Neste ano, eu e o meu amigo Valdemar, programamos uma viagem para Santarém e, mais precisamente, para um distrito administrativo seu, o de Alter do Chão. O mote da viagem foi o de participar da festa do Sairé, realizada entre os dias 17 e 21 de setembro. É uma festa dos índios Boraris, com mais de trezentos anos de tradição. A festa se realiza todos os anos no mês de setembro, sempre começando numa quinta feira e se encerrando na segunda. É uma festa cheia de significados, que pretendo apresentar aqui nesse post. Tomo como referência um livreto de 1999, organizado pela Prefeitura de Santarém, pelo Instituto Cultural Boanerges Sena e de autoria de Maria do Socorro de Farias Santiago, que tem doutorado sobre o tema - Pelos caminhos do Sairé. Além das minhas observações sobre a festa.
Foto de um cartaz de divulgação da festa de 2026. Observem o estandarte.
O livreto assim define a festa: "A festa do Çairé (grafia originária) teve sua origem no período da colonização, quando padres jesuítas a teriam adaptado de antigo ritual indígena. Ao que se sabe, sempre foi um misto de religioso e profano: havia a procissão, a reza, o jantar, e depois os folguedos que varavam a noite, durando, muitas vezes, dois ou três dias, sem interrupção. Hoje em dia, ocorre num período de cinco dias (de quinta à segunda-feira) e consiste em um ritual religioso que se repete durante o dia, culminando com a cerimônia da noite - seguida de show onde são apresentadas músicas e danças típicas" (Página 11).
Mas afinal, o que é o Sairé? A explicação vem detalhada. Ele é um estandarte utilizado ao longo do ritual, todo cheio de símbolos e significados. A autora os apresenta, de acordo com Barbosa Rodrigues, um estudioso da festa, ainda nos tempos do Império: "O Çairé representa o dilúvio e as três pessoas da Santíssima Trindade. O arco significa a arca de Noé, os espelhos a luz, os frutos e os biscoitos a abundância que havia na arca [...] o algodão e o tamborim representam a espuma, e o ruído das águas, e o balanço dado ao Çairé, o balanço da arca. Já as três cruzes do interior do estandarte representam o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E a cruz exterior o Deus único e verdadeiro" (Página 12-13).
A descrição da festa continua: "É um ato social, coletivo, feito de cantos, danças e uma movimentação altamente simbólica. De acordo com os autores que se ocuparam dessa Festa, ocorriam Festas do Çairé em toda a Amazônia, desde o Alto Rio Negro, seguindo as calhas dos rios Negro e Solimões e Amazonas, até a região de Macapá. Atualmente essa festa vem se mantendo apenas na vila de Alter do Chão, graças ao esforço do povo da vila com o apoio da população de Santarém e das cidades vizinhas" (Página 13-14).
O primeiro e o último dia são os mais significativos. Ao longo do livreto tem todo o cerimonial e seus significados. Para não estender demais o post, vou dar a programação do primeiro dia e tecer alguns comentários. Dia 17 de setembro:
04:30 - Alvorada,
06:00 - Busca dos juízes.
07:00 - Celebração da Bênção de Ação de Graças.
08:00 - Procissão da busca dos mastros.
09:00 - Hasteamento das bandeiras - Levantação dos mastros - Cortejo dos mastros - Corte simbólico da Fita.
10:00 - Café da manhã.
10:30 - Atração: Banda 29 de junho.
12:00 - Rito da Folia - Almoço.
18:00 - Rito da Folia - Despedida do dia -Ladainha do Divino Espírito Santo - Cortejo ao redor do mastro - Ritual do beija-fita.
21:30 - Danças folclóricas - Dança dos idosos - Dança do rito.
22:45 - Atrações: Quinta do Mestre e da Sereia - Psirico e Forró Turbinado.
Por essa programação dá para ver o sentido religioso e popular da festa. Cerimônias de louvação e de divertimento. As cerimônias religiosas ocorrem diariamente e, à noite, os festejos populares com atrações contratadas para a festa. Na segunda, no encerramento, ocorre a derrubada dos mastros e os rituais de encerramento. A programação completa pode ser encontrada no site da Prefeitura de Santarém.
E a festa? Onde ela é realizada. A partir de 1997, nos conta a autora do livreto, ela ganhou nova vitalidade e um local adequado para a sua apresentação. Desse local fazem parte a Praça e o Barracão do Sairé e o Lago dos Botos, onde são apresentados os shows e a competição dos Botos.
Mas... e os botos. É toda uma história. Num folheto de propaganda da Prefeitura lemos: "A rivalidade dos botos Tucuxi e Cor-de-rosa é um dos momentos mais esperados do Sairé. Inspirados nas lendas amazônicas, os grupos apresentam espetáculos de música, dança, teatro e efeitos visuais, narrando histórias sobre o boto sedutor que, nas noites de lua cheia, se transforma em um belo rapaz para conquistar corações. No Sairé, a disputa é uma celebração da criatividade e da imaginação popular, com enredos que misturam romance, aventura e a força da natureza amazônica". Este ano o Boto Cor-de-Rosa foi o vencedor. Ele somou 477,5 pontos contra 477,0 do Boto Tucuxi. Não conseguimos comprar ingresso. Eles esgotam quase instantaneamente.
Três observações finais. Pés no chão, o almoço e o padre Boeing. O Barracão do Sairé é de chão batido. Vejamos uma busca na IA. "Por motivos de preservação da ancestralidade, simbolismo espiritual e identidade cultural do povo Borari". E da explicação ouvida na festa - É por que da Terra nascem os muitos alimentos, verdadeiras dádivas divinas. Todo um simbolismo de preservação da natureza, daquilo que nos mantém vivos. E o almoço? Diga-se de passagem um lauto almoço. Distribuído entre todos, os organizadores e os participantes da festa. Todos são convidados. Fartura de peixes, de assados diversos, de frutas e de vinho. Não há excluídos nesse banquete de celebração das dádivas divinas da alimentação brotada da Terra.
E o padre Boeing? O encontramos em frente a Igreja de Nossa Senhora da Saúde. Ele é padre da ordem religiosa do Verbo Divino. Nasceu no Paraná, na cidade de Manoel Ribas. É padre desde o ano de 1990. A maior parte de sua vida religiosa foi e é dedicada ao povo de Alter do Chão. Quando ele falou que pertencia à ordem do Verbo Divino, perguntei se ele conhecia o meu irmão, que pertence à mesma ordem. Ele imediatamente respondeu: - "O maior corintiano do mundo". Ele estudou no Seminário do verbo Divino em Ponta Grossa, onde o meu irmão trabalhava. Mundo pequeno. Padre Boeing também é advogado, "não advogado forense, mas advogado para melhor orientar o povo, na defesa de seus direitos", nos contou ele. Que testemunho fabuloso! Admiração total.
Em frente a Igreja de N. Sa. da Saúde, o encontro com o padre Boeing.
O tema da festa de 2026 foi Rédawa Ancestral. Território - memória e continuidade. O significado de Rédawa ancestral é território, memória e morada ancestral. Os mastros significam demarcação de território. Ouvimos um discurso emocionante de um pajé falando das ameaças ao seu território e pedindo a todos na ajuda pela demarcação do território indígena dos Boraris. A grande ameaça é o garimpo e a contaminação e morte provocadas pelo uso do mercúrio.
Dessa fala, deixei no meu face a seguinte mensagem. Afinal era tempo de eleições:
Creio que não erro ao dizer que hoje a festa tem três grandes componentes: A parte religiosa, como a centralidade da festa; a competição entre os botos e a apresentação dos shows, com artistas e músicas regionais. O carimbó está onipresente. Que maravilha que não é a diversidade cultural e o somatório de crenças tão benfazejas. E longa vida para a diversidade cultural.
A festa também é citada no maravilhoso livro Rebelião na Amazônia - Cabanagem, raça e cultura popular no norte do Brasil, 1798-1840, de Mark Harris. É que a Cabanagem também chegou até a região. Vejamos:
"Em dias especiais, um grande estandarte, conhecido como Sairé ou toriua - um semicírculo de madeira no topo de um mastro alto - era carregado na procissão. Medindo cerca de 1 metro de largura, o sairé era dividido em quatro partes. Cada parte tinha um espelho e uma cruz; outra cruz ficava no topo do estandarte. A estrutura de madeira do sairé era coberta de algodão; fitas pendiam dela, e às fitas se ligavam seis pequenas varetas, também cobertas de algodão. Três mulheres indígenas seguravam essas varetas, enquanto uma quarta segurava uma fita amarrada à cruz, no topo. Enquanto caminhavam, cantavam em língua geral: Em uma pia de pedra foi batizado o menino Deus. Santa Maria é uma mulher bonita; o seu filho é como ela; no alto do Céu está numa grande cruz para guardar a nossa alma" (Página 79).
Opa. Entrando no clima festivo e misterioso. Não. Não é nada alucinógeno.
Quanto a Alter do Chão, ela é realmente um pequeno paraíso. E o lugar das divindades especiais é a ilha em frente, A Ilha do Amor. Indescritível. Você a atinge por dezenas de catraias, os barquinhos que te deixam lá. Os bares fervilham em alegria, com muita música ou o contar de histórias de suas belezas e de seus feitos. E a culinária, então. Impossível imaginar melhor. Só mesmo indo lá, ver, experimentar e sentir todos esses encantos.
Deixo também o primeiro post dessa viagem.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/uma-viagem-pela-amazonia-santarem-alter.html

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