segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Diário de uma Viagem. Lugo, Cebreiro, León e Oviedo.

Hoje é o primeiro dia que passaremos todo ele na Espanha. Desde a saída de Santiago, o que mais se vê, em tudo que é lugar, são peregrinos. Cruzamos com eles a toda hora. Estamos percorrendo o mais antigo e tradicional dos caminhos de Santiago de Compostela. A primeira parada foi em Lugo, na Galícia, uma cidade em torno de 100.000 habitantes. A cidade tem origem num acampamento militar romano e as suas muralhas, que datam deste tempo, estão praticamente intactas e integram o Patrimônio Cultural da Humanidade. Ele tem mais de dois quilômetros de extensão e dez de altura. Outra característica importante foi a colonização celta, sendo fácil encontrar casas típicas na cidade e, mais ainda na região.
Vista da muralha romana, das mais bem conservadas, na cidade de Lugo.

Além da muralha, a sua catedral também chama a atenção. Ela se compõe de uma nave central e inúmeras capelas ao seu redor, o que é comum a todas as grandes igrejas da península. Ao longo do tempo ela foi ganhando a sua configuração românica e barroca. A sua universidade, de bom conceito, é especialmente ligada às ciências agrárias. É região de criação de gado e de cavalos. A paisagem é muito bonita, situada às margens do rio Minho. Muitas de suas terras são declaradas como reservas da biosfera.
A catedral da cidade de Lugo.

Um fenômeno interessante é a neblina que cobre a região. O sol tem um permanente aspecto de lua. Isto envolve o lugar em muitos mistérios. São famosas as mulheres de Lugo e de toda a Galícia. Historicamente se destacaram pelo conhecimento e domínio das ervas medicinais, sendo, em função disso, muito solicitadas para curas. Isso não passou despercebido pela inquisição e muitas delas morreram queimadas. Isso historicamente vincula a cidade aos movimentos feministas. Cheguei a ver literatura a respeito. Vou fazer mais buscas e pesquisas a respeito. É evidente que a linda paisagem com a sua neblina dá à cidade toda a condição de uma cidade mágica. As bruxas, em espanhol são chamadas de meigas ou magas, palavra derivada do latim, magicus. Os estudos feministas são muito estudados em toda a Galícia.

A famosa frase Yo no creo en meigas - habelas hay, ou eu não creio em bruxas - mas elas existem tem a sua origem na Galícia. Pondo a palavra meigas, no google e acrescentando Galícia, você já tem possibilidades de satisfazer a tua curiosidade. A partir da cidade do Porto trocamos de guia, que passou a ser a Montserrat, ou simplesmente Montse, que nos acompanhou por quase toda a Espanha. Foi ela que nos falou das meigas e também da condição da mulher na Espanha de hoje, destacando que no trabalho, elas ganham em torno de 30% a menos que os homens, para o exercício das mesmas funções.
Típicas casas celtas, em O Cebreiro.

A próxima parada foi num belo povoado a 1.300 metros de altitude, um povoado de origem celta. O Cebreiro. Lá se conservam belas casas celtas originais. A sua história está vinculada ao Caminho de Santiago, sendo uma de suas paradas de assistência aos peregrinos. O que lhe deu fama foi um milagre ali ocorrido. Como no inverno o caminho fica impraticável, em função da neve, num dia de temporal, um padre ia rezando a missa, quando de repente aparece um menino, morador de um povoado próximo, que enfrentara todos os perigos do temporal e da neve para assistir a esta missa, que o padre rezava com muita displicência. Conta que bem na hora da consagração resmungava: A que vendrá éste con semejante tempestad se solo se trata de ver un pedazo de pan y un poco de vino. No mesmo instante houve a transformação real. O milagre foi divulgado por toda a Europa pela multidão de peregrinos.
 
O padre meio incrédulo e o menino devoto do milagre de O Cebreiro, na Capela de Santa Maria - a Real.

Tanto o padre, como o menino estão enterrados na capela ali existente. Até os reis católicos estiveram no local, em 1486. Consta ainda uma lenda, que o local também abriga o Santo Graal, o cálice da Santa Ceia, no qual Simão Cirineu tinha recolhido as últimas gotas do sangue de Cristo. A capela tem o nome de templo de Santa Maria - a Real.

A guia ficou visivelmente emocionada quando chegamos a León, a sua cidade natal. Ela, e a maioria da população de sua idade, emigraram para Madrid e outros centros industriais maiores, em busca de oportunidades de trabalho e de vida. León tem origem romana e também faz parte dos Caminhos de Santiago. Sua população se situa em torno dos 140.000 habitantes. A cidade abriga uma das mais importantes catedrais góticas de toda a Europa, a catedral de Santa Maria de León. Também abriga a casa Botines, um dos primeiros trabalhos de Gaudí e, hoje sede de um banco.
Eis a magnífica catedral da cidade de León.

Ali almoçamos. Algo típico: grão de bico, batata, repolho e carne, num maravilhoso cozido, acompanhado de vinho da região.A guia fez interessantes observações sobre a agricultura da região, da Espanha e de toda a Europa. As dificuldades burocráticas são enormes. Como a Europa atua em comum, a agricultura é totalmente planificada e só se conseguem cultivos mediante licenças, que são muito difíceis de se obter. Acho que a culpa toda é do Marx, ao qualificar o capitalismo como um sistema anárquico de produção.
A magnífica catedral da cidade de Oviedo.

O dia só terminaria com a chegada a Oviedo, cidade com mais de duzentos mil habitantes e capital do principado de Astúrias. É a única região da Espanha que não foi dominada pelos árabes e por isso mesmo, foi aí que começou a reconquista. A cidade é sede da fundação Príncipe de Astúrias, que distribui prêmios de mérito, superados apenas pelos Nobel. O atual rei, Juan de Bourbon é do principado. Também se situa nos Caminhos de Santiago. É cidade de forte caráter universitário e de marcante presença cultural. É famosa a sua catedral gótica, do século XIV. A cidade é também muito aprazível e ostenta o título de cidade campeã da limpeza, entre as cidades espanholas.







sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Diário de Uma Viagem. Braga - Cambados e Santiago de Compostela.

As surpresas começaram cedo, neste dia de domingo. Pouco depois da saída do Porto, já paramos na cidade de Braga, para uma visita ao Santuário de Bom Jesus do Monte ou de Braga, o segundo centro de peregrinações de Portugal. Para alcançar este santuário se sobe por um funicular, movido a água, que dizem ser o mais antigo do mundo. Também dá para subir a pé, tarefa para herois ou para penitentes. Para usufruir de toda a paisagem, o ideal é subir pelo funicular e descer pelas escadarias
Vista do Santuário de Bom Jesus de Braga, o segundo centro de peregrinações em Portugal.

A construção da igreja atual, em estilo barroco, um estilo de celebração, foi iniciada em 1784 e concluída em 1811. O estilo barroco é um estilo para celebrar os triunfos, agora não mais sobre os mouros, mas sobre os protestantes. A beleza se dá pelo conjunto da obra; o monte, a paisagem com o verde da floresta, a igreja e as escadarias, com a via sacra e as fontes. A subida é de 116 metros. As estátuas da via sacra são em tamanhos naturais dos seres humanos representados. O local também é repleto de símbolos. Assim existem cinco fontes, representando os cinco sentidos. A figura que representa a fonte da audição verte água pelos ouvidos, a da visão, pelos olhos, a do olfato, pelo nariz, a do paladar, pela boca e a do tato, joga água para cima, com as duas mãos. Existem outras três fontes, representando as virtudes da fé, da esperança e da caridade. O lugar, além de toda a sua beleza, é extremamente agradável para se ficar. Deve ser muito frio no inverno.
A fonte que representa o sentido do olfato, jorrando água pelo nariz.

Por Braga encerraríamos o nosso giro português, iniciando automaticamente o giro pela Espanha. E o fizemos de uma forma muito agradável, entrando pela Galícia, passando pela cidade de Vigo e, parando em Cambados para uma demonstração do cultivo de mexilhões, ostras e vieiras, um molusco envolvido numa concha colorida, em forma de leque e, que se transformou num dos símbolos dos peregrinos de Santiago de Compostela. Cambados também tem o seu vinho regional - o vinho alvarinho.

Na nossa programação constava um passeio de barco que nos levaria a uma criação destes moluscos, com degustação de mexilhões, acompanhada do famoso vinho local.  Foi uma demonstração espetacular, tirando do mar uma espécie de varal com a criação de cada uma das três espécies. A degustação foi fabulosa. Não economizaram nem no mexilhão e muito menos no vinho. Toda a demonstração foi observada por atentas gaivotas, sempre na espreita de algum bocado. A degustação foi feita sob a música do "Ai se eu te pego", com um show todo especial de um chinês, que literalmente soltou a franga. Desconcentração total.
Uma demonstração da criação de mexilhões e ostras. A corda das vieiras ainda estava para ser puxada. Isto foi em Cambados, na Galícia.

Em Cambados comprei os dez mandamentos do vinho, que são os seguintes, em espanhol, evidentemente: 
1º. Amarás el vino sobre todas las cosas.
2º. Jurar beberlo en verano y en invierno.
3º. Santificar las bodegas.
4º. Honrar al tinto y al blanco.
5º. No matar el gusanillo con menos de 6 cuartillos.
6º. Nunca se haga el desatino de mezclar agua con vino.
7º. No hurtar botella o bota que esté vacia o rota.
8º. No murmurar sin jumera ni mentir sin borrachera.
9º. Cuando se desee botella ajena que sea de 16 litros y esté llena.
10º. Las tres ces no debes olvidar: bebe con calma, calidad y sin cambiar.

Bem, vamos voltar à seriedade, pois, já estamos chegando em Santiago de Compostela, o terceiro maior centro de peregrinações do mundo, perdendo apenas para Roma e Jerusalém. Fizemos um tour guiado, guia local, nos arredores da igreja. Nela não pudemos entrar em virtude de uma celebração religiosa. Estavam ordenando novos padres. O guia nos quis ministrar um doutorado sobre a cidade, com duas horas de duração. São informações demais e, por isso, a maior parte delas se perde. A cidade é totalmente  voltada ao misticismo.
O templo de Santiago de Compostela, o centro de confluência de peregrinos do mundo inteiro. É o terceiro maior centro de peregrinações do mundo. Só perde para Roma e Jerusalém.

A tradição alimenta duas histórias, correlacionando São Tiago com a cidade. A primeira, praticamente abandonada, dizia que Tiago, em vida, pregara na Espanha. A segunda diz respeito a um anacoreta, de nome Pelágio, que esteve na região, em campanhas de Carlos Magno, pelos anos 812-814. Diz ter encontrado a sepultura, depois de uma visão luminosa. As peregrinações começaram de imediato. Compostela tem dois possíveis significados. O primeiro, mais desejado, porém mais improvável, Campus stellae, ou campo de estrelas. O segundo, mais real, se refere a Compustium tellus, ou seja cemitério. neste local foram sucessivamente construídas pequenas igrejas, até o início da construção da atual,  em 1075 e, concluída em 1.128. Durante a Idade Média passou a ser o centro de convergência (nada central) de todas as peregrinações. Em 1884, o papa Leão XIII proclamou a autenticidade da relíquia, ou seja, os restos mortais encontrados em Santiago, são realmente do corpo do apóstolo Tiago. É certeza que o apóstolo morreu mártir, em Jerusalém, entre os anos de 42 e 44.
 Outra vista do santuário de Santiago de Compostela. Muita espiritualidade e magia.

Na praça da catedral de Santiago, que também é a capital da Galícia, se concentram vários poderes, como o religioso (a catedral), o político (o palácio do governo) e o do conhecimento (a universidade). Junto à praça, ainda havia um hospital para a recuperação de peregrinos fragilizados em função das longas caminhadas, hoje transformada em pousada para receber convidados ilustres.. Existem inúmeros caminhos de Santiago, confluindo todos eles junto à catedral. Após a janta, onde brincavam lindas crianças irlandesas, ainda passeamos pela praça em frente a catedral, onde também assistimos a uma apresentação musical, de um grupo de estudantes de direito, que arrecadavam fundos para a conclusão de seu curso na universidade da cidade, que goza de um bom conceito. Até comprei um CD deles. Um lugar todo diferente, de muito misticismo religioso. Para amanhã, Lugo, O Cebreiro, León e Oviedo.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Diário de uma Viagem. Porto.

Pela manhã ainda passeamos em Fátima para, somente depois disso, continuar a nossa viagem até a cidade do Porto, a segunda cidade portuguesa e importante centro industrial e comercial.. Pelas palavras do guia, as rivalidades regionais em Portugal são muito grandes. Ele nos contava do que se faz nas mais importantes cidades de Portugal. Assim, enquanto no Porto se trabalha, em Braga se reza, em Coimbra se estuda e em Lisboa o povo se diverte. A piadinha com relação a Lisboa, pela sua diversão, nos contava o guia, é porque lá "trabalham" os políticos. Dá para ver que os políticos não se dão mesmo ao respeito em nenhum lugar do mundo.
Vista do rio Douro, na cidade do Porto e da ponte D. Luís I, projetada por discípulos de Eiffel, em estrutura de ferro. É chamada de torre Eiffel deitada.

Porto, ao que tudo indica, é uma cidade muito orgulhosa de sua história. Uma de suas designações é A Invicta. O seu desapego e dedicação às causas cívicas e coletivas lhes rendeu um apelido, que de início poderia ser considerado como constrangedor. Tripeiros. O apelido lembra o episódio do início das navegações, quando o Infante D. Henrique parte para a conquista de Ceuta. Os portuenses doaram a carne para alimentar os aventureiros das navegações, ficando apenas com as tripas, como seu alimento. Em compensação receberam esta carinhosa alcunha de tripeiros.

A cidade do Porto também é responsável pelo nome dado ao país. A Pena Ventosa, como era denominada a região das colinas na foz do rio Douro, recebeu o nome de Cale, depois Portus Cale, donde derivou Portucale, o nome de Portugal, que o país ostenta. A povoação da cidade é antiga, devido a sua excelente condição de porto e local estratégico do comércio entre os mares Mediterrâneo e do Norte. Praticamente, sob este ponto de vista, repete a história de Lisboa. A cidade também exibe a sua condição de liberdade, de determinação e autonomia, desde o seu pioneirismo na expulsão dos árabes, na defesa dos princípios liberais, na guerra contra D. Miguel, na Revolução Liberal do Porto, na proclamação da República e na derrubada da ditadura salazarista. Quando Portugal se desnorteava, o Porto sempre lhe oferecia um norte seguro.
Uma das mais belas igrejas de Portugal. A catedral da Sé, na cidade do Porto.

Chegamos à cidade na hora do almoço. Fizemos isso num dos muitos restaurantes à beira do rio Douro, tendo como vista, a bela ponte D. Luís I, com estrutura de ferro, arquitetada por um discípulo de Eiffel. É considerada como a torre Eiffel deitada. No restaurante estava um casal holandês, ambos com mais de 80 anos, com uma invejável condição física, na condição de turistas. Me comuniquei com eles em alemão. Ao contrário do que muitos falam, os brasileiros são tratados, mundo afora, ao menos de acordo com a minha experiência, com muito carinho e afabilidade.

Após o almoço fizemos o tour panorâmico. Estes tours sempre tem os seus limites e os guias insistem em informar que eles são apenas panorâmicos. Uma ou outra rápida paradinha, apenas. É um crime ir ao Porto e não se arrastar ao menos por um dia inteiro pelas colinas da cidade, em seu cento histórico, todo ele declarado Patrimônio da Humanidade. A primeira parada foi na Sé, na catedral da Sé. Como havia cerimônias religiosas, nela não pudemos entrar. A igreja é muito bonita e dali também se tem uma bela vista panorâmica da cidade. Junto a catedral está uma estátua, em bronze, do fidalgo galego, Vimara Peres, que por ordem de D. Afonso III, das Astúrias, expulsou de Portucale, na foz do Douro, já no ano de 868, os invasores árabes. A data não está errada, é 868 mesmo. A expulsão dos árabes, que seria definitiva na península ibérica, apenas em 1492, sempre teve esta direção, de norte a sul.
Fachada de uma das mais belas livrarias do mundo. A Lello e Irmão. Ela se situa no centro histórico do Porto, nas proximidades de sua universidade.

Outra parada foi feita nas proximidades da Universidade e da igreja de Santo Ildefonso. Nas suas proximidades está localizada a Livraria Lello, considerada uma das mais belas livrarias/museu do mundo. Nela, para não dizer que não comprei nada e, para ter uma recordação, comprei A Máquina de fazer espanhóis, do Valter Hugo Mãe. Viram como eu estou chique... Tenho em minha biblioteca um livro comprado na livraria Lello, no Porto, na rua das Carmelitas, 144. Especialmente aqui, neste ponto da cidade, deveríamos ter permanecido por mais tempo.

A padroeira da cidade é a Virgem de Vandoma, cuja festa é celebrada no dia 11 de outubro. Já o padroeiro é São João. Não é São João Batista, mas um eremita da região, que por aí andou no século IX. Mas a festa é celebrada no dia de São João Batista, 24 de junho. A sua festa tem muita tradição. Com martelos de plástico se golpeiam as cabeças, para delas serem afastados os maus espíritos, se distribui manjericão, não como tempero mas como símbolo de amizade, se comem muitas sardinhas e se toma muito caldo verde, enquanto se contemplam os shows pirotécnicos. Esta nossa visita teve o acompanhamento de uma guia local.
Em Vila Nova de Gaia, do outro lado do Douro se concentram as vinícolas que produzem o vinho do Porto. Visitamos uma das mais tradicionais, a Cálem.

Depois do centro histórico fomos para o outro lado do rio, para cidade de Vila Nova de Gaia. Ali, na outra margem do Douro se concentram as vinícolas, especializadas na fabricação do vinho do Porto. Visitamos uma das cantinas mais tradicionais, a Cálem, com guia da própria vinícola. Nos explicou todo o processo de produção, especialmente do tradicional vinho do Porto. Este vinho, cuja produção data do século XVII, foi obtido quando os mercadores ingleses adicionaram conhaque ao vinho, visando a sua preservação por mais tempo. Ele é produzido exclusivamente na região do alto Douro, donde é transportado pelo rio, para ser depurado em Vila Nova de Gaia. Existem três tipos de vinho do Porto: O White, que é tomado como aperitivo, o Ruby e o Tawny que são tomados como digestivos. Estes vinhos não tem problemas de mercado, tendo nele fácil colocação.
Estas garrafas eu tentei comprar, mas não houve negociação. O vinho do porto foi uma invenção do século XVII, quando foi acrescido conhaque ao vinho, com a finalidade de preservá-lo por mais tempo.

O Porto sempre teve forte presença de mercadores ingleses, o que influenciou, inclusive nos hábitos portuenses, como o de tomar chá. Os ingleses chamam a cidade de OPorto. Ela é absolutamente moderna, com boa infraestrutura, e dotada de moderno metrô. Possui em torno de um milhão e meio de habitantes. Não saí inteiramente satisfeito desta cidade. Queria conhecê-la melhor, especialmente andando pelo seu centro. Quem sabe, numa próxima oportunidade. Para o dia seguinte, Santiago de Compostela seria o nosso destino, mas passando antes por Braga e Cambados. Começaria o nosso giro pela Espanha, sendo Montsserrat, ou Montse, a nossa guia.





quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Diário de uma Viagem. Fátima.

Ao final da tarde de um dia muito intenso, chegamos em Fátima. Nos instalamos no hotel, muito próximo ao santuário e nos foi servido um jantar. A grande atração seria a procissão internacional das velas, anunciava o nosso prospecto de viagem. Eu era todo curiosidade. Fátima foi uma das devoções mais cultivadas no meu tempo de juventude, passado no seminário. Também em casa, em Harmonia, a lembrança de Fátima era constante. Não se imaginava dormir, sem antes ter rezado o terço. Uma das imagens de minha mãe, que eu mais trago presente em minha memória, é ela com o terço nas mãos, em qualquer momento de folga, a qualquer hora do dia.
Vista da Basílica do Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Quatro milhões de peregrinos por ano.

Sentimentalismos a parte, reconheci imediatamente a catedral basílica. O que eu mais queria ver era o famoso pé de azinheira, a azinheira grande, ao lado da capela das aparições. Afinal, foi sob uma azinheira que N. Sa. de Fátima pousou. É realmente uma belíssima árvore, de muita tradição em Portugal. Depois de uma breve andada pelos lugares históricos, jantamos e nos preparamos para a anunciada procissão das velas. As luzes partem de uma vela central. A partir dela são acendidas inúmera outras, em série. Simultaneamente de todos os recantos surgem centenas de pessoas, portando suas velas acesas, rumando para o entorno da capela das aparições, onde é rezado um terço. Cada mistério é rezado em uma língua diferente. No dia, os mistérios, precedidos de reflexões, que eu considerei muito boas, de ordem existencial, foram rezados em português, em espanhol (uma delegação de Málaga), em italiano, em polonês, junto com uma delegação da Irlanda e o quinto e último mistério, por peregrinos indonésios.
A azinheira grande. Ao lado desta árvore, numa igual a esta é que N. Sa. de Fátima teria aparecido. Ali se situa hoje a capela das aparições, junto a qual ocorrem as grandes solenidades.

Paralelo a isso, eu assisti uma cena, que no meu modo de ver, é deprimente. Inúmeras pessoas vieram se arrastando de joelhos para as proximidades da capela das aparições. Certamente estavam cumprindo promessas ou pedindo intercessões junto a Fátima. Os peregrinos, ou peregrinas, em sua maioria, estavam visivelmente extenuados. No meu entendimento, existem formas mais suaves para demonstrações de fé. Prostração não é uma palavra do meu vocabulário e agrado. Muito humilhante.

O guia, já no ônibus, fizera uma pequena coleta e, nos prometia em troca, algum material. Não existe, ao menos eu não percebi, muita exploração financeira em Fátima. Como isto não é feito de forma muito ostensiva, certamente é feito de forma mais organizativa. O que existe de ostensivo são as inúmeras lojas com material religioso, ligado a Fátima e as três crianças. Recebemos dois santinhos com orações e um fôlder com todo o histórico das aparições, da construção do santuário, das festas e das visitas papais em peregrinação à cidade. Fátima é o maior centro de peregrinos de Portugal, recebendo-os, em número de quatro milhões por ano.O segundo centro é o Santuário de Bom Jesus do Monte, na cidade de Braga.
A Capela das Aparições. Fica no exato local onde N. Sa. teria aparecido. É o grande local das solenidades.

Vamos contextualizar um pouco as aparições que ocorreram em Fátima e da significação que a elas foi atribuída. A primeira aparição teria acontecido em 13 de maio de 1917, por volta do meio dia, para três pastorezinhos, duas meninas, Lúcia de Jesus e Jacinta Marto e, para o menino Francisco Marto. Jacinta e Francisco eram irmãos. A principal protagonista foi Lúcia, mesmo porque as outras duas crianças, muito cedo morreram. Francisco em 1919 e Jacinta em 1920. Lúcia fez a profissão de votos religiosos e veio a falecer em fevereiro de 2005, aos 98 anos de idade. A aparição teria se dado por volta do meio dia, quando as crianças viram um enorme clarão. Pensando se tratar de um raio, trataram de voltar para casa, quando foram surpreendidas por um novo clarão. Foi então que viram, em cima de uma azinheira, uma senhora muito mais clara do que o sol e, de cujas mãos pendia um terço branco.
Vista dos peregrinos penitentes se arrastando sobre os joelhos.

A Senhora lhes dirigiu a palavra pedindo muitas orações e prometendo voltar mais cinco vezes, sempre na mesma data e no mesmo horário. Na última aparição já estavam presentes mais de 70.000 pessoas e Ela se apresentou como a Senhora do Rosário e, pediu para que no local Lhe fosse construída uma capela, além de pararem de fazer pecados e assim ofenderem a Deus. Para entender o significado de Fátima é preciso, em primeiro lugar atentar para o ano da ocorrência, 1917, portanto, em plena efervescência da Primeira Guerra Mundial.

Portugal estava envolvida nesta guerra. Dela participaram mais de duzentos mil portugueses, calculando-se em torno de dez mil, os que que nela morreram. Em função disso, os apelos de Nossa Senhora, sempre foram apelos para a paz. Em Portugal a ditadura salazarista procurou tirar muito proveito com as aparições, transformando suas mensagens em mensagens anti-soviéticas, anticomunistas e pró colonialistas, os eixos fundamentais da ditadura. Após a segunda guerra, com o surgimento da Guerra Fria, o caráter anticomunista foi reforçado, especialmente com os mistérios em torno do terceiro segredo de Nossa Senhora, que teria alertado contra os inimigos da igreja nos dias de hoje, como os sistemas ateus e materialistas. Em suma, o regime comunista soviético.
Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma última vez.

Eu, pessoalmente, em Porto Alegre, tive uma experiência destas, logo no início do regime militar brasileiro. O regime ditatorial trouxe ao Brasil o padre irlandês/americano, Patrick Peyton para fazer a propaganda anti comunista, falando dos horrores praticados pelos comunistas na Guerra do Vietnã e, pedindo a reza do terço, diariamente, para que Nossa Senhora de Fátima salvasse o Brasil do comunismo. Eu pessoalmente tinha feito a promessa desta oração diária. Os meus pais também já o tinham feito por mim. O padre Peyton organizou enormes passeatas em nome da cruzada (sempre essa palavra) do Rosário em Família. João Paulo II, o papa polonês, oriundo portanto, dos países da chamada cortina de ferro, empenhou o seu enorme prestígio em favor de Fátima, visitando o local três vezes, durante o seu pontificado.
Uma vista panorâmica de Fátima. A cruz, a Capela das Aparições e a Basílica.

A minha visita a Fátima se cobriu de muito respeito. Aprecio muito a mensagem por ela transmitida aos pastorezinhos "Não tenhais medo". Aliás esta era também a mensagem deixada por uma enorme faixa estendida em frente a catedral basílica. Também apreciei as mensagens transmitidas durante a oração do terço. Nada tem a ver com o vale tudo dos padres pop star brasileiros, em suas cruzadas para impedir a perda de fiéis para as chamadas igrejas da teologia da prosperidade. Em suma, eu gostei muito de ter visitado Fátima. Me fez bem, especialmente, como já me tinha feito, nos meus momentos de definição na saída do seminário, a marcante frase do "Não tenhais medo".

   

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Diário de uma Viagem. Vila Viçosa - Alter do Chão - Almourol e Tomar.

De Évora saímos bem cedo, pois, o dia nos reservava muitas atrações. Nossa primeira parada seria em Vila Viçosa, também no Alentejo. A viagem se deu, por um longo tempo, quase costeando a divisa com a Espanha, o que também enche a região de história. A cidade é antiga e conserva bem os seus muros medievais. Historicamente a cidade está ligada à Restauração do império português, em 1640 e, já em 1646 a cidade, e Portugal inteiro, são consagrados a Nossa Senhora da Conceição, que sempre ostenta a Coroa do Império. Consta que depois que Nossa Senhora foi coroada rainha e padroeira de Portugal, a Coroa Lhe é monopólio. Nenhum soberano mais a usou. A igreja, a Ela consagrada, é muito bonita.
Igreja de Nossa senhora da Conceição, coroada como rainha de Portugal. Em Viçosa.

Por ocasião de nossa visita, uma zeladora muito preocupada nos admoestava, especialmente através de nosso guia, para que fizéssemos o necessário silêncio para não perturbar as solenidades da reza da missa. No pátio da  igreja existe uma oliveira majestosa. O Alentejo é também grande produtor de azeite de oliva. Em frente, no local de entrada para a igreja, se conserva um pelourinho, que não era para castigar escravos negros desobedientes, mas para punir os infiéis.
O Palácio Ducal. Em frente a estátua equestre de D. João IV. Vila Viçosa é a cidade dos Orleans de Bragança.. Hoje o Palácio foi transformado numa pousada.

Outra atração histórica e turística é o Palácio Ducal, construído no século XIV, por D. Dinis. Em frente ao Palácio existe uma estátua equestre que homenageia D. João IV. Viçosa foi a cidade muito prestigiada pela família dos Orleans de Bragança, que ali fixaram residência até a proclamação da República portuguesa em 1910. Com a república a cidade entrou em decadência, uma vez que os símbolos da monarquia precisavam ser apagados. Hoje o Palácio abriga apenas uma pousada explorada privadamente. Outro título que Viçosa ostenta é a de ser a capital do mármore.

De volta ao ônibus, o guia nos fala sobre o mármore produzido na região e simultaneamente nos mostrava as suas enormes pedreiras. É famoso pelos seus mármores brancos, que são lapidados na Itália. O guia, misturando lamento, ironia e nostalgia, nos contava dos italianos que, não satisfeitos com o roubo do santo, agora também lhes roubam o mármore. Referia-se a Santo Antônio de Lisboa, que virou Santo Antônio de Pádua, a cidade italiana e, à lapidação do mármore em cidades italianas, ganhando assim, status de produto italiano. Nas proximidades estão as cidades de Extremoz e Borba, famosas pelos seus azeites, vinhos e mármores. Também nos falou de aguardente, a bagaceira, e de licores. Nos falou especialmente da famosa marca Beirão, que segundo dizem, recompõem as ideias. O licor Beirão é um dos mais típicos produtos portugueses.
Pedreiras de mármore. Portugal produz mármores brancos, que são lapidados na Itália.

A parada para o almoço foi em Alter do Chão, passando antes por Cabeço de Vide, famosa por suas águas termais. Em Alter do Chão o guia nos recomendou comer pernil de porco, que na verdade era o joelho de porco. A carne de porco está muito presente na cozinha portuguesa. Para acompanhá-lo, vinho, pois ainda estávamos no Alentejo. A cidade é muito pequena. Menos de três mil habitantes. É famosa pelo seu Castelo, historicamente ligado a expulsão dos mouros da Península Ibérica.

Um outro Castelo marcaria a nossa próxima parada para uma visita ao Castelo de Almourol, numa das ilhas do rio Tejo. Por muitos anos, este rio marcou a separação entre cristãos e árabes. A sua história também está relacionada à reconquista, a luta pela expulsão dos mouros de Portugal e da Península Ibérica. D. Afonso Henriques o confiou aos Templários, encarregados de povoar a região, especialmente com finalidades de defesa, perante as ameaças dos árabes. Os Templários e os seus sucedâneos, a Ordem de Cristo, tem toda uma história a ser contada, pois foram de uma importância fundamental. O Castelo fica numa ilha do rio Tejo e só é alcançável pelo rio. Fomos até as suas proximidades, num belo passeio de barco. É famoso também pelos reflexos que ele projeta na água, mas infelizmente, este fenômeno nós não o flagramos. Foi um passeio de encher os olhos.
O castelo de Almourol, numa ilha do rio Tejo.

Mas a surpresa do dia ainda estava por acontecer. A visita ao Convento de Cristo, na cidade de Tomar, declarado patrimônio da humanidade, pela Unesco. Tomar está totalmente voltada aos Templários, a ordem religiosa militar, criada em 1118 na cidade de Jerusalém. Os Cavaleiros da Ordem do Templo foram criados para proteger os peregrinos cristãos em visita ao templo de Salomão e à terra santa. O seu poder, dois séculos depois, fez com que a monarquia francesa solicitasse a extinção da ordem, o que foi feito pelo papa Clemente V, em 1312. Este tema dos templários, ainda hoje, preenche os nossos livros e as nossas telas nos cinemas.
Uma vista do Convento de Cristo, em Tomar. Tudo está ligado aos Templários e a Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo

Em Portugal, em substituição aos templários, D. Dinis exigiu do papa a criação da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, para quem foi transferida toda a riqueza dos templários. O envolvimento de Tomar com os templários começou com a rainha D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, que fez as primeiras doações à ordem e, logo depois, D. Afonso a eles confiou a região, como ponto estratégico para a expulsão dos mouros e marco de defesa da Península. Foi então que começou a construção do castelo. A sua construção é histórica, tendo praticamente cada rei português contribuído com a sua construção, recebendo assim diferentes características, peculiares de cada época.
Possivelmente a coisa mais preciosa e rica do Convento de Cristo, a janela manuelina.

O seu envolvimento com as navegações se deve à nomeação do infante D. Henrique, em 1420, como Regedor da ordem, pelo papa. O infante usou a riqueza e o poder da ordem em favor das navegações e todos os navegadores portugueses, bem como Colombo, pertenceram a esta ordem religiosa. O castelo é realmente grandioso e impressionante e uma grande demonstração de poder. É uma cidade. São quase 40 hectares de terras muradas, com magníficas construções e muito luxo. É uma das expressões do Renascimento em Portugal. A ordem dos cavaleiros de Cristo, apesar de extinta, foi recomposta e existe até hoje. De toda a viagem foi a visita ao Convento de Cristo, uma das coisas que mais me impressionou e despertou curiosidade. Deixo aqui um pouco de sua história.Ali se celebra, de dois em dois anos, a festa dos tabuleiros. Ainda teríamos que chegar  em Fátima. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Diário de uma Viagem. Albufeira - Mértola e Évora.

De Albufeira saímos no rumo de Faro, a capital do Algarve, onde se localiza o importante aeroporto internacional, o local pelo qual se movimentam os inúmeros turistas da região. Os turistas são para ali atraídos por causa de suas belas praias com águas quentes, pelos centros de lazer que ali foram construídos e pelos centros esportivos, especialmente seus campos de golf. Chegamos ali no dia 4 de julho, dia dedicado a Santa Isabel, simplesmente a padroeira de Portugal. No Faro é muito forte a presença da cultura árabe. Fizemos uma incursão a pé pelo seu centro histórico. Também vale lembrar que todo o Algarve foi fortemente atingido pelo terremoto de 1755.

O guia já nos havia comunicado dos famosos docinhos produzidos na cidade. Eles são famosos em função dos desenhos que recebem. São verdadeiras mini obras de arte. Tomam as mais diferentes formas de animais e de frutas. São para serem comidos pelos olhos. São o grande charme das confeitarias da cidade. Nos detivemos por pouco tempo na cidade já que Mértola nos aguardava. A parte histórica da cidade se concentra  em torno do Largo da Sé e do Palácio Episcopal.
O Largo da Sé, na cidade do Faro, a capital do Algarve.

A cidade do Faro se tornou famosa com a arquitetura de seus docinhos. Eles recebem a forma de bichinhos e de frutas.

Uma palavrinha sobre santa Isabel, a padroeira. A sua história nos foi contada pelo guia. Completei com algumas buscas. Encontrei este resuminho na Wikipedia: "Levava uma vez a Rainha santa - moedas no regaço para dar aos pobres [...] encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava [...] ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei - não sendo tempo delas". A fonte é apontada como sendo da Crônica dos frades menores - Frei Marcos de Lisboa - 1562 . Isabel era de Aragon - Espanha. Casou-se com D. Dinis, rei de Portugal. O casamento foi muito conveniente para D. Dinis, em virtude dos muitos dotes de Isabel. Não viviam bem e D. Dinis teve filhos fora do casamento, que muitas brigas geraram. Isabel era conhecida pela sua piedade e caridade. Vivia distribuindo as coisas do Palácio aos pobres e D. Dinis ficou na sua espreita, para flagrá-la. Ao flagrá-la é que deu-se a historinha acima contada. As moedas que trazia, se transformaram em rosas, mesmo fora de época.  Consta também que com o seu falecimento, causado por uma peste, procuraram fazer o enterro rapidamente para evitar mau cheiro, mas apesar disso chegaram a ver um líquido escorrendo. Ao contrário do esperado, ele exalava um suave perfume. Isabel é santa, assim proclamada pela igreja católica, que também a considera como uma de suas doutoras.

A próxima parada foi em Mértola, cidade que fora totalmente dominada pelos árabes. A sua igreja está construída sobre  as fundações de uma mesquita. Do lado da igreja existe um castelo. Tanto a igreja, quanto o castelo se situam bem no alto de um morro, o que é normal. A cidade se localiza já na região do Alentejo, na confluência dos rios Oeiras e o Guadiana. O castelo teve importante papel na reconquista, na luta pela expulsão dos árabes, para guarnecer posições. A cidade também é conhecida como sendo a cidade da caça. Coelhos e lebres são o alvo principal.
O interior da bela igreja de Mértola, construída sob uma mesquita árabe. A cidade está ligada à reconquista, à expulsão dos mouros. Ela é banhada pelas águas do rio Guadiana.

Por volta das 14:00 horas já estávamos em Évora, tida por muitos como a mais bela cidade portuguesa. É a capital do Alentejo. Ela preserva, tanto muralhas romanas, quanto a sua estrutura medieval. Em função disso foi declarada como patrimônio da humanidade. Em sua descrição, no livro Viagem a Portugal, Saramago reclama do calor, da desumanidade da Capela dos Ossos, na igreja de São Francisco, das muitas igrejas, além de contar a história da rendição das forças absolutistas de D. Miguel aos liberais de D. Pedro IV, o nosso D. Pedro I, ocorrida nesta cidade. Conta ainda de Giraldo, nome da principal praça da cidade, lembrando os seus feitos deste personagem, na expulsão dos árabes. As igrejas, as encontramos quase todas fechadas. Não a de São Francisco com a sua capela dos ossos.
A igreja de São Francisco com a capela dos ossos, em Évora

Saramago quando apresenta a região do Alentejo, assim a intitula: "A grande e ardente terra do Alentejo". E nisso Saramago tem toda a razão. O calor é insuportável. Por ela passamos duas vezes e nas duas vezes eu me senti mal. O Alentejo é a região menos povoada de Portugal e isto ocorre em função do latifúndio que marca profundamente a região. Quando Saramago fala de sua visita a Mértola, ele fala da transição climática, afirmando que, apesar de suas terras pertencerem ao Alentejo, elas mais parecem com as terras do Algarve e ironicamente se refere a esta situação do latifúndio. "Com o que, note-se bem, não quer (o viajante) tirar terras ao Alentejo para as dar ao Algarve. Se o viajante tirasse terras, fazia assim: tirava terras ao Alentejo para as dar aos alentejanos, tirava terras ao Algarve para as dar aos algárvios, e, começando pelo Norte, do Minho para os minhotos, de Trás-os-Montes para os transmontanos, assim sucessivamente, cada um com cada qual, e tudo com Portugal. Era assim que o viajante faria".
A bela catedral da Sé, em Évora.

A coisa mais fácil que pode acontecer ao turista nesta cidade é ele perder-se, ou voltar ao mesmo lugar de onde saíra. Trata-se, efetivamente de uma cidade medieval com suas ruelas, becos e muros. O forte calor e o mal-estar por ele causado, me fez recolher bem cedo, mas não antes de saborear o melhor vinho de Portugal, o vinho do Alentejo, o que já tinha feito também no almoço. Por falar em vinho, é quase impossível comprar um mau vinho em Portugal. O controle por origem parece funcionar muito bem. E uma curiosidade histórica, para encerrar. Vejam a perspicácia do homem público que foi o Marquês de Pombal (1669-1782), que já nesta época percebeu, que para vender vinho, ele precisaria de um produto de qualidade. Inventou então, em Portugal, o controle dos vinhos pela sua origem, pela sua procedência. Amanhã tem Vila Viçosa - Alter do Chão - Tomar e Fátima.   

sábado, 10 de agosto de 2013

Tieta do Agreste. Jorge Amado.

Este talvez seja o mais longo dos romances de Jorge Amado. O romance foi escrito entre 1976-7, na Bahia e em Londres. Além do livro, também obteve enorme sucesso no cinema e na televisão. Se Gabriela Cravo e Canela rendeu a Jorge Amado a sua casa no Rio Vermelho, os direitos autorais de Tieta possibilitaram a Jorge a compra de seu apartamento em Paris. O próprio Jorge é que conta isso.
Tieta do Agreste em sua nova edição. Companhia das Letras. 2012.

A história se ambienta no interior baiano, no litoral norte, já na divisa com Sergipe. Santana do Agreste é o seu cenário, junto com a paradisíaca praia de Mangue Seco e seus coqueirais. É óbvio que Tieta, Antonieta ou ainda a madame Antoinette será o personagem central. Tieta é mais uma das famosas mulheres descritas por Jorge Amado. A sua força é tão grande que a madame francesa Antoinette é nascida na Martinica, igual a Josefina, a poderosa esposa de Napoleão.

Tieta é uma moça pobre mas cheia de vida e de natureza. O bode Inácio incendeia o seu imaginário e mirando-se nele e nas cabras, muito cedo se inicia nas atividades sexuais, numa cidade muito conservadora. Isto lhe vale uma boa surra e a expulsão de casa pelo seu pai, o Zé Esteves. Tieta tem duas irmãs, Perpétua, a rainha da sacristia e Elisa, que ficam morando em Santana do Agreste e formam os outros personagens importantes do romance.
Edição de lançamento de Tieta do Agreste em 1977.

Depois de um certo tempo chega regularmente, ou melhor, mensalmente uma carta que tem como remetente Tieta e uma certa caixa postal de São Paulo. Tieta, a remetente, nunca dá pistas de seu endereço e muito menos da vida que leva no sul progressista. A história ganha novos componentes, a partir de um atraso considerável na chegada da correspondência de São Paulo, o que faz Perpétua ir à agência dos correios diariamente. Ali se fazem as mais diversas conjecturas sobre o que poderia ter acontecido. Morte e herança são os temas mais comentados. Uma das personagens mais bem construídas no imaginário de Jorge é Dona Carmosina, a agente dos correios e, em função disso, conhecedora de todos os fatos que ocorrem na cidade. Por ela chegam as notícias e por ela saem as cartas e os telegramas. Ela ajuda neste ofício da escrita, quase um monopólio seu, o que lhe possibilita um amplo conhecimento sobre tudo o que acontece na cidade. A agência dos correios é tida como o areópago da cidade.

Um mistério inicial está construído. Quem é Tieta agora, o que faz, a tal ponto, de poder ajudar a família mensalmente, por que oculta o seu endereço e por que a carta está atrasando tanto?  O mistério começa a se desfazer com a chegada de Tieta na jardineira de seu Jairo, que liga Santana do Agreste a Esplanada, acompanhada de uma bela enteada, Leonora. Mas o mistério em torno de Tieta aumenta. Quem é ela afinal de contas?
Capas de Tieta do Agreste, mundo afora.

Santana do Agreste parou no tempo e vive um período de decadência. A cidade é governada pelo secretário da prefeitura, já que o prefeito não tem mais condições para o exercício do cargo.  Ascânio Trindade é o seu nome. Será um dos personagens mais emblemáticos da sociedade de Agreste. Está profundamente preocupado com o progresso da cidade. Após um dia de viagem, voltando para a cidade, desabafa de um insucesso seu, na tentativa de trazer a energia elétrica de Paulo Afonso para a cidade. Até desfeitas lhe fizeram. Tieta, ao saber do ocorrido, toma as suas providências. Ela, que já impressionara com os ricos presentes que havia trazido para os familiares e para a igreja, irá agora demonstrar muito mais poder, enviando um telegrama para São Paulo sobre a questão da energia elétrica. Em poucos dias chega a resposta positiva, da alteração de todos os planos da hidrelétrica e da contemplação da cidade com a sua energia. A energia ou a luz de Tieta. Ela se torna a benfeitora da cidade, enquanto a curiosidade em torno dela só aumenta.

A trama continua com Ascânio Trindade e as notícias sobre a instalação de uma indústria nos coqueirais de Mangue Seco, uma indústria altamente poluidora, de dióxido de titânio. Este fato, literalmente, divide a cidade. Ascânio também se envolve num caso amoroso com Leonora, a enteada de Tieta. Dá para imaginar o desfecho deste romance. Em Ascânio, Jorge deposita todos os preconceitos e o machismo existente nas nossas conservadoras cidades interioranas. Nesse tempo, Tieta já estava envolvida com o seu sobrinho, o seminarista Ricardo, filho da beata Perpétua. Perpétua tudo tolera pensando no futuro econômico de seu filho. Por Ricardo um outro personagem fantástico é introduzido na trama, frei Timóteo, um padre ligado à teologia da libertação.
Jorge Amado tratando com Cacá Diegues a versão cinematográfica de Tieta do Agreste, com interpretação de Chico Anysio, como Zé esteves, o pai de Tieta. Tieta é interpretada por Sônia Braga.

A parte final do romance começa com os desvelamentos. Leonora conta para Ascânio sobre a sua vida de mulher dama em São Paulo, no Refúgio dos Lordes, casa comandada por Tieta. Tieta chega a proprietária desta casa pela ação do rico industrial e comendador do papa, Felipe Cantarelli, de quem ficara viúva. Ascânio rejeita Leonora e a notícia se espalha por toda a Santana do Agreste. Os xingamentos entre Tieta e Perpétua são memoráveis. O comportamento de Elisa também. Simultaneamente, a Brastânio anuncia a desistência da construção da sua fábrica em Mangue Seco. A paz, aparentemente, volta a Agreste com a partida de Tieta e Leonora, levando mais uma cabra colhida no local, a sua concorrente na disputa pelo amor do seminarista Ricardo, Maria Imaculada. O resto fica por conta da imaginação dos leitores.
Gostaria de destacar duas frases do romance, ditas por Tieta:  Felipe costumava dizer que para se viver feliz era preciso antes de tudo abolir a consciência". Depois volta ao mesmo tema: "Para se viver bem, repetia Felipe, homem sábio, é necessário antes de tudo abolir a consciência. A merda é que nem sempre se consegue". Outra frase memorável dela, repetida várias vezes é a de que "de amor não se morre, de amor se vive". O romance é um belo retrato do Brasil da época: a tranquilidade da vida no interior e os agitos de um tempo de milagre econômico, de abertura para as multinacionais, da chegada da poluição e da ditadura militar, como nos mostra Lilia Moritz Schwarcz, em seu belo posfácio.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Diário de Uma Viagem. Lisboa - Lagos - Vilamoura e Albufeira.

O dia seria longo e, para que o fosse, tivemos que acordar cedo, mesmo com um pouco de ressaca em função do jantar com o canto do fado da noite anterior. Pedro era o nosso guia da EuiropaMundo. A ação deles é mais organizativa e o seu trabalho é limitado pela legislação que exige a contratação de guias locais, nas visitas às cidades ou museus. Mesmo assim, durante as viagens eles passam preciosas informações. Pedro somou muitos pontos comigo ao apresentar-se como leitor de Jorge Amado. Pedro é espanhol e nos contou que leu toda a obra de Jorge em francês.

Saímos de Lisboa pela ponte 25 de abril. Ela é uma ponte rodo-ferroviária suspensa, construída por uma empresa americana. Ela imita a Golden Gate de São Francisco, e foi inaugurada no ano de 1966, recebendo o nome de Ponte Salazar, então Presidente do Conselho de Ministros, na verdade, o seu ditador. Com a Revolução dos Cravos, ocorrida no dia 25 de abril de 1974, ela foi rebatizada com o nome de Ponte 25 de abril, nome que preserva até hoje. Ela é belíssima.
Uma vista da ponte 25 de abril, a partir do Castelo de São Jorge.

Pelo lado de Alfama, muito próximo à ponte, existe um monumento em homenagem a Cristo Rei, que imita o Cristo Redentor do Rio de Janeiro. A ideia da construção deste monumento foi do cardeal português, o cardeal Cerejeira, quando de visita sua à cidade do Rio de Janeiro, em 1934. A sua inauguração se deu em 1959 e segundo o nosso guia Pedro, ela foi construída com contribuições do povo português e em agradecimento pelo não envolvimento de Portugal na Segunda Guerra Mundial.

Na sequência o guia conta sobre Portugal: 91.985 Km²; 760 Km na extensão norte-sul e em média de 200 a 250 Km na extensão leste-oeste; 15% das terras da península ibérica; 11 milhões de habitantes; seus rios; D. Afonso Henriques e a sua história; a expulsão dos mouros e sobre suas principais riquezas. A esta altura já estávamos no Alentejo, rumando para o Algarve. Todas as palavras que iniciam com o al são de origem árabe. Estávamos viajando entre sobreiros e azinheiras. O sobreiro é largamente cultivado. Da casca desta árvore é produzida a rolha e também revestimentos para fins acústicos. Ela dura entre duzentos e duzentos e cinquenta anos e pode ser descascada entre sete e oito vezes, ao longo de sua existência. Portugal é responsável por 58% de sua produção mundial. A azinheira é outra árvore, quase um símbolo de Portugal. Nossa Senhora teria aparecido às crianças, em Fátima, sobre um pé de azinheira. Ela produz uma espécie de castanha, da qual se alimentam os porcos, os chamados porcos pretos, semi selvagens, apreciadíssimos para a produção de salames e outros embutidos.

O guia nos falava de Grândola, uma cidade que sempre esteve ligada a industrialização da cortiça. Grândola é uma cidade ligada à democracia, à liberdade e à música. Em homenagem ao povo desta cidade o cantor e compositor português, Zeca Afonso, compôs "Grândola, vila morena", música usada como senha para o início da Revolução dos Cravos. Por seu significado, farei um post especial.

Depois de uma breve parada, que os guias chamam de parada hidráulica, em Almodôvar, o guia segue falando sobre a península ibérica. O seu tamanho equivale ao território da Bahia, a terra de Jorge Amado, lembrava o guia; sobre o rio Tejo, o maior da península e que separava os reinos cristãos dos árabes. Também nos falou de outros rios, como o Sado, que fica nesta região e é grande produtora de arroz. Com estas informações, chegamos a Portimão, grande centro pesqueiro de sardinha e de salmão. Logo depois estávamos já em Lagos, cidade da qual partiam muitas das caravelas portuguesas, além de abrigar o primeiro mercado de escravos da Europa. Dali partem muitos barcos turísticos oferecendo belas paisagens de falésias da região.
A cidade de Lagos lembra a partida de muitas caravelas. Esta que está aí é para lembrar o importante evento histórico das navegações portuguesas.

Em Lagos, na hora do almoço, repetimos a experiência do bacalhau. Constatamos que ele é tão bom no interior, quanto na capital. De Lagos fomos a Vilamoura, importante centro turístico de luxo. Eu a comparei com a nossa Búzios. Aliás, toda a região do Algarve, a região mais ao sul de Portugal, tem no turismo a sua principal atividade econômica. É ocupada especialmente por ingleses, irlandeses e alemães e se constitui num dos grandes centros da prática do golf, do mundo. Não tenho muita paciência com estes lugares. Não me sinto muito à vontade. Cheguei a conclusão de que não tenho a mínima vocação para ser rico e chique.
Vilamoura, um dos maiores centros de turismo e lazer da Europa. Sul de Portugal, no Algarve.

O destino final deste dia seria a cidade de Albufeira, também movimentada pelo turismo. Nesta região também se situa a cidade do Faro, que tem um aeroporto internacional movimentadíssimo para dar conta dos turistas de veraneio e atividades de lazer que frequentam a região. Confesso que se não fosse o cansaço do dia, somado com o do anterior, poderíamos ter aproveitado melhor esta cidade num passeio noturno. Optamos pelo reabastecimento das energias, uma vez que no dia seguinte nos aguardaria, um passeio pela própria Albufeira, Mértola e a esplendorosa e medieval cidade de Évora, a capital do Alentejo.
Uma igreja em Albufeira, a capital turística do Algarve.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Diário de Uma Viagem. Lisboa II. A minha experiência.

Chegamos a Lisboa por volta das 8:30 horas. A primeira experiência não foi boa. Foi no aeroporto. Duas horas e meia de espera na fila para carimbar o passaporte. O ar condicionado mal e mal funcionava. "Na fila do matadouro", comentava um vizinho. Quem tinha conexões, as perdeu. Na hora de carimbar o passaporte, perguntas e mais perguntas. Hotel em que ficaria, quantos dias, finalidade da viagem. Do meu colega de viagem revistaram minuciosa e detalhadamente a mala.

Vista do Castelo de São Jorge, de uma colina próxima.

Nos contaram que era uma espécie de operação padrão que estavam fazendo, em razão de uma greve encerrada alguns dias antes, sem resultados positivos.  Não foi uma experiência agradável, ainda mais, depois de um voo tão longo. No hotel tivemos que esperar até as 14: horas para entrar, o que também não foi nada agradável. Aproveitamos para um passeio e almoço nos arredores do hotel.

Como os táxis são baratos em Portugal, tomamos um para nos deixar no Castelo de São Jorge. O Castelo é uma enorme fortaleza de origem árabe. D. Afonso Henriques o transformou em residência real. O Castelo não resistiu ao terremoto de 1775 e permaneceu em ruínas até 1938, quando foi restaurado. Recebeu mais uma restauração no ano de 2006. Do alto da colina deste Castelo se tem a melhor vista panorâmica da cidade, tanto de sua parte central, quanto do bairro de Alfama, o bairro mais preservado pelo terremoto.
Uma das vistas da cidade e do Tejo, do alto do Castelo de São Jorge.

Descendo do Castelo, enveredamos pela Baixa, onde se concentra o comércio da cidade e o seu centro financeiro. Bem ao contrário de Alfama, bairro que se conservou, a Baixa foi totalmente destruída e foi reconstruída pelo Marquês de Pombal. Ali tivemos a nossa primeira experiência com o bacalhau. Guardei até cartão do restaurante, Cesteiro, na rua Correeiros, uma rua lateral à rua Augusta, a do comércio chique. Também está muito próximo das principais praças centrais de Lisboa, como a praça do Comércio, da Figueira e do Rossio. Uma experiência inesquecível e que me tirou todo o mau humor colhido no aeroporto, pela manhã. O preço é inacreditável, 8,50 euros. Os vinhos que necessariamente o acompanham também são baratos. Aliás, Portugal deve ser o país em que se praticam os menores preços de toda a Europa. Se toma Chopp a 1,10 euros. Também fiz as primeiras compras, inclusive a famosa Ginginha, um vinho do Porto e uma aguardente portuguesa, uma espécie de grappa.
Olhem aí o bacalhau a 8,50 euros, em pleno centro de Lisboa.

Pela manhã, tarefa oficial na programação da EuropaMundo: O tour panorâmico pela cidade. Iniciamos pelas proximidades do hotel, o Marriot, onde fica o museu da Fundação Colauste Gulbenkian. Gulbenkian é uma rica e tradicional família de armênios, radicados em Paris e que por ocasião da Segunda Guerra se estabeleceram em Portugal, "neutra" nesta guerra. No museu está o acervo pessoal da família. A primeira atração foi a Praça da Espanha, um lugar cheio de significados, relativos a água, a liberdade ao movimento e a democracia. A praça também tem relação com D. João V (auge do período do ouro no Brasil) e a monja, com quem teve filhos, que foram denominados de filhos de Pavalhã, palácio construído para eles e que é a atual sede da embaixada espanhola. Ali se dão grandes manifestações públicas. Dali se tem uma bela vista para a Avenida da Liberdade, a Champs Elysées, portuguesa. A Avenida da liberdade inicia num grande monumento em homenagem ao marquês de Pombal, com o seu leão, símbolo de poder e das colônias.

Continuamos o tour com as vistas voltadas para o Castelo de São Jorge e para os bairros da Mouraria e de Alfama, bairro de muita tradição, história e de festas populares, especialmente as de junho. Santo Antônio de Lisboa, afinal nasceu em Alfama. Passando pelo centro tivemos informações mil sobre a cidade, por uma guia local, mas informação demais é difícil de ser assimilada.
O Mosteiro dos Jerônimos. 60 anos para ser construído. É em estilo gótico manuelino. Ali estão os túmulos de Vasco da Gama e de Camões.

Rumamos para o outro lado da cidade, aquela que sobreviveu ao terremoto de 1775, onde está a Torre de Belém, o Monumento aos Descobrimentos e o Mosteiro dos Jerônimos. Da Torre de Belém é que partiam as caravelas para a grande aventura marítima portuguesa. O Mosteiro dos Jerônimos foi o tributo de gratidão do rei D. Manuel pelo sucesso dos descobrimentos. Sua construção foi iniciada logo após a volta de Vasco da Gama de sua viagem para a Índia. Consumiu 60 anos para ser construído. Nele trabalharam 120 escultores, os mais famosos de toda a Europa. O mosteiro consagra um estilo próprio de Portugal. o gótico manuelino. O mosteiro foi para mim, a coisa mais linda que vi em Lisboa. Esta visita é algo imperdível.
A famosa Torre de Belém, local de partida das caravelas.

O tour se encerrou no centro de Lisboa e havia uma opção para ir a Sintra, Cascais e Estoril, mas como não conhecíamos Lisboa, optamos pela livre caminhada pelas suas ruas centrais, o que de fato fizemos, após um delicioso almoço, novamente de bacalhau. Andamos pela Avenida da Liberdade, fomos até o monumento em homenagem ao marquês de Pombal e voltamos até a famosa Praça do Comércio. Esta praça concentra muito da história de Portugal, não só pelo movimento de mercadorias, pois ali chegavam as caravelas, mas também a sua política. Ali foram executados, em 1908, o rei Carlos e o seu filho Luís Felipe. Ali também começou o levante popular que culminou com a Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974, que derrubou a longa ditadura salazarista com a restauração da democracia.
Catedral da Sé, no bairro de Alfama. Nesta igreja foi batizado Santo Antônio de Lisboa, o mesmo santo Antônio de Pádua. Ele nasceu neste bairro de Alfama.

Já ao final da tarde enveredamos pelos lados do bairro de Alfama, passando pela Casa de Bicos, onde está a sede da Fundação Saramago. Visitamos ainda a Catedral da Sé, onde foi batizado Santo Antônio de Lisboa e a igreja de Santa Engrácia, transformada no Panteão Nacional. Ali estão, a exemplo de Paris, os notáveis da pátria portuguesa. Ainda sobrou tempo para um jantar típico português, com o canto do fado, este sim, um espetáculo obrigatório e imperdível em Lisboa. Voltamos ao hotel, já madrugada afora. O dia seguinte nos reservaria Lagos, Vilamoura e Albufeira. Eu conto sobre..., na sequência.




terça-feira, 6 de agosto de 2013

Diário de Uma Viagem. Lisboa I. Um pequeno histórico de Portugal e de Lisboa.

Vamos começar com um pouco de história. É sabido que a mais antiga presença, no que hoje são as terras portuguesas foram os fenícios, mas quem de fato ali se estabeleceu foram os romanos, a partir de 216 anos a.C. Genericamente toda a região se chamava de Hispania, mas em particular, a área entre os rios Tejo (Lisboa) e o Douro (Porto) recebeu o nome de Lusitânia.Com o esfacelamento do Império Romano, passaram por ali algumas tribos germânicas, mas agora, quem efetivamente ali se estabeleceu foram os árabes, os mouros, no ano de 711, vindos do norte da África. Foram eles que deixaram em toda a Península Ibérica as maiores marcas culturais e históricas pela sua longa presença, mais tempo na Espanha do que em Portugal. No ano de 1147 eles já tinham sido expulsos de Lisboa, mas permaneceram na Espanha até 1492.
Do Castelo de São Jorge se tem uma das mais belas vistas panorâmicas de Lisboa.

Depois da expulsão dos árabes os portugueses iniciaram a sua aventura marítima, sempre tateando pela costa africana, até realizarem os feitos que os consagraram. Entre os grandes herois portugueses está  Afonso Henriques, que a partir de Guimarães, praticamente funda o país que hoje se chama Portugal.

As colônias, especialmente o Brasil, constituíram a sua grandeza. Portugal perdeu sua autonomia em 1580 para a Espanha, recuperando-a em 1640, quando iniciou-se um novo período de esplendor, com o ouro do Brasil. Os problemas começam a ocorrer com a ascensão e a preponderância inglesa (o fenômeno da industrialização) e especialmente com as guerras napoleônicas e a independência do Brasil. O século XX está fortemente marcado pela participação na primeira guerra mundial, pela longa ditadura militar de Salazar e pelas guerras coloniais, quando perderam as suas colônias africanas. Estas guerras coloniais, me afirmava um dono de bar, com quem eu conversava, representaram para Portugal o equivalente a guerra do Vietnã para os Estados Unidos.
A Torre de Belém. Local donde partiram as caravelas no rumo dos descobrimentos.

 Portugal integrou a Comunidade Econômica Europeia, atual União Europeia (Tratado de Maastricht - 1993) e entrou também na zona do Euro. Hoje vive grave crise política e econômica. É um país moderno, com ótima infraestrutura, muita história e cultura e paisagens naturais fantásticas. A sua costa sul, o Algarve é região de intenso turismo, aproveitando as águas quentes do Atlântico. As águas do norte são geladas. O país é hoje habitado por algo em torno de 11 milhões de habitantes. A prestação de serviços e o turismo são as suas principais fontes da economia, que vive uma profunda crise. Em área é um país pequeno. Apenas 91.985 Km². Mais ou menos a metade do Paraná.

Bem, vamos a Lisboa. Lisboa talvez tenha mais história do que o seu próprio país. É a segunda capital mais antiga da Europa, perdendo somente para Atenas, sendo mais antiga do que a própria Roma. Esta condição lhe é devida em função do excelente porto natural que a sua condição geográfica lhe dá, na foz do rio Tejo, o mais longo rio da Península Ibérica. Sempre foi a grande parada, centro comercial e entreposto de abastecimento para os comerciantes entre o mar Mediterrâneo e o mar do Norte. A sua parte mais antiga é a que situa entre o Castelo de São Jorge e a Baixa.
O Mosteiro dos Jerônimos, possivelmente o mais rico monumento português. O estilo gótico Manuelino.

Lisboa só não é mais histórica ainda porque ela sofreu uma destruição quase que total no ano de 1775, por terremotos em minutos sucessivos, maremotos e incêndios, no primeiro dia de novembro daquele ano, no dia de Todos os Santos. Em torno de 85% da cidade foi destruída. Na época Belém era apenas um bairro distante, que não foi atingido. Assim a torre de Belém e o mosteiro dos Jerônimos, nos arredores, foi preservado. Da parte central da cidade não sobrou praticamente nada. Apenas o bairro de Alfama, o bairro de santo Antônio de Lisboa e habitado por uma população mais pobre, já que os ricos dali tinham saído, exatamente em função do medo dos terremotos. Palácios, igrejas e bibliotecas, em sua maioria, foram destruídos. O que não foi destruído pelo terremoto foi consumido por cinco dias de incêndios, pois, não sobrara ninguém para apagá-los. Quem não morreu fugiu para abrigos mais seguros. Toda a região do Algarve (sul) também foi atingida.
Monumento ao Marquês de Pombal, o representante do despotismo esclarecido em Portugal e um de seus mais importantes homens públicos.

Lisboa foi reconstruída com o ministro Marquês de Pombal, que deu a Lisboa as feições, já de uma cidade moderna, planejada. Pela questão histórica de Lisboa, percebe-se a importância do rio Tejo para a cidade. Ele possui duas famosas pontes. A mais antiga, a ponte 25 de abril, (Revolução dos Cravos) data dos anos 60, tem estruturas de ferro e imita a Golden Gate de S. Francisco. Ao seu lado existe uma estátua do Cristo Redentor, um pouco menor que a do Corcovado. A outra ponte é a Vasco da Gama, a quinta maior ponte do mundo, com mais de 17 quilômetros de extensão. Ela foi construída para o importante evento da Exposição Mundial de Lisboa em 1998.

As principais atrações turísticas são o bairro de Alfama, o Bairro Alto, a Baixa, o Castelo de São Jorge, a Praça do Comércio, o Museu Nacional de Arte Antiga e São Vicente de Fora. No complexo de Belém está a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerônimos, o Monumento aos Descobrimentos e alguns museus. Amanhã eu conto o que nós vimos, tanto em tour oficial, quanto as nossas investidas particulares, inclusive um jantar com o típico canto português do fado.