segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DOSSIÊ CHINA. DA REVOLUÇÃO DE 1949 ATÉ OS DIAS DE HOJE.

Um dos fatos mais importantes dos últimos tempos é, sem dúvida, a ascensão econômica e da importância política nas relações internacionais da República Popular da China. Ninguém que queira, ao menos minimamente, estar ao par dos acontecimentos, pode ficar alheio a essa ascensão. Recentemente li quatro livros sobre o tema, fiz as suas resenhas e as deixei registradas no blog. Este post de agora tem por finalidade deixá-las registradas num único espaço.


China - o socialismo do século XXI e China - Tradição e modernidade na governança do país.

Os dois primeiros livros eu já os tinha em minha estante. Comprei-os ainda na década de oitenta. Os dois últimos são livros recentes. Eles tem uma ampla abrangência e envolvem a história e a cultura desse povo singular. O foco principal, no entanto, é o entorno do ano de 1949, quando a Revolução, sob a liderança do Partido Comunista e sob o comando de Mao Tsé-Tung, se tornou vitoriosa. Passa pela Revolução Cultural (1966-1976), na qual Mao promoveu expurgos que visavam a preservação dos princípios revolucionários e chega às últimas reformas, iniciados ao final do ano de 1978, sob o governo de Xiaoping, e que, rapidamente, transformaram a economia chinesa na segunda maior economia do mundo. Um mundo a ser desvendado. Foram leituras muito proveitosas  e ilustrativas. Uma espécie de introdução aos estudos sobre esta nova potência mundial de nossos tempos.

O primeiro dos livros nos remete à história da China, especialmente ao longo do século XX. Um país de latifúndios, de economia fechada e de guerras externas e internas. Foram longos anos de Guerra Civil, até chegar o ano de 1949, quando a Revolução de Mao se torna vitoriosa e é proclamada a República Popular da China. O grande foco do livro é Mao.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/pro-e-contra-mao-organizacao-do-texto-m.html

O segundo livro é de autoria de um dos conhecidos estudiosos do tema, Wladimir Pomar. Ele integra a coleção Revoluções do século XX. A sua publicação é do ano 2003. O livro examina todo o complexo processo revolucionário, desde suas origens, vitória e consolidação. O livro termina com o exame já das reformas do final dos anos 1980, quando se iniciam as reformas políticas e econômicas da China do século XXI.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/10/a-revolucao-chinesa-wladimir-pomar.html

O terceiro livro já é dos tempos da China dos dias de hoje. A sua primeira edição é do ano de 2021. China - O socialismo do século XXI. A autoria é dos pesquisadores Elias Jabbour e Alberto Gabriele. O livro é dividido em duas partes: I. Capitalismo e socialismo como modos de produção e II. A China como a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais: a construção de seu macrossetor produtivo. Não é um livro de leitura fácil. Ele pressupõe conhecimentos de história econômica e de economia clássica. Mas vale muito a pena a sua leitura.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/05/china-o-socialismo-do-seculo-xxi-elias.html

O quarto livro é de 2024. China - Tradição e modernidade na governança do país. O autor é Evandro Menezes de Carvalho. Ele é professor da Universidade de Língua e Cultura de Pequim. O livro é dividido em três partes: I. Da perda à retomada de rumo para a nação chinesa; II. Compreendendo os pilares institucionais da governança da China; III. O governo de Xi Jinping e a "nova era" pela revitalização da China. Um mergulho, por inteiro, na cultura chinesa e no governo atual de Xi Jinping. Super recomendo.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/china-tradicao-e-modernidade-na.html

Espero dessa forma deixar a minha modesta contribuição para com todos aqueles que queiram se iniciar nesse tão importante e apaixonante tema.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O PRÍNCIPE. Maquiavel.

Depois de ler sobre Maquiavel, creio termos atingido as condições necessárias para ler a sua principal obra e, termos dela, uma razoável compreensão. Vamos então, a algumas questões fundamentais de O Príncipe, no ousado intuito de oferecer algumas dicas que possam, possivelmente, servir de guia para a sua leitura. Sempre ouço falar das dificuldades em sua leitura. Ela decorre dos detalhes históricos que sempre são apresentados para ilustrar a sua argumentação. Ele é um livro de época e, escrito para a sua época. E essa época é de grandes transformações. Uma época em que o poder é arrebatado dos céus e passa a ser exercido aqui na Terra, pelos homens. E esses homens precisam ter algumas qualidades, sem as quais o fracasso dos príncipes será uma mera questão de tempo. Forças exteriores e superiores aos humanos não mais intervirão nos destinos da política.

O príncipe. Maquiavel. L&PM Pocket. 2007. Tradução do italiano: Antonio Caruccio-Caporale.

Datas são importantes. Não para serem decoradas, mas para serem contextualizadas. Dito isso, vamos a Maquiavel e situá-lo no tempo e no espaço. Ele nasceu no ano de 1469 e morreu em 1527, na cidade de Florença, na destroçada e dividida Itália de seu tempo. São tempos do Humanismo e do Renascimento. É retomada a visão clássica de mundo, dos gregos e romanos. A visão antropocêntrica se contrapõe a uma visão teocêntrica de mundo. Na casa de seus pais não havia grande riqueza material, mas havia a coleção dos volumes da história de Roma, de Tito Lívio. Isso dá origem a um outro grande livro do pensador - Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio e a outro importante princípio seu, a importância do estudo da história passada para a interpretação do tempo presente.

A visão que Maquiavel tinha dos seres humanos também é fundamental para a compreensão de sua obra. Vamos primeiramente ver uma definição sua a respeito: "Dos homens, em realidade, pode-se dizer genericamente que eles são ingratos, volúveis, fementidos, e dissimulados, fugidios quando há perigo, e cobiçosos. Enquanto ages em seu benefício, e contanto que a tua necessidade esteja ao longe, todos estão ao teu lado e oferecem-te o seu sangue, os seus bens, as suas vidas e os seus filhos. Ao avizinhar-se, porém, essa necessidade, eles esquivam-se. Um príncipe que se fie inteiramente na palavra desses homens, sem prover-se de quaisquer outras garantias, sucumbirá" (Capítulo XVII).

Outra questão importante diz respeito ao caráter repetitivo dessas características. Elas pertencem à própria natureza humana. E como são repetitivas, elas são previsíveis. Cabe ao príncipe fazer essas previsões e, a forma de fazê-lo, será o estudo da história, dos grandes príncipes do passado, especialmente, os do tempo de Roma, do seu período republicano. A história lhe dará exemplos de como agir e não agir. Eis a importância da presença dos livros de Tito Lívio em sua casa.

Também considero fundamental que se saiba algo em torno da forma da escrita de O príncipe. A forma é a do aconselhamento. Quando ele tinha em torno de 30 anos, ele exerceu um importante cargo político (segundo chanceler). Isso lhe conferiu bastante experiência política, assimilada a partir de suas observações e análises. Assim ele se viu na condição de dar conselhos aos governantes de seu tempo, aos príncipes. Quais os tipos de principados existiam, quais as qualidades necessárias ao príncipe, o que ele deveria evitar, que tipos de exércitos ele deveria ter, que estratégias aplicar... etc., etc. Estes conselhos estão ao longo de toda a obra, mas se concentram mais quando ele fala especificamente do príncipe. A leitura é bastante facilitada pelos títulos que ele dá aos 26 capítulos da obra, uma espécie de síntese de cada um deles.

A grosso modo, assim eles são apresentados: Do I ao XI ele fala sobre os principados. Os resultantes de conquistas, dos hereditários, dos mistos, exemplos históricos de como foram governados, sobre a importância do príncipe ter o povo a seu lado, sobre a prudência no agir, no medir a correlação de forças. Na sequência, dos capítulos XII ao XIV ele fala dos vários tipos de exército, de soldados mercenários, de forças próprias, do conhecimento do príncipe a respeito da estratégia militar. Mas creio que não erramos, em apontar nos capítulos XV ao XXV, o coração, a centralidade da obra, ao apontar as qualidades do príncipe para os novos tempos. Tempos em que a política não mais se guiará por desígnios divinos, mas estará na mão dos príncipes. Dela advirão os conceitos fundamentais da obra.

Já no capítulo XV, aparece o conceito da verdade efetiva das coisas. Da política como ela é e não como ela deveria ser. Vejamos: "Contudo, sendo o meu intento escrever coisas úteis àqueles que as lerão, parece-me mais conveniente conformar as minhas palavras à verdade efetiva do meu objeto que a uma visão imaginária do mesmo. Muitos foram os que conceberam repúblicas e principados que jamais foram vistos ou reconhecidos como tais" (Capítulo XV). Mas vamos adiante, com o título dos capítulos, acrescidos de alguma citação ou observação.

Capítulo XVI. Da liberalidade e da parcimônia. Que capítulo atual! Versa sobre os gastos do príncipe. Se ele agir perdulariamente ele terá que explorar o povo para praticar as suas liberalidades, o que não será um bom caminho. Vejam a pregação de hoje contra os impostos para cobrir os gastos públicos com os direitos sociais. Capítulo XVII. Da crueldade e da piedade, e se é melhor ser amado que temido ou o contrário. Vejamos, a partir do próprio Maquiavel. "Nasce daí o debate: se é melhor ser amado que temido ou o inverso. Dizem que o ideal seria viver-se em ambas as condições, mas, visto que é difícil acordá-las entre si, muito mais seguro é fazer-se temido que amado, quando se tem de renunciar a uma das duas" (Capítulo XVII). Isso é uma decorrência da sua concepção da natureza humana, tema exatamente tratado neste capítulo, possivelmente o mais importante do livro.

Capítulo XVIII. Como devem os príncipes honrar a sua palavra. Mais polêmicas à vista. Vejamos também pelo autor. "Em sendo assim, o príncipe deve fazer por onde alcançar e sustentar o seu poder: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos elogiados, e isto porque apenas às suas aparências e às suas consequências ater-se-á o vulgo, este vulgo cuja presença é predominante no mundo". É o capítulo onde aparece a famosa comparação com os animais. A astúcia do lobo e a força do leão. Vejamos as razões pelas quais o príncipe nem sempre precisa cumprir com a sua palavra: "Portanto, não pode nem deve um soberano prudente cumprir as suas promessas quando um tal cumprimento ameaça voltar-se contra ele e quando se diluem as próprias razões que o levaram a prometer. Se os homens fossem bons, bom não seria esse preceito; mas, visto que eles são pérfidos e que, em teu favor, tampouco honrariam a sua palavra, etiam tu não tens de sentir-te no dever de, em seu favor, honrar a tua".

O capítulo XIX é o mais longo dos capítulos. O seu título é: subtraindo-se ao desprezo e ao ódio. O que o príncipe não pode ser. Ele deve furtar-se de ser odiado e desprezado. Ele será odiado e desprezado "ao ser encarado como volúvel, fraco e leviano, e como pusilânime e irresoluto". Ao contrário disso, ele "deverá precaver-se contra isso como contra um escolho marinho, e empenhar-se para que em suas ações transpareça a grandeza, a coragem, a austeridade e a firmeza". É outro conceito fundamental em Maquiavel. O príncipe deverá ser dotado da virtù, para que, por ela, seja merecedor da fortuna. Ao príncipe é imprescindível a aliança entre a virtù e a fortuna. Isso está maravilhosamente exposto no penúltimo capítulo, o de número XXV, onde ele também explicita a forma pela qual o príncipe seduzirá a fortuna: "Dito isso, concluo que, sendo a sorte (fortuna) inconstante e os homens obstinados em suas formas de agir, estes serão felizes pelo tempo em que com ela convergirem e desditosos quando dela divergirem. E considero o seguinte: que vale mais ser impetuoso que circunspecto, pois que a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa, é preciso batê-la e maltratá-la [sic]. Notamos que ela deixa-se melhor dominar por quem assim procede do que pelos que se portam com frialdade. Por esse motivo, como é mulher, ela é sempre amiga dos jovens: estes são menos judiciosos, mais aguerridos e mais audazes ao comandá-la".

Voltemos agora ao capítulo, em nossa sequência, ao capítulo XX. - Se as fortalezas e tantas outras coisas produzidas pela ação quotidiana dos príncipes são úteis ou não. Ele pondera entre o armar e desarmar o povo, para evitar dissidências e revoltas e, depois de mostrar vantagens e desvantagens, dá o conselho de que a melhor forma de intentar os seus objetivos é o ser benquisto e respeitado pelo povo. No capítulo XXI, - Como deve portar-se um príncipe para fazer-se benquisto, a exortação mais uma vez se volta às qualidades do príncipe, ele "deve esmerar-se  para oferecer de si, em cada gesto seu, a ideia de um homem com grandeza e que excele no pensar". De novo, a ideia da virtù. E o que acontece aos não portadores dela: "Os príncipes irresolutos, para escapar a esses perigos, seguem, o mais das vezes, pela via da neutralidade, e o mais das vezes caem em ruína". O príncipe deve sempre posicionar-se com resolução e firmeza. 

O capítulo XXII - Dos ministros dos príncipes e o XXIII - Como escapar dos aduladores me parecem temas mais óbvios. Os aduladores são tidos por Maquiavel como verdadeiras pestes, mas o príncipe, também, jamais deve abrir mão de bons conselhos e bons conselheiros. O capítulo XXIV fala da ruína da Itália de seu tempo, dividida e esfacelada, em razão de nenhum príncipe ter a virtù necessária para promover a sua unificação e retornar ao período da grandeza dos tempos de Roma, sua fonte e inspiração, especialmente os tempos da República, regime pelo qual demonstra sempre sua preferência. Ao capítulo XXV já fizemos a referência, às relações entre a virtù e a fortuna.

Já o último capítulo, o de número XXVI - Exortação à tomada da Itália e à sua libertação dos Bárbaros. É a razão de ser da escrita do livro: "Não se deve portanto, deixar passar esta ocasião: a Itália, tanto tempo passado, há de ver, enfim, a chegada do seu redentor. E faltam-me palavras para exprimir com que amor seria ele recebido em todas aquelas províncias que padeceram com o alúvio invasor dos estrangeiros; com que sede de vingança, com que inabalável fé, com que devoção, com que lágrimas. Que portas fechar-se-lhe-iam? Que povos negar-lhe-iam a obediência? Que inveja ser-lhe-ia oposta? Que italiano negar-lhe-ia o respeito? A cada um repugna esta dominação bárbara. Que a vossa ilustre casa assuma esta missão, com aquela esperança de que são tomadas as justas iniciativas, a fim de que, sob o seu estandarte, nossa Pátria seja engrandecida, e a fim de que, sob os seus auspícios, se comprove este dito por Petrarca: 'Bravura contra o furor // tomará armas; o destruirá num zás // que o antigo valor // no peito italiano inda não jaz'".

Ah sim! Ainda falta a dedicatória - De Nicolau Maquiavel para o magnífico Lourenço de Médicis, certamente no afã, da volta a um cargo público. Depois de considerações várias ele assim conclui: "Destarte, receba, Vossa Magnificência, este singelo dom com o mesmo espírito que anima-me a enviá-lo. Lendo-o e considerando-o atentamente, nele notará meu grande anseio de que Ela eleve-se à majestade que a fortuna e que os seus outros atributos lhe prometem. Se Vossa Magnificência, do alto de sua magnanimidade, vez por outra voltar os olhos para cá embaixo, saberá o quanto me degrada suportar o meu fado (fortuna) infinda e perenemente funesto".

E uma última frase. Eu a tenho anotado num livro que faz a abordagem de Maquiavel. A frase é de Le Goff, mas não apontei a fonte. Ela é profundamente esclarecedora: "O poder político sai em favor das forças econômicas". Por isso, os principados precisam de estabilidade de poder, e tudo fazer para mantê-la. Talvez isso se traduziria, nos dias de hoje, pela necessidade de segurança jurídica.

Deixo ainda os posts relativos a interpretações de O príncipe. Primeiramente o ensaio bibliográfico de Newton Bignoto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

Depois a apresentação de seu pensamento por Maria Tereza Sadek para o livro Os clássicos da política.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/nicolau-maquiavel-o-cidadao-sem-fortuna.html

E, a revista História Viva.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/historia-viva-maquiavel-o-genio-de.html

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

História Viva. Maquiavel, o gênio de Florença. O homem que revolucionou o pensamento político.

Tenho em minha biblioteca algumas revistas que são verdadeiras preciosidades. Entre elas está  História Viva - Grandes temas - edição especial temática número 15, da Duetto Editorial. O tema da edição especial é Maquiavel, o gênio de Florença - O homem que revolucionou o pensamento político. São 98 páginas de contextualização histórica, de análise e de repercussão da principal obra do gênio, que viveu na cidade de Florença entre os anos de 1469 a 1527. O esplendor da principal cidade do Renascimento ocorreu entre os séculos XIV e XVI. Esta revista, com certeza, mereceria outra edição especial, na forma de livro.

Revista História Viva. Grandes temas. Maquiavel, o gênio de Florença.

Como no meu blog estou fazendo algumas resenhas em torno de Maquiavel, eu não quero deixar de por os leitores  em contato com um dos trabalhos mais bem feitos em torno do seu O Príncipe. Mas como o espaço do blog não é apropriado para análises mais longas, vou tentar, ao menos, apresentar os temas abordados por diferentes especialistas e dar destaque a algumas frases essenciais presentes na obra. Creio que vai ser bastante útil. São 20 os temas abordados. Apresento o título do Sumário, o título do artigo e os subtítulos. Vejamos:

Apogeu cultural. Os 300 anos em que Florença esteve no centro artístico e político do mundo. A autoria é de Maria Berbara (Páginas 6 a 19). 300 anos no epicentro comercial e cultural do mundo. - O controle dos Médici foi fundamental para elevar o poderio econômico e expansionista da região italiana. - A partir de Dante, a língua italiana seria estabelecida, e a partir de Giotto, as artes visuais ganhariam unidade. - No final do século XIV, Florença viveu uma série de desastres naturais, políticos e financeiros, que levaram a cidade à beira do cataclismo, com a revolta dos Ciompi, os fiadores de lã. A família Médici emergiu na arena política ao final do século XVI. Uma cilada, preparada por uma família rival, levou uma tragédia ao lar dos Médici; Giuliano foi assassinado, - Savonarola assume o poder de Florença com o objetivo de livrar a cidade do profano: cosméticos, jogos, livros e arte. - A Contra-Reforma fez Florença abandonar seu projeto republicano, que havia sobrevivido por 400 anos. Os Médici governariam até 1737.

Galeria de arte. O ápice do Renascimento e as obras que marcaram o século XVI. O texto tem a assinatura de Luiz Marques (Páginas 20 a 29). Galeria de arte Florentina. - Como nos indica o título, trata-se de uma galeria onde figuravam as principais obras de arte do período.

O príncipe inspirador. A ascensão de César Bórgia, o filho do papa, que quase unificou a Itália. A autoria do texto coube a  Alain Decaux (Páginas 30 a 39). César Bórgia, o protagonista da obra prima. - O homem que melhor incorporou a ideia de que os fins justificam os meios trocou o hábito religioso pelas armas e tentou barbaramente reunificar a Itália. Na suntuosa Roma, César Bórgia viveu sua ascensão como filho de um grande senhor, no caso, o papa Alexandre VI. - A preferência explícita do pai pelo irmão alimentava o ódio em César, ao mesmo tempo que o afastava das armas. -  Com a sensação de ter o mundo nas mãos, César solidificou a amizade com o rei francês Luís XII e combateu a seu lado. - Com a morte de Alexandre VI, o duque Valentino (César) perdeu tudo. Exilou-se no reino de Navarra, onde viveu sua batalha final.

Contexto histórico. A compreensão do pensamento de Maquiavel é indissociável da análise de sua época. O texto, mais uma vez é de Luiz Marques (Páginas 40-41). Consta de um mapa político da época de Maquiavel e uma sugestiva frase: "Não inflige dor um porco a outro um cervo a outro: somente o homem outro homem mata, crucifica e despoja" (O asno, de Maquiavel).

Vida e obra. Pontos cruciais do percurso do pensador florentino. É mais um texto de Luiz Marques (Páginas 42 a 43). Trajetória para a criação de uma filosofia. Entre a prática e a análise, momentos determinantes na vida do florentino.

Biografia. A vida do secretário da República que se tronou o mais brilhante historiador e teórico da política florentina. Outro texto de Luiz Marques (Páginas 44 a 53). De homem de Estado a pensador político. - Maquiavel colocou a serviço da República toda sua lucidez para entender e antever os momentos cruciais de Florença.  - Em suas legações pela Europa conhece César Bórgia e Leonardo da Vinci, que se tornaria seu grande amigo. - Livre da prisão e da tortura, Maquiavel retirou-se para Percussina, onde escreveu sua grande obra, O príncipe. - De volta à vida política, o pensador florentino viu sua bandeira triunfar, mas já era tarde para a Itália.

A gênese da obra. Durante o exílio forçado, Maquiavel compõe seu livro mais célebre. A autoria é de Luiz Marques (Páginas 54-55). No exílio nasce o teórico. Afastado de Florença, Maquiavel mantém uma rotina simples e intelectualmente produtiva. 

A natureza das coisas. O teórico visita as questões morais da tradição clássica e mostra no Príncipe, que a política é fruto da história real dos homens. A autoria é de Newton Bignotto ( Páginas 56 a 59). O Príncipe - a história real dos homens. - Na sua célebre obra, Maquiavel muda o tradicional foco de análise e aprende com o regime existente. - Maquiavel procede a uma luta feroz contra a tradição, produzindo uma nova compreensão do que seja a política. 

Os jogos do poder. As considerações morais apresentadas por Maquiavel em dois momentos de sua vida. O texto é de José Alves de Freitas Neto (Páginas 60 a 63).  A Moral do Poder. - As incômodas considerações éticas sobre como os governantes devem proceder para serem amados e temidos pela população. - Maquiavel não distingue ética de política em sua obra, mas faz críticas a uma certa ética cristã e aos resultados que esta provocou na Itália. 

Nem manual, nem tratado. Obra de Maquiavel deve ser lida como uma explicação sobre a busca da manutenção do poder. A autoria coube a Rafael Ruiz. (Páginas 64 a 67). De Aristóteles à tradição moderna. Maquiavel rompe com o modelo clássico ao considerar a capacidade de obter resultados de um governante, mais importante que a moral. - O homem prudente de Maquiavel, que sabe usar o momento, as ações e as palavras para bem governar, pode não existir, é utópico.

A cidade vista por dentro. Livro encomendado por um Médici retrata o amor do pensador por Florença. O texto é de Helton Adverse (Páginas 68-69). A visão pessoal da cidade. - Obra encomendada pelo cardeal Médici marca a volta de Maquiavel à vida política.

Influência do pensamento. O legado das ideias de Maquiavel percorre cinco séculos de filosofia política. O texto novamente é de Luiz Marques (Páginas 70-71). A Fortuna crítica.

A reação iluminista. Voltaire assina refutação dos escritos do florentino. Outro texto de Luiz Marques (Páginas 72 a 75). Voltaire contra a arte da maldade. - O filósofo francês, revisou os manuscritos, editou e assinou o prefácio para o libelo Anti-Maquiavel, escrito por Frederico II, rei da Prússia. - A crítica de Voltaire visa historiografia, que tendia a justificar o absolutismo, e sobretudo Amelot de la Houssaye, o tradutor para o francês.

Contra o moralismo. Hegel analisa O Príncipe como metáfora do Estado. Mais um texto de Luiz Marques (Páginas 76 a 79). Entre o Renascimento italiano e a Alemanha de HEGEL. Filósofo critica moralistas e transforma a figura do príncipe de Maquiavel na imagem de um poder legítimo e universal, metáfora do Estado. Para Hegel, Maquiavel soube ter o frio juízo a ver que, para salvar a Itália, era preciso unificá-la em um único Estado.

Escritos do cárcere. Para Gramsci, Maquiavel encarna revolução falida. Mais uma vez Luiz Marques (Páginas 80 a 83). - Gramsci e a revolução burguesa falida. Nos escritos do pensador italiano, Maquiavel ocupa uma posição central, como o teórico dos Estados Nacionais regidos pela monarquia absoluta. 

Eternas interrogações. Raymond Aron e o caráter enigmático do autor. De novo Luiz Marques (Páginas 84 a 87). Aron e as interrogações sem resposta. Para o pensador francês, O Príncipe é uma obra cuja clareza aparente ofusca e cujo mistério e os simples leitores tentam em vão penetrar. 

Mal versus liberdade. Strauss ressalta o pensamento diabólico. Novamente Luiz Marques é o autor do texto (Páginas 88 a 91). Strauss e o retorno do "Old Nick". Para o filósofo do neoconservadorismo norte-americano, os Estados Unidos são o único país fundado em uma explícita oposição aos princípios maquiavélicos.

O Príncipe e a prosa. De Sanctis situa escritos na história literária. Texto mais uma vez de Luiz Marques (Páginas 92-93). A prosa italiana moderna por DE SANCTIS. Sem preocupar-se com a forma, o pensador florentino teria criado um modo puro de escrever.

A verdade libertadora. Para Papini, Maquiavel põe à mostra a feiura que ninguém quer ver. Outra vez, texto de Luiz Castro (Páginas 94 a 97). Papini e o estilo realista no pós-guerra. Polêmico e pragmático, o escritor defende e compara sua prosa ao modelo duro adotado por Maquiavel. 

Ponto final.  Por Antônio Valverde. (Página 98). Como ler Maquiavel hoje. Compreender o escritor florentino atualmente é pensar a política como ação que mira o bem público futuro.

Deixo ainda os dois posts anteriores sobre o pensador. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/09/nicolau-maquiavel-o-cidadao-sem-fortuna.html




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

NICOLAU MAQUIAVEL. O cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù. Maria Tereza Sadek.

O meu segundo post sobre Maquiavel é retirado do livro Os clássicos da política. Volume 1. Maquiavel - Hobbes - Locke - Montesquieu - Rousseau - O federalista. O livro é organizado por Francisco Weffort e os comentários e os textos selecionados dos diferentes autores ficaram a cargo de renomados especialistas sobre cada autor. O livro é uma preciosidade. O comentário sobre Maquiavel coube a Maria Tereza Sadek e tem um belo título, já uma espécie de síntese de seu pensamento. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù.


Os clássicos da política. Volume I. Francisco Weffort, organizador. Ática. 2002.

Conheço bem este livro. O utilizei muito, quando professor de Teoria Política na Universidade Positivo. A forma do livro obedece a um critério maravilhoso. A análise feita pelo especialista é acompanhada por textos, especialmente da obra principal do autor, ou então, somando outros livros para explicitar melhor o seu pensamento. Se constitui assim, num extraordinário guia para ler a obra ou obras do autor, na sua íntegra. Nos comentários também já encontramos a indicação ou a localização na obra dos principais enfoques trabalhados. Dentro das limitações do texto, não há capítulos, mas aparecem grifadas as ideias centrais do autor, para facilitar a leitura.

No primeiro tópico, Sadeck nos apresenta o adjetivo e o substantivo - maquiavélico e maquiavelismo, onipresentes no debate político atual. Os termos, absolutamente pejorativos, tem o significado de perfídia, traição, astúcia, velhacaria, entre outros tantos similares. Maquiavel recebeu, inclusive, o nome de Old Nick, um apelido do diabo. Ele é acusado de ser o inspirador de todos os tiranos. Posteriormente foi reabilitado pelos maiores nomes da ciência política. 

O segundo tópico, as desventuras de um florentino já nos apresenta o pensador em seu tempo e espaço. Maquiavel nasceu na cidade de Florença, (1469 - 1527), um dos cinco Estados, que marcaram a península italiana até o ano de 1494, graças aos esforços de Lourenço, o Magnífico. Depois houve um caos generalizado. A instabilidade política era total. Os governantes duravam menos de dois meses no poder, nos conta Sadeck. Maquiavel sempre foi um aluno estudioso e brilhante. Mas o seu ingresso na vida pública demorou para acontecer. O primeiro cargo de destaque lhe veio aos 29 anos, em 1498, após o governo do moralista Savonorola. Ele foi deposto, enforcado e queimado, uma pequena amostra da política de seu tempo. Maquiavel ocupou a Segunda Chancelaria, cargo de grande relevância, mas por pouco tempo. Foi torturado, preso e acusado de conspiração. Exilado em sua própria cidade se dedica à reflexão e à escrita. Estas obedecem a uma descrição de sua experiência à frente de um importante cargo político. Seu último trabalho foi o de escrever a história de sua cidade, uma encomenda de sua Universidade. A República de Florença o considerou como um inimigo seu. Desgostoso e amargurado adoeceu e morreu.

No terceiro tópico, A verdade efetiva das coisas, a comentadora entre na análise de seu pensamento. A um amigo seu Maquiavel confidenciou que estava destinado a escrever sobre o Estado. "Não o melhor Estado, aquele tantas vezes imaginado, mas que nunca existiu. Mas o Estado real, capaz de impor a ordem", nos afirma a comentadora. Ela continua: "Seu ponto de partida e de chegada é a realidade concreta. Daí a ênfase na verità effettualle - a verdade efetiva das coisas. Esta é sua regra metodológica: ver e examinar a realidade como ela é e não como se gostaria que ela fosse". Isso é absolutamente determinante em seu pensamento. Contraria assim a visão dominante do idealismo na política e o fato gerador das instabilidades. Aí vem a missão do príncipe. Vejamos, mais uma vez a comentadora:

"A ordem, produto necessário da política, não é natural, nem a materialização de uma vontade extraterrena, e tampouco resulta do jogo de dados do acaso. Ao contrário, a ordem tem um imperativo: deve ser construída pelos homens para se evitar o caos e a barbárie, e, uma vez alcançada, ela não será definitiva, pois há sempre, em germe, o seu trabalho negativo, isto é, a ameaça de que seja desfeita". Isso posto, o que mais é fundamental no famoso pensador florentino? O estudo da natureza humana e como nela intervir.

Assim o tema do quarto tópico é Natureza humana e história. Sobre esta natureza vem uma das mais conhecidas frases do autor, contida no capítulo XV: "São ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante os perigos, ávidos de lucro". Estas características são constantes ao longo da história. Por isso mesmo, o estudo da história é importante fonte para o estudo da política e de seu objetivo primordial na manutenção da ordem e da estabilidade do poder. A história é cíclica, ela se repete. Vejamos o que nos diz a comentadora: "O poder político tem, pois, uma origem mundana. Nasce da própria 'malignidade' que é intrínseca à natureza humana. Além disso, o poder aparece como única possibilidade de enfrentar o conflito, ainda que qualquer forma de 'domesticação' seja precária e transitória. Não há garantias de sua permanência. A perversidade das paixões humanas sempre volta a se manifestar, mesmo que tenha permanecido oculta por algum tempo".

O quinto tópico aborda a questão dos regimes. Anarquia X Principado e República. No capítulo IX, Maquiavel fala do Príncipe. Além da natureza humana, outras duas forças contribuem para a tendência ao caos e à anarquia política: Uma delas quer dominar e a outra não quer ser dominada. Diante disso, qual é a forma que o Estado deve adquirir para que haja a estabilidade social. Como conseguir a estabilidade no jogo dessa correlação de forças? Existem duas possibilidades: O principado e a República. O Príncipe será aquele que deverá eliminar o caos inicial, quando ele assume o poder. Depois ele deverá instaurar a República, fundada nas leis e nas instituições. Assim Sadeck encerra este tópico: "Face à Itália de sua época - dividida, corrompida, sujeita às invasões externas - Maquiavel não tinha dúvidas: era necessário sua unificação e regeneração. Tais tarefas tornavam imprescindível o surgimento de um homem virtuoso capaz de fundar um Estado. Era preciso, enfim, um Príncipe". Mas quais seriam as virtudes desse Príncipe?

Virtù X Fortuna. Estes são possivelmente os dois conceitos mais polêmicos na obra de Maquiavel. Se não polêmicos, ao menos, os que lhe causaram mais dissabores. Para explicá-los, recorreu aos clássicos. Lembremos que estamos na época do Humanismo e do Renascimento. Lembremos ainda, que na concepção de Maquiavel a política era uma prática de homens, sem freios extra terrenos, sujeitos de sua própria história. Esta prática, afirma a comentadora "exigia virtù, o domínio sobre a fortuna".

Fortuna era a deusa possuidora dos bens mais desejados pelos homens, como a honra, a riqueza, a glória, o poder. Ela era uma deusa feminina e adorava o jogo de sedução. Ela favorecia aos que possuíam a qualidade da virtù, "um homem de verdadeira virilidade, de inquestionável coragem. Assim, o homem que possuísse virtù no mais alto grau seria beneficiado com os presentes da cornucópia da Fortuna", nos afirma Sadeck. Era o oposto das virtudes cristãs, em vigor na época. A deusa Fortuna tinha poderes sobre o destino dos homens. Estamos chegando ao final do livro. Vejamos o título do capítulo XXV, o penúltimo da obra: O quanto influi a fortuna nas coisas humanas e como reagir a elas. As qualidades exigidas do Príncipe são agora, as de um homem viril, enérgico e determinado diante dos acontecimentos. Mas toda a parte final, já a partir do capítulo XV, Maquiavel destina às qualidades necessárias ao Príncipe para os tempos modernos. Sadeck assim encerra seus comentários:

"É desta perspectiva que ganha um novo sentido a discussão sobre as qualidades do príncipe. Este deveria ser bom, honesto, liberal, cumpridor de suas promessas, conforme rezam os mandamentos da virtude cristã? Maquiavel é incisivo: há vícios que são virtudes. Não tema pois o príncipe que deseje se manter no poder 'incorrer no opróbrio dos defeitos mencionados, se tal for indispensável para salvar o Estado' (Capítulo XV). Os ditames da moralidade convencional podem significar a sua ruína". E assim arremata:

"A política tem uma ética e uma lógica próprias. Maquiavel descortina um horizonte para se pensar e fazer política que não se enquadra no tradicional moralismo piedoso. A resistência à aceitação da radicalidade de suas proposições é seguramente o que dá origem ao 'maquiavélico'. A evidência fulgurante deste adjetivo acaba velando a riqueza das descobertas substantivas.

O mito, uma constante em sua obra, é falado para ser desmistificado. Maquiavel não o aceita como quer a tradição - algo natural e eterno.  Recupera no mito as questões que aí jaziam adormecidas e pacificadas. E, ao fazer isto, subverte as concepções acomodadas, de há muito estabelecidas, instaurando a modernidade no pensar a política. Ora, desmistificar tem sempre um alto risco. O cidadão florentino pagou-o em vida e sua morte não lhe trouxe o descanso do esquecimento. Transformado em mito, é novamente vitimado.

O pensamento político moderno e crítico, para decifrar o enigma proposto em sua obra, precisa resgatá-lo sem preconceitos e em sua verità effettualle. É o que se deve a Nicolau Maquiavel, o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtù".

Nos textos selecionados, Maria Tereza, apresenta parte dos capítulos I a XII, do XIV e XV, dos XVIII ao XXII, do XXV e XVI.

Já dos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, ela analisa o capítulo IV e V, o VII, o IX, o XI, e os do XVI ao XVIII.

Deixo ainda a resenha do post anterior, a análise do professor Newton Bignotto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html