segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Byung-Chul Han.

Quando tenho dúvidas em torno do que poderia ser uma boa leitura, eu recorro a algum autores que me dão certezas. Um desses autores é o sul-coreano, hoje professor em Berlim, Byung-Chul Han. O livrinho da vez foi este extraordinário ensaio Psicopolítica - O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. É a dominação total, que poderia ser resumida da seguinte forma: Dos controles externos para os controles internos ou os autocontroles. Daí o título de psicopolítica. É uma revolução completa sobre o comportamento humano. O ser humano se tornou absolutamente previsível e controlável. Um horror!.

Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Byung-Chul Han. Ed. Ayiné. 2020. Tradução: Maurício Liesen.

Creio que não erro ao apontar duas ideias centrais desenvolvidas neste pequeno livrinho, fundadas na passagem dos controles externos para os internos. A primeira seria uma profunda alteração no modo de produção capitalista, em tempos de hegemonia neoliberal. Essa alteração se dá nas relações sociais de produção, em que já não mais encontraremos burgueses e proletários, uma vez que os proletários foram transformados em micro produtores individuais. Assim não temos mais uma sociedade de classes, mas o burguês e o proletário estão abrigados na mesma pessoa. Já não temos mais uma sociedade de trabalhadores revolucionários, mas sim, uma sociedade de trabalhadores/empreendedores deprimidos.

A segunda grande ideia é a da passagem do pan-óptico de Bentham e da sociedade focaultiana, do vigiar e punir, para a sociedade do Big Data. É a própria pessoa que fornecerá todos os seus dados, os exporá livremente nos novos meios de comunicação das redes sociais. Tem uma passagem muito significativa dessa grande transformação. Eu a apresento: "Devoto significa submisso. O smartphone é um objeto digital de devoção. Mais ainda, é o objeto de devoção do digital por excelência. Como aparato da subjetivação, funciona como o rosário, e a comparação pode ser estendida ao seu manuseio. Ambos envolvem autocontrole e exame de si. A dominação aumenta sua eficiência na medida em que delega a vigilância a cada um dos indivíduos. O curtir é o amém digital. Quando clicamos nele, subordinamo-nos ao contexto da dominação. O smartphone não é apenas um aparelho do monitoramento eficaz, mas também um confessionário móvel. O Facebook é a igreja ou a sinagoga (que literalmente significa 'assembleia') do digital" (Página 24).

O pequeno livrinho tem 117 páginas com o formato de livro de bolso. Ele aborda 13 temas, que são absolutamente correlatos, entrelaçados pela lógica. Aliás, esta é também uma das abordagens do livrinho: a razão é abolida e substituída pela emoção. São eles: 1. Crise de liberdade; 2. Poder inteligente; 3. A toupeira e a serpente; 4. Biopolítica; 5. O dilema de Foucault; 6. A cura como assassinato; 7. Choque; 8. O amável grande irmão; 9. O capitalismo da emoção; 10. Gamificação; 11. Big Data; 12 Para além do sujeito; 13. Idiotismo.

O primeiro tópico é o mais longo deles. Ele traz três abordagens: a exploração da liberdade, a ditadura do capital e a ditadura da transparência. No primeiro desses tópicos há uma revelação do significado da palavra "sujeito", que literalmente significa "estar submetido". Mas, acreditamos que não somos submetidos, acreditamos que somos livres. A depressão e o burnout são os sintomas dessa crise de liberdade. Nos subjugamos a nós mesmos na sociedade do autodesempenho. Na ditadura do capital o autor examina as novas relações sociais de produção, que unificou o burguês e o proletário em uma só pessoa pelo imperativo neoliberal do empreendedorismo, ou mais precisamente, pela transformação dos trabalhadores em microempreendores individuais. Já o tópico da ditadura da transparência apresenta as primeiras noções dos novos meios de comunicação das redes sociais.

Os demais tópicos são bem menores e são desdobramentos do primeiro. Assim, o poder inteligente é o da formação do sujeito submisso, sem que ele se acredite como submisso. Não há mais violência e coerção. As coerções agora são autocoerções. A toupeira é o animal símbolo dos controles externos, da sociedade disciplinar (família, escola, prisão, quartel, hospital, fábrica), enquanto que a serpente é o animal do movimento, do empreender, da fuga dos espaços fechados. Na biopolítica é abordada a questão da passagem do biopoder para o psicopoder, análise que continua com a apresentação do dilema de Foucault, da passagem do treinamento do corpo dócil para a psicotecnologia da otimização de si. Em a cura como assassinato, a abordagem passa pelos fins de semana motivacionais e pela violência da exploração da positividade. 

Em choque, a análise passa pelo livro de Naomi Klein, A Doutrina do choque. Estão em foco o psiquiatra canadense do choque, Cameron e o teólogo do neoliberalismo, Milton Friedman. Em o amável Grande Irmão é analisada a superação do violento Grande Irmão, substituído pelo irmão, agora totalmente afável, do pan-óptico digital. No capitalismo da emoção temos a substituição do capitalismo racional do fordismo-taylorismo pelo capitalismo emocional, da motivação para o empreendedorismo e a transformação do trabalho, pesado e cansativo em agradáveis jogos, com a exploração de muita emoção.   

Nos temas finais , o grande destaque vai para o Big Data, que também merece uma análise um pouco mais longa, sendo abordados os seguintes sub temas: o ovo de colombo (a estatística), o dataísmo, ou seja, a revolução da anotação dos dados, o quantifield self, ou seja, a anotação de todos os dados da sua vida e a escravização a eles (colesterol, glicemia...), o registro total de sua vida, que é transformado em um grande negócio, que é a comercialização de seus dados pelas empresas (como a Acxion).  O autor ressalta que precisamos de uma nova dialética do esclarecimento para ir além do sujeito, com a libertação do terror psicológico e, apresenta ainda, reflexões sobre o idiotismo, sobre as heresias e a necessidade do componente da dúvida.

Na contracapa do livrinho temos a seguinte síntese: "Uma possibilidade infinita de conexão e informação nos torna sujeitos verdadeiramente livres? Partindo dessa questão, Han delineia a nova sociedade do controle psicopolítico, que não se impõe com proibições e não nos obriga ao silêncio: convida-nos incessantemente a nos comunicar, a compartilhar, a expressar opiniões e desejos, a contar nossa vida. Ela nos seduz com um rosto amigável, mapeia nossa psique e a quantifica através dos big data, nos estimula a usar dispositivos de automonitoramento. No pan-óptico digital do novo milênio - com a internet e os smartphones - não se é mais torturado, mas tuitado ou postado: o sujeito e sua psique se tornam produtores de massas de dados pessoais que são constantemente monetizados e comercializados. Neste ensaio, Han se concentra na mudança de paradigma que estamos vivendo, mostrando como a liberdade hoje caminha para uma dialética fatal transformando-a em constrição: para redefini-la, é necessário tornar-se herege, voltar-se para a livre escolha, para a não conformidade".

De Byung-Chul Han eu já tinha lido Sociedade do cansaço, do qual eu deixo a resenha:

 http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/01/sociedade-do-cansaco-byung-chul-han.html


2 comentários:

  1. Não li, Pedro! Mto boa sua síntese. Terrível esse momento!

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  2. Meu amigo, sempre lembro de Adorno: "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação [...] Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas". Agrdeço a sua manifestação.

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