sábado, 3 de outubro de 2026

A formação do Rio Grande do Sul. Jorge Salis Goulart.

Em primeiro lugar algumas considerações sobre o livro. A formação do Rio Grande do Sul, de autoria de Jorge Salis Goulart. Ele teve a sua primeira edição no ano de 1927 e a sua edição definitiva no ano de 1934. A edição que tenho em meu poder e que eu li, data de 1985 e é uma coedição da Editora da Universidade de Caxias do Sul com Martins Livreiro. Jorge Salis Goulart nasceu no ano de 1899 e morreu em 1934, na cidade de Pelotas. O autor pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e tem o seu foco, tanto na história, quanto na sociologia.

A formação do Rio Grande do Sul. Jorge Salis Goulart. Martins Livreiro e EDUCS. 1985

O livro precisa ser visto como um livro de época. Ele é um reflexo preciso dos conceitos do tempo em que ele foi escrito. Hoje, ele seria considerado como um livro preconceituoso. Vejamos uma passagem em que ele fala da composição racial da Argentina e a sua diferença com a do Rio Grande do Sul. " [...] Mais tarde, em 1835, aumenta ainda mais a quantidade do elemento superior na seguinte ordem: 92.000 brancos, 30.500 negros, 10.000 índios, 18.000 mestiços. Vê-se que, quando deflagrou a revolução, os mestiços eram 18.000 e os brancos puros 92.000. O contrário sucedia no Prata. Sobrepujavam ali os elementos inferiores com uma profunda mestiçagem [...]. Vejam aí conceitos da época. Superioridade branca, efeitos da mestiçagem, branqueamento etc... São dados importantes para entendermos o espírito de uma época. 

A edição que tenho em mãos tem apresentação de Laudelino T. Medeiros (1914-1999) e datada de 1978. Ela termina assim: "Pelos temas tratados e o material informativo acumulado, embora algumas teses possam ser discutidas, é um livro que deve ser incluído numa bibliografia clássica sobre o Rio Grande do Sul". Antes ele destaca as qualidades do livro, como o seu pioneirismo na abordagem sociológica na formação do Rio Grande do Sul, no tempo em que a sociologia chega ao Brasil como ciência nova, que torna possíveis as análises mas que também "explica imperfeições na obra de Salis Goulart; mas, ao mesmo tempo, o seu mérito". São tempos de determinismo geográfico, que o autor tenta superar e faz uma referência a outra obra que destaca os fatores geográficos na formação histórica. Trata-se de Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Na introdução, o autor apresenta o norte que inspirou a escrita de seu livro. Vejamos: "Foi Vidal de la Blanche, seguido de perto pelos modernos intérpretes da geografia social, quem melhor definiu a relação entre homem e a terra.

Em vez do antigo fatalismo do meio, o que se deve ter em conta são simples possibilidades da geografia para influir sobre os acontecimentos históricos.

Por outra parte, como se tem visto, não se pode negar as influências das forças sociais e raciais sobre os fatos humanos.

Reconhecendo esses três fatores na formação das sociedades formulamos duas leis sociológicas que poderemos chamar leis da oposição e combinação das forças, como no mundo físico as de combinação de forças". 

Li o livro com o mapa do Rio Grande do Sul permanentemente aberto. O rio Guaíba e a Lagoa dos Patos, Os rios formadores do Guaíba, o rio Uruguai, as diferentes regiões geográficas, a presença dos açorianos, dos alemães e italianos, a campanha e o cavalo, os povos das Missões e as eternas lutas contra os castelhanos. Todos estes elementos constam na formação da espinha dorsal do livro. Antes de apresentar esta estrutura, um elogio, mas não um elogio qualquer. Ele é de Érico Veríssimo, autor da maior epopeia histórica sobre o Rio Grande: "Quero dizer muito humildemente como me sinto pequeno quando penso numa inteligência como a de Jorge. Ele é, a meu ver, das inteligências mais notavelmente lúcidas que o Brasil produziu". 

O livro está estruturado em duas partes, além da apresentação e introdução. A primeira parte tem os seguintes títulos: O povoamento. A democracia. O sentimento Religioso e a Religião. A teatralidade. A sociabilidade e o Individualismo. A formação do Estado e Síntese política da Sociologia Rio-Grandense. Na segunda parte aborda o futuro do Rio Grande do Sul, e se ocupa dos seguintes temas: O problema das raças, o crepúsculo das Revoluções e sobre a formação da mentalidade Rio-Grandense. Tem ao todo 208 páginas. Todos os capítulos começam com uma pequena síntese. Vou apresentá-las:

Povoamento. Caráter dispersivo do litoral. A grande estrada da civilização rio-grandense. Colonização açoriana e alemã. As três zonas de povoamento: florestas, estepes e litoral. As zonas geográficas e as classes sociais: agricultores e fazendeiros. A grande estrada é uma referência ao estuário do rio Guaíba e a Lagoa dos Patos. Os açorianos são os primeiros povoadores, do Rio Grande a Porto Alegre. Os tropeiros. Viamão e o interior. Os alemães em São Leopoldo e Estância Velha. Os selvagens (sic). A expansão: o gado na campanha e a agricultura nas colônias alemãs.

A democracia. A estância (Fazenda) como célula social. A família. Regime particularista e espírito comunitário. Evolução da família. Organização social. Inexistência de castas econômicas, sacerdotais, militares, profissionais e intelectuais. O prezar dos valores da democracia e da liberdade. As estâncias e a unidade familiar. A altivez nas relações sociais. Os tropeiros e a devoção ao cavalo. Ausência da aristocracia e da autocracia. A união em torno do comum. Fartura de alimentos. Do gado só o couro era comercializado. Não se ligava para a carne. O charque veio posteriormente. Essa influencia na escravidão e nas relações. Poucos escravos. Um militarismo menos hierarquizado. O povoamento e a ocupação das fronteiras. Os inimigos castelhanos. Vejamos o final do capítulo: "Em resumo: a natureza rio-grandense determinou a vida pastoril e o sistema de criação aqui adotado, formado de acordo com o meio, agiu no sentido da democracia.

As tradições paulistas e portuguesas eram também democráticas. Todas as forças, pois, contribuíram para que a fraternidade gaúcha fosse uma das mais nobres expressões da nossa alma coletiva"  

O sentimento religioso e a religião. Diminuição do sentimento religioso. Inexistência do fanatismo. Suas causas. Pouco prestígio do padre em face do militar. O caráter espanhol das missões do (rio) Uruguai. A felicidade do gaúcho. Animismo e cristianismo. "Povo sem religião". Foi a observação de St. Hilaire. No entanto, a religiosidade sempre foi profunda. A quase ausência de sacerdotes. Em vez deles, militares. A fúria contra as missões. As missões eram jesuíticas e os jesuítas eram identificados com os inimigos castelhanos. Exaltação ao bandeirante. A escravidão "branda". Sem fanatismos, tipo Canudos. Presença do catolicismo e outros credos. Dom João Becker.

A teatralidade. A função social do cavalo. Psicologia das batalhas. Diferenciação psicológica entre o gaúcho e o sertanejo do nordeste. A teatralidade do gaúcho foi observada por Euclides da Cunha. A cavalaria, a arma do gaúcho. A maior miséria era não ter um cavalo. O cavalo, ao par da mulher. O capricho com os arreios. A infantaria, em 1835, era formada pelos escravizados. O centauro dos pampas e as lutas em campo aberto. As diferenças com relação ao sertanejo. 

A sociabilidade e o individualismo. Função social da organização militar. Causas sociais e psicológicas que agiram na formação da alma gaúcha: a hospitalidade, a alegria, a generosidade. O pensamento de Nietzsche e a moderna corrente sociológica. A organização militar compensando a baixa densidade populacional. O militar e o elevado prestígio social. A sociabilidade a todos irmanou. A brandura da escravidão. O amor pela terra, o apego cívico e a alegria vistos por St. Hilaire. Sempre disposto a festas e rodeios e propenso à alegria. O palco da natureza e o trabalho como diversão, além da habitual franqueza e lealdade. A fartura dos alimentos. O maior desembaraço das mulheres. O inimigo era externo, os castelhanos. O cavalo e a superação da ausência de estradas e pontes. A moral do senhor e do servo não vingou no Rio Grande.

A formação do Estado. Diferenciação entre o povo rio-grandense e o platino. Fator étnico e o fator social. Dissemelhanças psicológicas. A psicologia da Revolução de 1835 e do caudilhismo platino. O nomadismo hispano-americano. A alma portuguesa e a alma espanhola. A insociabilidade do caudilho hispano-americano. Psicologia do mestiço. Diferenciação geográfica. O núcleo geográfico da formação do estado. A força social portuguesa contrária ao fatalismo geográfico. A força diferenciadora do meio. Diferenciação entre o rio-grandense, o paulista, o mineiro e o catarinense.  O sentimento de autonomia e federação como uma resultante  da força social e da influência geográfica. Neste capítulo é que aparecem os conceitos de superioridade e inferioridade das raças, dos efeitos da mestiçagem, sempre com elogios ao Rio Grande do Sul, que sofreu menos com estes fatores. Tenho a destacar deste capítulo a militarização da sociedade em função da necessidade da ocupação territorial. Estava programada a abertura de uma estrada que ligava Tubarão à Colônia do Sacramento. Destaca também um grande número de cidades que se originaram de acampamentos militares, como Rio Grande, Pelotas, Santa Vitória, Bagé, São Gabriel, Rio Pardo, Itaqui, Alegrete, Santa Maria, Caí, Torres... Também as Missões ganham uma abordagem especial. 

Síntese política da sociologia rio-grandense. O sentimento republicano. Os governos militares. Organização política de 35. Sentimento federativo. A reação contra o espírito de 35. Formação do Partido Liberal. O partido Conservador. Félix da Cunha, Gaspar da Silveira Martins, Osório. Silveira Martins ministro. Reação anti-republicana. Silveira Martins tenta reviver o partido conservador. Júlio de Castilhos. O positivismo de Castilhos. O caráter rio-grandense e o positivismo. A ligação política e filosófica do pensamento republicano com o espírito de 35. Lamennais e Comte. Um povo federativo e republicano. Exaltação às figuras republicanas do Rio Grande, bem como ao positivismo de Castilhos e Borges de Medeiros.

Quanto a segunda parte, tem O problema das raças. O coeficiente de negros, índios e brancos. Mapa etnográfico. Caracteres somáticos dos alemães e italianos. Dolicocéfalos e braquicéfalos. A natalidade dos descendentes de alemães italianos e rio-grandenses. Integração das populações na vida rio-grandense. Questão do clima. A missão do Rio Grande do Sul. Deixo apenas a frase final do capítulo: "E o Rio Grande do Sul, numa eclosão radiosa de pensamento e sensibilidade, há de ter uma das mais belas civilizações americanas".

O crepúsculo das revoluções. A evolução da vida econômica e a sua influência sobre os acontecimentos. A agricultura e a criação. A industrialização das estâncias. O papel do automobilismo. Futuro de paz e de progresso. Já a partir de 1923 o Rio Grande mostra a sua má vontade para com a guerra. Já não quer ceder cavalos e mantimentos. O automóvel começa a substituir o cavalo e o operariado industrial, à moda europeia, começa a apresentar as suas reivindicações.

A formação da mentalidade rio-grandense. O autor salienta que a formação do Rio Grande do Sul ocorre junto com as grandes revoluções do mundo contemporâneo e assim conclui o capítulo: "Surgido o Rio Grande do Sul quase às portas da revolução francesa, esses sentimentos de individualismo, de liberdade, de declaração de direitos, de democracia que se exageram consideravelmente, como já vimos, com a criação do Novo Mundo, tem que influir predominantemente na nossa coletividade.

Por isso, o florescimento das doutrinas  do enciclopedismo na Revolução de 35, do liberalismo de Rousseau, Mably e da 'Jovem Itália', do liberalismo econômico de Quesnay.

Certo, a disciplina do exército refreou os excessos desse espírito liberal e individualista.

Mas é iniludível que o aspecto geral da formação da mentalidade rio-grandense recebe uma iluminação preciosa à luz destes estudos que plasmam a nossa fisionomia histórica no meio das grandes correntes da evolução humana". Em suma, um livro muito valioso. Dois livros são bastante citados pelo autor. Um é Viagem ao Rio Grande do Sul, de Auguste Saint Hilaire e o outro é de Oliveira Viana, Populações meridionais do Brasil. Deste eu tenho o post  da resenha do livro, que apresento:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/07/um-banquete-no-tropico-32-populacoes.html


       



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