quarta-feira, 2 de setembro de 2026

NICOLAU MAQUIAVEL. O cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù. Maria Tereza Sadek.

O meu segundo post sobre Maquiavel é retirado do livro Os clássicos da política. Volume 1. Maquiavel - Hobbes - Locke - Montesquieu - Rousseau - O federalista. O livro é organizado por Francisco Weffort e os comentários e os textos selecionados dos diferentes autores ficaram a cargo de renomados especialistas sobre cada autor. O livro é uma preciosidade. O comentário sobre Maquiavel coube a Maria Tereza Sadek e tem um belo título, já uma espécie de síntese de seu pensamento. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual da virtù.


Os clássicos da política. Volume I. Francisco Weffort, organizador. Ática. 2002.

Conheço bem este livro. O utilizei muito, quando professor de Teoria Política na Universidade Positivo. A forma do livro obedece a um critério maravilhoso. A análise feita pelo especialista é acompanhada por textos, especialmente da obra principal do autor, ou então, somando outros livros para explicitar melhor o seu pensamento. Se constitui assim, num extraordinário guia para ler a obra ou obras do autor, na sua íntegra. Nos comentários também já encontramos a indicação ou a localização na obra dos principais enfoques trabalhados. Dentro das limitações do texto, não há capítulos, mas aparecem grifadas as ideias centrais do autor, para facilitar a leitura.

No primeiro tópico, Sadeck nos apresenta o adjetivo e o substantivo - maquiavélico e maquiavelismo, onipresentes no debate político atual. Os termos, absolutamente pejorativos, tem o significado de perfídia, traição, astúcia, velhacaria, entre outros tantos similares. Maquiavel recebeu, inclusive, o nome de Old Nick, um apelido do diabo. Ele é acusado de ser o inspirador de todos os tiranos. Posteriormente foi reabilitado pelos maiores nomes da ciência política. 

O segundo tópico, as desventuras de um florentino já nos apresenta o pensador em seu tempo e espaço. Maquiavel nasceu na cidade de Florença, (1469 - 1527), um dos cinco Estados, que marcaram a península italiana até o ano de 1494, graças aos esforços de Lourenço, o Magnífico. Depois houve um caos generalizado. A instabilidade política era total. Os governantes duravam menos de dois meses no poder, nos conta Sadeck. Maquiavel sempre foi um aluno estudioso e brilhante. Mas o seu ingresso na vida pública demorou para acontecer. O primeiro cargo de destaque lhe veio aos 29 anos, em 1498, após o governo do moralista Savonorola. Ele foi deposto, enforcado e queimado, uma pequena amostra da política de seu tempo. Maquiavel ocupou a Segunda Chancelaria, cargo de grande relevância, mas por pouco tempo. Foi torturado, preso e acusado de conspiração. Exilado em sua própria cidade se dedica à reflexão e à escrita. Estas obedecem a uma descrição de sua experiência à frente de um importante cargo político. Seu último trabalho foi o de escrever a história de sua cidade, uma encomenda de sua Universidade. A República de Florença o considerou como um inimigo seu. Desgostoso e amargurado adoeceu e morreu.

No terceiro tópico, A verdade efetiva das coisas, a comentadora entre na análise de seu pensamento. A um amigo seu Maquiavel confidenciou que estava destinado a escrever sobre o Estado. "Não o melhor Estado, aquele tantas vezes imaginado, mas que nunca existiu. Mas o Estado real, capaz de impor a ordem", nos afirma a comentadora. Ela continua: "Seu ponto de partida e de chegada é a realidade concreta. Daí a ênfase na verità effettualle - a verdade efetiva das coisas. Esta é sua regra metodológica: ver e examinar a realidade como ela é e não como se gostaria que ela fosse". Isso é absolutamente determinante em seu pensamento. Contraria assim a visão dominante do idealismo na política e o fato gerador das instabilidades. Aí vem a missão do príncipe. Vejamos, mais uma vez a comentadora:

"A ordem, produto necessário da política, não é natural, nem a materialização de uma vontade extraterrena, e tampouco resulta do jogo de dados do acaso. Ao contrário, a ordem tem um imperativo: deve ser construída pelos homens para se evitar o caos e a barbárie, e, uma vez alcançada, ela não será definitiva, pois há sempre, em germe, o seu trabalho negativo, isto é, a ameaça de que seja desfeita". Isso posto, o que mais é fundamental no famoso pensador florentino? O estudo da natureza humana e como nela intervir.

Assim o tema do quarto tópico é Natureza humana e história. Sobre esta natureza vem uma das mais conhecidas frases do autor, contida no capítulo XV: "São ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante os perigos, ávidos de lucro". Estas características são constantes ao longo da história. Por isso mesmo, o estudo da história é importante fonte para o estudo da política e de seu objetivo primordial na manutenção da ordem e da estabilidade do poder. A história é cíclica, ela se repete. Vejamos o que nos diz a comentadora: "O poder político tem, pois, uma origem mundana. Nasce da própria 'malignidade' que é intrínseca à natureza humana. Além disso, o poder aparece como única possibilidade de enfrentar o conflito, ainda que qualquer forma de 'domesticação' seja precária e transitória. Não há garantias de sua permanência. A perversidade das paixões humanas sempre volta a se manifestar, mesmo que tenha permanecido oculta por algum tempo".

O quinto tópico aborda a questão dos regimes. Anarquia X Principado e República. No capítulo IX, Maquiavel fala do Príncipe. Além da natureza humana, outras duas forças contribuem para a tendência ao caos e à anarquia política: Uma delas quer dominar e a outra não quer ser dominada. Diante disso, qual é a forma que o Estado deve adquirir para que haja a estabilidade social. Como conseguir a estabilidade no jogo dessa correlação de forças? Existem duas possibilidades: O principado e a República. O Príncipe será aquele que deverá eliminar o caos inicial, quando ele assume o poder. Depois ele deverá instaurar a República, fundada nas leis e nas instituições. Assim Sadeck encerra este tópico: "Face à Itália de sua época - dividida, corrompida, sujeita às invasões externas - Maquiavel não tinha dúvidas: era necessário sua unificação e regeneração. Tais tarefas tornavam imprescindível o surgimento de um homem virtuoso capaz de fundar um Estado. Era preciso, enfim, um Príncipe". Mas quais seriam as virtudes desse Príncipe?

Virtù X Fortuna. Estes são possivelmente os dois conceitos mais polêmicos na obra de Maquiavel. Se não polêmicos, ao menos, os que lhe causaram mais dissabores. Para explicá-los, recorreu aos clássicos. Lembremos que estamos na época do Humanismo e do Renascimento. Lembremos ainda, que na concepção de Maquiavel a política era uma prática de homens, sem freios extra terrenos, sujeitos de sua própria história. Esta prática, afirma a comentadora "exigia virtù, o domínio sobre a fortuna".

Fortuna era a deusa possuidora dos bens mais desejados pelos homens, como a honra, a riqueza, a glória, o poder. Ela era uma deusa feminina e adorava o jogo de sedução. Ela favorecia aos que possuíam a qualidade da virtù, "um homem de verdadeira virilidade, de inquestionável coragem. Assim, o homem que possuísse virtù no mais alto grau seria beneficiado com os presentes da cornucópia da Fortuna", nos afirma Sadeck. Era o oposto das virtudes cristãs, em vigor na época. A deusa Fortuna tinha poderes sobre o destino dos homens. Estamos chegando ao final do livro. Vejamos o título do capítulo XXV, o penúltimo da obra: O quanto influi a fortuna nas coisas humanas e como reagir a elas. As qualidades exigidas do Príncipe são agora, as de um homem viril, enérgico e determinado diante dos acontecimentos. Mas toda a parte final, já a partir do capítulo XV, Maquiavel destina às qualidades necessárias ao Príncipe para os tempos modernos. Sadeck assim encerra seus comentários:

"É desta perspectiva que ganha um novo sentido a discussão sobre as qualidades do príncipe. Este deveria ser bom, honesto, liberal, cumpridor de suas promessas, conforme rezam os mandamentos da virtude cristã? Maquiavel é incisivo: há vícios que são virtudes. Não tema pois o príncipe que deseje se manter no poder 'incorrer no opróbrio dos defeitos mencionados, se tal for indispensável para salvar o Estado' (Capítulo XV). Os ditames da moralidade convencional podem significar a sua ruína". E assim arremata:

"A política tem uma ética e uma lógica próprias. Maquiavel descortina um horizonte para se pensar e fazer política que não se enquadra no tradicional moralismo piedoso. A resistência à aceitação da radicalidade de suas proposições é seguramente o que dá origem ao 'maquiavélico'. A evidência fulgurante deste adjetivo acaba velando a riqueza das descobertas substantivas.

O mito, uma constante em sua obra, é falado para ser desmistificado. Maquiavel não o aceita como quer a tradição - algo natural e eterno.  Recupera no mito as questões que aí jaziam adormecidas e pacificadas. E, ao fazer isto, subverte as concepções acomodadas, de há muito estabelecidas, instaurando a modernidade no pensar a política. Ora, desmistificar tem sempre um alto risco. O cidadão florentino pagou-o em vida e sua morte não lhe trouxe o descanso do esquecimento. Transformado em mito, é novamente vitimado.

O pensamento político moderno e crítico, para decifrar o enigma proposto em sua obra, precisa resgatá-lo sem preconceitos e em sua verità effettualle. É o que se deve a Nicolau Maquiavel, o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtù".

Nos textos selecionados, Maria Tereza, apresenta parte dos capítulos I a XII, do XIV e XV, dos XVIII ao XXII, do XXV e XVI.

Já dos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, ela analisa o capítulo IV e V, o VII, o IX, o XI, e os do XVI ao XVIII.

Deixo ainda a resenha do post anterior, a análise do professor Newton Bignotto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/08/maquiavel-newton-bignotto-filosofia.html

 


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