Uma surpresa maravilhosa. Movido pela leitura de A formação do Rio Grande do Sul, de Jorge Salis Goulart, continuei no mesmo tom. Tomei outro livro, ainda não lido, de minha estante sobre o mesmo tema. Trata-se de O regionalismo gaúcho, de Joseph L. Love, professor da Universidade de Illinois, que dedicou mais de 50 anos de sua vida aos estudos do Brasil. O regionalismo gaúcho é muito mais do que um estudo regional. Ele é uma aula de História do Brasil e, afirmo com convicção, uma das melhores aulas sobre o Brasil da República Velha.
O Regionalismo Gaúcho. Joseph L. Love. Perspectiva. 1975. Tradução de Adalberto Marson.
O grande tema do livro é a inserção do Rio Grande do Sul na política brasileira, no período da transição da Monarquia para a República e dos primeiros quarenta anos dessa República, conhecida como a República Velha. Esse período é marcado por uma forte ascendência do Rio Grande do Sul, sendo um dos três estados brasileiros na condução política do país: São Paulo, Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. O grande instrumento de afirmação era o Partido Republicano de cada estado, partidos regionais, sem uma unificação nacional. Os grandes nomes na condução do estado foram Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, governador por cinco mandatos, e o senador Pinheiro Machado. Este último atuava diretamente na capital federal, sendo decisivo na articulação das sucessões presidenciais. Uma mistura de pragmatismo e positivismo os mantinha juntos.
O espírito revolucionário sempre esteve presente na história do estado, mesmo antes do período estudado. A guerra entre os gaúchos e castelhanos foi permanente e o espírito de autonomia se fez presente na Guerra Farroupilha, de 1835. No período específico do estudo se destacaram os movimentos de 1893-1895, a Revolução Federalista e a de 1923 e outras escaramuças ao longo da década de 1920. Para conter essas revoluções a Brigada Militar foi sempre muito fortalecida. A Revolução Federalista foi a mais sangrenta. Tornou-se conhecida como a Revolução da Degola. Mais de dez mil pessoas foram por ela vitimadas. Por curiosidade, deixo aqui o modo como esse processo era executado:
"Conquanto pudesse ser praticada de diferentes maneiras, a mais típica consistia em matar a vítima do mesmo modo com que se abatia um carneiro. A vítima era forçada a ajoelhar-se de mãos atadas ante seu executor e a colocar sua cabeça entre as pernas de seu algoz, que rasgava suas artérias carótidas num golpe súbito de faca" (Páginas 61-2). Este sangrento episódio também marca a abertura do monumental romance de Érico Veríssimo, O tempo e o vento (Parte 1). O continente - vol. 1. O sobrado.
O próprio período estudado, da República Velha, termina com uma revolta, iniciada pelo Rio Grande, com a soma de Minas Gerais e da Paraíba e comandada por Getúlio Vargas. E novos nomes entram como protagonistas em nossa história, tanto na situação quanto na oposição: Osvaldo Aranha e, um pouco mais tarde, João Goulart e Leonel Brizola como seus seguidores e herdeiros e Borges de Medeiros e Flores da Cunha como opositores. Esses dois são, inclusive, fundadores da UDN, o Partido de oposição por excelência, a Getúlio Vargas. A história desse período, por sua agitação permanente, certamente não é um período marcado pelo tédio, da paz dos cemitérios.
Vamos a estrutura do livro de 282 páginas, dividido em duas partes: Parte I. Ascensão do castilhismo, com quatro capítulos e a parte II. Estado e Nação, com sete capítulos. O livro foi publicado originalmente em Inglês - Rio Grande do Sul and Brasilian Regionalism - 1882- 1930. A tradução ficou ao encargo de Adalberto Marson. A edição nos Estados Unidos é da editora da Stanford University Press, em 1971 e a brasileira, da Editora Perspectiva, em 1975. O livro integra a coleção - Estudos.
Vamos aos títulos dos quatro capítulos da primeira parte, que tem a denominação de - A ascensão do castilhismo. Lembrando antes, o período estudado, como consta no título da publicação nos Estados Unidos é de 1882 a 1930. 1. Estrutura da Sociedade Gaúcha; 2. Da Agitação à Consolidação; 3. O Terror e a Guerra; 4. A Nova Ordem Republicana. São capítulos que mergulham na formação histórica do estado, do seu desenvolvimento econômico, do traçado de suas fronteiras, da presença dos açorianos, alemães e italianos, dos problemas dos primeiros governos republicanos e suas dificuldades, dos terrores da Revolução Federalista, de suas causas, se é que as houve, e da consolidação da República, ao longo da primeira década do século XX.
Os títulos dos seis capítulos (aos quais se soma um epílogo, como síntese) são: 5. O Rio Grande e a federação; 6. Pinheiro e seu Partido; 7. Ressurgimento da Aliança do Café; 8. Duas eleições: Acordo e Discórdia; 9. Disciplina Política e Revolta Militar; 10. A última crise. É a segunda metade do período da República Velha, ou seja, de 1910 a 1930. O maior tempo é dedicado às sucessões presidenciais e, isso se justifica. Um candidato, uma vez indicado pelos grandes partidos republicanos de São Paulo, Minas e do Rio Grande, era também o presidente eleito. Os mecanismos eleitorais garantiriam a eleição. Os tumultos ocorriam na indicação. Pinheiro Machado sempre foi o grande articulador, até a sua morte, por assassinato, em setembro de 1915.
Outros temas são as formas que a política assumia, como a política dos governadores, do coronelismo, do salvacionismo, do café com leite... Outros temas presentes: A revolta de 1924, a ascensão dos tenentes e, por óbvio, o esgotamento desses quarenta anos, com as transformações que o Brasil vinha sofrendo, como a urbanização, a industrialização e o surgimento de partidos classistas em substituição aos regionais. Tudo isso, acrescido da crise econômica mundial de 1929, que atinge em cheio a economia cafeeira. No mínimo, novos atores políticos e sociais sobem ao palco da política brasileira e não como meros coadjuvantes, mas sim, como protagonistas. O Brasil passa a ser cada vez mais um país unificado e, nacionalista.
Eu selecionei um trecho do epílogo, que mais ou menos sintetiza esse período: "Para determinar a sucessão presidencial, os partidos políticos de São Paulo e Minas Gerais normalmente trabalhavam juntos, mas em 1910 o PRR (RS) também entrou na disputa. As três máquinas capacitavam-se a dominar a política nacional dada a força econômica e eleitoral de seus estados; se necessário, podiam em reforço recorrer a forças para-militares. Os três partidos ocupavam uma posição favorável à aquisição de apoio, mediante subvenções a jornais, eram capazes de preencher a metade da votação total numa eleição presidencial e podiam confiar em seus exércitos estaduais para impedir uma intervenção presidencial. Os líderes dos três partidos autônomos, agindo em conjunto, podiam evitar a crise inerente a cada sucessão presidencial. Um desacordo entre os três podia, às vezes, ser resolvido por uma legislação econômica compensatória; em São Paulo e em Minas isso comumente traduzia-se na defesa do café e no Rio Grande vantagens para as atividade pastoris. Desacordo de outro tipo significava uma eleição contestada que punha em perigo o sistema político. Isso aconteceu nas três disputas presidenciais seriamente contestadas da República Velha, as de 1910, 1922 e 1930" (Páginas 264-5). Deixo ainda a contracapa do livro:
"Com este livro Joseph L. Love revela uma perspectiva pouco usual sobre período de grande interesse e importância na História do Brasil. Enquanto a segunda metade da República Velha tem sido geralmente examinada nos termos da aliança dominadora 'café-com-leite' formada por S. Paulo e Minas, o presente texto oferece um ângulo estadual diverso, atento às características próprias do padrão histórico do Rio Grande do Sul, como, por exemplo, as circunstâncias que o levaram a negociar mais com outros estados. A justa relevância dada pelo autor a este padrão faz com que o resultado venha a ser menos a história de um Estado do que a sua dinâmica interna e externa dentro da Federação. O período abarcado vai de 1882 a 1930 e entre as várias figuras destaca naturalmente a de Getúlio Vargas. Gaúcho nascido na fronteira, Getúlio de certa forma personaliza o aspecto duplo de tal dinâmica. Sua atuação política inicialmente tomou o feitio regionalista e democrata liberal para desembocar futuramente em um centralismo e nacionalismo de tipo autoritário. Assim, a forma como a modernização do país se liga a aspectos ora de centralização, ora de descentralização, encontra neste livro o tema e a figura à sua medida constituindo o todo do trabalho menos um estudo regional fechado do que uma maneira de tratar o regionalismo em termos de processo brasileiro". Isso ajuda a explicar também o título do livro.
Deixo a resenha do post anterior, sobre A formação do Rio Grande do Sul.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/a-formacao-do-rio-grande-do-sul-jorge.html
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