruoso e implacável, ora como tolerante e sensato, o estrategista do golpe civil-militar continua a levantar polêmicas, mas, contraditoriamente, sua trajetória tem sido pouco estudada. Em sua primeira grande biografia, agora em nova edição, Lira Neto apresenta uma visão abrangente e equilibrada sobre o homem, o militar e o político, munido da mais completa documentação já reunida sobre Castello. O autor da chamada trilogia Getúlio investiga em profundidade a vida e as lutas do general franzino que, sem disparar um tiro, derrotou inimigos e aliados na guerra sem quartel pelo poder máximo da República".
Deixo ainda dois posts, relacionados com o período do golpe: A Ideologia da Segurança Nacional e sobre as reformas de base do governo de João Goulart.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/11/a-ideologia-da-seguranca-nacional-padre.html e
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/01/jango-conversa-com-joao-vicente-12-1.html
sexta-feira, 10 de abril de 2026
VALE A PENA SONHAR. Apolonio de Carvalho.
terça-feira, 7 de abril de 2026
EI, PROFESSOR. Frank McCourt.
Domingo (01.02.2026) foi um dia maravilhoso. Tive a oportunidade de receber na chácara um grupo de alunos, capitaneados pela Mari, formandos do ano de 2009, do curso Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo. Muita empatia, memórias e gratas lembranças. Entre os temas das conversas, por óbvio, estava a Universidade Positivo e peculiaridades do curso. Lembramos de cursos de leituras, de Ler e Ver, entre outros assuntos. Na época tínhamos, no meu entendimento, um bom grupo de professores e uma coordenação extraordinária (Professora Eveline e depois o professor André Tezza).
A leitura sempre é um tema fascinante. Lembro que entre nós professores trocávamos muitas leituras e até a mesa que aglutinava os professores do curso se tornou conhecida. Eu particularmente trocava as leituras com o professor Ferrari e com o professor Rafael. Trago esta memória para dizer que terminei de reler Ei, professor, de autoria de Frank McCourt, que por trinta e seis anos exerceu a função de professor do ensino médio na cidade de Nova York, em diferentes colégios, dos mais populares até em um dos mais elitizados. O livro é um relato de suas experiências, escritas já no seu tempo de aposentadoria, e que foi laureado com o Prêmio Pulitzer. Este conteúdo transparece num diálogo que o professor mantém, quase ao final do livro com um aluno seu. Vejamos.
Ei, professor. Frank McCourt. Intrínseca. 2006. Tradução: Rubens Figueiredo. Prêmio Pulitzer."Senhor McCourt, o senhor tem sorte. O senhor teve uma infância infeliz e então tem um assunto para escrever. Sobre o que a gente vai escrever? A gente só faz nascer, ir para a escola, ficar de férias, ir para a faculdade, se apaixonar ou coisas assim, formar-se na faculdade, e começar uma carreira, casar, ter os dois vírgula três filhos em média de que o senhor vive falando, mandar os filhos para a escola, se divorciar como faz cinquenta por cento da população (Em outra passagem, o autor cita que o divórcio em Nova York é um esporte muito popular (Página 237), engordar, ter o primeiro ataque do coração, aposentar-se morrer.
Jonathan, essa é a mais lamentável sinopse da vida americana que já vi numa sala de aula do Ensino Médio. Mas você forneceu os ingredientes para se escrever o grande romance americano. Sintetizou os romances de Theodore Dreiser, Sinclair Lewis, F. Scott Fitzgerald" (Página 252). No capítulo 18, o Sr. McCourt dá a resposta. Transcrevo o capítulo por inteiro VOU TENTAR. E a tentativa se transformou num grande êxito literário americano.
Ao ver estes escritores, eu voltei a me lembrar de nossos círculos de leituras. Por eles eu entrei em contato com outro escritor, descritor da vida americana, Philip Roth. Dele lemos o maravilhoso A marca humana. E, depois li quase a sua obra por inteiro, ao menos no que diz respeito a seus livros traduzidos para o português. Ah sim! lembrando. O professor André Tezza, na qualidade de coordenador do curso, nos presenteou com o livro. Penso em relê-lo.
Antes de fazer alguns destaques, vamos a orelha do livro: "Agora, eis aqui o tão aguardado livro de McCourt no qual ele conta como seus 36 anos de carreira no magistério engendraram seu segundo ato como escritor (O primeiro - As cinzas de Ângela). Ei, professor é também um tributo pungente a todos os professores. Com uma prosa ousada e vivaz, em que se destaca seu humor irreverente, com uma franqueza tocante, McCourt registra as tentativas, os triunfos e as surpresas com que se deparou em escolas públicas na cidade de Nova York. Ao lançar mão de métodos que nada tem de convencionais. McCourt cria um impacto duradouro em seus alunos por meio de tarefas imaginativas (orienta uma turma a redigir "Um pedido de desculpas de Adão ou de Eva para Deus"), músicas (nas quais a lista de ingredientes de uma receita toma o lugar da letra original) e passeios (imagine levar 29 garotas agitadas para um cinema em Times Square!).
McCourt luta para encontrar o caminho correto nas aulas e consome as noites bebendo com escritores e sonhando em um dia pôr no papel sua própria história. Em Ei, professor, vemos McCourt demonstrando sua incomparável habilidade para contar uma história magnífica enquanto, cinco dias por semana, cinco aulas por dia, se esforça para prender a atenção e ganhar o respeito dos adolescentes indisciplinados, sobrecarregados de hormônios ou indiferentes. O periclitante casamento de McCourt, sua fracassada tentativa de obter um doutorado no Trinity College, em Dublin, e suas repetidas demissões causadas pela propensão a contestar os superiores acabam, ironicamente, por levá-lo a trabalhar na escola mais prestigiosa de Nova York, a Escola Secundária Stuyvesant, onde ele por fim encontra um lugar e uma voz. "A tenacidade", diz ele, "não é tão atraente quanto a ambição, ou o talento, ou o intelecto, ou o charme, mesmo assim foi o que me permitiu vencer os dias e as noites".
Para McCourt, contar histórias é em si mesmo a fonte da salvação e, em Ei, professor, a viagem para a redenção - e para a glória literária - é uma aventura muito divertida".
O livro tem 266 páginas. É dividido em três partes, mais um pequeno mas super interessante prólogo. Vamos aos títulos das partes, bastante auto explicativos: Parte 1. - O longo caminho até a pedagogia. Parte 2. - Um burro no meio dos espinhos. Um capítulo valioso sobre o que ocorre nas salas de aula. Os choques de gênero, geração, cultura e raça. Parte 3. - Renascendo na sala 205. Os seus êxitos na Escola de Stuyvesant.
No Prólogo McCourt praticamente se apresenta. Menino infeliz, nascido nos Estados Unidos, criado na maior pobreza na Irlanda e de volta aos Estados Unidos. É simplesmente maravilhosa a sua fala sobre a sua infância infeliz: "Eu poderia sair à procura de culpados. A infância infeliz não acontece à toa. Ela é criada. Existem forças sombrias. Se eu apontar culpados, o farei com um espírito de perdão. Portanto, perdoo às seguintes pessoas: ao papa Pio XII; aos ingleses em geral e ao rei Jorge VI em particular; ao cardeal Mac Rory, que dominava a Irlanda quando eu era criança; ao bispo de Limerick, que parecia achar que tudo era pecado; perdoo a Eamonn de Valera, ex-primeiro-ministro (cargo que os irlandeses chamam de Taoiseach) e presidente da Irlanda. O senhor de Valera era um fanático gaélico semi-espanhol (cebola espanhola num ensopado irlandês) que orientava os professores em toda a Irlanda a incutir em nós, à força, a língua nativa e a retirar de nós, à força, toda a curiosidade natural". O sublinhado é meu. Está já na primeira página.
Esta parte que sublinhei agitou minha memória. Fui à estante buscar uma biografia de Fellini - Fellini - uma biografia, de Túlio Kezich. Duas passagens sobre a infância dele: "Era uma criança como tantas outras, que fazia lindos desenhos, numa cidadezinha como tantas outras numa Itália ultra provinciana, oprimida de um lado fascismo e do outro pela Igreja" (Página 19). "É a mesma rebeldia de Richettino que persiste no jovem estudante, motivada pela impenetrabilidade do 'mundo dos adultos': a família de um lado, a escola do outro. Muitos foram esmagados por esta opressão. Na mesma página de Kafka, do qual já extraímos uma citação, lemos: 'Segundo minhas experiências, na escola como em casa faziam de tudo para apagar nossa peculiaridade'" (Página 25). E lembrando que no Ano de 2026 de nossa era cristã, em São Paulo e no Paraná existem escolas cívico militares. Eu defino estas escolas como O coturno pisando na poesia.
Da terceira parte existe uma passagem com a qual me diverti bastante. Sempre a citava nas aulas: "Quando eu debatia Retrato do artista quando jovem com minhas turmas descobria que eles desconheciam os Sete Pecados Capitais. Fisionomias perplexas na sala inteira. Eu escrevia no quadro: Orgulho, Avareza, Luxúria. Ira, Gula, Inveja, Preguiça. Se vocês não conhecem isso, como conseguem se divertir? (Página 201). E finalmente, uma coisa muito séria: A expectativa dos pais quanto à escola:
"Só sabem pensar em sucesso (Me permitam uma digressão - Eu assisti uma palestra motivacional em que a palestrante escreveu bem grande no quadro: $uce$$o. Disfarcei e me retirei) e dinheiro, diz Connie. Têm expectativas para seus filhos, muitas esperanças, e somos como trabalhadores numa linha de montagem colocando uma pecinha aqui e outra ali, até que o produto final saia prontinho para cumprir os desígnios dos pais e da empresa" (Página 240). E a CIDADANIA onde fica?
E para discutir um pouco mais a educação, recorro ao memorável professor Milton Santos:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/03/os-deficientes-civicos-milton-santos.html
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
As obras-primas que poucos leram. BABBITT. Siclair Lewis.
Se você quiser fazer um verdadeiro passeio literário, passando pelas mais belas obras da literatura universal, seguramente o livro é este: As obras-primas que poucos leram, um livro organizado pela escritora Heloísa Seixas. São dois volumes. Mas eu tenho apenas o volume de número 2. No que consiste o livro? A análise de clássicos, feita por especialistas. Um exemplo: Otto Maria Carpeaux examina Crime e castigo de Dostoievski, ou R. Magalhães Júnior analisa Babbitt, de Sinclair Lewis, que passaremos a ver.
As obras-primas que poucos leram. Vol 2. Organização de Heloísa Seixas. Record. 2005.
O romance de Sinclair Lewis, Babbitt, me impressionou muito. O livro integra a memorável coleção de 50 livros, Os imortais da literatura universal, uma publicação da Abril Cultural do ano de 1972. O livro é o de número 44. A primeira edição do livro é do ano de 1922, poucos anos após a Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos estão sendo governados pelo presidente Warren Harding (1921-1923), do Partido Republicano e sob os efeitos da Lei Seca. Babbitt é um comerciante (corretor de imóveis) de uma fictícia cidade do meio-oeste norte-americano e que se torna uma espécie de símbolo, uma caricatura do comerciante que apenas pensa em enriquecer, em ganhar dinheiro, muito dinheiro! Muito espírito do capitalismo e pouca ética protestante. Deixo a resenha do livro:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/babbitt-harry-sinclair-lewis-1922-nobel.html
A cidade fictícia que Lewis retrata é a cidade de Zenith, que muitos cogitam ser a cidade de Minneápolis ou Cincinati, nos relata o resenhista Magalhães Júnior. A ela está reservada a glória e a grandeza do progresso. Seus cidadãos sentem muito orgulho dela. Ele também nos retrata a maneira peculiar que o escritor tinha para escrever. Ele se inseria dentro dos grupos que ele queria retratar e assim observá-los mais de perto. Babbitt sofreu um verdadeiro bombardeio de críticas. Foi considerado um livro anti Estados Unidos, contra os seus valores e a sua moralidade. Esses valores eram falsos. Ironia! Hipocrisia! Eram tempos de isolacionismo e protecionismo econômico. Tempos da Lei Seca (1920-1933) e da radical segunda etapa da Ku Klux Klan.
O livro se centra no modo de atuação de Babbitt, de como ele se comporta para conquistar os seus clientes. Mostra suas frustrações, sonhos desfeitos e a ânsia de vender, vender e vender sempre mais. Vejamos o resenhista: "Para vender, precisava relacionar-se, ampliar cada vez mais o círculo social em que se agitava, fazer sempre contatos novos. Por isso, ingressa em tudo quanto é tipo de sociedades, clubes, fraternidades. É sócio da Ordem Protetora e Fraternal dos Alces, do Clube Atlético, da Associação Cristã de Moços, da Associação Estadual de Juntas de Bens Imóveis, do Boosters Club, bem como de vários outros, do tipo Rotary ou Lion's, um dos quais multava os sócios em meio dólar, quando estes não se tratavam por alcunhas ou diminutivos, o que era um meio artificial de forçar a intimidade e quebrar barreiras entre eles. Em cada sócio desses clubes, Babbitt via um freguês em potencial. Seus negócios, em geral, eram limpos, mas sendo necessário também entrava em conchavos ou dava golpes rendosos. Era honesto, mas subornava fiscais, para ajeitar situações difíceis, como a aprovação de loteamentos irregulares".
A descrição de seu anti-herói continua: "Contudo, Babbitt era virtuoso. Defendia, sem praticar, a proibição do álcool. Aprovava, sem lhes obedecer, as leis contra excessos de velocidade. Pagava suas dívidas. Contribuía para as despesas do culto, para a Cruz Vermelha e a Associação Cristã de Moços. Seguia os costumes de sua classe e não trapaceava senão quando isso era autorizado por um precedente, nunca descendo à fraude positiva e direta".
Vejamos mais uma caracterização do livro: "No seu romance, que constitui um painel sociológico dos Estados Unidos no início da década de 1920, Siclair Lewis satiriza a preocupação obsessiva do dinheiro na vida norte-americana e certos processos de iludir as massas ingênuas, semelhantes ao que usou o espertalhão Dale Carnegie, com o seu processo de self-help, em cursos, conferências e no livro Como fazer amigos e influenciar pessoas". É um fervoroso adepto de cursos rápidos e práticos em vez de "latim e dramaturgia de Shakespeare". Em suma, um novo sistema educacional. Como são esses cursos aligeirados que hoje são tão comuns entre os governadores brasileiros de extrema direita Esse sistema tem também ojeriza à filosofia, à história e ás ciências sociais e artes. temem o pensar. Perda de tempo e tempo é dinheiro.
Babbitt, no entanto, teve dúvidas quanto a seus princípios. Passa a frequentar ambientes impróprios e as suas atividades comerciais entram em declínio. Então ele rapidamente se recompõe. Volta à família e aos negócios. E, alimenta uma esperança:
"Sua esperança é de que o filho possa romper o círculo das conveniências e dos interesses mesquinhos, para se afirmar como um indivíduo menos escravo das ideias feitas. Para ele próprio é que não há nenhuma esperança. Reconhece que sua vida foi vazia e fútil. É um homem oco, cujo dinamismo e eficiência não o levaram a lugar algum. Em todo caso, recupera a intermediação rendosa na nova negociata municipal com terrenos para a Companhia de Transportes Urbanos...".
Outro autor norte americano que eu aprecio muito é Philip Roth. Este é um crítico da cultura norte-americana ainda mais mais ácido do que Sinclair Lewis.








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