quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Um escravo chamado Cervantes. Fernando Arrabal.

Em 2012 eu li a biografia de Cervantes escrita por alguém também famoso. Trata-se do dramaturgo, escritor e cineasta espanhol, Fernando Arrabal. A biografia tem como título Um escravo chamado Cervantes e por subtítulo - Um retrato do criador de Dom Quixote. Agora, após a leitura do Dom Quixote, a retomei. É uma obra extremamente agradável de ser lida. Foi escrita por um apaixonado pelo biografado e com muitas doses de um refinado humor. Com certeza, o apreciei mais desta vez.
Uma biografia escrita por um apaixonado por Cervantes.


Cervantes (1547 - 1616) viveu em meio a atribulações e agitações e, porque não dizer, também em meio a muitas loucuras. Lucidez também. Cervantes nunca conheceu monotonia. Pertenceu a uma família de judeus, fato que tinha que ser escondido, e economicamente estavam bem, até chegar a seu pai, um decadente, titubeante e meio surdo cirurgião barbeiro. Nasceu e foi batizado em Alcalá, mas andou pelas principais cidades espanholas, até que, aos 21 anos fugiu de uma condenação que lhe fora aplicada pelo rei.

O grande mote da biografia de Arrabal é exatamente este, o motivo da condenação de Cervantes, narrada já quase ao final do livro. Ele tinha cometido o "pecado nefando", o que lhe deveria render uma mão decepada, exatamente a mão direita de escritor, como condenação. Para se livrar da pena, foge primeiramente para Sevilha e depois, de Sevilha para Roma, onde se inscreve nas forças papais, que junto com a Espanha e Veneza se preparam para enfrentar os turcos na batalha de Lepanto (1571).
A partir da criação destes personagens, uma das mais famosas duplas da literatura universal.

A biografia escrita por Arrabal tem muitos méritos. Como biografia, é óbvio, que ela está centrada em Cervantes, mas a contextualização da Espanha da época do grande escritor, para mim foi o seu ponto máximo. O que era viver na Espanha nos séculos XVI e XVII!? Vamos apenas recordar que em 1492 a Espanha dá cabo a expulsão dos árabes em Granada, o seu último reduto e, no mesmo ano, Colombo realiza o feito da descoberta da América. Sevilha é, na época, uma espécie de capital do mundo. Lembrando ainda que os árabes permaneceram na península ibérica ao longo de mais de setecentos anos. É evidente que, ao longo destes anos, houve uma grande miscigenação e sincretismo.

No tempo em que Cervantes esteve em Roma, lá se dizia que na Espanha não havia cristãos, apenas cristãos adaptados "Giudei, marrani, hispani". Os problemas étnicos eram antigos. No ano de 1547 é editado o estatuto de limpeza étnica, mas este ato tem origem em conflitos antigos. Em Sevilha, conhecida como a capital de três religiões, em 1391, o tataravô de Miguel assistiu uma espécie de avant première de Auschwitz, com a execução de mais de quatro mil judeus. Arrabal nos conta também que Vicente Ferrer foi uma espécie de precursor do nazismo, sinalizando os judeus, matando a muitos e batizando cerca de trinta e cinco mil ao longo de vinte e cinco anos. Pela sua defesa do cristianismo o "Anjo do apocalipse" foi proclamado santo.

Os tempos de Cervantes não eram tempos fáceis. Tempos de forte intolerância religiosa, tempos de absolutismo governamental, tempo dos Felipes, tempos de grandeza e tempos de decadência. Tempos de Torquemada e tempos da derrotada Invencível Armada. Tudo isso viveu Cervantes. Para Cervantes também foram os tempos do surgimento da universidade de Alcalá, em competição com Salamanca. Aristóteles estava se afirmando.
Cervantes junto com os seus famosos personagens.

O que falar da família de Cervantes? A figura das mulheres era muito forte e a dos homens, que praticamente se resumia ao pai, era uma figura frágil. Sua irmã Andreia deveria ser extremamente sedutora e bela. Amealhou muito dinheiro, que, como chegava de forma fácil, se esvaía ainda mais facilmente. Ela sempre esteve envolvida com homens e deles conseguia o sustento de todos. Quando foram morar em Madri, transformaram a parte mais nobre da casa em hospedaria. Nela Andreia recebeu ricos clientes italianos.

Em meio a todas estas histórias, você faz uma verdadeira viagem a Espanha. Vai conhecendo as suas relações internacionais e as complicadas alianças de uma Europa conflitada pelo cisma da cristandade e sob o chicote da reação tridentina. Tudo isso você vai usufruindo com a leitura agradável dos 47 curtos capítulos do livro, até chegar por onde começamos. A fuga de Miguel para Roma, onde foi camareiro do cardeal Aquaviva e, possivelmente, algo mais com a volta da prática do "pecado nefando" com o cardeal. Desgostoso com o cardeal faz a sua inscrição no exército para combater os turcos na batalha de Lepanto. Na volta é sequestrado pelos turcos e  permanece em Argel, na qualidade de escravo, até ser resgatado pela ação de seus familiares.

Arrabal ainda conta que Cervantes começou a escrever o Dom Quixote na prisão, em Sevilha, já com 55 anos e nas condições mais adversas imagináveis. Neste ponto ele encerra a biografia, que bem merecia um segundo volume, a exemplo do próprio Dom Quixote. Mas complementando, Dom Quixote apareceu em 1605, o primeiro volume e, em 1615 o segundo. Um ano após, em 1616, aos 68 anos morre o escritor. Da minha parte me dou como satisfeito com relação a Cervantes e ao seu Dom Quixote. Sinto falta, no entanto, de uma biografia tipo ensaio para responder a pergunta cuja resposta ainda não encontrei. Por que Cervantes escreveu o Dom Quixote? Quais foram as verdadeiras razões que o levaram a tal? Por enquanto, tenho apenas pequenas frações da resposta.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. Capítulo LIII. Volume II.

Glutão, beberrão e ambicioso. Teriam sido estas as principais características do memorável escudeiro do mais famoso cavaleiro que a literatura já produziu? Junto com a fidelidade ao Quixote, creio que sim. Interessante que o próprio Sancho negue estas suas características, ao comentar o falso volume das aventuras da dupla, que apareceu um pouco antes do lançamento do de Cervantes. Inclusive usa isso como argumento para a sua falsidade. Cervantes deve ter sido um dos maiores narradores que a literatura mundial conheceu.
Edição da Abril Cultural. Os dois volumes.

Sancho era um lavrador de vida simples, num cotidiano, no mínimo tedioso e repetitivo com Teresa, a esposa e mais dois filhos. Sobre ele recaiu a escolha de Dom Quixote, quando o cavaleiro saiu pela segunda vez em busca de aventuras que o consagrariam. Não restam dúvidas que ele aceitou o cargo ou a missão em troca de recompensas. Em seu horizonte sempre vislumbrou o governo de uma ilha ou, no mínimo, um título de conde. Era analfabeto mas um bom observador. Era falante e acumulava um sem número de rifões ou ditos populares, que tanto incomodavam o Quixote.

Já quase ao final do segundo volume um duque satisfaz a vontade de Sancho, na sua ambição de ser governador. Já destaquei os conselhos que recebeu de seu cavaleiro para o bom exercício da função. Como governador foi considerado como um novo Salomão, pelo bom senso em suas decisões. Porém, não permaneceu nem dez dias no exercício de tão nobre cargo. Não deu tempo nem de entronizar a sua família na sua corte de poder. Renunciou em meio a uma vitória de suas forças, portanto, num momento muito favorável. Mas o que o incomodou? Vejamos algumas justificativas suas, dadas para o seu burrico, o ruço.

"- Vinde cá, meu companheiro e meu amigo, que tendes suportado uma parte dos meus trabalhos e misérias; quando eu andava convosco, e não pensava senão em arremendar os vossos aparelhos, e em sustentar o vosso corpinho, ditosas horas, ditosos dias e ditosos anos eram os meus; mas, desde que vos deixei e trepei às torres da ambição e da soberba, entraram-me pela alma dentro, mil misérias, mil trabalhos, e quatro mil desassossegos". E, enquanto albardava o seu burro se dirigia às pessoas de sua corte, especialmente ao médico que cuidava de sua dieta.

"Abri caminho, senhores meus, e deixai-me voltar à minha antiga liberdade; deixai-me ir buscar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente. Eu não nasci para ser governador, nem para defender ilhas nem cidades dos inimigos que as quiserem acometer. Entendo mais de lavrar, de cavar, de podar e de por bacelos nas vinhas, do que de dar leis ou defender províncias nem reinos. Bem está São Pedro em Roma; quero dizer: bem está cada um, usando do ofício para que foi nascido. Melhor me fica a mim uma foice na mão do que um cetro de governador; antes quero comer à farta feijões do que estar sujeito à miséria de um médico impertinente, que me mate à fome; e antes quero recostar-me de verão à sombra de um carvalho, e enroupar-me de inverno com um capotão, na minha liberdade, do que deitar-me, com a sujeição do governo, entre lençois da holanda, e vestir-me de martas cevolinas". E continua, em tom de despedida.
Caricatura do Sancho Pança. Seria um sábio? 

"Fiquem Vossas Mercês com Deus, e digam ao duque meu senhor que nasci nu, nu agora estou, e não perco nem ganho; quero dizer: que sem mealha entrei neste governo, e sem mealha saio, muito ao invés do modo como costumam sair os governadores de outras ilhas; e apartem-se, deixem-me, que me vou curar, pois suponho que tenho arrombadas as costelas todas, graças aos inimigos que esta noite passaram por cima de meu corpo". Depois, em contra argumentação arremata.

"Fiquem nesta cavalariça as asas de formiga, que me levantaram aos ares para me comerem os pássaros, e tornemos a andar pelo chão com pé rasteiro, que, se o não adornarem sapatos picados de cordovão, não lhe hão de faltar alpargatas toscas de corda; lé com lé e cré com cré; ninguém estenda as pernas para fora do lençol, e deixem-me passar, que se faz tarde".

Uma ducha de água fria na universal ambição humana. Fantástico.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. O capítulo XLII do Volume II.

A publicação do primeiro volume do Dom Quixote, em 1605, se tornou um imediato sucesso de público. Suas histórias são conhecidas e muitos se esforçam por conhecer os feitos dos grandes heróis. Isso ocorre com um duque e uma duquesa, que se esmeram em hospedar ao Quixote e atender aos anseios do ambicioso Sancho. O duque inclusive entroniza Sancho como governador de uma ilha. Surpreendentemente ele se sai muito bem. Um novo rei Salomão em seus julgamentos.

Quando se prepara para assumir, Dom Quixote lhe dá conselhos, sábios conselhos. Uma aula de saber político e jurídico. Isso ocorre no capítulo XLII do segundo volume. Quixote ficará conhecido como o Cid nas armas e como o Cícero na eloquência.  Vejamos alguns destes conselhos:
Dom Quixote alternava momentos de loucura com os de lucidez. Só quando se tratava de cavalaria é que cometia disparates.

"Primeiramente, filho, hás de temer a Deus, porque no temor a Deus está a sabedoria, e, sendo sábio, em nada poderás errar.

"Em segundo lugar, põe os olhos em quem és, procurando conhecer-te a ti mesmo, que é o conhecimento mais difícil que se pode imaginar. De conhecer-te resultará o não inchares como a rã, que se quis igualar ao boi: que se isto fizeres, virá a ser feios pés da roda da tua loucura a consideração de teres guardado porcos na tua terra". Sancho assente e Dom Quixote continua:

"É verdade - replicou Dom Quixote; - e por isso, os que não são de origem nobre devem acompanhar a gravidade do cargo que exercitam com uma branda suavidade, que, ligada com a prudência, os livre da murmuração maliciosa, a que nenhum estado escapa. Aí, sem nenhuma interrupção, segue uma longa lista de conselhos:

"Faze gala da humildade da tua linhagem, Sancho, e não tenhas desprezo em dizer que és filho de lavradores, porque, vendo que te não corres por isso, ninguém to poderá lançar em rosto; ufana-te mais em seres humilde virtuoso que pecador soberbo. Inumeráveis são os que, nascidos de baixa estirpe, subiram à suma dignidade pontifícia e imperatória, e podia dar-te tantos exemplos que te fatigaria. Repara, Sancho, que, se te ufanares de praticar atos virtuosos, não há motivo para ter inveja aos príncipes e senhores, porque o sangue se herda e a virtude adquire-se, e a virtude por si só vale o que não vale o sangue.

"Sendo isto assim, se acaso te for ver, quando estiveres na tua ilha, algum dos teus parentes, não o afrontes nem o desdenhes, mas, pelo contrário, acolhe-o e agasalha-o, e festeja-o, que satisfarás com isso o céu, que gosta que ninguém se despreze pelo que ele fez, e corresponderás ao que deves à bem concertada natureza. Se levares tua mulher contigo (porque não é bem que os que governam por muito tempo estejam sem as suas mulheres), ensina-a, doutrina-a e desbasta-lhe a natural rudeza, porque tudo o que ganha um governador discreto, perde-o muitas vezes uma mulher rústica e tola.

"Se, por acaso, enviuvares, e com o cargo melhorares de consorte, não a tomes tal que te sirva de anzol e de isca, porque em verdade te digo que de tudo o que a mulher do juiz receber há de dar conta o marido na residência universal, com que pagará pelo quádruplo na morte o que ilegitimamente recebeu em vida.

"Nunca interpretes arbitrariamente a lei, como costumam fazer os ignorantes que têm presunção de agudos. 

"Achem em ti mais compaixão as lágrimas do pobre, mas não mais justiça do que as queixas  dos ricos.

"Procura descobrir a verdade por entre as promessas e dádivas do rico, como por entre os soluços e importunidades do pobre.
Quando Dom Quixote se torna cavaleiro, em Porto Lápice.

"Quando se puder atender à equidade, não carregues com todo o rigor da lei no delinquente, que não é melhor a fama do juiz rigoroso que do compassivo.

"Se dobrares a vara da justiça, que não seja ao menos com o peso das dádivas, mas sim com o da misericórdia.

"Quando te suceder julgar algum pleito de inimigo teu, esquece-te da injúria e lembra-te da verdade do caso.

"Não te cegue paixão própria em causa alheia, que os erros que cometeres a maior parte das vezes serão sem remédio, e, se o tiverem, será à custa do teu crédito e até da tua fazenda.

"Se alguma mulher formosa te vier pedir justiça, desvia os olhos das suas lágrimas e os ouvidos dos seus soluços, e considera com pausa a substância do que pede, se não queres que se afogue a tua razão no seu pranto e a tua bondade nos seus suspiros.

"A quem hás de castigar com obras, não trates mal com palavras, pois bem basta ao desditoso a pena do suplício, sem o acrescentamento das injúrias. 

"Ao culpado que cair debaixo da tua jurisdição, considera-o como um mísero, sujeito às condições da nossa depravada natureza, e em tudo quanto estiver da tua parte, sem agravar a justiça, mostra-te piedoso e clemente, porque ainda que são iguais todos os atributos de Deus, mais resplandece e triunfa aos nossos olhos o da misericórdia que o da justiça.

"Se estes preceitos e estas regras seguires, Sancho, serão longos os teus dias, eterna a tua fama, grandes os teus prêmios, indizível a tua felicidade; casarás teus filhos como quiseres, terão títulos eles e os teus netos, viverás em paz e no beneplácito das gentes, e aos últimos passos da vida  te alcançará a morte em velhice madura e suave, e fechar-te-ão os olhos as meigas e delicadas mãos de teus trinetos. O que até aqui se disse são documentos que devem adornar tua alma: escuta agora os que hão de servir para adorno do corpo:"

Todo o capítulo seguinte também é de conselhos, desta vez eles são de ordem prática e se constituem em uma belíssima peça de humor. Ao cabo de dez dias, apesar da excelente administração Sancho renuncia, especialmente em função da presença, na sua corte, de um médico que se dedica aos cuidados de sua dieta. Isso era demais para o ambicioso governador  e vejam a frase de efeito com a qual se despede da função: "...mas desde que vos deixei e trepei às torres da ambição e da soberba, entraram-me, pela alma dentro mil misérias, mil trabalhos e quatro mil desassossegos. [...]Abri caminho, senhores meus, e deixai-me voltar à minha antiga liberdade; deixai-me ir buscar a vida, para que me ressuscite desta morte presente".




quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. O capítulo XI. Volume I.

Como qualificar a obra de Cervantes? É difícil medir toda a genialidade do autor do Dom Quixote. Creio que a sua maior e melhor qualidade é a de narrador. Ele era um leitor voraz, o que, obviamente, o tornou o grande escritor. Vejam esta sua frase: "Yo soy aficionado a leer, aunque sean los papeles rotos de la calle". Cervantes conhecia profundamente a literatura clássica, acompanhava detalhadamente a política de seu tempo, conhecia bem o ser humano e era grande conhecedor dos livros de cavalaria.
Em sua primeira saída Dom Quixote sai consagrado cavaleiro andante.

É difícil imaginar como, em meio as suas atribulações, se tornou o grande escritor que foi. Dom Quixote é uma explosão em termos de criação. Depois da sua leitura, selecionei três capítulos que, de acordo com a minha visão, merecem um post especial. São o famoso capítulo XI do primeiro Volume, em que apresenta uma visão de seu tempo, numa retrospectiva aos séculos de ouro, o capítulo XLII, do segundo volume, em que o Quixote dá conselhos a Sancho, quando este se prepara para assumir o governo de uma ilha e o LIII, também do segundo volume, em que Sancho, com menos de dez dias de governo, apresenta as suas desilusões e renuncia ao governo.

Mas vamos ao capítulo XI, que leva por título Do que a Dom Quixote sucedeu com uns cabreiros. Ali estavam os cabreiros a preparar sua refeição, "tassalhos de cabra, que estavam numa caldeira a ferver ao lume". Quixote e Sancho são convidados, como reconhecimento do valor dos cavaleiros andantes. Sancho se dá bem com a gula, tanto no beber quanto no beber. Após o comer Quixote discursa exaltando os anos dourados do mundo clássico. Isso será várias vezes repetido ao longo da obra. Vejamos a sua visão destes ditosos tempos:

"Ditosa idade e afortunados séculos aqueles a que os antigos puseram o nome de dourados, não porque nesses tempos o ouro, que nesta idade do ferro tanto se estima, se alcançasse sem fadiga alguma, mas sim porque então se ignoravam as palavras "teu" e "meu"! Tudo era comum naquela santa idade; a ninguém era necessário, para alcançar o seu ordinário sustento, mais trabalho que levantar a mão e apanhá-lo das robustas azinheiras, que liberalmente estavam oferecendo o seu doce e sazonado fruto. As claras nascentes e correntes rios ofereciam a todos, com magnífica abundância, as saborosas e transparentes águas" [...] "Tudo então era paz, tudo amizade, tudo concórdia". Era o tempo em que as bondades da terra não tinham dono". E o seu maravilhamento continua:

"Ainda se não tinha atrevido a pesada relha do curvo arado a abrir e visitar as entranhas piedosas da nossa primeira mãe, que ela, sem a obrigarem, oferecia por todas as partes do seu fértil e espaçoso seio o que pudesse fartar, sustentar, e deleitar, aos filhos que então possuíam. Então, sim, que andavam as símplices e formosas pastorinhas de vale em vale, e de outeiro a outeiro, com simples tranças ou em cabelo, sem mais vestidos que os necessários para encobrirem honestamente o que a honestidade quer, e quis sempre que se encubra". E o cavaleiro continua a sua exaltação:

"Não eram seus adornos, como os que ao presente se usam, exagerados com a púrpura de Tiro, e com a por tantos modos martirizada seda; eram folhagens de verde bardana e hera entretecidas; com o que talvez andavam tão garridas e enfeitadas como agora andam as nossas damas de corte com as raras e peregrinas invenções que a indústria ociosa lhes tem ensinado. Então expressavam-se os conceitos amorosos da alma simples, tão singelamente como ela os dava, sem se procurarem artificiosos rodeos de fraseado para os encarecer. Com a verdade e lhaneza não se tinham ainda misturado a fraude, o engano, e a malícia. A justiça continha-se nos seus limites próprios, sem que ousassem turbá-la nem ofendê-la o favor e interesse, que tanto hoje a enxovalham, perturbam e perseguem. Ainda se não tinha metido em cabeça de juiz o julgar por arbítrio, porque ainda não havia julgadores, nem pessoas para serem julgadas". Os seus arrazoados continuam com o exaltar das donzelas:

"As donzelas e a honestidade andavam, como já disse, por toda a parte desguardadas e seguras, sem medo de que a alheia desenvoltura e atrevimentos lascivos as desacatassem;  se se perdiam era por seu gosto e própria vontade. E agora, nestes nossos detestáveis séculos, nenhuma está segura, ainda que a encerre e esconda outro labirinto de Creta, porque lá mesmo, pelas fendas ou pelo ar, com o zelo do maldito cuidado lhes entra o amoroso contágio, e as faz dar com todo o seu recato à costa". E é nesse cenário que entram os cavaleiros:
Quixote explica sobre a finalidade dos cavaleiros andantes e seus escudeiros.

"Para segurança delas, com o andar dos tempos, e crescendo mais a malícia, se instituiu a ordem dos cavaleiros andantes, defensores das donzelas, amparadora das viúvas, e socorredora dos órfãos e necessitados. Desta ordem sou eu, irmãos cabreiros, a quem agradeço o bom agasalho e trato que me dais a mim e a meu escudeiro, ainda que por lei natural todos os viventes estão obrigados a favorecer aos cavaleiros andantes, contudo sei que vós outros, ignorando esta obrigação, me acolhestes e obsequiastes; e razão é que eu vos agradeça quanto posso a vossa boa vontade".

Após este discurso o narrador complementa que a prática do Quixote demorou mais tempo do que  todo o tempo da ceia. Belos tempos, realmente. E se compararmos com os tempos de hoje? Possivelmente, a dependermos dos defensores do "Escola sem partido", nem mesmo a leitura deste discurso poderia ser feita. Ele poderia ser considerado como uma perigosa doutrinação ideológica e os seus leitores condenados a multas ou cadeia. Só com muita ironia, uma das grandes qualidades de Cervantes.




quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. Volume II.

No segundo volume do Dom Quixote é narrada a terceira saída do Cavaleiro da Triste Figura, agora no rumo da cidade de Saragoça. Mal e mal ele se recuperara das desventuras de suas duas primeiras saídas e da volta humilhante que teve à sua aldeia. Sancho Pança, mais uma vez está a postos para acompanhá-lo. O cura, o barbeiro e agora, mais o bacharel Simão Carrasco o estimulam, mas com um plano para deixá-lo em casa, para sempre, curar as suas loucuras e levar uma tranquila vida no campo.
Edição do Dom Quixote. Abril Cultural. 1981. Os dois volumes em um só.

Antes de acompanhar estas aventuras, uma dica. Os capítulos III e IV oferecem uma boa introdução para a leitura e compreensão de todo o volume I. Faz uma retrospectiva de todas as aventuras ou desventuras contidas no volume anterior. O principal narrador será mais uma vez o mourisco Benengeli, que chegou ao narrador pelas mãos de um tradutor. Artimanhas do narrador.

Já que falamos em narrador, reside aí a principal qualidade de Cervantes. Por esta condição de narrador é que ele é considerado o precursor de todo o romance moderno. Todas as estratégias possíveis e imagináveis foram por ele usadas. E, importante que se diga, Cervantes foi um escritor extremamente popular. O aparecimento de seu primeiro volume foi um sucesso imediato de público, fato que também não lhe passa despercebido. O sucesso também é contado no segundo volume, que aparecerá em 1615, dez anos após o primeiro. Antes disso, aparecera um segundo volume falso, que o narrador também explora nas 50 páginas finais do livro.

Cervantes faz rasgados elogios ao Cide Hamete Benengeli o narrador principal de toda a obra. Vejamos: "Realmente, todos os que gostam de histórias como esta devem mostrar-se agradecidos a Cide Hamete, seu primeiro autor, pela curiosidade que teve em nos contar as suas semínimas particularidades, sem deixar coisa alguma, por miúda que fosse, que não tirasse claramente à luz. Pinta os pensamentos, descobre as imaginações, responde às tácitas perguntas, aclara as dúvidas, resolve os argumentos, finalmente, manifesta os átomos do mais curioso desejo. Ó autor celebérrimo! ó ditoso Dom Quixote! famosa Dulcineia! gracioso Sancho Pança! vivais todos juntos, e cada um de per si, séculos infinitos, para gosto e universal passatempo dos viventes". (Capítulo XL).

O essencial da história é, mais uma vez, retirar Dom Quixote do campo de batalha, como já o fora no primeiro volume, uma vez que todos reconhecem a loucura do protagonista. Quem trama a volta do cavaleiro para junto dos seus, apenas a sobrinha e a ama, são o cura e o barbeiro da aldeia. Nesta segunda parte se soma Simão Carrasco, o bacharel formado em Salamanca.

Com esta finalidade, também Simão Carrasco se veste de cavaleiro, buscando desafiar o da Triste Figura, agora já auto rebatizado de Cavaleiro dos Leões. Para encompridar a história, ele perde o primeiro duelo, mas se prepara para o segundo. Se Quixote perdesse deveria ficar em casa por um ano, se dedicando à vida do campo. Como bom cavaleiro, ele cumpriria o prometido. Neste sossego, ele rapidamente encontrará a morte.

Mas antes tem muitas aventuras. Quixote nunca viu a sua doce amada. A vez em que esteve perto disso, foi ludibriado pelo escudeiro, que lhe mentira a respeito de um suposto encontro com ela, para lhe entregar uma correspondência. Dulcineia ficou encantada e lhe apareceu sob a figura de uma lavradeira. Contudo, não houve no mundo homem mais fiel à sua amada, fato que em muito aumentou as pretensões das damas em o namorarem. Tudo, obviamente, em seu imaginário.
 Cervantes despistou e o Dom Quixote não foi para Saragoça.

As aventuras passam pela gruta de Montesinos, por histórias que se fecham e que estavam em aberto desde o primeiro volume, pela recepção calorosa de um casal de duques que não pouparam esforços em ter a venturosa dupla como seus hóspedes, de sua chegada em Barcelona, uma vez que decidira não mais ir a Saragoça, para enganar o autor do volume falso, sobre as aventuras do cavaleiro em virtude de uma declaração de amor que recebe de uma donzela da corte do duque e sobre a sua derrota para o cavaleiro da Branca Lua. Por esta derrota e sob o peso do juramento que fizera, que na qualidade de derrotado, permaneceria em casa por um ano inteiro. Não suportou esta vida sem glórias e aventuras e a sua vida teve um fim muito rápido.

Um dos fatos mais interessantes ocorre com as sempre desmesuradas pretensões de Sancho Pança como compensação dos serviços prestados como escudeiro. Queria ser conde, transformar Teresa Pança numa dama nobre, casar bem a filha Sanchita e, acima de tudo, ser governador de uma ilha. O duque lhe proporciona a oportunidade de ser este governador. Quixote lhe dá conselhos filosóficos e também práticos. Os conselhos filosóficos são uma verdadeira aula de política e de princípios jurídicos e os práticos, uma fantástica peça de humor. Quixote passa a ser visto com  um "Cid nas armas e um Cícero na eloquência". Sempre a presença das contradições neste fantástico personagem.
Dom Quixote completou suas aventuras em Barcelona. Só que na época não tinha a Sagrada Família.

Sancho, revestido de toda a pompa, assume a governança da ilha. Se iguala a Salomão pela sabedoria de suas decisões. Passa a ser admirado por todos. Mas não suporta a presença de um médico na sua corte, que lhe dita uma dieta, que meticulosamente deverá ser cumprida. Difícil demais para um afamado glutão e beberrão, fato de que ele discorda. Assim fora pintado no volume falso. Em menos de dez dias renuncia ao cargo. Deixa esta fabulosa sentença sobre a sua ascensão a tão ambicionado cargo, com o qual realizaria todos os sonhos dos seus, "... mas, desde que vos deixei e trepei às torres da ambição e da soberba, entraram-me, pela alma dentro, mil misérias, mil trabalhos, e quatro mil desassossegos". "... deixai-me ir buscar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente".

O livro termina com a execração aos romances de cavalaria. Deixando seus bens para sua sobrinha mas a deserda, caso o pretendente tivesse lido tais livros, que o fizeram ser o Cavaleiro da Triste Figura, na qualidade de cavaleiro andante. E assim termina o seu livro: "... pois  não foi outro o meu intento, senão o de tornar aborrecidas dos homens as fingidas e disparatadas histórias dos livros de cavalarias, que vão já tropeçando com as do meu verdadeiro Dom Quixote, e ainda hão de cair de todo, sem dúvida. Vale". 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. Volume I.

Eu tive um amigo, que que em certa oportunidade, assim se referiu a um outro amigo: "Ele é um tanto pirado, de tanto ler". Acredito que é este o veredito que pode ser aplicado ao Dom Quixote. Ele, de tanto ler romances de cavalaria, ficou inteiramente pirado e resolveu ser um cavaleiro andante, em busca de aventuras que lhe conferissem glória, imagem de um homem em busca de justiça e merecedor dos amores de sua Dulcineia amada.

Se até hoje ainda não tinha me aventurado na leitura destas loucuras foi, possivelmente, pela própria fama do livro e da dificuldade que muitas vezes se encontra na leitura de obras clássicas. Mas Dom Quixote é bastante fácil. Cervantes é genial na conduta das aventuras que ele conta, sempre envoltas em pequenos capítulos, cinquenta e dois no total do primeiro volume e mais setenta e quatro no segundo. O próprio Cervantes se encarrega de facilitar esta leitura dando título aos capítulos e emendando sequências.
A versão que eu li. Abril Cultural, 1981. 609 páginas, os dois volumes. Duas semanas para a leitura.


Neste post vou ficar com as aventuras do primeiro volume, originalmente publicado em 1605. Dez anos depois, apareceria o segundo volume, para o seu autor morrer logo depois, no ano seguinte. A edição que eu tenho, a da Abril Cultural, tem 609 páginas, numa escrita bem pequena. Como existem muitos diálogos, a leitura é mais fácil. Os trechos mais difíceis são as conjecturas que faz o Quixote e alguns outros personagens. A obra teve sucesso imediato. Estes eram os tempos em que a leitura deveria ser o maior divertimento popular.

Bem, vamos aos fatos. A história começa quando o famoso cavaleiro é acometido pela loucura e sai duas vezes, neste primeiro volume, em busca de aventuras fantasiosas do seu encantamento. Nomina a si e ao seu cavalo e sonha com a imortalidade de seus feitos, contados em livro, que deveria estar a altura dos melhores que ele lera. Por isso se esmeraria em busca de aventuras dignas de glória e de perenidade e fazer-se merecedor dos amores da donzela mais linda do mundo. Numa estalagem de uma aldeia, que sua imaginação transformara em castelo, é armado cavaleiro, mas logo o reconhecem e o reconduzem à sua aldeia, onde é recebido pelos seus, restritos a governanta ou ama, uma sobrinha, ao cura e ao barbeiro. Esta foi a sua primeira breve saída.

O cura e o barbeiro resolvem erradicar as causas de sua loucura, isto é, queimar os muitos livros de cavalaria que acumulara e lera ao longo de anos, que o transformaram em cavaleiro andante, fora do devido tempo. Quixote prepara a sua segunda saída, sem antes contratar um fiel escudeiro, partícipe de suas aventuras, glórias e recompensas. Este será o inseparável e leal companheiro, Sancho Pança, ávido em busca de recompensas. Um título de conde ou governador de uma ilha, que fosse. A cobrança será constante. Nesta saída empreende a sua mais famosa e conhecida façanha, o combate aos enormes gigantes, os tais dos moinhos. Outras aventuras se seguem, mas que escaparam à memória do narrador, sendo completadas por um outro, o primeiro narrador, o mourisco Benengeli, que as relatara em árabe e ao qual buscou tradução.
Uma das mais famosas duplas do mundo.


Entre novas aventuras, o cavaleiro também discursa. Nada melhor do que na época de ferro, discursar sobre a era dourada. No famoso capítulo XI, dá aulas sobre os males provocados pela divisão entre o que é meu e teu, tema do qual, ainda hoje, se ocupam as cátedras das universidades.  Este capítulo merece um post em separado. Seguem-se três episódios interessantes. A luta contra um valoroso exército de carneiros, a tomada do escudo de mambrino, uma inocente bacia de barbeiro que tomara como espólio de lutas e a libertação de presos, conduzidos às galés, que ele irá libertar. Depois de libertos ele terá dois problemas a enfrentar. O primeiro com a justiça, o que o fará refugiar-se nas montanhas e com os próprios libertos que, para evitar exposição à polícia, se recusam ir a El Toboso e contar os seus feitos para a sua amada Dulcineia.

Imitando Amadis de Gaula faz, perante o seu escudeiro, piruetas com as partes pudendas de fora e o manda em missão, contar estas aventuras para a sua amada. Sancho porém é interceptado pelo cura e pelo barbeiro de sua aldeia e os ajuda a ir ao encontro do cavaleiro, escondido em florestas e serras, sem de fato ter ido a El Toboso e ter se encontrado com Dulcineia. A partir daí, param numa estalagem encantada e muitas histórias são contadas. Histórias de amor, em que pouco a pouco, são desvelados os mistérios dos personagens envolvidos. Isso ocupa uma longa parte do livro. Estas histórias seguramente poderiam ser a narrativa de outros livros, como o reconhece o narrador, na segunda parte do livro. Entre os personagens se encontrará a princesa Micomicona, por cuja libertação receberiam grandes recompensas. Miconicoma fascina a Sancho, em seu eterno sonho por recompensas. Sancho alimenta grandes ambições. São eles que o movem às aventuras.

Nesta estalagem se travam lutas com muito derramamento de sangue, ou seria o vazamento de odres de vinho, provocado pela ferocidade das batalhas. Também ocorrem longas discussões sobre a leitura de livros. Aparecem até claras propostas de censura, nas discussões entre um cônego e o cavaleiro. Nestes momentos o cavaleiro está totalmente lúcido, estado que ele frequentemente alterna com os de encantamento. Propõe a censura de todos os livros mentirosos, que nada somam e servem apenas como distração.

Por fim o cavaleiro recebe uma paulada tão forte de um adversário e acorda, apenas ao ouvir as tristes e comoventes palavras do escudeiro Sancho. Assim enfraquecido, e posto numa carroça, tornam à sua aldeia de origem. Quixote é recebido pela sua governanta e pela sobrinha. Já Sancho é recebido por Teresa Pança, que só quer saber das recompensas que o escudeiro estaria por lhe trazer. Humorados versos em epitáfios terminam a narrativa deste primeiro volume, mas novas aventuras são prometidas, através de uma terceira saída do cavaleiro e que ocorrerão na saída para a cidade de Saragoça.
Em Porto Lápica, a hospedaria castelo do Quixote.

Numa viagem minha pela Espanha, um dia saímos de Madri em direção a Granada, passando por toda a região da Mancha. Vimos muitos moinhos, que são exatamente os que o Quixote confundiu com os gigantes. A nossa primeira parada foi numa pequena aldeia chamada Porto Lápica ou Porto Lápice. Lá o Quixote esteve por duas vezes e na Venta, ou estalagem, ou ainda no castelo local é que o cavaleiro fez o seu ingresso como cavaleiro andante.

No terceiro capítulo do segundo volume existe uma síntese sobre os maiores feitos do cavaleiro, narradas por um bacharel, que lhe fala das repercussões do livro: "Nisso - respondeu o bacharel - há diferentes opiniões, como há diversos gostos; uns preferem a aventura dos moinhos de vento que a Vossa Mercê lhe pareceram briareus e gigantes; outros as das azenhas; este a descrição dos dois exércitos, que depois se viu que eram dois rebanhos de carneiros; aquele encarece a do morto que levaram a enterrar em Segóvia; diz um que a todas se avantaja a da liberdade dos galeotes; outro, que nenhuma se iguala a dos dois gigantes beneditinos, com a pendência do valoroso biscainho". Na leitura, é bom ficar atento a estas passagens.







segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A leitura de D. Quixote. Preparativos. A Espanha no tempo de Cervantes.

Tomei uma decisão afoita. Na qualidade de administrador de tempo livre, vou ler e reler grandes clássicos da literatura mundial. Obras com um sabor todo especial e que, seguramente, alavancam uma melhor compreensão do mundo e do ser humano. Vou começar com Cervantes, com o Dom Quixote, obra que já comecei uma infinidade de vezes, mas que agora, com toda a determinação, vou até o fim. Não vou a esmo. Me prepararei bem para esta tarefa e irei compartilhar esta minha experiência.

Guardo no meu exemplar do Dom Quixote (Abril cultural 1981) uma preciosidade. Um caderno especial da Folha de S.Paulo de 18 de junho de 2005, dedicado à comemoração do quarto centenário do lançamento da primeira parte do livro. A longa viagem de D. Quixote é o título do caderno especial. Um raro trabalho de fôlego, com todos os méritos. Será o meu primeiro preparo para a leitura.
A capa da edição da Abril Cultural. É esta edição que tenho em mãos.

Tenho obsessão por contextualizações. Sem elas jamais haverá compreensão. O primeiro texto que examinarei será A Espanha no tempo de Cervantes, um artigo de Antônio Feros, professor de História da Universidade de Pensilvânia, na Filadélfia. E vamos para as primeiras datas. Ele nasceu em 1547 e morreu em 1616. A primeira parte de seu livro data, como vimos implicitamente, de 1605. Felipe II governou a Espanha entre os anos de 1556 e 1598. Felipe III e IV o sucederão. Felipe III será nominalmente citado no caso da expulsão de mouros e judeus. Na outra grande potência da época, a Inglaterra, vivia outro escritor de semelhante envergadura, Shakespeare (1564-1616). Morreram, como podem observar, no mesmo ano de 1616.

Cervantes viveu em uma época de crise, de transição. A Espanha insistia em ser grandiosa, mas vivia a desilusão, o desencanto e procurava fugir da realidade opressiva e deprimente. A virtude era desprezada e o vício louvado. Eram tempos de profundas inquietações, ansiedades e fracassos. Tempos de pestes e de carestia. A Espanha não queria perder sua posição de prestígio no cenário internacional. Teve vitórias, como Lepanto (1571), quando, com a participação de Cervantes, ganhou dos turcos e, ainda dominou Portugal entre 1580 e 1640. Sofreu porém grandes derrotas, contra a Inglaterra, contra a França e contra a Holanda.

Já sob Felipe III viveu tempos de pacificação mas de profundas contradições sociais. A inquisição se preocupou mais com os costumes dos católicos, deixando mais liberdade para judeus e muçulmanos, neoconvertidos. Já os outros... Em dez anos a peste vitimou um milhão de pessoas, numa população de sete. Em torno de 15% dos nascimentos ocorriam fora do casamento. Os tempos eram um pouco mais tolerantes. Houve grande ascensão de fidalgos, galgando a nobreza e passando a usufruir de privilégios. Havia um muito grande número de clérigos. Houve frustração de safras por causa de secas e as ruas estavam abarrotadas de mendigos, desempregados, pobres e criminosos. A inflação era galopante.

Houve reações. Muitas execuções, com a finalidade de amedrontar, elas se tornaram públicas. Desempregados eram criminalizados por vadiagem. O único alívio vinha da caridade cristã, o que não significava grande coisa. A questão dos mouros aparece na segunda parte do livro. Não é por nada que Cervantes considerava esta sua época como a idade de ferro, embora muito ouro fosse encontrado. De uma maneira mais ampla, a época se situa dentro do renascimento já em expansão. É o tempo das grandes monarquias, dos grandes estados modernos se constituindo e os tempos do mercantilismo. Tempos de prenúncio, de novos tempos, de novas e grandiosas nações, de hegemonia protestante e de transformação industrial. E a Espanha continuava a filha predileta da Igreja Católica.

Cervantes teve vida particular bastante atribulada, passando por ferimento na batalha de Lepanto, prisão na mão de piratas e outras prisões por atrasos em suas prestações de contas, na qualidade de sua função como coletor de impostos da Coroa. Ao menos parte de sua obra foi escrita na prisão. A obra teve imediato sucesso.
O monumental Escorial, o Palácio de Felipe 2º.


Pessoalmente tive oportunidade de visitar na Espanha as cidades de Toledo, que já foi capital e o Escorial, para onde Felipe II levou a sede do império. São exatamente os tempos vividos por Cervantes. A grandeza do El Escorial é estonteante. Foram realmente tempos de grande glória para o império espanhol, mas a decadência já era amplamente visível. Em outra oportunidade, viajando de Madri para Granada, passamos pelas áridas terras da Mancha. Paramos em Puerto Lápica, onde simplesmente tudo reverencia a memória do grande mestre das letras.

Um adendo. Em 13.06.2026. A maravilhosa consideração de Harold Bloom sobre a obra, em Como e por que ler. Objetiva, 2001. "Embora quase tudo que é possível acontecer, de fato, aconteça em Dom Quixote, o que há de mais importante no romance são os contínuos diálogos entre Sancho e o Dom. Se abrirmos, aleatoriamente, o livro, é provável que nos deparemos com uma dessas conversas - zangadas, sonhadoras, em última análise, sempre afáveis, fundadas em respeito mútuo. Mesmo quando discutem com veemência, jamais faltam com a cortesia, e sempre aprendem, a partir daquilo que o outro tem a dizer. E ouvindo, ambos se modificam" (Página 140). Tá vendo! Por que ler? E pouco adiante lemos ainda:

"Ler Dom Quixote é um prazer infindo; só espero ter aqui oferecido algumas indicações de como ler essa grande obra. Muitos de nós são figuras cervantinas, mesclas de Quixote e Pança. Por que ler Dom Quixote? O livro continua a ser o melhor dos romances, além de ter sido o primeiro, assim como Shakespeare continua sendo o melhor dos dramaturgos. Há determinados aspectos do nosso ser que só conheceremos plenamente quando conhecermos, o melhor que pudermos, Dom Quixote e Sancho Pança" (Página 144).






terça-feira, 8 de novembro de 2016

O Verdadeiro canalha. A homenagem de Gustavo Fruet para Beto Richa.


Gustavo Fruet é um dos políticos mais cordatos que eu já conheci. Pouco se altera, mesmo em situações mais complicadas. Porém, agora na disputa pela reeleição e no pós eleição, em dois momentos ele fugiu do seu script habitual. A primeira vez foi quando um jornalista perguntou aos candidatos sobre uma qualidade que admiravam num adversário seu. Gustavo foi na jugular. A sua escolha recaiu sobre Rafael Greca. "A qualidade que eu mais admiro no meu adversário, é o seu gosto por obras de arte". Greca havia sido acusado de furto de obras de arte que pertenceriam à Prefeitura de Curitiba. Acima de tudo um tirada com ironia e bom humor.

Mas a agressividade nunca vista foi quando Beto Richa, no dia após a vitória de Greca, o seu candidato, anunciou a volta da integração dos ônibus de Curitba com os da região metropolitana, que cortara durante a gestão de Fruet. O tom subiu e ele lhe dedicou esta nada gentil musica do verdadeiro canalha, do Bezerra da Silva. Façam os seus julgamentos, que eu deixo aqui o registro.

Está aí a música com a qual Gustavo Fruet homenageou o governador Beto Richa.


Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Você vive de trambique,
Deita na sopa
E se atrapalha,
Olha aí, seu canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Se elegeu com votos da favela,
Depois mandou nela
Metê bala,
Isso é que é ser canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Rapinou o dinheiro do povo,
Saiu esbanjando
E fazendo bandalha,
Veja bem, seu canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um tremendo canalha.
Comprou carrão,
Fazenda e mansão
E o povo na miséria comendo migalha,
Veja bem, seu canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Está livre a poder de propina,
Porém a justiça divina
Não falha,
Veja bem, seu canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
O truco se acaba
Meio retrocesso,
Verás o reverso da medalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Viver de moleza é muito bom,
Quero ver você
Encarar uma batalha,
Vai trabalhar, canalha!
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
E no dia do judas tu fica na tua,
Se tu for pra rua
A galera te malha,
Fica em casa, canalha!
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Comeu, bebeu, fumou e cheirou,
Depois caguetou
O cabeça-de-área,
Olha a bala, canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Nunca vi ninguém dá dois em nada
E também se ver
Cadeado não fala,
Aprendi isso, canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
E depois daquele par de chifres
Em que altura está
O meu chapéu de palha,
Já viu isso, canalha?
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
O calado tá errado...
E falando nem se fala...
Cala a boca, canalha!!!
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
De repente o bicho pegou,
Tu se empirulitou
E jogou a toalha,
Sai correndo, canalha!!!
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha

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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Teoria da escola dualista. Rede PP e rede SS.

Em tempos de governo golpista, do DEM no Ministério da Educação e da Medida Provisória nº 746/2016 que reforma o ensino médio, precisamos retomar as teorias que analisam as estruturas, o funcionamento e as finalidades  da educação. Eu particularmente me lembrei mais das teorias de Baudelot e Establet que falam da existência de duas redes de ensino: a rede PP e a rede SS. Estas duas redes atendem aos interesses de cada uma das classes sociais, uma rede escolar para a burguesia e outra para o proletariado. Vamos ver um pouco desta teoria, tomando como referência Dermeval Saviani e o seu livro Escola e Democracia.
 Um belo livro para estudar as teorias da educação.

A Teoria da escola dualista integra as teorias críticas da educação e foi formulada por Baudelot e Establet, em 1971, no livro chamado L'Ecole Capitaliste en France. A sua teoria tem seis proposições fundamentais que Saviani transcreve do livro dos autores franceses.

1. Existe uma rede de escolarização que chamaremos rede secundária e superior (rede S. S.).
2. Existe uma rede de escolarização que chamaremos rede primária-profissional (rede P. P.).
3. Não existe terceira rede.
4. Estas duas redes constituem, pelas relações que as definem, o aparelho escolar capitalista. Este aparelho é um aparelho ideológico do estado capitalista.
5. Enquanto tal, este aparelho contribui, pela parte que lhe cabe, a reproduzir as relações de produção capitalistas, quer dizer, em definitivo a divisão da sociedade em classes, em proveito da classe dominante.
6. É a divisão da sociedade em classes antagonistas que explica em última instância não somente a existência das duas redes, mas ainda (o que as define como tais) os mecanismos de seu funcionamento, suas causas e seus efeitos.

Os autores confirmam estes princípios através de uma série de estatísticas. Assim, de acordo com os autores, a escola, enquanto aparelho ideológico do Estado, cumpre duas funções básicas, quais sejam, a inculcação ideológica da ideologia burguesa e a preparação para o trabalho, com predomínio para a inculcação ideológica. Saviani ainda transcreve um parágrafo da obra para justificar estas funções da escola, inseridas dentro do contexto maior da sociedade.

"A contradição principal existe brutalmente fora da escola sob a forma de uma luta que opõe a burguesia ao proletariado: ela se trava nas relações de produção, que são relações de exploração. Como aparelho ideológico do Estado, a escola é um instrumento da luta de classes ideológica do Estado burguês, onde o Estado burguês persegue objetivos exteriores à escola (ela não é senão um instrumento destinado a esses fins). A luta ideológica conduzida pelo Estado burguês na escola visa à ideologia proletária que existe fora da escola nas massas operárias e suas organizações. A ideologia proletária não está presente em pessoa na escola, mas apenas sob a forma de alguns de seus efeitos que se apresentam como resistências: entretanto, inclusive por meio dessas resistências, é ela própria que é visada no horizonte pelas práticas de inculcação ideológica burguesa e pequeno-burguesa".

Creio que aqui já estão presentes alguns elementos para a reflexão que este momento tanto exige, mas recomendo a leitura, por inteiro, do capítulo I do livro de Saviani, em sua parte três: A teorias crítico reprodutivistas. Recomendo ainda o maravilhoso livro Cuidado, Escola!, cuja primeira edição data de 1980. E ainda, de Adorno, de seu livro Educação e Emancipação, o capítulo Tabus acerca do magistério, em que o autor chama os educadores à sua responsabilidade para não prestarem um serviço, digamos, sujo para a burguesia. E para além da educação, num quadro mais amplo, o livro de Jacques Rancière, O ódio à democracia. Toda a democracia que mexe com a estrutura básica da sociedade é odiada pelos que ocupam os postos mais elevados, economicamente, dentro desta sociedade.

Pesa sobre a classe trabalhadora dentro da sociedade capitalista uma espécie de pesadíssima lei da gravidade social, pela qual se impede qualquer possibilidade de ascensão, sob pena da aplicação de golpes de Estado, como acontece neste momento da nossa história. A educação está sendo posta nos trilhos da imobilidade social capitalista, dentro de sua perversa lógica. O ensino médio deve ser organizado de tal maneira, que ele impeça a escalada dos alunos, filhos da classe trabalhadora, ao ensino superior. O  MEC do governo golpista já está anunciando uma reforma também no ensino fundamental. É neste mesmo sentido que tramitam os diferentes projetos do "Escola sem Partido".

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O Jogo das contas de vidro. Hermann Hesse.

Depois de ler, nesta ordem, Demian, O lobo da estepe e Sidarta  do escritor alemão refugiado na Suíça, Hermann Hesse, resolvi enfrentar o volumoso O jogo das contas de vidro, que conferiu ao escritor o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1946. O livro foi publicado em 1943, em plena segunda guerra mundial, quando o escritor já estava com setenta anos.

Hesse seguramente deve ser um dos autores mais autobiográficos que eu já li. Demian (1919) retrata os seus anos de juventude e se constitui num dos melhores romances de formação que eu já li. O lobo da estepe (1927) mostra o escritor com cinquenta anos, defrontando-se, exatamente, com a idade do lobo. Sidarta (1922) é, se assim podemos dizer e creio que não, o seu livro de pregação, de afirmação dos princípios do hinduísmo. Os três livros são absolutamente maravilhosos. Em 1911 Hesse empreendeu a sua viagem à Índia, país com o qual, via parentesco, tinha grandes afinidades. O escritor foi uma espécie de precursor da cultura oriental na Europa tão fortemente cristã.
A edição da BestBolso de O jogo das contas de vidro.

Ler O jogo das contas de vidro, ou o jogo dos avelórios não é uma tarefa fácil. Precisa ter quase tanta disciplina quanto a cultura hindu exige em seus jogos de espiritualidade e transcendência, pela via da meditação. O Nobel de literatura lhe foi concedido, exatamente, em função deste livro. O espírito rebelde do autor está mais uma vez presente no livro, mesmo que José Servo, o personagem central, pertença a um grupo hermeticamente fechado, altamente hierárquico e ter galgado o mais alto topo desta hierarquia, o que implicava em fidelidade absoluta a princípios.

A sociedade a qual ele pertence é a ordem de Castália. uma comunidade espiritual altamente intelectual e elitizada. É perfeitamente comparável a uma ordem religiosa, seguindo todo o seu rigor e princípios hierárquicos, que só se concretizam pela via da obediência. O longo romance, 668 páginas na edição da BestBolso, relata a biografia de José Servo, um dos integrantes da ordem de Castália. O sobrenome original do alemão, Knecht recebeu, na tradução a palavra servo. Embora o termo esteja correto, me parece que ficou empobrecido.

Não são conhecidas as origens de José Servo. Desde a sua infância ele é incorporado à ordem de Castália, formando-se dentro dos rigores intelectuais desta comunidade. As disciplinas fundamentais desenvolvidas eram a música, a astronomia e a matemática. Estas disciplinas eram instrumentalizadas através de contas de vidros, para facilitar os jogos em sua constituição. Anualmente eram realizados os grandes jogos avelórios, presididas pelo magister ludi, o mestre dos jogos. O Magister ludi tinha função equivalente a do abade, nas ordens religiosas.

O jogo das contas de vidro começa com um ensaio de introdução popular à história em que a comunidade de Castalia e o seu jogo de avelórios são apresentados. Em Castália procura-se desenvolver uma nova linguagem. Logo a seguir começa o livro propriamente dito com a descrição, ao longo de doze capítulos, da biografia do Magister Ludi, José Servo. O livro termina com as poesias e um relato sobre as obras póstumas de José Servo, que remetem a três encarnações anteriores do Magister.

Os doze capítulos da biografia começam com a vocação do biografado mostrando o seu ingresso na ordem e os seus primeiros estudos. Segue com Cela Silvestre, local onde se situava uma das escolas da ordem, na qual os alunos eram preparados para os jogos avelórios, com dedicação especial para a música. Nesta escola José encontra Plínio, um aluno externo, com quem faz longa amizade. A biografia segue mostrando os anos de estudo de Servo, a sua admissão na ordem e um reencontro com Plínio. No quarto capítulo duas ordens, Servo recebe uma missão junto aos beneditinos, procurando uma aproximação com esta ordem religiosa, em muitos pontos semelhante aos que inspiram Castália. Neste capítulo Servo trava longa amizade com o monge Jacobus, uma espécie de diplomata da ordem.

No quinto capítulo A missão, Servo recebe a incumbência de fazer uma aproximação de Castália com Roma, com a igreja. Esses dois capítulos são vistos como uma tentativa de Hesse de voltar as origens religiosas de sua família, embora a sua missão não se concretize. Sela-se, no entanto, uma grande amizade e admiração mútua entre Servo e Jacobus. Muitos questionamentos são feitos e outras tantas dúvidas, que já vieram desde os tempo de amizade com Plínio, surgem na mente do fiel membro da ordem.

No sexto capítulo Servo é elevado à condição de Magister Ludi. O amor fati, um conceito de Nietzsche, o faz aceitar a missão. Neste momento se reavivam as dúvidas de Servo entre pertencer a uma organização e as questões da liberdade individual. Me senti retratado em minhas dúvidas pessoais, na saída do seminário. Cresce em Servo o desejo de abandonar a ordem. Conduz com brilhantismo os jogos avelórios, recuperando o seu antigo prestígio. No cargo, o sétimo capítulo José Servo mostra toda a sua competência na administração de Castália. Crescem também as suas relações com Tugularius, outro membro da ordem, com fortes tendências individualistas.

No oitavo capítulo Os dois polos é mostrada toda uma reaproximação entre entre Servo e Plínio, o aluno externo, que vivia no mundo fora da ordem, mundo ao qual Servo pretende se inserir. São cada vez maiores as dúvidas sobre a permanência em Castália. Com Plínio irá manter um diálogo em que os dois mundos são examinados. Na minha visão o livro atinge nesse momento os seus momentos mais elevados. Segue o capítulo 10, preparativos, em que José planeja a sua saída. A educação de Tito, filho de Plínio lhe abre a perspectiva da saída. A sua decisão é comunicada à ordem de Castália, através de uma Circular, em que todos os motivos são comunicados à hierarquia da ordem, que, no entanto, rejeita o seu pedido.

Aí termina a relação de Servo, o Magister Ludi e presidente dos jogos avelórios com Castália. Inicia então A Lenda. Aí vamos encontrar Servo iniciando o seu trabalho como preceptor de Tito, o filho de Plínio. Belas concepções de educação são explanadas.. Mas a biografia de José Servo termina abruptamente e de forma inesperada, que deixamos para o leitor desvendar. Seguem no livro as poesias de Servo e as suas obras póstumas. É isso. A obra mais importante de um Nobel de Literatura (As palavras em negrito são os títulos dos doze capítulos).

Confesso que gostei mais das obras anteriores do grande escritor. Em O jogo das contas de vidro a narrativa não tem a mesma vivacidade de suas obras anteriores e se travam longas reflexões sobre temas muito restritos e tocados de uma forma extremamente precavida, longe dos arroubos de seus trabalhos anteriores. Obra de fôlego do autor, fôlego este, que também é exigido do leitor.

Uma espécie de pós scriptum: ontem a noite eu saí. Fomos beber e conversar, não necessariamente nessa ordem. Havia no grupo um pessoa que pertencia a duas instituições. As conversas me fizeram entender bem melhor o livro, do quanto as pessoas são enredadas pelas instituições a que pertencem. Elas não permitem a individualização do sujeito, a busca de sua singularidade.



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Pagador de Promessas. Palma de Ouro em Cannes.

O Pagador de Promessas é uma obra escrita em 1959 como uma peça de teatro. Ela foi encenada pela primeira vez em São Paulo, em 1960, no TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia. Seu autor é o baiano Dias Gomes. Ela foi levada ao cinema, em 1962, pelas mãos do diretor Anselmo Duarte, que também assina o roteiro, junto com Dias Gomes, o seu autor. O filme se notabilizou especialmente em função de ser o único filme brasileiro que recebeu a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes.

O prêmio obviamente foi recebido em função de seus méritos, com grande destaque para a temática abordada, a miscigenação brasileira e, em consequência, o sincretismo religioso e, como resposta, a intransigência da igreja católica que insistia em manter o monopólio da fé. Junto com esta temática também é mostrada a fé ingênua do povo simples, as maldades de aproveitadores na exploração deste mesmo povo e, já que usamos a palavra maldade, a maldade da mídia sensacionalista em fazer intrigas e alavancar as vendas do jornal.

A simples curiosidade me levou a rever este filme. Mas tive, com certeza, algumas influências. Primeiramente Jorge Amado, o seu magnífico Tenda dos milagres, com a maravilhosa frase" Há de nascer, de crescer e de se misturar". Também a sua incansável luta em favor da liberdade religiosa que conseguiu inscrever na Constituição de 1946. Na Bahia se misturou tudo: cores, sabores, saberes, sons, hábitos e, acima de tudo, crenças.

Também lembrei de Paulo Freire e o seu magnífico Educação como prática da liberdade, o seu extraordinário capítulo primeiro, sobre a sociedade brasileira em transição. Lembrando que a obra de Dias Gomes foi escrita em 1959 e levada ao cinema em 1962. Não me lembro quando eu o assisti pela primeira vez. Nesses tempos eu vivia protegido destas mundanidades. Eu estava no seminário, donde saí em 1968. Esses tempos eram tempos de profunda agitação política, com Brizola garantindo a volta de Jango, mas que depois tudo ruiu com o golpe de 1964. Eram também tempos de profunda agitação cultural. E eram tempos de reforma agrária.

Bem, vamos ao filme.O roteiro é de extrema simplicidade. Um homem simples, de vida no campo faz uma promessa para Santa Bárbara. Caso seu burro, atingido por um raio, não morresse, levaria uma pesada cruz até a igreja de santa Bárbara, em Salvador, distante de seu sítio uns 40 quilômetros. Fez a promessa num terreiro de candomblé. Também prometeu a divisão de sua terra com o povo pobre do lugar.

Promessa feita é promessa para ser cumprida. Zé do Burro, assim ele era conhecido, junto com Rosa, sua esposa, começa o seu calvário. Os problemas começam com a chegada em Salvador, nas escadarias da igreja da santa, ainda de madrugada e a igreja fechada. Quando padre Olavo fica sabendo que a promessa fora feita em terreiro de candomblé, ele se nega terminantemente a receber Zé do Burro e a sua cruz.

O alvoroço se forma. O cafetão Bonitão vê a beleza de Rosa e a seduz. Zé do Burro concede entrevistas para os jornais de Salvador, que distorcem as suas palavras, transformando-o num agitador político a favor da reforma agrária. O padre Olavo o condena por se apresentar como um novo salvador. Zé do Burro, no entanto, quer apenas cumprir a sua promessa. Pouco entende do que se passa mas nega terminantemente o não cumprimento de sua promessa.

As autoridades se envolvem no caso. A polícia quer prendê-lo, a imprensa o demoniza e o padre leva o caso à alta hierarquia da igreja. Rosa se envolve em confusão com Marly, a amante do cafetão. Quanto mais alta era a hierarquia da igreja, maior era a intransigência. Não era a igreja de Deus ou dos santos, mas a igreja da instituição. Santa Bárbara, segundo a instituição, nada tem a ver com  Iansã. O povo toma o partido de Zé do Burro.

A confusão se generaliza. Zé do Burro não arreda o pé. Quer levar a sua cruz para dentro da igreja e a polícia quer prendê-lo. As mães de santo tomam o seu partido e os capoeiras o protegem. Zé do Burro é morto na confusão e o povo, na marra, carrega a cruz para dentro da igreja. Na sua promessa simples, Zé do Burro encontrou o seu calvário e a sua morte. O tema continua extremamente atual, especialmente, com a ascensão das igrejas fundamentalistas, neopentecostais da corrente da teologia da prosperidade.

As religiões como organizações, dia a dia se afastam da religiosidade e da espiritualidade para se transformarem em instituições de poder e explorarem a fé simples, eliminando assim, o caráter de transcendência da religião. E o povo continua bom, vítima de sua ingenuidade.

O filme se notabilizou também pela segura interpretação do casal da promessa. Zé do Burro é interpretado por Leonardo Vilar e Rosa por Glória Pires, no esplendor de sua juventude. Padre Olavo tem a interpretação de Dionísio Azevedo e a já consagrada Norma Bengell interpreta a amante do cafetão Bonitão. Anselmo Duarte estreia na direção. Filme premiadíssimo.

Além do filme, se eu tiver o direito de fazer recomendações, eu indicaria para a leitura de Tenda dos milagres, que o próprio Jorge Amado considera como a melhor de suas obras. "Há de nascer, de crescer e de se misturar", e com liberdade religiosa, com todo o sincretismo possível.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Histórias da Gente Brasileira. Volume 1. Colônia. Mary Del Priore.

Há muito tempo que aprecio as obras da historiadora Mary del Priore. Ela sempre consegue inovar, lançando novos olhares sobre os temas tradicionais trabalhados pela história. Tenho neste meu blog a resenha de vários de seus livros. Desta vez ela lançou um projeto bastante audacioso, contando toda a história brasileira, exatamente com o viés do ineditismo de sua abordagem.
Histórias da gente brasileira. As origens da nossa gente.

Estou me referindo ao livro Histórias da Gente Brasileira. É o seu primeiro volume, em que é abordado todo o período colonial. Se estamos tratando do volume 1, evidentemente, que haverá continuidade. Neste volume, um segundo já está anunciado, sob o título As histórias continuam. O foco deste segundo volume será o império. O livro é um lançamento de 2016 da Leya.

No prefácio a historiadora anuncia o objetivo da obra e o método de trabalho: "Você gosta de história? Então, está com o livro certo nas mãos. Porque nele você há de conhecer uma história do Brasil diferente. Não aquela dos grandes feitos, nomes e datas que marcaram o nosso passado; tampouco aquela dos fenômenos extraordinários que provocaram rupturas na nação, mas as histórias do dia a dia, ou melhor, de todos os dias da semana.  Histórias feitas por personagens anônimos do passado, que raramente são apresentados, pois se confundem com o tecido social em construção. Uma história da gente brasileira no labor cotidiano, inventando, produzindo e ganhando o 'pão de cada dia'".

O livro é relativamente longo. Tem 427 páginas, com fartas ilustrações, acompanhando ainda, um glossário e uma rica referência bibliográfica, as verdadeiras fontes primárias para o estudo da história do Brasil. Ele está dividido em três partes: Parte 1. Terra e trabalho. Parte 2. O supérfluo e o ordinário: casa, comida e roupa lavada e  Parte 3. Ritmos da vida: nascimento, adolescência, uniões, doença e morte.

A primeira parte é a mais longa e é formada por 14 capítulos. Necessariamente passa pelos nossos primeiros ciclos econômicos. Vejamos os títulos que terra e trabalho receberam: 1. "Ao cabo do mundo": no início era o céu e a terra. A sobrevivência, o trabalho e os dias. 2. A terra do lenho do diabo. Céu ou inferno? 3. Medo, sempre... Pavor e fascínio: as sedutoras Amazonas. 4. Índios no cotidiano de brancos. 5. A cana nossa de cada dia: Para crescer e multiplicar. 6. Mulheres de açúcar: Com a mão na massa - ou melhor, no pilão e na moenda. 7. Compras e vendas da rua ao sobrado: mobilidade e fortuna de negros e mulatos. 8. Artes e ofícios do ouro: Da arte de encontrar fortuna. 9. Os homens do caminho: O grito de partida: "Boa estrada!". 10.Entre a cidade e os sertões. 11. Companheiros do dia a dia: A civilização do couro no Nordeste. 12. A luta da gente contra os males de sempre: Quando o inexplicável acontecia: calamidades. 13. Cidades mestiças: O beija mão do vice-rei. 14. E além do trabalho?
A segunda parte se dedica verdadeiramente ao cotidiano, ao dia a dia. É formada por dez capítulos: 1. Do teto à casa da morada. 2. "Pode entrar". 3. Eu me lavo, tu te cobres, nós sujamos: catinga e limpeza. 4. No fogão a lenha: paladar e alimentação. "Comida de escravo" e culinária africana. 6. Para matar a sede. 7. Na terra do açúcar: doces. 8. Coberto e descoberto. 9. Belas ou feras? 10. O supérfluo e o necessário.

A terceira parte acompanha esta gente entre o nascimento, sua formação, seus ajuntamentos ou casamentos até as suas mortes. Muito interessante. É formado por seis capítulos. 1.Os verdes anos: tempo de nascer e crescer: Amar, educar, modelar e restringir. 2. Adolescência: existia? Pais soturnos e filhos amedrontados. 3. Tempos de unir-se, tempo de família: Amores, amor, famílias e família: plural. 4.Tempo de todos os desejos. 5. Corpo doente e corpo sadio: duelos entre a vida e a morte. 6. Tempo dos mortos e de morrer: O aqui e o depois.

O livro cumpriu plenamente a sua finalidade e, no intuito de provocar a sua leitura publico ainda parte de sua contracapa: "Iniciando pela colônia uma jornada por nossos mais de quinhentos anos, ela joga luz sobre os anônimos que deram forma ao país. Aqui, a vida das ruas interessa mais do que datas marcantes; o dia a dia no trabalho da gente simples chama mais atenção do que nomes famosos; e os hábitos e costumes revelam mais do que a história tradicional costuma contar". Expectativas cumpridas, ficamos no aguardo do segundo volume.
 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

SIDARTA. Hermann Hesse.

Antes de iniciarmos propriamente a resenha de Sidarta, vamos ver alguma coisa sobre o seu autor. Vamos recorrer a Ivo Barroso que traduziu para o português Demian e O Lobo da Estepe. No posfácio a Demian, ele nos dá as seguintes referências sobre Hesse (1887- 1962): "Descendente de família suábia (Schwaben - sudoeste da Alemanha), criado no mais rígido rigorismo religioso - o pai, erudito famoso de história religiosa; a mãe, filha de missionário, nascida e educada na Índia; o avô, Hermann Gundert, indianista de renome".  São referências preciosas para a compreensão da obra. Estas referências familiares já nos inseriram no tema.

Mas tem mais. O próprio Hesse empreendeu uma viagem para a Índia em 1911. Sidarta foi publicado em 1922. Em 1919 o autor já havia publicado Demian. Creio que a seguinte frase traduz muito bem o espírito desta obra: "Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo!". Hesse está em busca de si mesmo. E isso está profundamente impregnado também em Sidarta. Em Sidarta ele vislumbra caminhos em busca de si mesmo.
A edição da BestBolso de Sidarta.

Observem as datas: Demian em 1919 e Sidarta em 1922. É o período do entre guerras. Tempos de um passado tenebroso e de um futuro angustiante e sufocante. É evidente que este contexto histórico tem as suas causas. Ele é um produto da cultura ocidental, profundamente capitalista e cristã e também extremamente racionalista, cientificista e moralista. Neste tempo também Nietzsche e Freud já eram bastante conhecidos. Hesse criticava os valores burgueses e, embora pacifista, alimentava um pensamento rebelde e revolucionário. Buscou abrigo e compreensão numa espécie de auto exílio na Suíça, em 1923.

Sidarta é um livro bem simples. Não tem nada da complexidade de Demian, ou de sua continuação em O Lobo da Estepe, este de 1927, quando o lobo já tem cinquenta anos. Creio que não erramos ao afirmar que, contra a corrompida e infelicitadora cultura ocidental, o autor buscava um bálsamo para a sua vida, na busca de si próprio, através da cultura oriental e mais precisamente no hinduísmo. Consigo imaginar a recepção deste pequeno livrinho nos tempos de sua publicação, na ultra conservadora Europa no rumo dos regimes fascistas.

O pequeno livrinho (140 páginas na edição da BestBolso) é uma espécie de uma entusiasmada aula de filosofia sobre a cultura do hinduísmo, em meio a mundo em que ainda predominavam os valores cristãos. Ele está dividido em duas partes. Na primeira, o narrador nos apresenta Sidarta como o filho do brâmane, que em busca de se encontrar na vida, se torna um samana, junto com Govinda, um amigo da infância. Ambos vão em busca do Nirvana. Ouvem falar de Gotama e o seguem. Depois de o encontrarem Sidarta explica amigo e ao próprio Gotama (Buda) que não o seguiria, uma vez que fora tocado por um (o) despertar. As palavras em negrito são os títulos dos quatro pequenos capítulos, assim como dos nove da segunda parte.

Na segunda parte o narrador segue a trajetória de Sidarta, agora só, em busca de si mesmo e desvendando mundos. Encontra-se com Kamala, uma rica e famosa cortesã e, mutuamente, trocam aprendizados e prazeres. É neste momento que Sidarta apresenta os seus grandes princípios do pensar, esperar e jejuar. Se encontra com o comerciante Kamasvami, com quem passa a trabalhar e enriquecer. Neste capítulo ele se encontrará entre os homens tolos. Aí ocorre a vida fútil e de infelicidades, ou seja o mundo de Sansara. Gula, luxúria e jogos de azar, com ganhos e perdas volumosas marcam este encontro de Sidarta com Sansara.
A unidade e nunca a separação constituem o humano.


A sua infelicidade se encontra num nível tão intenso e elevado que abandona tudo e vai à beira do rio, onde por muito pouco não comete o suicídio. Aí reencontra o balseiro, com quem aprende os próprios segredos e, especialmente, os do rio. Neste momento correm boatos de que o velho Gotama está por morrer e, em consequência, ocorrem grandes peregrinações. Entre estes se encontra Kamala, que virou seguidora e traz para Sidarta o filho. Ela engravidara num dos últimos encontros. Com o filho porém, só desencontros, junto com novas e sábias lições do balseiro. Aí o livro começa a se encaminhar para o seu final, marcado por um grande encontro com OM, a unidade de tudo no passado, presente e futuro. Me veio a ideia de panteísmo. Por fim um reencontro com Govinda, o colega de infância, em busca do balseiro, já famoso. Só que agora o balseiro é Sidarta. Novas grandes lições vão sendo reveladas. Sabedoria não se transmite. isso é apenas possível com o conhecimento. Sidarta recusa terminantemente doutrinas e palavras. Govinda considera Sidarta um santo.

Eis as lições de Hermann Hesse para uma Europa dilacerada pela Primeira Guerra e célere na busca de uma guerra ainda muito pior, inclusive, com os seus antecedentes e a terrível experiência posterior, a da bomba atômica. A sabedoria realmente não se ensina. Não seria por não ser aprendida? Ainda em tempo. A edição da BestBolso de O Jogo das Contas de Vidro traz um belo prefácio, assinado por Waldemar Falcão, que ajuda a compreender as influências da cultura oriental na obra deste Nobel de Literatura do ano de 1946, o primeiro ano posterior à Segunda Guerra.





sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Lobo da Estepe. Hermann Hesse.

A leitura de O lobo da estepe marca um reencontro com Demian, que agora está com cinquenta anos. Ou dizendo claramente, um reencontro com Hermann Hesse, agora com cinquenta anos. Se o jovem Demian se confrontava com os primeiros momentos em seu processo de socialização na cultura vigente, em que o mundo luminoso do apolíneo se confrontava com o mundo das trevas do dionisíaco e em que o jovem mostrava uma clara preferência pelo dionisíaco, agora Harry Heller se confronta com o Lobo da estepe, que representa o seu lado animal, em conflito com o processo civilizatório.
Li esta edição da BestBolso. Tem um prefácio do tradutor.

Se em Demian o jovem tinha problemas de se encontrar consigo mesmo, pois, "nada repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo", agora o conflito de Harry consiste em juntar as peças de sua vida no teatro mágico da vida  de um jogo de espelhos em que Harry se vê refletido. Só que agora o número das peças é infinitamente maior.

Hermann Hesse escreveu Demian em 1919 e O Lobo da estepe em 1927. É o período do entreguerras, um período absolutamente sombrio. Em tempo de nacionalismos exacerbados, Hesse se manifestava  pacifista, antibelicista e humanista. O mundo não o compreendia. Seria pela guerra que a Alemanha mostraria a sua grandeza. Hoje o mundo conhece esses resultados. Hesse, quando escreveu O Lobo da Estepe, se encontrava autoexilado na Suíça.

O livro é composto de duas partes. Na primeira, o jovem Harry Haller busca abrigo numa pensão em que fica hospedado por quase um ano. É um senhor idoso (cinquenta anos na época já era um idoso) de hábitos solitários e burgueses. Apreciava bons vinhos e pouco se dava a conversas. Dedicava-se a fazer pesquisas. Quando foi embora foi encontrado um relatório sob o título de Anotações de Harry Haller - Só para loucos. Esta é a longa segunda parte do livro. Tudo leva, já a partir das primeiras páginas, para o Teatro mágico, com entrada para os raros, só para os raros, só para os loucos.

Das anotações de Harry Haller contam os seus poucos encontros e os muitos desencontros em sua vida, da vida de um intelectual refinado, grande apreciador de Goethe e de Mozart, que vive em briga consigo mesmo e com o mundo dito civilizado que emergira do pós primeira guerra mundial. Marca o encontro com Hermínia, que lhe apresenta a jovem e bela Maria, com quem divide os raros momentos de encontro com o humano. Passa por profundas críticas ao mundo da racionalidade e dos valores burgueses, que, no entanto, estão nele entranhados.

O tenebroso ocorre quando ele penetra no teatro mágico e se confronta com a vida, que consiste em arrumar as peças de um grande jogo em que faz as suas regressões. É o mundo em que se abre uma das feridas narcísicas da racionalidade, com o surgimento da psicanálise. Neste teatro mágico penetra no mundo dos imortais, trocando conversas com Mozart, o seu grande ídolo. Em passagens anteriores de seu relatório, o encontro se dava com Goethe.

O livro passa pelos grandes temas de sua época. Lembrando que o livro foi escrito em 1927. A morte é o tema onipresente, especialmente a sua busca através do suicídio e até do homicídio, que lhe é solicitado por Hermínia, quando a ela se vincula por uma relação amorosa. Nas anotações também se trava uma interessante guerra com o mundo da indústria, com a indústria automobilística. Uma guerra de muitas vítimas. Tudo isso ocorre no palco do teatro mágico, inclusive a cena do assassinato de Hermínia.

Por ele Harry é condenado. Vejamos a sua condenação: "Em consequência, condenamos o mencionado Sr. Haller à pena de vida eterna e à proibição por 12 horas de entrar em nosso teatro. Tampouco poderemos poupar ao condenado o castigo de lhe rirmos na cara. Senhores todos juntos: um, dois, três!". Algumas linhas adiante a sua pena está melhor explicitada: "O senhor está disposto a morrer, seu covarde, mas não a viver. Ao diabo! Mas terá de viver! Seria bem merecido que o condenássemos à pena máxima". E segue uma das grandes críticas ao mundo burguês vigente, quando Haller pergunta qual seria esta pena máxima. Vejam a resposta, que é dada por Mozart, no encontro com os imortais:

"Poderíamos, por exemplo, ressuscitar a moça e casá-lo com ela. Não, a isso não estaria disposto. Seria uma desgraça". Esta passagem me fez lembrar a hipócrita cena da sessão da Câmara dos Deputados, do dia 17 de abril de 2016, quando os deputados votaram o impedimento da presidente Dilma, em homenagem aos mais altos valores da nossa sociedade, que, por sinal continuam os mesmos, ao lembrarem e dedicarem seus votos às suas esposas e às suas famílias.

O livro deve ter causado muitas polêmicas. O próprio autor incluiu no livro um posfácio em que fala da recepção do livro e sobre a sua compreensão/incompreensão. Vejamos o seu último parágrafo: "É claro que não posso nem pretendo dizer aos meus leitores como devem entender minha história. Que cada um nela encontre aquilo que lhe possa ferir a corda íntima e o que seja de alguma utilidade! Mas eu me sentiria contente se alguns desses leitores pudessem perceber que a história do Lobo da Estepe, embora relate enfermidade e crise, não conduz à destruição e à morte, mas, ao contrário, à redenção". Lembrando que, ao nihilismo, Nietzsche propunha a superação através da vontade de poder e do eterno retorno. Mas vamos parar por aí.

Uma última observação, quanto a concessão do Prêmio Nobel de Literatura em 1946. Hesse teve um padrinho, Anders Österling, o secretário da Academia. Ele refreou o seu entusiasmo com o escritor defendendo a ideia de que ele seria merecido não pelo seu caráter inovador mas pela poesia "em que o melódico se funde com uma vaga espiritualidade simbolista". Esta informação nos é dada por Ivo Barroso, no prefácio do livro. Ele também nos fala do choque que a obra causou "com a sua temática ousada, em que há referências explícitas ao uso de drogas e a comportamentos eróticos e homossexuais pouco frequentes nas obras sérias de então".

O Nobel teria sido concedido especialmente pelo seu livro O Jogo das contas de vidro. Quero confessar ainda que eu gostei mais de Demian do que de O Lobo da Estepe.