sexta-feira, 28 de junho de 2013

O que é a Ilustração. O mais belo texto de Filosofia. Sapere Aude!

Antes de iniciar a minha viagem por Portugal, Espanha e Paris e deixar este blog descansando por praticamente um mês, quero deixar aqui, o que é para mim, o mais belo texto de toda a história da filosofia. O que não seria a humanidade se ela atingisse esse grau de consciência, de emancipação, a partir do Esclarecimento, da Ilustração, ou como diriam os alemães, da Aufklärung? Mas vejamos o texto:

"A ilustração (Aufklärung) é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele é o próprio responsável. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do entendimento sem a condução de um outro. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando sua causa reside  não na falta de entendimento, mas na falta de resolução e coragem para usá-lo sem a condução de um outro. Sapere aude!  'tenha coragem de usar seu próprio entendimento!' - esse é o lema da ilustração.
kant - Obra de tal modo que uses la humanidad siempre como un fin y nunca
sólo como un medio
Kant, o grande filósofo da Aufklärung, da emancipação pelo Esclarecimento.

Preguiça e covardia são as razões pelas quais uma tão grande parcela da humanidade permanece na menoridade mesmo depois que a natureza a liberou da condução externa (naturaliter maiorennes); e essas são também as razões pelas quais é tão fácil para outros  manterem-se como seus guardiões. É cômodo ser menor. Se tenho um livro que substitui meu entendimento, um diretor espiritual que tem uma consciência por mim, um médico que decide sobre a minha dieta e assim por diante, não preciso me esforçar. Não preciso pensar, se puder pagar: outros prontamente assumirão por mim o trabalho penoso.

Que a passagem à maioridade seja tida como muito difícil e perigosa pela maior parte da humanidade (e por todo o belo sexo) (o que é isso, Kant?) deve-se a que os guardiões de bom grado se encarregam de sua tutela. Inicialmente os guardiões domesticam o seu gado, e certificam-se de que essas criaturas plácidas não ousarão dar um único passo sem seus cabrestos; em seguida, os guardiões lhes mostram o perigo que as ameaça caso elas tentem marchar sozinhas. Na verdade, esse perigo não é tão grande. Após algumas quedas, as pessoas aprendem a andar sozinhas. Mas cair uma vez as intimida e comumente as amedronta para as tentativas ulteriores.

É muito difícil para um indivíduo isolado libertar-se  da sua menoridade quando ela tornou-se quase a sua natureza [...].

Uma imagem símbolo da Ilustração, Esclarecimento, ou do Iluminismo.

Mas que o público se esclareça a si mesmo é muito perfeitamente possível; se lhe for assegurada a liberdade, é quase certo que isso ocorra... Sempre haverá alguns pensadores independentes, mesmo entre os guardiões das grandes massas, que, depois de terem-se libertado da menoridade, disseminarão o espírito de reconhecimento racional tanto de sua própria dignidade quanto da vocação de todo homem para pensar por si mesmo. Mas note-se que o público, que de início foi reduzido à tutela por seus guardiões, obriga-os a permanecer sob jugo, quando é estimulado a se rebelar por guardiões que, eles próprios, são incapazes de qualquer ilustração. Isso mostra quão nocivo é semear preconceitos; mais tarde, voltam-se contra seus autores ou predecessores. Sendo assim, apenas lentamente o público pode alcançar a ilustração. Talvez a destruição de um despotismo pessoal ou da opressão gananciosa ou tirânica possa ser realizada pela revolução, mas nunca uma verdadeira reforma nas maneiras de pensar. [Enquanto essa reforma não ocorre], novos preconceitos servirão, tão bem quanto os antigos, para atrelar as grandes massas não pensantes.

Entretanto, nada além da liberdade é necessário à ilustração; na verdade, o que se requer é a mais inofensiva de todas as coisas às quais esse termo pode ser aplicado, ou seja, a liberdade de fazer uso público da própria razão a respeito  de tudo. [...]

A pedra de toque para o estabelecimento do que devem ser as leis de um povo está em saber se o próprio povo poderia ter-se imposto as leis em questão. [...]

O que o povo não pode decretar para si próprio muito menos pode ser decretado por um monarca, pois a autoridade legislativa deste último baseia-se em que ele une a vontade pública geral na sua própria. A ele incumbe zelar para que todas as melhorias, verdadeiras ou presumidas, sejam compatíveis com a ordem civil; fazendo isso, ele pode deixar aos súditos que busquem eles próprios o que lhes parece necessário à salvação de suas almas".

Este texto, que salvo engano, encontra-se na Crítica da Razão Prática foi extraído do livro Os Clássicos da Política. Volume dois, organizado por Francisco Weffort. O texto sobre Kant e a seleção de textos é da autoria de Regis de Castro Andrade.

Em outro texto kant esclarece sobre os obstáculos: " Nossa época é propriamente a época da crítica à qual tudo tem de submeter-se. A religião por sua santidade, e a legislação, por sua majestade, querem comumente esquivar-se dela. O que kant diz com tanta elegância, Diderot teria dito de forma extremamente irreverente: "A humanidade só será feliz, quando o último padre (sua santidade) for enforcado com as tripas do último rei" (sua majestade).


8 comentários:

  1. Muito útil pra mim esse conteúdo... irei apresentar um trabalho na faculdade hoje sobre esse assunto e só agora consegui entender, graças as suas palavras. Muito obg por todo esse conhecimento!

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  2. Meu amigo. É impossível ser mais claro do que Kant foi neste texto. Um dos formuladores maiores do iluminismo nos dá a definição. Que bom que o texto lhe foi útil. É ainda importante ressaltar que a razão não foi suficiente para explicar toda a complexidade humana. Muito obrigado pelo seu comentário e um abraço.

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  3. Marcos Lisboa é docente no curso de graduação que faço, esse texto é objeto de estudo em nosso curso de filosofia.
    Se entendi, a menoridade é uma ilustração para a condição de dependência em que o humano se coloca motivado pela preguiça e covardia e é aí que entram em cena os guardiões que os mantem nesse status dependente ao preço de privar-lhes da capacidade de pensar autonomamente. Muito obrigado pela contribuição Professor Pedro.

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  4. Oi Thiago Henrique. É como eu digo no post, o mais belo texto de filosofia. Ouse saber. A menoridade é, por comodidade ou preguiça, permanecer na caverna de Platão. Que bom que estás estudando filosofia. Agradeço o seu comentário.

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  5. Com relação aos guardiões ou tutores da consciência dos indivíduos citados por kant quem seriam eles naquela epoca ?

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  6. Devemos nos libertar de sua Santidade e de sua majestade e de todos os que impedem o pensar, que prescrevem receitas e fórmulas prontas, meu caro anônimo.

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  7. Thiago Henrique, Sapere Aude. Ouse saber. Agradeço o seu "bravo".

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