sexta-feira, 24 de junho de 2022

Luiz Gama (1830- 1882). Mãe negra - pai fidalgo. Livre, escravizado e abolicionista.

Entre as vozes negras na luta pela abolição, seguramente, é a voz de Luiz Gama que tem a história de vida mais singular. Uma história de cinema (que aliás, já existe. O Dr. Gama). Uma lenda. Ele nasceu livre, foi vendido pelo próprio pai para um traficante de escravos, alfabetizou-se junto a um amigo e, na qualidade de autodidata, ganhou notoriedade de intelectual respeitado. Como rábula ajudou na alforria de mais de 500 escravizados. A sua pena era temida e respeitada. Fundou e atuou na Loja Maçônica - América - da qual também foram membros Ruy Barbosa e Joaquim Nabuco. Na imprensa, a ironia, a sátira e o deboche sempre foram suas armas. Teria sido um novo Gregório de Matos?

Luiz Gama (1830-1882). O Patrono da abolição.

No Brasil, pouco se sabe de Luiz Gama. E, muito do que se sabe, se deve a Lígia Fonseca Ferreira. Na Sorbonne, em Paris, ela, mulher negra, fez seu doutorado. O tema de seus estudos foi a literatura negra no Brasil nos anos de 1887-1888. Foi então que ela entrou em contato com o autor e não mais o abandonou. Foi ela que descobriu a carta que ele enviara a Lúcio Mendonça, atendendo a um pedido deste. Lúcio Mendonça foi um dos idealizadores e fundadores da Academia Brasileira de Letras. A carta é autobiográfica e tinha finalidades de publicação. E isso foi feito. A pesquisadora encontrou os originais, que hoje estão sob custódia da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Ela revela o teor e as polêmicas que envolvem a carta. De Lígia tomo as informações que prestarei, também auxiliado por Eduardo Nunomura, um estudioso de Lígia.  Lígia nos conta que Luiz Gama nasceu em Salvador no ano de 1830, filho de mãe escrava e pai português, fidalgo. Nascera, portanto, livre. O pai, depois de arruinado, o vendeu como escravo para um traficante amigo, que não o conseguiu revender, ficando com ele. Nesta condição ele chega a São Paulo, onde permanecerá por 42 anos, até a sua morte, em 1882. Na abertura de seu texto, Lígia nos apresenta o único abolicionista que sofreu na sua própria pele as dores da escravidão. 

A sua obra se resume às Primeiras Trovas Burlesca de Getulino. Seus versos são os de um negro que denuncia os paradoxos políticos, éticos e morais da sociedade imperial. E, haja paradoxos. O seu sonho era - um Brasil americano, sem reis e sem escravos. Estão aí as duas grandes bandeiras de sua vida. Por elas fez versos, escreveu nos jornais e militou nos tribunais. Foi o advogado dos escravizados. Era autodidata, não tinha diplomas. Os desdenhava. "A inteligência repele os diplomas como Deus repele a escravidão", dizia, numa frase de efeito. Um de seus versos, Quem sou eu, verso das Primeiras trovas e a carta ao amigo, são as fontes para o estudo de sua biografia. Depois dessas considerações a pesquisadora apresenta o conteúdo, as características e os interesses deste documento.

Lúcio Mendonça é um amigo de Luiz Gama, mais novo e muito influente. Tinha interesse em divulgar o que lhe seria revelado. Ela, a carta, é resultado de uma solicitação. Portanto, consentiu ao escrevê-la. Biografias eram uma moda da época. Eles tinham muitas afinidades. Eram intelectuais, republicanos e abolicionistas. Ambos são fundadores do Partido Republicano (Itu - 1873). Luiz Gama logo se afastará do Partido, pois nele haviam ingressado fazendeiros paulistas escravocratas. Eram as lavouras de café! Era considerado o terror dos fazendeiros, de advogados e de juízes corruptos. Era, ao mesmo tempo amado, odiado e temido. Ao tempo da carta, já era portador de uma saúde frágil, acometido de diabetes que logo, logo, dois anos após a carta, o vitimaria. 

O ponto de partida da carta é o seu nascimento e infância. Nasce em Salvador em meio as agitações das rebeliões negras da década de 1830-1840. Se apresenta como um típico brasileiro, fruto de um casamento entre Portugal e a África. Da mãe se diz herdeiro de uma indômita personalidade, que lhe permitiu enfrentar as idiossincrasias políticas de impiedosos tratamentos, reservados aos negros. Dá detalhes do nascimento, 21 de junho de 1830. Batizado, aos oito anos, na igreja matriz do Sacramento, de Itaparica. Filho natural de negra-africana livre, da Costa Mina (Nagô de nação), de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusara o batismo e a fé cristã. A descreve como altiva, geniosa, insofrida e vingativa. Era laboriosa e ganhava a vida como quitandeira. Várias vezes foi presa, por envolvimento em rebeliões. Ela veio ao Rio de Janeiro, onde ele a procurou por três vezes. Por informações, soube de sua prisão e desaparecimento, provavelmente pelo exílio, pena aplicada aos negros amotinados.

Do pai, de quem se recusa dar o nome, também dá informações. Era um português, fidalgo e muito rico. Era extremoso e o criara em seus braços. Era apaixonado por caça e pesca, por cavalos e armas. Amava prodigamente súcias e divertimentos, esbanjando fortuna. Reduzido à extrema pobreza (1840) o vendeu ao amigo e hospedeiro Luiz Cândido Quintela. Estes relatos permitem especulações e lendas, conta a pesquisadora, especialmente com relação à mãe, alçada à condição de revolucionária e heroína.

Em 1848 empreende fuga e consegue reaver a liberdade. Se torna amigo de Lúcio Mendonça, para quem, em sua carta, omite dados, certamente, por supô-los sabidos. É o momento em que começa a sua vida ativa, especialmente a partir de 1860, com a sua vida pública de antimonarquista e antiescravista, com a sua escrita nos jornais e a sua voz nos tribunais. As Primeiras Trovas são do ano de 1859. A sua atividade lhe rendeu muitas perseguições. "Detesto o cativeiro e os senhores, especialmente o reis", bradava. Nos tribunais, com base na Lei de 1831, acordada com os ingleses, que aboliu o tráfico, ele alforriou mais de 500 escravizados.

Apresenta também as metamorfoses em sua vida. De criança livre  a escrava; de escravo a homem livre; de analfabeto a  homem de letras; de não cidadão a homo politicus e do anonimato à notoriedade. No campo das atividades passou de escravo doméstico a soldado, ordenança, copista, secretário, tipógrafo, jornalista, advogado e autoridade maçônica. E o inacreditável, de um ex escravizado a homem famoso, ainda mais, na então inexpressiva São Paulo, pouco dada à ascensão social. E o mais bonito, de posse da escrita, vedada aos escravos, rompe os laços da dominação, alcança a autonomia, se torna cidadão e voz influente na pólis, na comunidade das letras e, em suma, na sociedade branca.

A pesquisadora ainda destaca que em menos de duas mil palavras, que falam por si só, conquistou a imagem de sensível, decidido, pronto para o sacrifício e para o perdão. Além de mostrar-se seguro, modesto, intransigente, justiceiro, racional e portador de grande coragem moral. Levou uma vida de transgressões; da fuga e do aprender a ler e escrever, e o tornar-se figura pública incomum. Casou-se com Claudina Furtado Sampaio, com que já tivera um filho, nascido junto às Trovas. E exclama, "Oh! eu tenho lances doridos em minha vida, que valem mais do que as lendas sentidas da vida amargurada dos mártires". E encerra, "Eis o que te posso dizer, às pressas, sem importância e sem valor; menos para ti, que me estimas deveras".

E, como não poderia deixar de ser, deixamos aqui o seu verso autobiográfico famoso. Quem sou eu? (A bodarrada). O livro das Primeiras trovas também foi organizado pela pesquisadora Lígia Fonseca Ferreira.

Quem sou eu? que importa quem? 

Sou um trovador proscrito,

Que trago na fronte escrito

Esta palavra - "Ninguém".

Augusto Emílio Zaluar. Dores e Flores.


Amo o pobre, deixo o rico,

Vivo como o tico tico;

Não me envolvo em torvelinho,

Vivo só no meu cantinho:

Da grandeza sempre longe

Como vive o pobre monge.

Tenho mui poucos amigos,

Porém bons, que são antigos,

Fujo sempre à hipocrisia,

à sandice, à fidalguia;

Anjo Bento, antes trovões.

Faço versos, não sou vate,

Digo muito disparate,

Mas só rendo obediência

À virtude, à inteligência:

Eis aqui o Getulino

Que no plectro anda mofino.

Sei que é louco e que é pateta

Quem se mete a ser poeta;

Que no século das luzes,

Os birbantes mais lapuzes,

Compram negros e comendas,

Tem brasões, não - das calendas

E, com tretas e com furtos

Vão subindo a passos curtos; 

Fazem grossa pepineira,

Só pela arte do Vieira,

E com jeito e proteções,

Galgam altas posições!

Mas eu sempre vigiando

Nessa súcia vou malhando

Com semblante festival.

Dou de rijo no pedante

De pílulas fabricante,

Que blasona arte divina,

Com sulfatos de quinina,

Trabujanas, xaropadas

E mil outras patacoadas,

Que sem pingo de rubor, Diz a todos que é DOUTOR!

Não tolero magistrado, que do brio descuidado,

Vende a lei, trai a justiça,

- Faz a todos injustiça -

Com rigor deprime o pobre 

Presta abrigo ao rico, ao nobre,

E só acha horrendo o crime

No mendigo que deprime.

- Neste dou com dupla força.

Té que a manha perca ou torça.

Fujo às léguas do lojista,

Do beato e do sacrista -

Crocodilos disfarçados,

Que se fazem muito honrados

Mas que, tendo ocasião,

São mais feros que o Leão.

Fujo ao cego lisonjeiro,

Que, qual ramo de salgueiro,

Maleável, sem firmeza,

Vive à lei da natureza;

Que conforme sopra o vento

Dá mil voltas num momento.

O que sou, e como penso,

Aqui vai com todo o senso,

Posto que já vejo irados

Muitos lorpas enfunados,

Vomitando maldições,

Contra as minhas reflexões.

Eu bem sei que sou qual Grilo,

De maçante e mau estilo;

E que os homens poderosos

Desta arenga receosos

Hão de chamar-me de tarelo,

Bode, negro, Mongibelo;

Porém eu que não me abalo,

Vou tangendo o meu badalo

Com repinque impertinente

Pondo a trote muita gente.

Se negro sou, ou sou bode

Pouco importa. O que isto pode?

Bodes há de toda casta,

Pois que a espécie é vasta...

Há cinzentos, há rajados,

Baios, pampas e malhados,

Bodes negros, bodes brancos

E, sejamos todos francos,

Uns plebeus, e outros nobres,

Bodes ricos, bodes pobres

Bodes sábios, importantes,

E também alguns tratantes...

Aqui, nesta boa terra,

Marram todos, tudo berra;

Nobres Condes e Duquesas,

Ricas Damas e Marquesas

Deputados, senadores,

Gentis homens, veadores;

De nobrezas empantufadas,

Repimpados principotes,

Orgulhosos fidalgotes,

Frades, Bispos, Cardeais,

Fanfarrões imperiais,

Gentes pobres, nobres gentes,

Em todos há meus parentes 

Entre a brava militança -

Fulge e brilha alta bodança; 

Guardas, Cabos, Furrieis,

Brigadeiros, Coroneis,

Destemidos Marechais,

Rutilantes Generais,

Capitães-de-mar-e-guerra,

- Tudo marra, tudo berra -

Na suprema eternidade,

Onde habita a Divindade,

Bodes há santificados

Que por nós são adorados.

Entre o coro dos Anjinhos

Também há muitos bodinhos. -

O amante de Siringa

Tinha pelo e má catinga:

O deus Mendes, pelas costas,

Na cabeça tinha pontas;

Jove quando foi menino,

Chupitou leite caprino;

E, segundo o antigo mito,

Também Fauno foi cabrito.

Nos domínios de Plutão,

Nos lundus e nas modinhas

São cantadas as bodinhas;

Pois se todos tem rabicho -,

Para que tanto capricho?

Haja paz, haja alegria,

Folgue e brinque a bodaria;

Cesse pois a matinada, 

Porque tudo é bodarrada! -.

Creio que estes versos se constituem numa bela síntese do que são os versos das Primeiras trovas burlescas de Getulino. Ele não tolerava mesmo, os inúmeros Cresos, presentes na sociedade paulista, com que conviveu. Quando vi que Luiz Gama pertenceu a mesma Loja Maçônica que Joaquim Nabuco, a questão me intrigou. Por que um não faz referência ao outro em seus textos? A pesquisadora responde, apontando as diferenças entre eles. Nabuco de Araújo, o pai de Joaquim, fora presidente da Província de São Paulo. Fora, portanto, um homem do Império. Óbvio que haveria incompatibilidades. Além disso, Luiz Gama defendia a rebelião popular escrava, a sua insurreição. Já Joaquim Nabuco apostava na via parlamentar, na abolição empreendida pela ação do Estado, somando-se à abolição, uma série de reformas sociais que garantiriam a integração numa sociedade, que mais adiante, Florestan Fernandes definiria como sociedade de classes, de sociedade competitiva, em seu livro A integração do negro na sociedade de classes.

O que Luiz Gama e Joaquim Nabuco tinham em comum era a crença nos princípios políticos do Iluminismo, do Esclarecimento. A crença de que todos os homens seriam tratados com liberdade, Igualdade e Fraternidade. Veremos.






quarta-feira, 22 de junho de 2022

O abolicionismo (1883). Joaquim Nabuco.

O abolicionismo é uma obra de propaganda. A sua finalidade foi a de fornecer subsídios para a causa abolicionista, que arrefecera com a Lei Rio Branco, de 28 de setembro de 1871, também conhecida como Lei do Ventre Livre. Era uma lei de caráter protelatório.  O abolicionismo foi escrito em Londres, no ano de 1883, onde Joaquim Nabuco fora trabalhar, depois de perder o seu mandato de deputado, da legislatura de 1879-1880, não conseguindo a reeleição. Ele volta para Pernambuco em 1884, participando da campanha e, aí sim, se elegendo novamente para o Parlamento. Os seus vibrantes discursos ficaram registrados no livro Campanha abolicionista no Recife: eleições de 1884. Possivelmente estes dois livros sejam a obra mais bem fundamentada sobre as campanhas em favor da abolição.

Segundo Evaldo Cabral de Mello, o melhor livro do século XIX, sobre o Brasil. Um livro precursor.

Para além da questão humana, a ideia motriz de seu livro é a força e o vigor do trabalho livre e o caráter destruidor de todas as instituições civilizatórias que ocorre com o apresamento desse trabalho pela escravização de seres humanos por outros seres humanos, criando a esdrúxula relação entre senhores e escravizados, em contradição com todos os princípios afirmados por crenças morais e religiosas e pela evolução da civilização e afirmação dos direitos universais dos seres humanos, contando entre eles, a igualdade de raças. Os malefícios da escravidão estão presentes na corrosão e destruição generalizada provocada por esta instituição que fundamentou a economia brasileira por mais de trezentos anos. 

O livro que eu li é uma publicação da Folha de S.Paulo, do ano 2000, da coleção Brasil 500, Grandes nomes do pensamento brasileiro. Essa publicação tem um precioso prefácio de autoria de Leonardo Dantas Silva, da Fundação Joaquim Nabuco e um guia de leitura, ao final, de autoria de Jean Carvalho França, sob o título, Joaquim Nabuco e a construção do Brasil. O corpo do livro tem 17 capítulos, que constituem uma obra de rara profundidade em termos de história e da iniciante sociologia brasileira, sem deixar de ser também uma obra de economia e de fundamentos éticos, morais e filosóficos. Um livro a figurar entre as grandes obras da humanidade.

Rapidamente passarei a enunciar os títulos dos capítulos e me deter em alguns deles: Prefácio. I. Que é o abolicionismo; II. O partido abolicionista; III. O mandato da raça negra; IV. Caráter do movimento abolicionista; V. "A causa já está vencida"; VI. Ilusões até a independência; VII. Antes da lei de 1871; VIII. As promessas da lei da emancipação; IX. O tráfico de africanos; X. Ilegalidade da escravidão; XI. Fundamentos gerais do abolicionismo; XII. A escravidão atual; XIII. Influência da escravidão sobre a nacionalidade; XIV. Influência sobre o território e a população do interior; XV. Influências sociais e políticas; XVI. Necessidade da abolição - perigo da demora; XVII. Receios e consequências - conclusão.

Os capítulos em que mais me detive com anotações foram o XII, onde ele vai fundo nas dores do cotidiano do escravizado, pelo constante assédio moral que sofre e que provoca a total anulação de sua personalidade; o XV, que versa sobre a total atrofia das faculdades humanas e de todas as energias de que os indivíduos são portadores, tanto dos senhores, quanto dos escravizados. Me lembrei muito da Dialética do Escravo, de Hegel. Também me vieram à mente, embora já em desuso nas ciências humanas, fortes imagens do parasitismo entre os vegetais e a atrofia de parasitas e parasitados; e o XVII, o capítulo da indignação e das denúncias dos malefícios da escravidão. 

O primeiro olhar de Nabuco sobre a escravidão é histórico. Primeiro, do movimento do qual ele é um dos mais ativos participantes, que é o do movimento abolicionista, causa que passou a ser defendida pelo seu partido, o Partido Liberal. Depois o seu olhar histórico se volta para a escravidão em si. Mostra os seus três momentos de dor maior: a captura, o tráfico e o cotidiano. Crimes contra a humanidade. Esses três momentos são o roteiro de muitos livros que hoje se ocupam do tema. Também denuncia a total ilegalidade da escravidão, pelas leis acordadas com os ingleses, relativas ao tráfico (Lei de 7 de novembro de 1831, que declarava livres todos os escravos vindos de fora do Império).  

O livro ganha maior intensidade na fundamentação a partir da abordagem dos fundamentos do abolicionismo e da necessidade de sua abolição total. No capítulo XI, contra a escravidão, aponta os princípios cardeais do processo civilizatório, que tem a sua raiz mais profunda no princípio maior - de que não há propriedade do homem sobre o homem, -, e indica casos mais específicos para que o Brasil proceda imediatamente a abolição em função da ruína econômica que ela provoca, que escancara a vergonha brasileira perante as outras nações, e que, uma pátria comum só pode se edificar sobre os princípios da liberdade, da igualdade e da solidariedade humana.

No capítulo XII a atenção recai sobre o ano da escrita do livro, o ano de 1883. Neste ano todas as instituições brasileiras, toda a organização do Estado estavam ainda a serviço da escravidão. Mostra o absurdo de uma nação livre, em que juízes, o exército e a armada estão a serviço de uma instituição ilegal, imoral e contrária à liberdade. Mas a força maior do capítulo está em mostrar as pressões que o cotidiano da escravidão exerce sobre o escravizado. Este cotidiano lhe atrofia o trabalho livre, a força da inteligência, bem como todos os seus movimentos e atividades. Esse assédio moral, de 24 horas diárias, se repete diariamente até a obtenção total da anulação da personalidade, anulação marcada pela obediência cega, pela ausência da reflexão e pela total resignação e sujeição. Já não existem mais sujeitos, ou então, sujeitos que foram anulados em sua essência. A essa resignação de sujeição total, é que alguns historiadores querem chamar de escravidão abrandada, de escravidão suavizada.

No capítulo XIII, ao final do mesmo, encontramos uma citação em alemão, que sintetiza o capítulo: Die Luft leibeigen war. traduzindo, o ar era servo. O ar que se respirava estava contaminado pela escravidão. Como construir uma nação sob os princípios inibidores das capacidades humanas? Observo que este capítulo precisa ser lido com cuidado, pois ele reflete pensamentos dominantes deste momento histórico. Mas o fundamental é que sob a escravidão não se constrói uma grande nação. No capítulo XIV, além da questão humana, o abolicionista mostra também a relação incompatível entre o homem e a natureza, marcada pela exploração, sem nenhum cuidado com a preservação. No interior brasileiro a situação era ainda mais grave. A distância provocou o desconhecimento das reais situações de abusos. Tudo acontecia longe de qualquer olhar.

Já chamei particular atenção para o capítulo XV. Mas, quero realçar o teor da análise sobre os impactos sociais e políticos da escravidão. Isso é o fundamental e exige toda uma reflexão filosófica sobre o trabalho e o seu mundo de relações. A escravidão impossibilita qualquer desenvolvimento humano. Ela é o impedimento de qualquer perspectiva de ascensão e de transcendência do humano. O que significa ter diante da vida a única dimensão da dependência e da sujeição? É a morte das faculdades humanas, da iniciativa, da invenção e de toda a energia individual. A escravidão representa um fechar-se em si mesmo em termos econômicos, inibindo todo o seu dinamismo de expansão de oportunidades e de possibilidades. É uma condenação perpétua a uma vida rudimentar e de limites no campo da economia. Não haverá comércio, não haverá indústria, não haverá imigração. Pela prática da usura, toda a economia acabará concentrada nas mãos dos traficantes. Significa a morte das pessoas de talento e o abrigo de bajuladores e aduladores no serviço público, custeados pelos impostos e pelo endividamento. Essa situação de paralisia amealhou todas as forças a serviço dessa força bruta, altamente contagiosa e profundamente impregnada em nossas instituições. A escravidão é altamente refratária ao progresso.

O capítulo XVI vem na sequência com a grave interrogação. Por que perpetuar esta absurda situação, quem são os beneficiados desse sistema, por que retardar a abolição? Por que deixar para o dia seguinte o que já deveria ter sido feito na véspera?

Sob o brado de que a escravidão avilta o país e paralisa a economia ele lança a sua indignação final, sobre o seu significado para a moral, para a política, para a economia e para a organização social. Me permitam a transcrição. "O que esse regime representa, já o sabemos. Moralmente é a destruição de todos os princípios e fundamentos da moralidade religiosa ou positiva - a família, a propriedade, a solidariedade social, a aspiração humanitária: politicamente, é o servilismo, a degradação do povo, a doença do funcionalismo, o enfraquecimento do amor da pátria, a divisão do interior em feudos, cada um com seu regime penal, o seu sistema de provas, a sua inviolabilidade perante a polícia e a justiça; econômica e socialmente, é o bem-estar transitório de uma classe única, e essa decadente e sempre renovada; a eliminação do capital produzido, pela compra de escravos; a paralisação de cada energia individual para o trabalho na população nacional; o fechamento dos nossos portos aos imigrantes que buscam a América do Sul; a importância social do dinheiro, seja como for adquirido; o desprezo por todos os que por escrúpulos se inutilizam ou atrasam uma luta de ambições materiais; a venda dos títulos de nobreza; a desmoralização da autoridade desde a mais alta até à mais baixa; a impossibilidade de surgirem individualidades dignas de dirigir o país para melhores destinos, porque o povo não sustenta os que o defendem, não é leal aos que se sacrificam por ele, e o país, no meio de todo esse rebaixamento do caráter, do trabalho honrado, das virtudes obscuras, da pobreza que procura elevar-se honestamente, está, como se disse dos estados do Sul, 'apaixonado pela sua própria vergonha'" (Página 164).

Joaquim Nabuco era um liberal e um monarquista. Era um reformador e não um revolucionário. Era admirador da monarquia inglesa, por ela ter feito, sempre no seu devido tempo, as reformas que evitaram revoluções. O livro foi muito bem recebido pelo público e no ano de 1884 o teremos de volta ao Recife, em nova campanha eleitoral para o Parlamento. Vitorioso, assiste ao desfecho da escravidão, com o alerta, de que deveríamos também acabar com a obra da escravidão, se não quisermos a sua continuidade por outras formas. Em seu Campanha abolicionista no Recife: eleições de 1884,ele é mais contundente na apresentação das reformas que ele pleiteava e deixo a sua frase mais explosiva, revestida do calor da oratória, própria dos discursos. "Senhores, a propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra à propriedade, como não faz honra aos poderes do Estado. Eu, pois, se for eleito, não mais separarei as duas questões, - a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão".

Ainda antes da abolição houve outra lei de caráter protelatório, a lei 3.270, de 28 de setembro de 1885, a Lei Saraiva-Cotegipe, que declarava livres todos os escravos ao completarem 60 anos de idade.

 Deixo também o link da análise dos discursos pronunciados no Recife no ano de 1884.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/06/campanha-abolicionista-no-recife-1884.html   



quarta-feira, 15 de junho de 2022

Memórias da Cantina da Lua. Clarindo Silva. Pelourinho Salvador.

13 de maio de 2022. Uma sexta feira. 13 de maio, data da abolição. Proclamei uma abolição meio particular, abolição da pandemia, abolição válida apenas para efeitos de viagem. Meu amigo Valdemar Reinert me convidou para assistirmos ao Show de Caetano Veloso "Meu Coco", no histórico Teatro Castro Alves, em Salvador. Ele já havia comprado os ingressos, sempre raros, num show de Caetano. Seria para o dia 21, sábado. Com alguns atrasos de voo, chegamos a Salvador ao final da tarde. Lá pelas 21h00 já estávamos em Santo Amaro da Purificação. E, desde já, lanço uma advertência, nunca chegue na cidade sem hotel reservado, ainda mais quando se trata de uma data histórica como o dia da abolição.

Memórias da Cantina da Lua. Clarindo Silva. Ele, na capa de seu livro.

Outro dia eu conto sobre Santo Amaro da Purificação, sobre a festa do Bembé do Mercado, sobre o "Lá em Carla", o restaurante de grandes conversas, sonhos, projetos e, por óbvio, de cervejas e sabores. A festa do mercado e dona Canô foram o tema de nossas conversas e maravilhamentos. Como lembrança, trouxe até o santo da Purificação. Ainda no Recôncavo, conhecemos Cachoeira e São Félix. Em Cachoeira, confesso, cometemos um pecado, que será preciso expiar, purificar. Não tomamos uma cerveja nos inúmeros bares ao longo do rio Paraguaçu, contemplando a ponte metálica que liga as cidades e entabularmos conversas sobre a história da cidade, berço da independência.

Costeando o Recôncavo e já noite, estávamos na ilha de Itaparica, mas sem ainda experimentarmos a rejuvenescedora água da "Fonte da Bica", nem  a casa do escritor famoso da ilha. Deu tempo sim, de tomar o saboroso caldinho de sururu. Mas não fomos a Salvador, o nosso destino, sem conhecermos as maravilhas e os sabores do Manguezal. Local de passar, dia inteiro.

O sábado e o show nos aguardavam. Depois de virar e revirar a cidade, na manhã deste sábado, resolvemos dar mais uma volta pelo Pelourinho. Valdemar estava à procura de um caixa eletrônico. "É ali", nos indicaram. Era um restaurante, e numa lateral estava o caixa. Na entrada, um senhor todo de branco e gravata cuidadosamente enfeitada. Rodeado de livros, a todos recebia com amplos sorrisos. Ao fundo do restaurante algumas faixas e cartazes. Um deles chamou particular atenção. "Palco do centenário de Riachão". Foi motivo suficiente para parar com as minhas preocupações de estômago e nos abancarmos. Estávamos num lugar épico e histórico e o senhor de terno branco era Clarindo Silva, o Dom Quixote do Pelourinho. Ali consumimos sabores e também o resto da tarde. Cada vez que você entabula uma conversa com alguém, é um mundo à parte que se abre. Clarindo nos abriu o livro de seus 80 anos de vida e setenta de trabalhos e de resistências. Estávamos na Cantina da Lua. 

"A Cantina da Lua fica numa esquina do Terreiro de Jesus, diante da Catedral Basílica, ao lado da Faculdade de Medicina, a primeira do país, tendo como vizinha a secular Igreja de São Pedro dos Clérigos. É, poderíamos dizer assim, a porta de entrada para o Pelourinho, na esquina da rua principal, que, descendo, vai dar no Largo do Pelô, onde estão localizadas a casa de Jorge Amado e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, ali onde ficam o Museu da Cidade, as sedes do Olodum, dos Filhos de Gandhy, a casa do Benin, mais embaixo, o acesso ao Taboão, a subida para o Carmo e o Além do Carmo". Isso nos é contado no livro Memórias da Cantina da Lua, o livro de Clarindo Silva. Além das memórias há os depoimentos. O registro acima é do jornalista zédejesusbarreto, à pagina 117.

O livro de Clarindo já está na sua sexta edição. Ele é dividido em três partes. Na primeira, Clarindo conta as suas memórias, que se confundem com as da Cantina da Lua e a sua luta pela preservação do Pelourinho, a segunda conta com depoimentos de frequentadores e amigos e a terceira é composta de um álbum de registros fotográficos.

Entre as memórias, Clarindo lembra de sua chegada, vindo de Conceição do Almeida, cidade do Recôncavo. Lembra de seus primeiros trabalhos, vendendo frutas da estação, até o primeiro emprego no Bazar Americano, até o arrendamento da Cantina da Lua, onde se estabeleceu no ano de 1971, para nunca mais sair. A pedagoga Kátia Melo nos conta que "a política baiana, a cultura local e a boemia se entrelaçavam na Cantina, que era e é hoje, uma espécie de caldeirão cultural de Salvador". Por aí passaram, o samba da Bahia, jornalistas, os escritores Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, os políticos e todos os que valorizaram a cultura. Clarindo, além da luta pela preservação da cultura e da restauração do Pelourinho também deu seus passos na política, meio desajeitados, em função de suas práticas, incompatíveis com o seu jeito de ser e de pensar. Política para ele era a defesa de causas e não o assistencialismo corruptor.

De Dóris Pinheiro tomo dois depoimentos; o do seu sonho do que seria a Cantina da Lua, antes de conhecê-la, e, uma definição de quem é Clarindo. "Eu me lembro que quando eu era garota e lá em casa se falava sobre a Cantina da Lua, que eu ficava imaginando que devia ser um lugar assim como aqueles livros do Jorge Amado, cheio de boêmios, intelectuais, jornalistas, artistas. Um lugar impregnado de Bahia, com comida gostosa, cerveja gelada, cachaça da boa, noites intermináveis de conversa e música. Homens charmosos, mulheres livres e bonitas". Clarindo, ela não imaginou, apenas conseguiu constatar. "Para mim Clarindo Silva é tipo um semi Deus afrobaiano, filho direto de um Orixá. E afilhado de santos católicos poderosos".

Este cartaz - Palco Centenário Riachão nos fez entrar na Cantina da Lua.

No álbum de fotos encontramos Clarindo com os amigos, com os jornalistas, e ele é um deles, com escritores, com políticos, com monsenhores e com Mãe Stella de Oxóssi, e sobretudo com os homens e mulheres da música, do samba. E lembrando, que em defesa do Pelourinho, Clarindo foi se queixar até para o Papa, entregando para João Paulo II, na Catedral Basílica, as reivindicações do povo baiano, denunciando também "a mortalidade infantil, o ódio racial, a esterilização da mulher negra, além de blanterar contra a degradação do Centro Histórico, enfatizando o abandono da primeira Escola dos jesuítas e da Igreja da Barroquinha", nos conta Germano Tabacof.

Para encerrar, deixo meio solto o jornalista zezédejesusbarreto, com as sua belas palavras na orelha da capa, misturando Clarindo com a Cantina. "Clarindo é negro, preto que se veste de branco pela força dos mistérios afrobaianos. Babá Funfun! Clarindo é magro, sutil como seu riso. Clarindo é um príncipe da cidade da Bahia, uma entidade do Terreiro de Jesus. Um cavaleiro, Quixote do Pelô! Um cavaleiro galante. Clarindo é um ícone de resistência, um signo de esperança, exemplo de perseverança. Sua negra figura esguia paramentada de brancura é fina grandeza, pura delicadeza. Bravura e brandura.

Uma coisa e outra, ou todas as coisas misturadas, assim como pimenta, dendê, leite de coco, marisco, pinga e melaço..., angu encubado, tempero verde de balaio de feira, moqueca, maniçoba, panelada do Recôncavo. Clarindo é uma cantina, lua cheia. Cantina da Lua que se fez morada, porto, festa, bênção, castelo, farol de São Salvador. A cantina da Lua, de Clarindo Silva, é um espaço de baianidade único, dia e noite, pois assim nasceu e foi criado, assim foi cuidado e se conserva, a despeito das ressacas e das marés. Dali daquelas janelas da esquina, encruzilhada do Terreiro, Clarindo viu e vê tudo, presenciou e foi agente em nosso Centro Histórico. Escravidão, fausto, puteiro. Capoeira, brega, tambores, malandragens, droga, poesia e procissão. Bênção e condenação".

À noite, o tão sonhado show do Caetano. Caetano é simplesmente Caetano. E, durante o show, um sonoro FORA BOLSONARO, do próprio artista. Por que será que "Meu coco" não vem para a desacreditada "República de Curitiba?".

E quando for a Salvador, um encontro com Clarindo. Nem precisar marcar. Como chegar? Está tudo bem explicado. Ah, sim! Ganhei autógrafo: "Ao amigo Elói. Um pouco da minha história de vida, recheada de depoimentos de celebridades que como você (muito obrigado - mesmo não sendo) visitaram a nossa Cantina da Lua, local de encontros e reencontros. Fé e resistência. Lua, 21.05.2022. Clarindo Silva.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Campanha abolicionista no Recife (1884). Discursos de Joaquim Nabuco.

Por uma razão que ainda não vou revelar, comecei a estudar de forma sistemática a obra de Joaquim Nabuco, aquela referente a abolição da escravidão. Sabemos que, pelo conjunto da sua obra, ele foi agraciado com o título de Patrono da Raça Negra. São três obras que procurarei estudar mais detalhadamente: O abolicionismo (1883), Campanha abolicionista no Recife (eleições - 1884) e Minha formação (1900). Comecei pelos seus discursos proferidos às vésperas da eleição de primeiro de dezembro para a formação de um novo Parlamento. Joaquim Nabuco lá já estivera, na legislatura de 1879-1880. Na eleição de 1881, junto com um maremoto escravista, foi derrotado, como outros candidatos do Partido Liberal.

Campanha abolicionista no Recife. Joaquim Nabuco. Em edição impressa.

O livro, de domínio público que eu li, é da Brasiliana USP. - Ex libris José Mindlin, com 235 páginas. Devo confessar que é pela primeira vez que leio um livro em sua forma digital. Não é tão difícil assim. Joaquim Nabuco fez uma campanha intensa, discursando quase todos os dias. Existem, no total 23 discursos, mas a Comissão Central Organizadora do Recife conseguiu doze deles para publicação. Os restantes não foram taquigrafados e nem o autor os revisou. Ficaram, portanto, fora de publicação. Ao final do livro, em seu índice, temos listados os pronunciamentos. São os seguintes:

Prefácio do Dr. Aníbal Falcão. Primeira Conferência - Pernambuco e o apelo à nação (Teatro Santa Isabel - 12 de outubro); Discurso - 26 de outubro (Teatro Santa Isabel); Segunda Conferência - Reformas sociais (Teatro Santa Isabel - 1º de novembro); Meeting popular - Praça de São José de Riba-Mar (5 de novembro); Discurso no Monte-Pio de Pernambuco - A emancipação e as instituições de Previdência (Sessão Magna - 9 de novembro); Terceira Conferência - A minha carreira pública (Teatro Santa Isabel - 16 de novembro); Meeting popular na Magdalena - O abolicionismo e a riqueza particular (16 de novembro); Meeting popular no Recife - A escravidão e o comércio (Largo do Corpo Santo - 28 de novembro); Discurso aos artistas - a escravidão e o trabalho (Campo das princesas - 29 de novembro); Quarta conferência - A véspera da eleição (Teatro Santa Isabel -30 de novembro); Quinta Conferência - O 2º escrutínio (Teatro Santa Isabel - 6 de janeiro de 1885); Sexta Conferência - O Novo Parlamento (Teatro Santa Isabel - 18 de janeiro).

O histórico Teatro Santa Isabel. O local mais frequente de seus discursos.

Pelas falas, a campanha não foi fácil. Nabuco era o candidato do Partido Liberal, que teve como adversário o Partido Conservador. Nabuco fez uma campanha de ideias e a defesa de uma causa, enquanto que os adversários, a fizeram na "cabala", com o dinheiro do sangue originário dos escravos. À eleição não faltaram as fraudes e o escrutínio terminou em grande confusão, com motim popular e mortes, na Praça de São José. Houve novo escrutínio, do qual Nabuco saiu vencedor. Isso nos é contado na quinta e na sexta Conferência.

Creio que podemos diferenciar os discursos quanto à forma. Quanto ao conteúdo, foi sempre o mesmo, a defesa da causa da abolição diante da corrosão moral de toda uma sociedade sob o sistema da escravidão. Nas conferências, em ambientes fechados, a fala é racional, lógica, argumentativa. Nas praças, o acréscimo da força do discurso com seus apelos emocionais. Todo o conteúdo de suas falas já fora anunciado em seu livro O abolicionismo, livro escrito na Europa com a finalidade específica de oferecer para a campanha abolicionista brasileira a força da racionalidade dos argumentos. Razão em função libertária e humanizadora.

Joaquim Nabuco era um liberal, monarquista e reformista. Muito de sua formação é europeia. De lá observou a evolução dos regimes políticos, especialmente o da Inglaterra, dos Estados Unidos e da França. A sua preferência recaiu sobre os ingleses. Lá houve reformas gradativas, que evitaram a eclosão de revoluções violentas. Por isso era ardoroso defensor das reformas e donde veio a sua tese central, de que não bastaria abolir a escravidão, também seria necessário acabar com a sua obra. Uma pena não ter sido ouvido. Nabuco chegou até a ser acusado de deputado de uma única causa, o que não deixa de ser altamente elogioso. Considerava que a escravidão corroía todas as instituições políticas e sociais e os princípios fundadores do processo civilizatório. Representava também um total desprezo pelo trabalho.

Como podem observar pelo índice apresentado, os seus discursos eram temáticos. Também as praças escolhidas para os discursos o eram. Se dirigia aos comerciantes, aos artistas, isto é, aos artesãos ou aos trabalhadores das artes e dos ofícios, aos homens da terra, aos comerciantes, além de prestar contas de sua atividade pública. São discursos extremamente bem articulados. O local mais frequentado foi o histórico Teatro Santa Isabel. De todos os discursos eu selecionei três passagens. A primeira é da Segunda Conferência, proferida no Teatro Santa Isabel, onde fala da degradação do trabalho sob a escravidão e, profeticamente, fala de uma nova escravidão que estaria por vir:

"Peço o voto dos operários, porque represento a liberdade, a dignidade do trabalho, e eles sabem que ainda mesmo quando a escravidão tiver morrido em nosso país, quando não houver mais escravos nem senhores, o espírito maldito que degradou e aviltou o trabalho, e que hoje atrofia o nosso país, tendo perdido as senzalas, há de continuar a esvoaçar como uma ave de rapina sobre os trabalhadores livres. Sim, eles devem saber que o poder insaciável de sangue humano que, julgando certa a perda do tributo africano, já lança olhos cobiçosos para o imenso manancial de homens que se chama China, vendo-se sem outros recursos, há de procurar - ou por meio do capital acentuado ou por outro qualquer meio de domínio - escravizar os homens livres, e que teremos que assistir a esforços para criar uma escravidão talvez pior que a verdadeira escravidão: a da pobreza, a da miséria, a da falta de trabalho, a da fome". Páginas 61-62 / 39-40. Hoje assistimos a essas proféticas e tristes heranças de um país escravocrata.

A segunda, é a passagem mais famosa, talvez a mais famosa de toda a obra do abolicionista, que foi pronunciada na Praça de São José do Riba-Mar, um bairro pobre e na qual houve os incidentes com mortes, no escrutínio das eleições. Foi o discurso em que ele associa a libertação com a questão da terra: "Senhores, a propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra à propriedade, como não faz honra aos poderes do Estado. Eu, pois, se for eleito, não mais separarei as duas questões, - a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão. Compreende-se que em países velhos, de população excessiva, a miséria acompanhe a civilização como a sua sombra, mas em países novos, onde a terra não está senão nominalmente ocupada, não é justo que um sistema de leis concebidas pelo monopólio da escravidão produza a miséria no seio da abundância, a paralisação das forças diante de um mundo novo que só reclama trabalho". Página 71 / 49. A outra questão era a do acesso à educação, proibida aos escravos pela Constituição de 1824. À propriedade da  terra, pela legislação de 1850, só seria possível o acesso pela compra mediante dinheiro sonante. Não eram aceitas as mediações do Estado.

A terceira citação é retirada do discurso da véspera, 30 de novembro, mais uma vez no Teatro Santa Isabel. É uma denúncia e uma conclamação: "Sim, em nome do passado e do futuro, denuncio ao povo do Recife reunidos nos seus comícios, aquela instituição que para ser condenada pela consciência humana basta ser chamada pelo seu nome de escravidão. Eu a denuncio como incursa em todos os crimes do Código Penal, em todos os mandamentos da lei de Deus. A vós, artistas (artífices - trabalhadores), eu a denuncio como o roubo do trabalho; a vós, sacerdotes, como o roubo da alma; a vós, capitalistas, como o roubo da propriedade; a vós magistrados, como o roubo da lei; a vós, senhoras, como o roubo da maternidade; a vós pais, filhos, irmãos, como o roubo da família; a vós, homens livres, como o roubo da liberdade; a vós, militares, como o roubo da honra; a vós, homens de cor, como o roubo de irmãos; a vós, brasileiros, como o roubo da pátria... sim a todos eu denuncio essa escravidão maldita como o fratricídio de uma raça, como o parricídio de uma nação". Efetivamente, a escravidão corrompia a todas as instituições (Páginas 184-185 / 162- 163).

No final da apresentação do livro O abolicionismo, editado pela Folha de S. Paulo, em edição comemorativa aos "500 anos de Brasil", Leonardo Dantas Silva, da Fundação Joaquim Nabuco, nos conta do restante da sua trajetória política. Em 1885 foi eleito pelo 5º Distrito e em 1887 foi mais uma vez vitorioso. E assim termina o seu relato: " Com essa vitória (1887), na qualidade de de deputado por Pernambuco, o Patrono da Raça Negra assiste à concretização de seu sonho maior, a Promulgação da lei nº 3353, de 13 de maio de 1888, que considerava extinta a escravidão no Brasil".

No livro sobre o abolicionismo, o seu livro mais elaborado, veremos em maior profundidade todo o seu pensamento  sobre a abolição, mas ela também deverá ser, necessariamente, acompanhada de reformas sociais, sob pena de conhecermos as suas novas formas. E não poderia deixar de perguntar, sobre o sentido de todas as reformas trabalhistas em curso no Brasil, depois do golpe de Estado de 2016 e de todo o processo de uberização e de intermitência do trabalho. À lei áurea não correspondeu uma via áurea que inscrevesse os negros libertos numa sociedade de classes, capitalista e competitiva. A lei áurea pode ter libertado o corpo do escravo, mas a manteve em suas novas formatações. Uma escravidão ainda pior, a do trabalhador livre. 




 



 

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Meu muito querido Pedro. Fal Azevedo e Suzi Castelani.

"Nossos últimos anos não foram como eu gostaria. Aliás, os primeiros também não, sejamos francos. Porém eu o amei, Pedro, à minha própria maneira, e sempre lhe desejei o bem. Acima de tudo, amei e amo este país de todo coração. Cuide dele, permita que cresça forte, livre, independente. Não ceda a chantagens, não coloque nada acima dele. Com a minha partida, é sua, e apenas sua, a responsabilidade de cuidar do Brasil. E que Deus o ajude se não o fizer. Despeço-me, fraca demais para continuar. Sua, sempre, Leopoldina".

Meu muito querido Pedro. Fal Azevedo e Suzi Castelani. Drops Editora. 2021.

Assim termina Meu muito querido Pedro, livro assinado por Fal Azevedo e Suzi Castelani. Em uma espécie de apêndice, em que são apresentados dados biográficos de Leopoldina, lemos: "A doença que por fim vitimou D. Leopoldina levou-a ao delírio em várias ocasiões. Em seus delírios, suspeitava estar sendo envenenada pelos médicos, amaldiçoava o marido e a amante dele, Domitila". Uma forte expressão de seus sofrimentos. Lamentos em feminino.

Na contracapa do livro temos uma espécie de carimbo a nos dizer - VENCEDOR, com o seguinte esclarecimento: Prêmio de Incentivo à Publicação Literária. 200 anos de Independência. Os 200 anos de independência nos proporcionam uma bela oportunidade para conhecer melhor a conjuntura e os bastidores da mesma, pouco divulgados em nossos livros de história. O livro tem uma escrita primorosa, sob a forma de cartas, que Leopoldina escrevera para o seu marido, o muito querido Pedro. Querido. Nem tanto!

Na abertura do livro, logo após a apresentação da árvore genealógica de Maria Leopoldina, a Imperatriz do Brasil, temos o seguinte esclarecimento: "O diário a seguir foi encontrado pela pesquisadora e professora universitária, Dra. Daniela Hernandez, enquanto pesquisava antigas listas de livros adquiridos pela família real brasileira que agora se encontram sob os cuidados da Biblioteca Nacional. A Dra. Hernandez submeteu o original a especialistas que o estudaram por dois anos e autenticaram a veracidade de sua procedência".  É a forma do livro. Cartas escritas ao marido. E que cartas! Cartas de uma princesa austríaca, educada no Castelo de Schönbrunn e pertencente à família dos Habsburgos, remanescentes do Sacro Império Romano-Germânico. Além disso, mais para tormentos do que para glórias, foi cunhada de Napoleão Bonaparte.

Ela teve vida curta (1797-1826), apenas 29 anos e, grávida por nove vezes, com partos sem a devida assistência. O seu casamento obedeceu a um arranjo político, em meio a uma conjuntura geopolítica das mais complicadas. Afinal, são os tempos de Napoleão e da vinda da família real portuguesa ao Brasil. Além de ter Pedro como marido, teve ainda em Carlota Joaquina a sua sogra. Na página 100 do livro, encontramos uma indagação fundamental, que reflete toda a sua vida de angústias. Uma vida dedicada estritamente ao cumprimento de deveres é uma vida humana? E, a esses deveres, ela cumpriu resignadamente. 

Volto aos 200 anos da independência. Seus bastidores. Dona Leopoldina assistiu a tudo. Enquanto Pedro viajou para São Paulo em missão de pacificação, ela permaneceu no Rio de Janeiro, na qualidade de Princesa Imperial Regente. Sua atuação, junto com José Bonifácio, uma das poucas companhias esclarecidas que ela teve, foi decisiva para a Independência. Foram suas as cartas enviadas para Pedro em São Paulo. Essa atuação lhe fez valer o título de PALADINA da independência junto com o que foi conferido a José Bonifácio, como o seu PATRIARCA.

Mais do que ninguém, ela compreendeu a sua missão como imperatriz de um novo império, que era a de manter a unidade e a paz, ameaçada pelas rebeliões nas províncias. Pedro nem sempre compreendeu esta missão. Pedro estava mais preocupado com a sua Titília, que conhecera em sua missão pacificadora em São Paulo. A violência de Pedro para com Leopoldina era tal, a ponto da própria Domitila, a Titília, intervir pedindo para que ele parasse de bater. Eis uma reflexão sua: "Destruir meu corpo não foi difícil. Menos de dez anos foram suficientes para arrasá-lo. A alma, no entanto, ainda anseia por beleza, calma e conforto. Uma alma, fora do seu corpo, é capaz de voar"?

Enfim, eu diria, que se trata de um livro para curiosos e para os que apreciam uma boa escrita. Para os curiosos, para saberem dos bastidores da nossa independência e para conhecerem os tormentos dos casamentos que atendiam a fins geopolíticos. Pedro, como tive oportunidade de escrever no prefácio do livro, "se preocupava, e muito, com pândegas, rameiras e cavalos. Nutria-se cotidianamente dos mais primitivos instintos de um ser ainda a caminho do humano". Vejamos apenas uma de suas convicções, assim relatada numa das cartas: "Ouvi o senhor dizer, certa vez, que pobreza, doença e imoralidade andam de mãos dadas. Eu rezo muito para que este país um dia deixe de julgar os pobres culpados de sua condição". E reafirmo, o livro também se destina aos que apreciam uma boa escrita. Na orelha do livro, encontramos a expressão disso, na palavra de Pedrão Vitello: "Como uma valsa, numa narrativa de aproximação e afastamento, Fal e Suzi cuidam dos detalhes, dos olhares, da solidão, da incompreensão e da delicadeza - e nem sempre no bom sentido - das relações que tecemos com pessoas, cargos e países".

O livro é fruto de uma cuidadosa pesquisa e, ao final, temos a indicação de suas fontes, com a apresentação da bibliografia que possibilitou o mesmo. E reafirmo o meu orgulho e envaidecimento pela oportunidade de prefaciar o livro. Ele é uma publicação da Drops Editora, do ano de 2021. Um livro especial para presentear alguém por ocasião da efeméride dos 200 anos da nossa não tão "independência". Um livro que distingue e referencia a quem o dá e a quem o recebe.



terça-feira, 7 de junho de 2022

Um banquete no trópico. 36. Os índios e a civilização. Darcy Ribeiro.

 Este é o trigésimo sexto e último trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da análise de João Pacheco de Oliveira, antropólogo do Museu Nacional - da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de Os índios e a civilização, de Darcy Ribeiro. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume II, nas páginas 403 - 422, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. O conceito fundamental do livro é o de transfiguração étnica e a sua primeira publicação data do ano de 1970. Esse conceito está explicitado no subtítulo - a integração das populações indígenas no Brasil moderno.

Os índios e a civilização. Darcy Ribeiro. O livro sob análise.

João Pacheco inicia a sua resenha falando que Darcy escreveu este livro tendo presente duas lealdades fundamentais: com a seriedade do trabalho científico e com uma profunda vinculação humana com as populações indígenas, com as suas diversidades socioculturais, com a sua penosa integração social e com o destino trágico de suas micro etnias. A sua segunda lealdade confere ao livro um grave tom de indignação e de denúncia.

O resenhista situa o livro como "escrito em linguagem simples e direta, despreocupado em exibir racionalidades ou uma erudição sufocante, tornando explícito seu comprometimento com as populações que estuda, Os índios e a civilização constitui um leitura útil e fascinante mesmo para o leitor comum. Sua carga informativa não é excessiva nem desvinculada dos conceitos que possibilitam compreender qual é e como foi gerada a condição presente das populações indígenas brasileiras, bem como a significação dos mecanismos e políticas acionados por diversos agentes para resolver a questão indígena". Ainda o situa ao lado das grandes interpretações de Brasil como Casa-Grande&Senzala e Raízes do Brasil. Entra também nas grandes polêmicas da época, a respeito da integração ou desaparecimento dessas populações.

Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico. Neste livro a resenha de João Pacheco de Oliveira.

Afirma a característica da miscigenação como uma das marcas da população brasileira, destacando a presença da mulher indígena no primeiro século de colonização. Não havia praticamente mulheres brancas ou negras. Também apresenta dados históricos como a das tentativas da escravização, o isolamento e as constantes investidas coloniais na expansão da pecuária, das lavouras e de atividades extrativistas e mineradoras, com grandes perdas de núcleos tribais, populacionais e socioculturais. As tendências apontavam para a extinção ou para a adaptação. Apresenta os dados de Julian Stewart, de que no ano de 1500 havia no Brasil 1,1 milhão de indígenas e em 1948, apenas 50 mil, e que, entre 1500 e 1957 houve o desaparecimento de 87 etnias. Às etnias sobreviventes seria necessário garantir a sobrevivência. Vejamos o resenhista: 

"Para conseguir sobreviver essas etnias devem responder a desafios urgentes, buscando preservar sua identidade e autonomia étnica, bem como 'assegurar a continuidade de sua vida cultural mediante alterações estratégicas que evitem a desintegração de seu sistema associativo e a desmoralização completa do seu corpo de crenças e valores'. Esse processo adaptativo, que se impõe como imperativo aos grupos indígenas que sobreviveram ao extermínio, faz com que eles permaneçam indígenas 'já não nos seus hábitos e costumes, mas na auto-identificação como povos distintos do brasileiro e vítimas de sua dominação'. É a isso que Darcy Ribeiro chama de 'transfiguração étnica', afirmando que 'o impacto da civilização sobre as populações tribais dá lugar a transfigurações étnicas e não a assimilação plena"'.

Darcy Ribeiro não é apenas um intelectual, um professor ou um escritor. Ele não atua no abstrato. É também um ator. Aprendeu com Rondon, mas foi para muito além dele. Foi Darcy quem deu os fundamentos do indigenismo brasileiro e quem contribuiu decisivamente para a criação do Parque Indígena do Xingu. Além disso, sempre disse um grande não para a neutralidade. Sempre pôs o seu conhecimento a favor das populações indígenas.

O próprio Darcy define o objetivo de seu livro e de seu trabalho. "Alcançar uma compreensão acurada das situações de interação entre índios e frentes de expansão, a fim de chegar a generalizações significativas sobre o processo de mudança cultural". O plano da obra se divide em três partes. A primeira, visa uma visão de conjunto da sociedade indígena e as frentes de expansão agrícola, pastoril e extrativista, formas de expansão arcaica e despótica, que indicavam para a extinção das culturas. Na segunda, ele mostra as formas de integração entre índios e brancos, a etnocêntrica, romântica e absenteísta. Visou a superação das visões extremadas, em favor da igualdade de condições. Historia a fundação (1910) e a atuação do SPI, até a sua extinção, em 1967, mostrando ainda a atuação dos sertanistas. Na terceira parte ele aprofunda a questão das transfigurações étnicas e analisa o destino dos índios no Brasil.

Darcy também tem clareza  da relação que se estabelece entre a ciência e a ética, sendo a sobrevivência física das populações indígenas a sua preocupação maior, frente as ameaças representadas pela frentes expansionistas das fronteiras econômicas, pelas forças de mercado. Analisa os postos indígenas e a atuação dos antropólogos, condenando as transposições mecânicas. Aí volta para o tema da transfiguração étnica, um processo de sucessivas alterações. Ela obedece a quatro níveis diferentes: o ecológico; o biótico; o tecnológico e sócio econômico; o étnico cultural e sócio psicológico. Visou fundamentar um estatuto teórico para os seus trabalhos de preservação da identidade cultural das populações indígenas brasileiras.

Considera que a integração sempre foi uma acomodação penosa e apresenta dados do ano de 1957, com a diminuição da população e desaparecimento de etnias, apelando para sentimentos humanitários contra a tendência de destruição. Assim ele se manifesta, argumentando que "representando apenas um por mil da população brasileira, os índios são hoje quase inexpressivos no conjunto da nação e seus problemas são imponderáveis como problema nacional [...] as terras de que necessitam e a assistência de que carecem lhes podem ser concedidas sem grandes sacrifícios". Hoje ocupam 18,4% do território da Amazônia e 10% do território brasileiro, muitas dessas  terras em áreas de mananciais e de preservação ambiental. Ele ainda aponta para as perspectivas que se ofereciam ao tempo da escrita do livro, assim apresentadas pelo resenhista: "Embora o Estado brasileiro continue a ser responsável em última instância pelo bem-estar e pelo respeito aos direitos dos índios, não mais possui um poder de tutela sobre eles, que se fazem representar por organizações próprias, que já operam com recursos e parcerias múltiplas, mobilizando apoios em muitos níveis de ação". E João Pacheco de Oliveira assim termina a sua resenha:

"Afastando-se dessas posturas divergentes, Darcy aponta para os cientistas brasileiros uma direção original e crítica - a de uma ciência social consciente de seu enraizamento em uma conjuntura histórica específica, preocupada com o exercício da pesquisa empírica e com a elaboração teórica mas compromissada com os grupos sociais mais desfavorecidos. Recusando-se à condição de ideólogo e justificador do status quo, tomando os índios do Brasil e seus problemas como referência, com esse livro Darcy alcançou projeção nacional e internacional, produzindo o mais lido e conhecido estudo sobre os povos e culturas indígenas de nosso país".

Assim chego ao final desse trabalho levando uma certeza. Quem mais aprendeu fui eu. Como gostaria, que ao menos o mundo acadêmico, tivesse a oportunidade da leitura desses verdadeiros clássicos. Apresento ainda o link das cenas finais da vida de Darcy, quando ele recebe a extrema-unção de Leonardo Boff. Seria o que eu chamaria de uma boa morte. Darcy seguramente partiu em paz.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/04/darcy-ribeiro-recebe-extrema-uncao-de.html

E, ainda uma indicação de Antônio Cândido, do que ele considera o melhor livro sobre o tema nos tempos atuais. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/indios-no-brasil-historia-direitos-e.html



  



domingo, 5 de junho de 2022

Um banquete no trópico. 35. A integração do negro na sociedade de classes. Florestan Fernandes.

Este é o trigésimo quinto trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html 

Trata-se da resenha que Gabriel Cohn, professor do Departamento de Ciência Política da FFCH da Universidade de São Paulo, fez de A integração do negro na sociedade de classes, de Florestan Fernandes. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, volume II, páginas 385 a 402, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. O livro, de dois volumes, aborda essa questão profundamente paradoxal. A integração do negro numa sociedade de classes. A primeira publicação data do ano de 1964.


A integração do negro na sociedade de classes. Florestan Fernandes. O livro sob análise.

O livro, de dois volumes, O legado da raça branca e O limiar de uma nova era, trata da formação de uma sociedade de classes em São Paulo. Trata, portanto, de um dos mais vivos problemas na formação da sociedade brasileira, como o é o da formação de uma sociedade de classes. Limiar de uma nova era era o nome dado ao principal órgão da imprensa negra nesse período. O livro é mais expressão de promessas do que o seu cumprimento, mais de anseios do que sua realização, mais de obstáculos do que trajetos bem sucedidos. Trata de um entrecruzamento de dois graves problemas, o dos ex-escravizados e a formação de uma sociedade de classes. Qual seria o caminho a percorrer? Haveria a abertura de espaços para a integração? Quais seriam as possibilidades de organização e de afirmação como classe?

Não há caminho reto e plano a percorrer. Se houve uma dita "Lei áurea" não houve uma "via áurea" para a efetivação da integração social. O negro deveria se afirmar como negro e como classe. A via, não áurea, o empurrava para o beco. Obstáculos praticamente intransponíveis impediam essa via. A história da sociedade brasileira se defrontava com o dilema de que o passado e o presente comprometiam irremediavelmente o nosso futuro. Mas não era essa a perspectiva da obra. Seria necessária uma mudança qualitativa nas relações. O antigo cativo, agora era um homem negro, membro ativo de uma classe. Sem isso, o dilema se apresentava como insolúvel. Mas como se efetivaria essa mudança? Como pode o antigo cativo afirmar-se como um agente de transformações históricas, liberar as forças antes tolhidas? O negro entra no âmago da história e não à sua margem, nas análises de Florestan. O negro é o povo.

Ao negro coube o pior ponto de partida, de largada, nessa disputa histórica dentro de uma sociedade de classes. Não era mais inteiramente excluído e nem devidamente equipado para a inclusão. Nesse processo era ele o mais vulnerável. Ele move-se em círculos econômicos e políticos fechados que atravessam toda a nossa história, embora, não mais afirmados como tal. Mas esse povo quer emergir da história. Era a parte mais penalizada e a integração não se daria como um dom, mas como uma tarefa, uma missão. Vejamos uma parte dessa análise, na interpretação do resenhista:

'"O ainda, o aqui e o agora formaram o objeto de nossas indagações', esclarece o autor na apresentação da obra. Por isso, acrescenta, 'a constelação social constituída pela ordem social competitiva impôs-se como sistema de referência inevitável nas descrições e interpretações'. Repare-se que o foco da análise não é um tipo de sociedade. Este somente é a referência básica (mesmo que o autor explicitamente não vê razão para crer que, tal como se apresenta, essa sociedade pudesse proporcionar 'as soluções efetivas para o dilema racial brasileiro'). Nem mesmo é o negro como categoria social específica, ou nem sequer  as relações entre negros e brancos. O objeto real do estudo é a complexa e tensa dinâmica em que se entrelaçam o presente, o legado do passado e as possibilidades futuras na sociedade brasileira". A identificação de um legado histórico. Ir para além desse legado. Ele contém um fardo e uma promessa. Carga do passado e potência do presente. Um passado de persistência e um futuro como projeção. Os vetores e as linhas de força.

Introdução ao Brasil - um banquete no trópico. Nesse livro a resenha de Gabriel Cohn.

A partir desse ponto o resenhista entra na análise da estrutura da obra, uma obra de 795 páginas. Começa mostrando Florestan e a familiaridade com o tema, a partir de pesquisa realizada junto com Roger Bastide, da qual saiu o livro Brancos e negros em São Paulo. Na continuidade, duas décadas de dedicação ao tema, com enormes avanços especialmente sobre o conceito de "democracia racial", conceito que fundamentava a pesquisa anterior, financiada pela UNESCO. Em uma de suas análises surge um novo personagem, o personagem do povo brasileiro e este povo brasileiro era formada por negros. Do conceito de "democracia racial" ele evolui para o conceito mais amplo de uma democracia em toda a sociedade. E esta democracia tem obstáculos estruturais e de resistências muito fortes para que ela se concretizasse em todas as suas dimensões, a começar pela política. A partir daí apresenta o conteúdo e a forma dos dois volumes de sua obra.

A primeira é mais teórica. Fundamenta-se na coleta de dados retirados de livros, jornais, artigos e relatórios e a segunda consta da análise da pesquisa de campo. O resenhista apresenta alguns dados que considera mais relevantes, como a questão do legado da raça branca, título do primeiro volume. Os brancos viram-se livres de seus escravos, mais do que estes ganharam a sua liberdade. O foco é a cidade de São Paulo e a grande perspectiva é a de como os escravizados, agora livres, reuniam condições de sobrevivência numa sociedade de classes, competitiva, portanto. Para agravar a sua situação somavam-se às condições que traziam da escravidão, a concorrência sofrida com a chegada maciça da vinda de imigrantes europeus. Teriam que disputar os mesmos espaços. O resenhista assim procura interpretar o autor:

"Confrontados com experiências como a do contrato de trabalho eram levados a interpretá-las sob um critério rígido: nada que lembrasse as condições anteriores era aceitável, sobretudo quando estavam envolvidas restrições a uma liberdade percebida de modo difuso. Viam-se, assim, em situações em que o próprio modo como traduziam seu empenho na integração social voltava-se contra eles. Mesmo quando buscavam absorver uma exigência do novo modo de vida, como a ambição por riqueza e o avanço social, o faziam de maneira desastrosa. Essa ambição existia, mas foi 'exatamente a causa de sua perda, pois fomentou opções extremamente rígidas e negativas', comenta o autor. Nessas condições, 'a sociedade de classes torna-se uma miragem, que não lhe abre de pronto nenhuma via de redenção coletiva'. Nessa etapa inicial [...] a liberdade apresenta-se para o povo negro de modo ainda ambivalente, como exigência radical e também como fonte de frustrações. Mas, comenta o autor, 'para expurgar-se de uma herança cultural perniciosa e converter-se em homem livre, o 'negro precisava viver em liberdade. Se chegou a usar a liberdade contra si, isso aconteceu, porque não sabia proceder de outro modo..."'.

Eles teriam que cumprir um 'destino humano', com enormes impactos da liberdade sobre a constituição de sua personalidade. O livro ganha uma grande dramaticidade. Faltavam ao negro suportes perceptivos e cognitivos para uma 'boa' organização do comportamento humano. Florestan chega a usar termos que superam o que antes designava por heranças culturais intransponíveis como 'apanhados numa ratoeira'. Ele padecia de carência de técnicas sociais e culturais diante de sua nova situação. Constantemente ouvia expressões como "Aprenda a agir como branco" ou "Aprenda que você não é branco". Enfim, o problema da inserção numa sociedade de classes era um grande problema que se apresentava para toda a sociedade brasileira. E uma grande e grave pergunta. Até aonde vai a lealdade dos brancos nessa tarefa de integração. Afinal, esta integração não se daria no 'fechado mundo dos brancos'? Vejamos esse mundo, na voz do resenhista:

"Nesse sentido, 'a ordem social competitiva emergiu e expandiu-se, completamente, como um autêntico e fechado mundo dos brancos'. Mas uma ordem social simultaneamente competitiva e fechada é uma aberração, uma fonte de dilemas insolúveis. Claro, concordaria Florestan, e poderia acrescentar: é isso mesmo que eu queria mostrar, examinando como se deu e em nome do que persiste. Mas é a aberração em que historicamente nos foi dado viver, na qual a inconformidade negra não tem como vencer, nem como desistir". O resenhista ainda selecionou um parágrafo relativo aos preconceitos raciais. Vejamos:

"Ao mesmo tempo, não obstante, amortecem ou anulam as repercussões das tendências de democratização da riqueza, do prestígio social e do poder na esfera das relações raciais. Descobre-se, assim, uma faceta deveras instrutiva da nossa realidade racial. Ela sugere que assiste razão aos que apontam o Brasil como um caso extremo de tolerância racial. Entretanto, também evidencia o reverso da medalha, infelizmente negligenciado: a tolerância racial não está a serviço da igualdade racial e, por conseguinte, é uma condição neutra em face dos problemas humanos do 'negro', relacionados com a concentração racial da renda, do prestígio social e do poder. Ela se vincula claramente, de fato, à defesa e à perpetuação indefinida do status quo racial, através de efeitos que promovem a preservação indireta das disparidades sociais, que condicionam a subalternização permanente do negro e do mulato. As vítimas do preconceito e da discriminação são encaradas e tratadas, com relativo decoro e civilidade, como pessoas; contudo, como se fossem pela metade. Os seus interesses materiais ou morais não entram na linha de conta. O que importa, imediata e realmente, é a 'paz social', com tudo o que ela representa como fator de estabilidade dos padrões de dominação racial".

Diante dessa afirmação, dois pequenos parágrafos do resenhista como conclusão. "As consequências desse estado de coisas são muito fundas. Na consciência social do 'branco' o 'preconceito de cor' aparece 'como se constituísse uma necessidade maldita'. E, na mais pungente frase do livro: 'O negro prolonga, assim, o destino do escravo'.

Seres humanos pela metade. Necessidade maldita. prolongamento do destino do escravo. Conclusão: é tempo de se promover a Segunda abolição.

Deixo ainda o link da outra obra de Florestan Fernandes. A revolução burguesa no Brasil.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-19-revolucao.html 

E como de hábito, o trabalho anterior, Ordem e progresso, de Gilberto Freyre.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/06/um-banquete-no-tropico-34-ordem-e.html




sexta-feira, 3 de junho de 2022

Um banquete no trópico. 34. Ordem e progresso. Gilberto Freyre.

Este é o trigésimo quarto trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da análise feita por Élide Rugai Bastos, professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, de Ordem e progresso, de Gilberto Freyre. A resenha encontra-se em  Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, volume II, nas páginas 357 a 384, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. A primeira edição do livro data de 1959. Trata das transformações ocorridas no Brasil, na transição do Império para a República. A análise alcança, assim, a última década do século XIX e as três primeiras do XX.

Ordem e progresso. Gilberto Freyre. O livro sob análise.

A primeira observação da resenhista Élide Rugai Bastos sobre Ordem e progresso é relativa a uma observação de Freyre na apresentação: Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil - 3. Assim ele sugere uma unidade entre os seus três grandes livros. A formação pré nacional e nacional da sociedade brasileira em Casa-Grande&Senzala, a decadência do patriarcado rural até a República em Sobrados e mucambos e a análise da última década do século XIX e as três primeiras do XX, em Ordem e progresso. Os dois primeiros volumes tem o nordeste como cenário, enquanto que o terceiro, já abrange o Brasil inteiro. Segundo a crítica, este terceiro volume não teve o mesmo alcance que os dois anteriores.

A resenhista afirma ser o livro uma resposta à pergunta de como se manteve, na mudança do regime monárquico para o republicano, a organicidade da sociedade e a unidade nacional. De como se manteve a ordem democrática em meio a alterações bastante acentuadas, alterações na linguagem, nas crenças, na moda, na higiene, no sanitarismo, na urbanização, nas instituições e na economia. As diferentes regiões tem também ordem e progresso diferenciados. A base para o livro são entrevistas que Freyre realizou junto a pessoas que viveram as transições. O livro não é basicamente organizado em capítulos, mas em ensaios. O livro mostra também a quase total apatia do povo com relação às mudanças ocorridas. Houve uma adesão sem entusiasmo.

Três teriam sido os fatores responsáveis pelo relativo êxito do novo regime: a manutenção da integridade territorial, a defesa da propriedade e a defesa das liberdades individuais. Nenhuma voz poderosa saiu em defesa da Monarquia. Não éramos ainda um povo, numa definição sociológica. O lema "Ordem e progresso", privilegiava muito mais a ordem do que o progresso. Os nossos maiores revolucionários eram conservadores. Aqui os ventos revolucionários franceses sempre tiveram pouca força. A República representava uma continuidade de nosso passado, tendo o exército como guardião da ordem.

Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico. Nesse livro a resenha de Élide R. Bastos.

Uma importante parte do livro é dedicada às novas formas de socialização, acompanhando o fenômeno da transição do mundo rural para o urbano. Preserva-se, no entanto, todas as distinções entre a socialização dos meninos e das meninas e os modos europeus se impõem às do mundo rural do passado. Esse fenômeno passa por uma grande mudança em todos os hábitos e costumes. Mudanças também são trazidas pelo fenômeno da industrialização e da imigração. Abrem-se espaços, ainda que pequenos, para a democratização das relações sociais e dos mecanismos de ascensão social. Na educação ocorrem mudanças de método e de conteúdo.

Também merece destaque a observação de que a mudança mais profunda não foi a da Monarquia para a República, mas sim, a da abolição da escravidão, emancipação mais teórica do que prática. Houve também grandes dificuldades de inserção do negro e da mulher nas estruturas sociais em mudança, fator que causou grandes insatisfações, afetando a estabilidade social. O país necessitaria de mudanças mais profundas, as de superfície já não davam conta da manutenção da ordem. A indústria representou a modernização mas relegou a um segundo plano a economia do campo. Houve também toda uma secularização nos valores que regiam a sociedade. A assistência social saiu das instituições de caridade para as mãos do Estado, o que representou um total abandono. A religião perdeu a sua condição de guardiã da moralidade, os costumes se secularizaram e a liberdade religiosa foi ganhando força. Tudo isso como consequência da separação entre Igreja e Estado, no advento da República. A análise ainda passa pela ebulição dos anos 1920. A questão social vai ganhando força e a República passa a viver a sua grande crise, crise de descompasso entre o governo e a sociedade. A modernização foi feita de cima para baixo. Sempre uma modernização conservadora.

Em suma, o livro que não é de fácil leitura, procurou a resposta à pergunta inicialmente feita. Vejamos o parágrafo final da resenha: "A tarefa que Gilberto propõe à sociologia é a resposta à pergunta: como se mantém a organicidade e a unidade nacionais? Vai buscá-la na análise das formas pelas quais se dá a internalização da ordem social, no caso do texto, através do processo de socialização. Aqui reside o grande alcance de seu livro. Mas também o seu limite, o que levou a que se fizessem várias críticas ao trabalho, principalmente na direção de apontar-se a centralidade de sua análise na esfera da cultura, o que o impede de abordar de frente os desafios contidos no projeto emancipatório da modernidade".

Deixo ainda a resenha dos dois livros anteriores. Casa-Grande&Senzala

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-10-casa-grande.html

E Sobrados e mucambos. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/06/um-banquete-no-tropico-33-sobrados-e.html



quarta-feira, 1 de junho de 2022

Um banquete no trópico. 33. Sobrados e mucambos. Gilberto Freyre.

 Este o trigésimo terceiro trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha feita por Brasílio Sallum Jr., professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, de Sobrados e mucambos, de Gilberto Freyre. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, volume II, nas páginas 327 a 356, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. Sobrados e mucambos analisa o processo de urbanização do Brasil e a decadência do patriarcalismo que se formou nos três primeiros séculos de nossa colonização. Além disso o livro desfaz o mito de que a miscigenação seria um fator impeditivo para o nosso desenvolvimento. A primeira publicação data do ano de 1936.

Sobrados e mucambos. Gilberto Freyre. O livro sob análise.

O livro teve boa recepção mas não chegou a repetir os êxitos de Casa-Grande&Senzala. Na segunda edição o livro veio com acréscimos e reformulações. É um livro contra as crenças da época, de que clima, raça e a incivilidade dos portugueses seriam um impedimento para o nosso processo civilizatório. A partir da destruição desses pilares foi possível uma nova visão, uma visão positiva para o Brasil. O livro também louva a miscigenação, que se refletiu numa maior adaptabilidade, ao contrário da rigidez calvinista dos ingleses. O livro, nesse sentido, representa uma continuidade de Casa-Grande&Senzala ao romper com os complexos de inferioridade e afirmar possibilidades de grandeza para Brasil. O livro tem como foco a organização patriarcal da sociedade brasileira. Vejamos as palavras do resenhista: "Com efeito, no período colonial brasileiro, a família patriarcal arraigada no meio rural fora a forma de organização social mediante a qual os processos de miscigenação cultural e racial se desenvolveram, amortecendo as oposições inerentes às relações entre brancos e escravos de cor".

O subtítulo de Sobrados e mucambos também entrega o teor do livro: decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano. O fenômeno do urbano passa a ocorrer com maior intensidade a partir do final do século XVIII e ao longo do século XIX. A vinda da família real ao Brasil (1808) foi decisiva para tal fator. O livro está estruturado em torno de doze capítulos, escritos em forma de espiral, com idas e vindas.

Introdução ao Brasil - um banquete no trópico. Neste livro, a análise de Brasílio Sallum Jr. 

Raça, classe e região se constituem no âmago do livro. O patriarcado colonial brasileiro foi muito mais do que a simples família e agregados. Foi uma verdadeira instituição, um complexo econômico, social e político, com inúmeras variações, ocorridas ao longo de quatro séculos. Foi uma espécie de organização feudal da economia, com toda a rigidez da inflexibilidade da mobilidade social, permitida apenas por pequenas brechas, possíveis graças ao pastoreio e o cultivo de alguns produtos para a auto suficiência da Casa-Grande. Apesar de toda a rigidez da estrutura, a miscigenação aconteceu com a fusão racial e cultural entre portugueses, negros africanos e as populações indígenas nativas. Vejamos este fato nas palavras do próprio Freyre:

"Até o que havia de mais renitentemente aristocrático na organização patriarcal de família, de economia e de cultura foi atingido pelo que sempre houve de contagiosamente democrático ou democratizante e até anarquizante, no amalgamento de raças e culturas e, até certo ponto, de tipos regionais, dando-se uma espécie de despedaçamento das formas mais duras, ou menos plásticas, por excesso de trepidação ou inquietação dos conteúdos".

Essa estrutura patriarcal rural começa a ruir com o fenômeno da urbanização, em que a cidade se volta contra o engenho e o Estado começa a intervir na estrutura da família. A Coroa e a cidade entram em conflito com a aristocracia rural. A urbanização, que já iniciara em Pernambuco e em Minas Gerais se acentua com o estabelecimento da família real no Rio de Janeiro. A vida urbana se adensava. Todos queriam estar sob o olhar do rei. Freyre aponta para o surgimento do urbano. Ocorreu "uma diminuição da distância não só física como social entre a gente senhoril e atividades mecânicas, comerciais, industriais que começaram a desenvolver-se, nas mesmas cidades, em relativa independência dos senhores de sobrados, embora, principalmente, para seu uso e conveniência". E o resenhista acrescenta. "A serviço dos sobrados surgiram marcenarias e carpintarias, boticas e drogarias, sorveterias onde também vendiam-se doces finos; lojas de miudezas ou de ferragens, armazéns de secos e molhados, alfaiatarias, casas de pianos e de música, colégios, bancos, etc.".

Começam então também os enormes contrastes urbanos, mas em formas diferentes da organização patriarcal. Se acentuam as polarizações sociais. Vejamos duas citações em referência. "... os jardins, os passeios chamados públicos, as praças sombreadas de gameleiras, e, por muito tempo, cercadas de grades de ferro semelhantes às que foram substituindo os muros em redor das casas mais elegantes, se limitavam ao uso de gente de botina, de cartola, de gravata, de chapéu-de-sol [...] [Limitavam-se] ao uso e gozo do homem de certa situação social - mas do homem, a mulher e o menino conservando-se dentro de casa, ou, no fundo do sítio, quando muito na varanda, no postigo, no palanque do muro, na grade do jardim". Por outro lado, a exclusão.

"Não só os negros de pé no chão [...] como aos próprios caixeiros  de chinelo de tapete e cabelo cortado à escovinha e até aos portugueses gordos de tamanco e cara raspada estavam fechados aqueles jardins e passeios chamados públicos, aquelas calçadas e ruas nobres, por onde os homens de posição, senhores de barba fechada ou de suíças, de botinas de bico fino, de cartola, de gravata, ostentavam todas essas insígnias de raça superior, de classe dominadora, de sexo privilegiado, à sombra de chapéus-de-sol de quase réis".

Com a urbanização surgiram outras vozes, para além do patriarca, como a da Igreja, do governo, do banco, do colégio, da fábrica, da oficina, da loja, do médico, do juiz, da polícia. Tudo isso significou redução do poder patriarcal. A praça voltara-se contra a roça, o Estado contra a família e o governo contra o Patriarca. Um dos mais belos capítulos, com certeza, é o que trata das relações familiares, marido e mulher, pais e filhos. Constata-se o minar do poder do Pater familias, pela diminuição da distância entre os seus membros. Ventos de emancipação individual. É o capítulo terceiro que trata da relação pai e filho. Dissolvem-se as chamadas pedagogias sádicas da violência, da imposição pela força. Da mesma forma mudaram as relações marido e mulher, que sob o patriarcado eram relações mórbidas.

Freyre mostra a origem dessas mudanças: "muito menos devoção religiosa que antigamente. Menos confessionário. Menos conversa com as mucamas. menos história da carrochinha contada pela negra velha. E mais romance. O médico da família mais poderoso que o confessor. O teatro seduzindo a mulher elegante mais que a igreja. O próprio "baile mascarado" atraindo senhoras de sobrado". Mas no geral, os espaços femininos ainda se limitavam aos espaços domésticos. Mas de uma maneira geral, os fenômenos sociológicos começaram a se impor aos fatores biológicos.

Outro fenômeno observado por Freyre é a volta da europeização com a urbanização. Com a abolição do tráfico, as influências orientais trazidas pela cultura africana se fragilizam e, com a vinda da família real, se acentuam as influências europeizantes. O mesmo ocorre com a ida dos filhos da aristocracia às universidades europeias. Na volta trazem junto os hábitos adquiridos ao longo de suas permanências. As influências inglesas e francesas passam a ser totalmente preponderantes. Para isso também contribui a chamada revolução tecnológica, fenômeno que também mexeu na rigidez da estrutura social, permitindo possibilidades de ascensão. As relações sociais se burocratizam. A urbanização também permite a ascensão do bacharel e do mulato. Ocorre inclusive, o chamado fenômeno do bacharelismo, fenômeno esse acusado de tantos males, por motivo de transposições culturais das instituições europeias, alheias à realidade brasileira. O bacharelismo se acentua com a criação dos cursos de Direito no Recife e em São Paulo.

Em suma, Freyre destaca o elemento da miscigenação em nossa formação como altamente positivo. "O característico mais vivo do ambiente social brasileiro parece-nos hoje o da reciprocidade entre as culturas; e não o marcado pelo domínio de uma sobre a outra, ao ponto da de baixo nada poder dar de si, conservando-se como em outros países de miscigenação, num estado de quase permanente crispação ou de recalque".

Por fim, os dois parágrafos finais da análise do resenhista, destacando os valores da miscigenação, biológica e social: "E acrescenta, incluindo os imigrantes no argumento: 'Biológica e sociologicamente mestiça. Pois consideráveis grupos de populações meridionais do Brasil, cuja situação de filhos de italianos, poloneses, alemães, sírios, japoneses assemelha-se psicologicamente e sociologicamente - embora não culturalmente - à de mestiços, dão extensão à caracterização da massa brasileira como massa mestiça'. Isso permitiria entender por que há, ao invés, incompreensão entre a massa brasileira e os líderes de tipo 'europeu'.

Essas e outras questões, que dizem respeito ao surgimento no Brasil de uma sociedade ao mesmo tempo mestiça, diversificada, na sua composição étnica e cultural e predominantemente individualista na sua organização familiar, não são tratadas com mais minúcia em Sobrados e mucambos. São deixadas para o próximo volume da série, Ordem e progresso".

Deixo ainda a resenha de Casa-Grande&Senzala.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-10-casa-grande.html 

E, como de hábito, o trabalho anterior, Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Viana.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-32-populacoes.html