quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Diário de uma viagem - Rumo a Nápoles.

Este foi um dos dias mais conturbados da nossa excursão. Praticamente só andamos de ônibus no rumo de Nápoles. Tudo se deveu ao atraso do barco na travessia. Passamos até por turbulência. Na apresentação do passaporte, fui surpreendido por um sorriso muito gentil pelo guarda que o solicitou: é brasileiro? São muito gentis para com os brasileiros, ao contrário do que muitas vezes se afirma por aqui.
Chegamos a Bríndisi, uma cidade no extremo sul da Itália, bem no seu calcanhar. É um importante porto e tem muita importância estratégica, devido a sua localização. Possui em torno de cem mil habitantes. É o local em que morreu Virgílio, o autor da Eneida.
De Brindisi viajamos para o norte, passando pela região dos Abruzzos, até chegarmos a altura de Nápoles, e aí abandonar a costa do Adriático, atravessar os Apeninos e chegar à costa do Mar Tirreno.
A programação do dia era a de passar por Trani, um pequeno porto pesqueiro, ainda na costa do Adriático. Mas a principal atração do dia seria Castel del Monte e o seu famoso castelo. O castelo é octogonal e dizem ser cheio de mistérios. Não tinha finalidades militares, não sendo ligado à defesa. Foi mandado construir em 1224 por Frederico II, o do Sacro Império Romano Germânico, e era o seu palácio de caça. Foi usado mais como residência e templo. Não o visitamos em função do horário. Uma pena. A região está muito ligada às cruzadas.
Almoçamos em Trani, um almoço espetacular destes chamados pratos turísticos, três entradas e um prato principal, a base de frutos do mar. Numa das entradas veio um pequeníssimo pedaço de salmão, extraordináriamente temperado, sob uma fina camada de um limão siciliano. Vou fazer na primeira oportunidade. O limão siciliano está presente em tudo.
O prato principal, pasta com frutos do mar.

Chegamos a essa cidade, já bem tarde para o almoço. Era domingo. Um deserto só. O domingo italiano começa com a missa e termina no almoço. A famosa macarronada da Mama, pasta a ragu. Depois é só descanso.
Creio que me enganei com relação a uma fotografia de ontem. A Igreja que mostrei já é da Itália. A confusão se deu em função do arquivo que abri, sob o nome de travessia. Como a igreja é muito bonita, faço a publicação hoje, já com o local correto, Trani. Conferi nos meus apontamentos.
A bela igreja de Trani.

Seguimos viagem entre parreirais, pessegueiros, pereiras e oliveiras pelo caminho. As terras parecem ser melhores que as da Grécia. São terras pretas, de origem de lavas vulcânicas. O clima também está melhor. Já não sentimos o mesmo calor que na Grécia. A irrigação está em toda parte. Muitas torres de energia eólica pelo caminho e também muitos incêndios florestais nas montanhas dos Apeninos. São muito frequentes e difíceis de comabter. Na Grécia a implantação da energia eólica está totalmente paralisada, em função da crise. Na Itália a sua implantação também está mais lenta.
Em meio a essas paisagens, fomos chegando a Nápoles, ao fim da tarde. A cidade tem em torno de um milhão de habitantes e a região metropolitana, cinco milhões. É a terceira cidade italiana, ficando atrás de Milão e de Roma. A sua história está ligada aos gregos, aos romanos, aos bizantinos, à Sicília, à Espanha, até chegar a unificação italiana em 1861. A sua universidade data de 1224. Bolonha, a primeira, data de 1088.
Por falar em universidade, não sei se podemos assim dizer, em Nápoles está a universidade da pizza, pois é de lá a sua origem. É particularmente famosa a pizza alla Margherita, criada pelo pizzaiolo Raffaele Esposito, em homenagem a rainha Margherita de Savóia, quando em visita à cidade, em 1889. É a pizza italiana por excelência, é uma peça de patriotismo, uma vez que os seus componentes formam as cores da bandeira italiana: o branco da mozarela, o vermelho do tomate e o verde do manjericão.
Comendo pizza margherita em Nápoles. É uma pizza altamente patriótica. Seus compontentes formam as cores da bandeira italiana: o branco da mozarela, o verde do manjericão e o vermelho do tomate.

Fizemos o tour panorâmico e nos hospedamos num confortável hotel. Nápoles é uma cidade cheia de constrastes, marcada por muita pobreza, desemprego e criminalidade e especialmente por abrigar uma das mais famosas máfias: a Camorra. A Camorra atua desde o início do século XIX e atua com muita proximidade com a população mais pobre, protegendo-a, mas impondo as suas leis. A Wikipédia nos informa que ela é formada por cerca de cem famílias operacionais e conta com mais de sete mil filiados. Ela atua nos campos da agiotagem, da extorsão, do contrabando, das drogas, do jogo e da produção do cimento, em toda a região da Campania, da qual Nápoles é a capital.
Vista da Praça do plebiscito, no centro de Nápoles. Todo o centro de Nápoles é patrimônio cultural da humanidade.

Ao comermos a pizza observamos um pouco do hábito alimentar dos italianos. Numa mesa ao lado, dois homens comeram, primeiramente batata frita e depois uma pizza cada um e tomaram muita coca cola. Hábitos nada saudáveis. Ainda fumaram muito. Na Itália é permitido fumar debaixo dos toldos. A proibição atinge apenas a parte interna dos restaurantes. Ainda bem que a nossa legislação é mais restritiva que a deles. Neste dia nós conseguimos dividir uma pizza individual. Em outros lugares não fizeram isso. Ela não é servida cortada em fatias.



As águas do Mar Tirreno, na ilha de Capri. Uma morada ideal para as sereias. 

Antes, mais algumas coisas. O primeiro nome da cidade de Nápoles foi Parthenope, o nome de uma das sereias da mitologia grega, que teria sido a fundadora da cidade. Pelos encantos naturais, uma das moradas preferidas das sereias, era o mar entre a costa de Nápoles e a ilha de Capri. Como as sereias são um produto da imaginação, além de já ter visto as sereias eslavas na travessia de Ancona para Igoumenitsa, agora também foram vistas sereias napolitanas, bem como mais adiante seriam vistas as sereias sicilianas.
Outra questão é a música. Sancta Lucia é uma das músicas italianas mais populares aqui no Brasil. A música canta as belezas da "Ó doce Nápoles - Ó solo beato". A invocação a Santa Luzia se dá pelo fato de Santa Luzia ser um dos bairros da cidade.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Campo Magro. Suas belezas e idiossincrasias.

Campo Magro é uma extensão da avenida de maior grife de Curitiba, a Avenida Manoel Ribas, do bairro de Santa felicidade. Que chique! É só continuar pela Manoel Ribas, que você chega em Campo Magro. A cidade é uma beleza, ao menos naquilo que eu conheço.
Gosto de frequentar os seus restaurantes aos domingos e quanto mais simples é o local, mais eu gosto. No domingo eu fui lá. O meu local preferido é uma cantina, que, se não me engano, se chama a cantina da Nona. Fica em frente a um bar que já não existe mais, (Ao menos faz tempo que não o vejo aberto) mas que deu o nome para toda a região: o bar da canelinha. Fica na estrada do Campo Novo. Esta estrada é fácil de localizar. É vir pela rodovia do cerne e sair à direita, ali no pinheiro. Não tem erro, porque esse pinheiro fica quase no meio da rodovia do cerne. O pinheiro fica na primeira subida após os motéis. Já estou dando assim outra dica, mas é apenas para oferecer uma localização melhor. Mas, estamos entendidos. Depois dos motéis tem uma subida e depois da subida você vê o pinheiro e aí entra à direita. É à direita mesmo, pois ali se situava o comitê de campanha do candidato à prefeito pelo DEM.
Eu gosto deste lugar, em primeiro lugar pela beleza da paisagem. Nós urbanos nos desacostumamos a ver a natureza. Não conseguimos nem mesmo ver mais uma noite de lua cheia e muito menos um por do sol. Neste local você vê um potreiro junto ao quintal da casa, galinhas fazendo uma barulheira danada e vacas leiteiras pastando e um monte carneiros bem comportados. Desta vez a paisagem estava vestida de primavera, um verde espetacular revestia os campos. Quando estive ali em agosto tudo estava coberto de um amarelo dourado, da palhada do milho já colhido. O outro motivo pelo qual gosto do local é a sua comidinha simples, caseira mesmo, desde a sua produção até um enorme fogão a lenha, onde te aguarda um frango caipira de primeira qualidade. No espeto que é servido à mesa vem porco "pururucado", uma costela de no mínimo seis horas de churrasqueira e uma ovelha muito bem temperada. No domingo teve ervilha torta, ou a "orelha de padre", como também é conhecida, como salada.
Gosto também de ficar ali ouvindo conversa alheia. É a troca de jipe por jipe ou por motos e as aventuras da última trilha. Essas são as conversas mais sérias que ali são ouvidas.
Um pouco antes de chegar a esse local tem outro restaurante um pouco mais chique. Chama-se Panorâmico Poente. Dali se descortina uma das mais belas paisagens de toda a região. Não é por nada que o restaurante se chama Panorâmico Poente. Sua especialidade é a feijoada aos sábados e peixe e frutos do mar aos domingos.
Um outro local espetacular, mas um pouco mais longe, é o Bar do Paulo, junto ao pé do Morro da Palha. Lá você come aquele alcatra enorme em companhia de motoqueiros e jipeiros uniformizados, que vem ou que estão indo para as trilhas. Ali, não sei se é proibido, mas não se ouve falar das oscilações da bolsa de valores, de rendimentos financeiros, de especulação imobiliária e de carros, a não ser dos velhos jipes e motos. Antes de chegar ao Bar do Paulo você já tem a opção de ficar no Pedra Chata e se quiser ir um pouco além você encontrará o Casarão, onde você se serve num belo bufê.
Só mais um lugar bonito e bom de se ir. Ali, além de comida polonesa e uma casinha lindamente pintada e carinhosamente cuidada, você ainda pode andar de charrete com a criançada. Trata-se do Nova Polska. Ia me esquecendo da Cantina Di Bella, na própria rodovia do cerne, onde você é atendido pelo seu proprietário, um argentino que aqui encontrou o seu cantinho para ganhar a vida.
Campo Magro é um município novo. Emancipou-se de Almirante Tamandaré em 1995 e a sua história remonta aos tropeiros que por ali passavam. Em função de passarem por aí muitas vezes no inverno e o gado então emagrecesse, o local ganhou o seu nome de Campo Magro.
Politicamente, Campo Magro é de longe o município mais politizado do país. Ali deve estar a maior concentração de comunistas do mundo, pois ali o PC do B teve candidatura própria e o velho Partidão o PCB ali também teve candidato.Velhos e bravos guerreiros remanecentes que não sucumbiram ao canto do cisne do PPS. E foram votados. O candidato do PC doB fez 2.402 votos, ou 15,75% dos 18.016 eleitores do município. É verdade que estavam coligados com os cristãos do PSC. O Partidão fez um pouco menos: 560 votos, ou 3,67% da votação. O DEM ganhou, mas de acordo com as minhas análises, isso só foi possível, com o apoio dos socialistas do PT, temerosos com o avanço dos comunistas. Questões de brigas entre aqueles que professam ideologias semelhantes. Isso não acontece apenas na França! Embora as correntes trotskistas ainda estejam a caminho de Campo Magro, a ideologização lá é tão forte que os neoliberais do PSDB ficaram em último lugar nessa eleição, perdendo até mesmo para o Partidão. O PSDB fez minguados 396 votos, ou seja 2,6% do total dos votos.
O local ainda é conhecido pelo seu verde e pela sua preocupação ambiental e é área de preservação, o que gera restrições ao seu desenvolvimento industrial. Por isso mesmo existem ali inúmeras pequenas chácaras de lazer, que ao menos por enquanto, ainda estão livres da especulação imobiliária. Muitos curitibanos ali tem chácaras de lazer. Uma delas, talvez a mais bonita, pertence ao técnico de futebol, o Cuca, hoje fazendo sucesso no Atlético Mineiro. Cuca já foi jogador do Grêmio e segundo ele próprio me contou, ele tem um papagaio que canta uma música do Lupicínio Rodrigues, qual seja... aquela do "Até a pé nos iremos"..., o hino do Grêmio.´
Antes de terminar, uma última notícia, em nível de fofoca. É apenas uma reprodução de conversa de bar. Deverá ser convocada uma nova eleição em Campo Magro, já que os dois mais votados não poderão assumir, como me garantiram esses analistas, já antecipando futuras decisões judiciais.
Na outra vez que eu falar de Campo Magro, prometo inserir fotos. Não de políticos, obviamente!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Diario de uma viagem - Patras - Anfiloquia - Igoumenitsa.

Antes de sair da região do Peloponeso e da Grécia, de se despedir de seus mitos e de suas histórias quero deixar uma dica de leitura fundamental. Para entender a cultura grega creio que nenhum livro é tão significativo, quanto o Paidéia - A Formação do Homem Grego, do alemão Werner Jaeger. No Brasil o livro é editado pela Martins Fontes. E falando de livros e da Grécia em particular, mais uma dica sobre mitologia. O livro As mais belas histórias da antiguidade e da cultura clássica - Os mitos da Grécia e de Roma de Gustav Schwab, em três volumes e editado pela Paz e Terra.
Bem, falamos no texto anterior, que neste momento da viagem entramos em contato real com a crise grega. O nosso pacote original previa não sairmos da região do Peloponeso. Daí mesmo pegaríamos um barco na cidade de Patras e faríamos a travessia, até a cidade Bríndisi, já na Itália, numa distância de aproximadamente 200 quilômetros, a menor entre os dois países pela via marítima e, por isso mesmo, muito utilizada. Acontece que com a crise, os barcos gregos estão em situações lamentáveis, nos informou Antônio, o guia que nos acompanhou por toda a Grécia. Especialmente os barcos com cabines para os passageiros. Para evitar esses barcos, voltamos para a parte continental e fomos novamente a Igoumenitsa e fazer a travessia a partir dessa cidade.
Vista da ponte estaiada da cidade de Patras.

Mesmo assim tivemos que passar pela cidade de Patras. Ela é a terceira maior cidade grega e tem, segundo o guia, em torno de 400.000 habitantes. É o maior porto da região e é o grande centro comercial, universitário e cultural da região. Por ela volatmos a parte continental. Ainda em Atenas ouvimos falar da ponte estaiada da cidade, recebendo a informação de que seria a maior ponte do gênero no mundo, fato que não consegui confirmar pelas pesquisas no Google. Aí ela,  as vezes aparece como a segunda maior do mundo e, outras não aparece nem entre as dez maiores. Ela possui 2,8 quilômetros de extensão e um vão de 27 metros de largura. Foi inaugurada em 2004.
Acho interessante, dar esses dados uma vez que nessas eleições municipais de Curitiba, a construção de uma ponte estaiada deu muito que falar, em função de seus altos custos. Na Grécia, no entanto, não ouvi e não vi ninguém fazer uma relação entre o seu custo e a atual crise grega. Também seria demais.
De Patras fomos a Anfiloquia. Pesquisando sobre a cidade quase nada encontrei, a não ser a sua efetiva participação nos protestos contra a crise grega na semana passada. Por isso fico com as informações do guia, que nos contou que a parte histórica desse lugar se deve à vitória que Otávio obteve sobre Marco Antônio nas guerras romanas, aquelas que vocês devem vagamente se lembrar, que ocorreram com a formação dos triumviratos.
Uma bela igreja nesta região de Anfiloquia.

Em Anfiloquia paramos para tomar uma cerveja, já que, com as alterações de horário e de rota, tínhamos tempo sobrando. Paramos num restaurante e fomos muito bem atendidos pelo seu proprietário, o senhor Constantino. Ele nos contou a sua história. Era um estudante de ciência política na Itália, quando seu pai faleceu. Tendo que retornar e não encontrando trabalho, teve que tocar o restaurante, herdado da família. "Foi a única alternativa que me sobrou, nos contou ele, com uma profunda tristeza".
Tomando cerveja com Constantino, um anarquista grego. Gente boa.

Como o meu colega domina o italiano conseguimos um bom entendimento com ele. Quando nos deu um cartão do seu restaurante, solicitei o seu e-mail. Que surpresa. A resitência ao mundo virtual fez com que ele ainda tenha entrado no mundo do computador e da internet. Nos contou bastante coisa do sentimento do povo com relação a crise.
Jantamos em Igoumenitsa e tivemos uma espera quase infinita. A travessia só foi acontecer às 3,30 da madrugada. A espera não foi nada agradável.
O nosso último por do sol na Grécia, em Igoumenitsa.

Os barcos são muito usados para fazer estas travessias. É uma questão econômica. Se fosse para chegar à Itália por via terrestre, a distância seria enorme, via antigos países da Iuguslávia. O tempo também coincidiu com o período de férias, o que fez o movimento aumentar em muito. Os italianos estão adorando os preços gregos e a grécia recebe então os italianos em suas praias. Como essa travessia é feita raras vezes, eles se submetem a todo o desconforto de uma noite. Na espera dormem ao lado dos carros e na travessia não usam cabines, dormindo amontoados pelo chão. Foi a única vez que nos exigiram a apresentação do passaporte. Parece um campo de refugiados. Nunca senti tão violentamente a questão social de quem usa uma cabine e de quem não a usa. Praticamente você passa por cima das pessoas. Mas, afinal de contas, por volta do meio dia chegamos ao porto de Bríndisi, de volta ao território italiano para uma bela semana no sul da Itália, especialmente na ilha de Sicília, a Trináchia grega.

Diários de uma viagem - Olímpia.

A nossa visita ao sítio arqueológico e ao museu começou bem cedo, o que é muito interessante em função do intenso calor. Mais uma vez fomos acompanhados de guia local e, de novo, de excelente qualidade. Olímpia foi declarada como a capital espiritual da Grécia por Alexandre, o Grande e a sua fama está umbilicalmente ligada a questão dos jogos. Nisso ela rivalizava com Delfos. Em Delfos se realizavam os jogos Pítios e em Olímpia, os Olímpicos. Ambos eram locais sagrados. Os jogos eram revestidos de profundos significados. Olímpia é patrimônio cultural da humanidade.
Uma das primeiras vistas de quem entra no sítio arqueológico de Olímpia

Os jogos olímpicos iniciaram oficilmente em 776 a. C., mas muitos jogos já vinham sendo praticados há muito tempo. O seu objetivo básico era militar: o de formar heróis - semi deuses - para atuarem no imaginário dos soldados comuns no enfrentamente das guerras. Atuar ao lado dos campeões olímpicos é que dava ânimo e coragem nas lutas. As vitórias eram coroadas com os ramos de oliveira, árvore símbolo da imortalidade. Pancrácio foi uma das palavras mais utilizadas pela nossa guia. Pancrácio era o nome de uma luta, por sinal, uma das mais cruéis e que terminava com a rendição ou com a morte de um dos competidores. Na maioria das vezes, eles preferiam a morte, tal era a desonra dos perdedores. Nessa luta, comparada com as diferentes formas de luta livre de hoje, tudo era válido, menos as mordidas e as enfiadas dos dedos nos olhos do adversário. Pancrácio significa força total, derivando daí significados políticos como todo poderoso ou todos os poderes. Treino militar era a grande finalidade dessas lutas.
Com a cristianização do Império Romano, sob o império de Teodósio, os jogos olímpicos foram proibidos no ano de 394. Uma nova cultura, em nome de sua superioridade, não poderia conviver com outras e  antigas expressões culturais. Isso de eliminar símbolos da cultura clássica para a sobreposição dos símbolos cristãos é uma constante nessa região. Que pena! Se a humanidade fosse movida apenas pela força do convencimento!...
Os jogos nos tempos modernos foram reintroduzidos por Pierre de Coubertin, mas essa história já nos foi contada inúmeras vezes, até pelo Galvão Bueno, nas transmissões das olimpíadas. Em 2004, por ocasião dos jogos olímpicos em Atenas, várias modalidades foram disputadas em Olímpia.
Uma coluna de Olímpia, restaurada para os jogos de 2004.

Em Olímpia também é acesa a chama olímpica que percorre o mundo  e que chega à cidade sede no dia de sua abertura oficial. A chama é acesa com os raios solares, refletidos sobre um jogo de espelhos. O caráter simbólico da premiação com a coroa de oliveiras era uma das coisas mais difícios de serem compreendidas pelas culturas dos povos vizinhos. Não entendiam o seu caráter simbólico e as suas finalidades militares. Os vencedores também figuravam em panteãos e eram venerados como heróis ou semi deuses. E o que acontecia com os que fraudavam os jogos? Eles também recebiam estátuas. Só que em outros lugares para serem publicamente execrados. Não seria uma bela estratégia para "homenagear" certos políticos brasileiros. Certos não, a maioria. Ultrajes de memória! Fabuloso!
Local em que é acesa a chama olímpica que viaja pelo mundo antes da realização dos jogos.

Olímpia se situa na confluência dos rios Kladios e Alpheus. Também nomes profundamente ligados à mitologia grega. O estádio de Olímpia é outro ponto fabuloso na cidade. Nele foram aproveitadas as inclinações naturais do terreno e comportava um público de 45.000 espectadores. Não havia na região hospedarias para abrigar o povo por ocasião da realização dos jogos. As enchentes do rio Alfeu praticamente soterraram a cidade. As escavações feitas lhe deram a atual configuração e as peças mais valiosas estão no seu precioso museu.

Vista do local em que se situava o estádio de Olímpia. O estádio Olímpico.

Em Olímpia existia também uma das sete maravilhas do mundo antigo. A estátua de Zeus Olímpico, esculpida por Fídias e que teria sido levada para Constantinopla pelos cristãos e destruída em um incêndio, como nos contava a nossa guia. A estátua era de ouro e marfim e possuía 12 metros de altura.
Portal de entrada do estádio olímpico.

Não poderíamos também sair da Grécia sem conhecer uma de suas comidas mais típicas, a famosa salada grega. A experimentamos num local especialmente recomendado pelo nosso guia. Ela estava ótima, mas foi um privilégio do lugar. Em outra oportunidade comemos uma que não tinha a mesma qualidade. Azeitona e azeite devem ser servidos em quantidades generosas para lhe dar qualidade. Vou fazê-la aqui em casa numa das primeiras oportunidades.
A famosa salada grega.

Na nossa saída do Peloponeso e da própria Grécia tivemos o nosso primeiro contato real com a crise econômica deste país. Mas isso conto depois.



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Paulo Freire - Umuarama 20 anos depois.


"Ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos".  Jean Claude Furquin, em Escola e Cultura. Porto Alegre: Artes Médicas.


Amanhã estarei em Umuarama para um trabalho junto aos companheiros da APP -Sindicato. Lá estaremos lançando a publicação de uma palestra feita por Paulo Freire em Umuarama em 1992. A fala é atualíssima. Fiz a transcrição dela e o núcleo sindical da APP. de Umuarama está fazendo a publicação. Um trabalho que considero de um valor extraordinário. É a recuperação de algo inédito deste grande pensador.
O caderno com a transcrição da fala de Paulo Freire.
Vou fazer uma rápida intervenção no lançamento desta publicação. Enfocarei alguns tópicos sobre o que é uma doutrina e a essência da doutrina pedagógica de Paulo Freire, sintetizada pelos títulos de suas obras fundamentais: Educação como Prática da Liberdade, Pedagogia do Oprimido, Conscientização e Pedagogia da Autonomia. Para chegar a sua concepção de educação Freire recebeu muitas influências, entre as quais eu destacaria a larga formação iluminista emancipatória, as influências de um humanismo cristão, vindas a ele - na minha interpretação - pela via da teologia da libertação, de João XXIII e do Concílio Vaticano II e também da doutrina marxista. Freire sempre destacava duas figuras que para ele eram revolucionárias. Jesus Cristo e, como ele dizia, o "camarada" Marx. Farei ainda uma pequena contextualização do Brasil da época, um país ainda predominantemente analfabeto. Necessariamente também farei algumas considerações sobre o seu método, acima de tudo, dialógico. Terminarei com aquilo que Paulo Freire dizia serem os deveres éticos de um professor: uma rigorosa formação científica; uma rigorosa formação política e uma rigorosa formação pedagógica.
Isso para que o educador saiba " com quem eu trabalho e em favor de quem eu trabalho e não para quem eu trabalho e nunca sobre quem eu trabalho" como ele afirmou na sua palestra em Umuarama.
Com diretores do Núcleo de Umuarama da APP-Sindicato.
A minha frase que serve de mote para essa apresentação é a acima exposta de Jean Claude Forquin, de que o educador deve ter concepções. Ele deve crer.

Hoje estou tomado de uma profunda indignação! Como de hábito, nos meus novos hábitos de quem vive apenas do estado previdenciário, após o meu café, sempre leio a edição impressa da Gazeta do Povo, de quem sou assinante há um longo tempo, quando me deparo com uma indignidade. Nesta fala de Paulo Freire em Umuarama ele também fala muito da capacidade que temos que ter, que é a de se indignar.
Na capa da Gazeta existe o chamado para o artigo de um de seus colunistas, junto com uma deseducativa foto de alguém com um cachimbo na boca. A chamada é enganosa mencionando, ser Paulo Freire o patrono da educação brasileira. Um artigo que lhe seria favorável, portanto. No texto da coluna, no entanto, ele fala da dissolução da educação brasileira, sólidamente  edificada sobre a filosofia grega e no personalismo judaico cristão e culpa Paulo Freire como sendo um dos culpados por essa dissolução. Termina com uma ignominiosa ofensa ao universalmente reconhecido educador: "Paulo Freire é o patrono da substituição do conhecimento por ideologia, de aprendizagem por lavagem cerebral" . Transcrevo isso apenas para situar o leitor. Com Millôr aprendi que "não se amplia a voz dos idiotas".
Conheci pessoalmente Paulo Freire. Com ele estive várias vezes. O homem é bondade pura e a encarnação viva da emancipação humana. A sua pedagogia é a busca permanente da construção do humano, na busca de sua transcendência, rumo a sua completude. O ser humano, na concepção de Freire, deve se afirmar como um sujeito (aquele que pratica a ação) e não como um objeto (aquele que sofre a ação praticada - por outro sujeito, obviamente), um sujeito ativo que se afirma na construção de seu tempo histórico e na construção de sua própria personalidade. É uma pedagogia de radicalidade da igualdade. Nunca..."sobre quem eu trabalho".
Quanto ódio está contido num texto desses! e a pergunta: em nome do que? Em nome da cultura grega ou judaica cristã? Não pode ser, uma vez que estes princípios são componentes essenciais de sua formação. Como falamos acima, a sua formação está enraizada no cristianismo da teologia da Libertação, de João XXIII e do Concílio Vaticano II e nunca num catolicismo de templários ou de cruzados. Seria em nome de um fundamentalismo religioso? Mas daí uma outra questão: Será que ele ainda cabe nesse mundo? Ou será que pessoas se sentem tão autosuficientes em seus dogmatismos que negam aos outros o seu direito de escolha e de manifestção. Isso faz parte da primeira leva de direitos que vieram junto com a ordem liberal. Os chamados direitos civis. Embora tudo deva ser feito para que não, não consigo entender como estas posições ainda mereçam tanto espaço.
A minha indignação tomou também uma forma concreta. Liguei imediatamente para a central de atendimento da Gazeta do Povo, cancelando a minha assinatura. Vou modificar meus hábitos. Sou plenamente a favor da liberdade de expressão e da imprensa, mas posso perfeitamente me negar a ajudar, ainda que minimamente na sua sustentação. Um jornal precisa de financiamento e de credibilidade. A minha ação está voltada para as duas. Um leitor (ter leitores é o que dá credibilidade a um jornal) e uma mensalidade (ao menos) a menos.

Deixo ainda uma sugestão de leitura daquilo que eu considero a coisa mais linda escrita por Paulo Freire. É a forma como age o sujeito, quando tomado ou tocado pela consciência. Uma meia dúzia de páginas apenas. Está numa espécie de introdução ao capítulo sobre a sociedade brasileira em transição do livro  Educação como Prática da Liberdade.  No livro que tenho em mãos, vai da pág. 47 a 54 (São Paulo: Paz e Terra. 2000).

Transcrevo também um texto de Walter Hugo Mãe, do  prefácio do livro José e Pilar de Miguel Gonçalves Mendes, para livres reflexões. É óbvio que ele fala de Saramago e não de Paulo Freire.
"A figura de José Saramago, certamente como toda e qualquer figura de dimensão mundial e grande gênio, suscitou constantemente arrufos, urticárias e brigas, havendo mesmo quem se negue a considerar o que fez, o que disse, o que se disse ou diz do seu trabalho e pessoa, o que se faz. Como creio que acontece com Miguel Gonçalves, também eu sou abordado frequentemente por pessoas que querem protestar contra as mais diversas questões relacionadas a Saramago. Desde logo a falta de pontuação e a desconfiança para com a Igreja são tópicos em que nos metem num mesmo saco, quase obrigatoriamente para um sova já obstinada e fanática. Sempre me fez confusão que as pessoas religiosas possam pedir o mal, e até a morte de alguém, e mais confusão me fez que, depois de publicado o último romance de Saramago, me viessem algumas pessoas deixar os mais cruéis recados. Se Deus existisse e agisse a mando daquelas vontades, Deus seria o diabo". Pág. 10-11.

Diários de uma viagem - Corinto - Epidauro - Náuplia.

Passamos o dia no Peloponeso. Que cenário histórico. Menelau, Helena e a guerra de Tróia. Proximidade e rivalidade com Atenas. A guerra do Peloponeso. Corinto, Esparta e o Olimpo. O Peloponeso é uma extensa península, toda montanhosa, ligado à parte continental pelo estreito de Corinto. A existência do canal de Corinto, transforma a península numa enorme ilha. Vinhas e oliveiras são a riqueza da região. A oliveira precisa de pouca água e gosta de terras rochosas.
O canal de Corinto tem toda uma história. A primeira ordem para a sua construção partiu de Nero que, para lá enviou 6.000 escravos, para a sua construção. Com a morte do imperador o projeto foi abandonado. Ele foi retomado em 1881 e ficou pronto em 1893. Ele possui 6,3 km. de extensão e apenas 21 metros de largura. Hoje ele não consegue receber grandes navios e o seu uso se limita a pequenos barcos, especialmente barcos turísticos. O canal evita uma volta em torno do Peloponeso, numa distância de 400 quilômetros. Liga os mares Egeu (para o lado da Turquia) e o Jônico (a ligação com o Adriático).

Vista do canal de Corinto. Ele possui 6,3 quilômetros de extensão e tem apenas 21 metros de largura. Hoje o seu uso é restrito a barcos turísticos e outras pequenas embarcações.

Corinto foi a primeira parada do dia. No caminho o guia nos falava mais sobre a Grécia. Incialmente falou de Atenas, que nem sempre foi a capital da Grécia dos tempos modernos. Ela era muito pequena. Hoje é uma cidade que oficialmente possui 4 milhões de habitantes e deve ter mais outro milhão de pessoas clandestinas. É sabido que a Grécia é formada por inúmeras ilhas. Mais de 6 mil, das quais 227 são habitadas. Com os conflitos generalizados no Oriente Médio, muitos fugitivos destes conflitos, são deixados nestas ilhas, donde procuram se locomover e encontram em Atenas o seu primeiro destino. Não há como fiscalizar tudo. Olhem que problema! Já não basta a crise da economia.
Sobre a economia grega, em resumo, ele nos disse que não existem perspectivas de saída. A Grécia possui problemas estruturais (que já abordamos) e que existem sérios riscos de o país não conseguir pagar as pensões e aposentadorias e os funcionários públicos. O cenário de crise abala todos os setores da economia, inclusive o turismo. A maior culpa estaria ligada ao euro, que teria criado duas Europas: a do norte, rica e a meridional, pobre. O norte teria desindustrializado os países do sul. O euro teria então sido um instrumento de dominação e de criação de desigualdades. É bom lembrar que a Grécia não é um país pobre e que a sua renda per capita é superior a 30.000 dólares. Hoje, inclusive é mais um dia de greve geral.
Sobre o Peloponeso, nos contou de sua história e sobre a sua economia atual. A produção de azeitonas obedece ao sistema de cooperativas e a questão da qualidade por controle de origem, nos disse, ser uma fraude generaliza. Além da uva e dos olivais a economia também conta com a criação de ovelhas e a pesca.
De Corinto rumamos para Epidauro.
O teatro de Epidauro. É famoso pela sua acústica e pelo seu bom estado de conservação.

Epidauro é um local fascinante. Dizem ser a terra natal de Asclépio ou Esculápio, o pai da medicina. Uma das atrações da cidade é exatamente o templo dedicado a Esculápio e à medicina. Esta medicina está ligada a cura pela interpretação dos sonhos (Olha aí a psicanálise). Esta história da medicina está muito ligada a questão da mente, a oráculos, a interpretação do futuro. Está também muito ligada a outra região, também famosa por esta questão que é a Tessália. Olhando os mapas se percebe que, embora a Tessália esteja numa região oposta, a distância não é tão grande, uma vez que a parte continental ali não é tão larga.  Mais próximo da Tessália está também Delfos, cidade, como já vimos, ligada às previsões de futuro.
Com tudo isso - o quero afirmar mesmo - é que a medicina grega e, com isso, todos os primórdios da medicina estão muito ligados às doenças da mente, às doenças do espírito.
A maior maravilha de Epidauro hoje, no entanto, é o seu teatro. Aliás o teatro grego também está ligado à cura, à medicina. Por para fora os sentimentos. O teatro comportava quinze mil lugares e se tornou famoso pela sua acústica, uma perfeição. Ele data de 350 a. C. e a sua conservação se deve ao relativo abandono desta região após o seu apogeu. Só foi redescoberto no ano de 1881. Junto ao teatro existe também um belo museu. Este teatro também serviu de inspiração à construção do teatro Positivo, aqui em Curitiba. Só que para algo em torno de 2.500 lugares.
Outra vista do teatro de Epidauro.

De Epidauro seguimos para Náuplia. Outra cidade com profundo significado histórico. Originariamente é uma cidade fortaleza, ligada às guerras medievais. Era uma aliada da república de Veneza, nas guerras contra os turcos otomanos. A sua fortaleza é atingida por uma subida de mais de 1.000 degraus. Evidentemente que não subimos. O calor também estava insuportável.

O carneiro saboreado em Náuplia.

Náuplia foi a capital da Grécia entre os anos de 1829 e 1834, logo após a conquista da independência grega após 400 anos de dominação dos turcos otomanos. A partir de 1834 a capital passou a ser Atenas. Hoje, Náuplia é o local de veraneio preferido dos atenienses.
A nossa viagem ainda continuou pelo Peloponeso até a cidade de Olímpia. Ali comprei a famosa caneca de Pitágoras, um dos mais curiosos souvenirs que se pode trazer da Grécia. Ela é praticamente uma caneca dentro de outra caneca e servia de medida para o vinho. Quando o vinho ultrapassa a quantia marcada ela derrama tudo. Era usada para dosar a quantidade de vinho a ser servida aos escravos, para animá-los para o trabalho, numa espécie de energético. A dose é pequena. Procurando sobre o seu funcionamento, só encontrei propaganda da venda de canecos e nada sobre os princípios da física pelos quais Pitágoras criou a caneca. O souvenir é lindo e desperta a curiosidade de todos.
Dormimos em Olímpia, mas antes foi servido um régio jantar, incluso no pacote. No café da manhã foi servido inclusive suco de cereja. Uma maravilha, mas as maravilhas do dia ainda estariam por acontecer.

Vista da entrada do sítio arqueológico de Olímpia.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Diários de uma viagem - Atenas.

Em meio a tanta história, mitologia e primeiras pitadas de razão, saímos da região de Delfos e do Parnaso, e - em meio ao vale de Olivos - uma imensa plantação de oliveiras com mais de três milhões de pés, rumo a Atenas. Imaginem a emoção. Quem viveu falando de Atenas, agora ter um encontro real com esta cidade.
Pelo fato de ter tido um contato tão rico com esta região, imaginei que este seria um belo momento de retomar a leitura dos clássicos que deram origem a literatura ocidental, como a Teogonia de Hesíodo e a Ilíada e a Odisséia de Homero. Para quem, pelas mais diferentes razões, não estiver em condições destas leituras, deixo uma sugestão um pouco mais fácil e talvez um tanto simplificadora. Existe uma versão popular de tudo isso, de um autor grego, Menelaos Stephanides (Ed. Odisseus), em oito volumes e que tem, inclusive, recomendação do Ministério da Cultura da Grécia. É uma leitura que flui com mais facilidade.
O vale de Olivos também nos detém, ao menos um pouco, na oliveira, no seu fruto e no seu produto, o azeite. É outra história cheia de mitos, tradições e simbologia. Na Grécia ela está relacionada com a deusa Palas Atenea, ou simplesmente Atena, filha de Zeus, que ensinou aos humanos o seu cultivo e a sua utilização. A oliveira é considerada a árvore da eternidade e simboliza a paz e a prosperidade.
Foto de uma oliveira, a "árvore da eternidade". Observe a diferença entre o tronco e os galhos e as folhas. Elas são podadas para facilitar o seu manejo.
Por ser uma árvore encontrada em todas as regiões em que o início da história se desenvolveu, encontramos também em todos esses povos, histórias e mitos ligados a esta árvore.
Assim, na mitologia romana, Remo e Rômulo, teriam sido encontrados à sombra de uma oliveira e no cristianismo talvez encontremos o maior número de significados. Assim o raminho de oliveira, que anunciou a Noé o fim do dilúvio, o monte das oliveiras, a unção dos óleos, a cruz da crucificação, entre outros. Também o uso do óleo abrange as mais diferentes formas.
A oliveira já dá flores no seu primeiro ano e os frutos começam a aparecer apenas no quarto ano. Segundo o guia, a colheita normal da fruta, dá de dois em dois anos, mas hoje as colheitas são anuais. Pesquisei um pouco e acredito que encontrei uma resposta plausível para tal: toda a azeitona é preta ao final de seu processo de maturação, mas elas podem ser colhidas antecipadamente, ainda verdes. As árvores são centenárias e enormes, mas na sua cultura para fins comerciais elas são podadas. O serviço de colheita obedece a várias formas que vão da colheita manual até o uso de maquinário.

Imagino que o processo seja bastante semelhante ao do nosso café. O método mais tradicional é, no entanto, o uso de redes, para que o fruto caia nelas espontaneamente. O uso desse processo também dá os azeites mais puros, com apenas 0,2% de acidez. Os azeites gregos são considerados como os de melhor qualidade do mundo. Ainda com relação à pureza, contam os antigos mitos, que o seu teor de pureza, estava ligado a quem executava o trabalho na sua produção: virgens ou celibatários.

A oliveira carregada de azeitonas.
O grau de acidez do azeite está relacionado com o grau de maturação da azeitona e, ao contrário do vinho, o seu melhor consumo é o imediato. A ele não se aplica o conceito de "quanto mais velho, melhor".
Bem, ao final da tarde chegamos a Atenas. Nos instalamos no hotel e, de imediato, saímos para o tour panorâmico. Iniciamos na Acrópole. O sol e o calor era insuportável, mesmo já sendo 19:00 hs. Fomos com guia local de excelente qualidade. De maneira geral os guias são excelentes e possuem boa formação. O conhecimento ia do mito, para a história e da história para a arquitetura com a mesma desenvoltura. Evidentemente que a visita à Acrópole é o ponto alto de Atenas. A cidade, como Roma, está construída sobre sete colinas. Só que as colinas de Atenas são bem elevadas, ao contrário das de Roma. A cidade de Atenas teve o seu apogeu entre os anos 500 e 300 a.C. e o seu esplendor maior, está ligado ao governo de Péricles. A Acrópole foi construída em apenas nove anos e como quase tudo na Grécia, está cheia de simbolizações.
No alto da Acrópole eram guardados o ouro e o marfim, as grandes riquezas da época e nela se situava a parte administrativa, financeira e religiosa da cidade. Ali ficava a sede do Banco Central, brincava a nossa guia. De novo a altitude como símbolo de poder.
Uma vista clássica da Acrópole.

Da acrópole andamos pela cidade, passando pelo estádio panatenaico, um local umbilicalmente ligado aos jogos olímpicos. A sua origem remonta ao ano de 566 a. C., quando foi construído e a 329 a. C. quando foi reconstruído. Já nos tempos modernos as ruínas foram restauradas em 1870 e o estádio foi totalmente reformado para receber as primeiras olimpíadas dos tempos modernos em 1896. A sua história também está relacionada ao ano de 2004, quando Atenas foi sede das olimpíadas. Ali, além de se realizaram alguns jogos, o local foi o marco de chegada, para a mais simbólica de todas as atividades olímpicas, qual seja a maratona, tanto a masculina, quanto a feminina.

Vista do estádio panatenaico. O local remonta ao ano de 566 a. C. e aos jogos olímpicos. Ali foi a chegada da prova da maratona em 2004.

Passamos ainda pelo Palácio Real, onde acontece, de hora em hora, uma das atrações turísticas mais famosas, a troca da guarda. O traje e o andar destes guardas são realmente uma bela atração.
Cena da troca da guarda, em frente ao Palácio Real, em Atenas.

Passamos ainda pelas praças Omônia e Syntagma, a praça das grandes manifestações, como as recentes, em função da crise grega. A noite jantamos no bairro de Plaka, um dos bairros em que se centraliza a cultura e o folclore do país. Um carneiro foi saboreado. Conhecemos também a cachaça dos gregos, isto é, o ouzo, a sua bebida mais tradicional, algo parecido como o nosso aniz, uma bebida em torno de 40º de teor alcólico.
No nosso dia livre visitamos o Museu Nacional da Acrópole, um museu realmente extraordinário. Em torno dos museus e das ruínas gregas se ouve um lamento muito comum. Muitas das estátuas e ruínas antigas estão hoje nos museus ingleses. Isso remonta aos tempos do romantismo, em que os ingleses, com belos discursos humanitários e de ajuda, levaram ruínas gregas para a Inglaterra, para serem melhor estudadas e, nunca mais as devolveram.
Do museu fomos ao sítio arqueológico de Adriano, onde se encontra o seu arco e o templo de Zeus olímpico. Adriano foi imperador entre os anos de 117 e 138 e era grande admirador da cultura grega e fez de Atenas a capital cultural do Império Romano.

Vista do templo de Zeus Olímpico e do Arco de Adriano, no sítio arqueológico de Adriano.

Depois fomos a um dos locais que para mim mais gerou expectativas. A Ágora Antiga. Daí dá para ter uma noção do que realmente deveria ser a cidade de Atenas, nos tempos de seu esplendor. A praça da Ágora embaixo, e a Acrópole em cima. A cidade do povo e o mercado em baixo, no plano e a cidade do poder, a Acrópole, em cima.  Aí sim a memória começa a trabalhar: o início da democracia, os passeios e as provocações de Sócrates, os embates entre Sócrates e os sofistas, tendo diante de si mas, lá no alto, os palácios ligados ao poder.
Vista do palácio de Hefesto, na Ágora antiga. É um dos templos mais bem conservados de Atenas. Quantas histórias estão ligadas a Hefesto, o deus do fogo.

Depois dessa visita à Ágora e já bem cansados, pois andamos a pé o tempo inteiro, resolvemos experimentar um dos pratos gregos mais tradicionais, a moussaka. É uma espécie de lasanha nossa. É feita a base de creme de bechamel, de carne moída (também de outras carnes) e berinjela. É muito saborosa. A berinjela é onipresente na cozinha grega.
Vista da moussaka e as suas camadas de creme bechamel, carne moída e berinjela.

Empregamos o resto da tarde para fazer a compra de lembranças de Atenas. Entramos numa loja, em que a dona nos garantiu que todos os produtos eram fabricados na Grécia, nada portanto, da China e, garantiu ainda mais, que tudo era fabricado pelo seu marido. Ela disse-nos que as suas estátuas eram de alabastro, algo local, e que os chineses usavam basicamente terracota. Compramos estatuetas de Sócrates, Platão e Aristóteles e outras ligadas a mitologia, como a Vênus, Zeus e outras. É óbvio que Dionísio novamente recebeu uma deferência toda especial. As estatuetas vieram bem embaladas com papel bolha.
Voltamos ao hotel, pela rua Éolo, onde se situam as lojas mais finas e confesso que não dá para ver sintomas de uma economia em crise. Vimos alguns pedintes, mas obtivemos a informação de que não são gregos. São especialmente ciganos, que são encontrados em toda a Europa. Também nos chamou muito a atenção o estado de conservação das casas gregas. Não há indícios de crise. Também não saímos do centro histórico de Atenas.
Vista de uma das flores mais típicas da cidade de Atenas.

Assim nos despedimos desta magnífica cidade, cidade dos grandes filósofos e de suas grandes escolas. Eu particularmente senti falta de que alguém falasse de Epicuro, outro dos "santos" de minha preferência. De manhã cedo rumamos para a região do Peloponeso, onde as grandes atrações seriam o canal de Corinto e o teatro de Epidauro.




sábado, 13 de outubro de 2012

A Nova Onda Conservadora no Brasil.

Uma das revistas que me acompanha é a Le Monde Diplomatique. Acompanhei e tenho guardadas as suas 63 edições. Dela tomo muitas informações e a partir dela compro muitos livros.
O tema de capa deste mês (número 63) é sobre a onda conservadora e me chamou mais a atenção o artigo de abertura "Novas expressões do conservadrismo brasileiro", em que o editor da revista, Luis Brasilino entrevista o renomado cientista político André Singer.
O entrevistado, a partir de afirmações do professor Roberto Schwarz, mostra que houve no Brasil uma hegemonia cultural, nunca política, de esquerda no país, entre os anos 60 e 80. Poderíamos aqui lembrar que a própria existência do golpe de 1964 teve como objetivo deter esta onda, que estava também alcançando a hegemonia política, se as reformas de base tivessem se concretizado e o governo Jango não tivesse sido golpeado. Singer, a partir de Schwarz, cita mais especificamente os movimentos grevistas do fim da década de setenta e a formação de um novo sindicalismo e as diretas já. Tenho na memória um texto extraordinário do professor Chico de Oliveira ( in: FRIGOTTO, Gaudêncio. & CIAVATTA, Maria. Teoria e Educação no Labirinto do Capital. Petrópolis: Vozes. 2001), intitulado "A nova hegemonia da burguesia no Brasil dos anos 90 e os desafios de uma alternativa democrática. págs. 51 - 60. Neste texto o professor destaca que, nesse período, foi a primeira vez em que na política brasileira se inverteu a verticalidade. Em vez de ela ser de cima para baixo, ela foi de baixo para cima. Aos dados citados por Singer ele acrescenta a luta pela anistia e pela constituinte, a organização dos movimentos populares, em especial o MST, e o surgimento do PT, único partido que não nasceu de conchavos entre políticos. Também lembraria o livro, A mosca azul - reflexão sobre o poder (BETTO, Frei. São Paulo: Rocco. 2006), em que o autor relata os encontros dos quais foi criado o PT.
Voltando a Singer, ele analisa possíveis causas dessa hegemonia e, entre elas dá um destaque especial para a igreja católica e a ascensão da teologia da libertação. Lembro aqui também João XXIII e o Concílio Vaticano II.
Como teria então se quebrado esta hegemonia? Singer cita um clássico, para buscar a resposta. Perry Anderson afirma que a ideologia neoliberal foi uma concepção de mundo que ganhou corações e mentes (um fundamentalismo?) e que chega ao Brasil, no final dos anos 80, com a eleição de Collor e especialmente de Fernando Henrique Cardoso. Esta ideologia afirma os valores de mercado, a possibilidade da ascensão individual, a exaltação da competitividade e a consequente mercantilização dos espaços e bens públicos e que encontrou nos articulistas da mídia e em livros os seus grandes propagandistas e que foram anulando os espaços que antes eram da esquerda. Creio que Singer se refere ao texto de Perry Anderson "Balanço do Neoliberalismo", no livro organizado por Emir Sader e Pablo Gentili, Pós Neoliberalismo - As políticas Sociais e o Estado Democrático. (Paz e Terra. 1995).
Singer aprofunda a análise destes espaços, citando a guinada da igreja católica para o conservadorismo, que com João Paulo II, tudo fez para alijar os espaços da teologia da libertação e o crescimento das igrejas pentecostais e neo pentecostais (embora sejam um campo muito diversificado) que de maneira geral colocam o sucesso e o êxito, sempre no plano individual e nunca na organização popular e nas lutas coletivas. Poderíamos dizer que a teologia da libertação foi substiuída pela teologia da prosperidade.Deus concede a riqueza para quem a pede, portanto, sempre de uma perspectiva individual. Também é interessante ver a igreja católica midiática e os seus padres popstars, que nunca perdem um holofote e cuja pregação nunca atinge o paraíso a ser construído já aqui na terra, apenas o paraíso celeste.
Depois analisa o comportamento da classe média tradicional, que tinha até dado uma guinada para a esquerda, na luta contra a ditadura militar, mas que rapidamente se reposiciona à direita sob o medo de perder seus privilégios através de reformas político econômicas mais profundas. Inclusive a nova dita classe média surgida com o lulismo, ciente de que o momento econômico que possibilitou a sua ascensão, pode não ser permanente e visando manter a posição conquistada, já se posiciona contra novas reformas. Desmomorizaram o seu próprio processo de ascensão e substituem a solidariedade do coletivo pelo discurso indivudual do empreendorismo.
Como isso se manifesta no atual quadro político e cultural brasileiro? Tendo como espaço de pregação e difusão a grande mídia brasileira esse novo conservadorismo se manifesta no ódio e na luta contra as políticas sociais do governo, especialmente contra o bolsa família e a sua expansão pelo "Brasil Carinhoso", pelo incômodo causado pela presença de pessoas mais pobres nos aeroportos, por já poderem andar de avião e especialmente pela dificuldade de encontrar pessoas para os serviços domésticos e a consequente elevação de preços para a sua contratação. Tudo isso motivado pela diminuição das taxas de desemprego no país.
Outra questão também analisada é o fenômeno do lulismo. Ele não roubou o discurso conservador? Como se manifesta políticamente o discurso conservador hoje. o que fez Serra em 2010? Decidiu inicialmente não enfrentar o governo Lula, depois prometeu dobrar o número de pessoas atendidas pelo bolsa família e dar aumentos mais significativos do que os dados pelo governo Lula, para o salário mínimo e para as aposentadorias.Em outras palavras, o lulismo, com as suas ambiguidades, não deixou espaço para o discurso político de direita. Não seria ele prórpio de direita?
A entrevista termina falando sobre o significado do lulismo dentro desse  novo quadro. Afirma ser o lulismo uma síntese entre o conservadorismo e o não conservadorismo que se manifesta pelo discuso da mantenção da ordem (lembro 2002 - carta aos brasileiros), o que impede a realização de mudanças mais profundas (Só para lembrar, as reformas de base já foram feitas ou estão para serem feitas? Ainda constam da agenda política?). Se pretende fazer reformas profundas ou usar apenas os mecanismos do Estado, com as suas ações em favor do bem-estar? Singer possui um livro sobre a questão: Os sentidos do lulismo, editado pela Companhia das Letras, 2012.
Singer conclui que ainda paira no ar um certo espírito popular e democrático, herança especialmente da Constituição de 1988 e que, para se manter no campo progressista, o PT e o lulismo precisam manter e aprofundar o diálogo com os setores populares dos quais se originou.
Faço então uma última colocação ou provocação, que é um termo que aprecio bastante, e ao mesmo tempo uma pauta para averiguação. Como se comportam atualmente os dirigentes petistas? Estão tendo esta mediação com os movimentos populares, trabalhando na sua organização ou se transformaram em instituições burocráticas cada vez mais distantes de suas bases? E finalmente uma última questão: as bases do lulismo petismo aceitam as decisões postas por suas cúpulas partidárias ou não seriam estas próprias cúpulas de direção partidária, eles próprios, os instrumentos da atual nova onda conservadora? Fico aqui imaginando a resposta que dariam muitos daqueles que um dia escolheram o PT como o instrumento para a realização de seus sonhos e o seu instrumento de lutas contra o conservadorismo brasileiro.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Diários de uma Viagem - Delfos

De Kalambaca seguimos rumo a Defos, no caminho para Atenas. Delfos é mitologia e história pura. Situa-se no golfo de Corinto e a região foi o cenário para muitas lutas das chamadas guerras médicas, entre os gregos e os persas, talvez a segunda das muitas guerras entre o ocidente e o oriente, isso se a guerra de Tróia puder ser considerada como a primeira.
 Na região se desenvolveram as batalhas de Maratona, a batalha heróica do desfiladeiro das Termópilas, a batalha de Salamina e a decisiva de Platéia, em 479 a. C., quando os gregos venceram os persas. Quanta história! E os relatos destes fatos narrados por Heródoto nos remetem às origens, do que hoje se chama de historiografia. As guerras entre gregos e persas visavam o domínio do Mar Egeu e de toda a Ásia Manor. O mar Egeu banha a parte leste da Grécia, entre a Grécia e a Turquia. Do outro lado se situa o Mar Jônico. Delfos é especialmente famosa, pelo monte Parnaso, aos pés do qual se localiza o sítio arqueológico de Delfos. Delfos também é patrimônio cultural da humanidade.
Vista de um dos templos do sítio arqueológico de Delfos.

Delfos era considerada pelos gregos como o centro do mundo (Cusco também o era para os incas). Conta o mito, que a região era habitada por uma enorme serpente de nome Pítias. Apolo, por uma série motivos, havia matado esta serpente, que por sua vez era filha de Géia, ou Gaia, a terra. Um dos templos de Delfos foi dedicado a Apolo. A lenda ainda conta que em Delfos havia uma fonte que emitia vapores. Além disso havia ventos constantes na região. A associação entre estes ventos e vapores fez com que eles  fossem considerados como sinais que Gaia mandava para os homens. Os intérpretes destes sinais da terra deram origem ao oráculo e estes recebiam o nome de Sibila. Os oráculos interpretavam e transmitiam aos humanos os desejos de Gaia.
A serpente é um dos animais mais sagrados de toda a cultura clássica e que, exatamente por rastejar e estar em constante contato com a terra, é que ela estabelece a relação entre a mesma e os homens. Não é por nada que a serpente é o animal símbolo da farmácia e da medicina. Dos oráculos são famosos os princípios do "conhece-te a ti mesmo" e o do "nada em excesso", que seguramente também são fortes princípios da medicina psicosomática. Que bela relação é esta  esta entre a serpente, a terra e os homens e também este reverenciamento à Gaia, à natureza, de quem afinal, tudo recebemos. Creio que é lícito estabelecer uma relação com a Pachamama inca, em que esta relação também é muito forte. Depois o cristinismo calou a voz dos oráculos e, dele (cristianismo) recebemos, pela via do judaísmo, a satanaização da serpente e o significado humilhante do verbo rastejar. As alturas é que são divinizadas e é de lá, dos céus, que vem todas as dádivas, as chamadas dádivas divinas. Elas não vem de Géia, da terra. Belas reflexões para fundamentar a ecologia!

Vista do teatro de Delfos.

O sítio arqueológico é muito bem conservado. Aí são encontrados templos, ginásios, o teatro, e o estádio.
Talvez tenha sido uma das cidades mais sagradas da Grécia, especialmente pelo fato de ali se lidar com o futuro. E lidar bem com o futuro é o componente fundamental de qualquer ideologia ou doutrina que queira se afirmar e ter seguidores.
Vista do estádio de Delfos, mais precisamente, a curva dos fundos desse estádio.

Do oráculo também ficou famosa a profecia de que Sócrates seria o mais sábio entre os gregos. Os ciúmes dos sofistas levaram então Sócrates ao julgamento e a narrativa desse julgamento, feita por Platão, na Apologia de Sócrates, legou para a humanidade o seu primeiro grande tratado de ética. Em função desse grande valor sagrado, religioso e mítico, Delfos foi também uma das mais ricas das cidades gregas e, ali eram acumulados muitos de seus tesouros e riquezas. Em Delfos encontra-se ainda um grande museu, com as principais peças do antigo sítio, o Museu Arquelógico de Delfos. O ingresso, válido tanto para o sítio, como para o museu, salvo engano, custa oito euros.

Mais uma vista do sítio arqueológico de Delfos.

Para sentir os ares de Delfos e ter boas premonições para o futuro, mas sem consultar nenhuma pitonisa, almoçamos sob as sombras de uma árvore, em local muito próximo ao sítio arqueológico.
Delfos - a sua história e os seus mitos - certamente merece este brinde. E que o futuro seja radiante!

Após o almoço seguimos em direção a Atenas, onde ainda nos aguardaria um tour panomâmico pela cidade, com guia local. Nos instalamos no hotel espetacular e, espetacularmente situado e iniciamos o tour.  Adivinhem por onde ele começou? Pela Acrópole, evidentemente. Mas por hoje, apenas uma foto. Amanhã eu conto. Além do tour, teríamos ainda um dia inteiramente livre em Atenas.
Uma foto clássica da Acrópole, em Atenas.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Diários de uma viagem. Igoumenitsa - Ioanina - Kalambaca - Grécia

Inicio este meu diário sobre a Grécia com algumas estatísticas. Faço isso, especialmente em função da crise, pela qual este país está passando. Nos jornais de hoje estão estampadas as notícias dos protestos de rua, ontem, em função da visita a Atenas, pela primeira ministra alemã, Angela Merkel. Vou estabelecer alguns dados comparativos com o Paraná.
O PIB da Grécia é de 294.339 bilhões de dólares. O total da dívida grega é de 1,52 vezes o seu PIB. O déficit orçamentário grego alcança entre 12 e 13% do seu PIB a cada ano. O PIB do Paraná é de 251.6 bilhões de dólares. A renda per capita grega é 26.293 dólares, enquanto a do Paraná é de 10.725 dólares. O IDH grego é de 0.855, isto é, muito alto. A extensão territorial da Grécia é de 131.990 Km², sendo que 80% de seu território é montanhoso e apenas 28% de suas terras são cultiváveis. A cadeia de montanhas da Grécia chama-se Pindo e tem a altitude média de 2.650 metros. É, portanto, uma região muito acidentada. O território paranaense é formado de 199.880 Km². A sua população gira em torno de 11 milhões de habitantes. Outros 10 milhões vivem fora do país, especialmente nos Estados Unidos e na Austrália.
A Grécia vive em crise, a maior de todas as crises da região do euro. Vislumbram-se saídas? Por enquanto não. Esses dias o primeiro ministro grego comparou a situação grega atual, com aquela vivida pela Alemanha, ao final da República de Weimar, que criou as possibilidades para o surgimento de Hitler e do nazismo. O campo está favorável para os extremismos.
A partir desses dados, uma primeira questão. A Grécia não é um país pobre. É um país desenvolvido e está em crise. Nos países ricos existe a crise, nos países pobres existe a miséria. Pelas informações colhidas, a crise se deve especialmente aos gastos públicos e mais especificamente ao grande número de funcionários públicos. Com isso, o estado proselitista mantinha os mesmos grupos políticos no poder. Nos disse o guia, que este número de funcionários chega quase ao mesmo número que existe na Alemanha. Todos os dados sociais gregos são invejáveis: saúde, educação, IDH. O nível educacional  também é comparável aos padrões alemães. Em função disso seus emigrantes, facilmente arranjam empregos nos países para os quais se deslocam. Na Grécia de hoje dificilmente um jovem arruma, em primeiro lugar, um emprego e, em segundo, quase nunca na área em que se formou.
A crise é por corrupção, baixa competitividade de sua economia e o absoluto descontrole nos gastos públicos. Só mais um dado comparativo: há quantos anos o Brasil tem superávits orçamentários anuais, em torno de 4% de seu PIB (Para pagar juros). Li, a notícia de que a Grécia tem dificuldade em fazer privatizações, pela falta de compradores para as suas empresas. Existem inclusive sugestões despropositadas, por parte dos organismos financeiros mundiais, para que a Grécia venda algumas de suas ilhas para os tais dos bilionários globais.
O que significaria a saída da Grécia da zona do Euro e o que isso significaria, do outro lado, para o Euro? Deixo a interrogação para a resposta dos economistas. Para além da questão econômica, pesa fortemente, na questão grega, a sua questão simbólica. O mundo ocidental se formou a partir da Grécia. Numa rápida passada pela Wikipédia, encontramos ali o início da democracia, da filosofia, dos jogos olímpicos, da literatura, da historiografia, da ciência política, dos princípios matemáticos e do teatro, nos seus gêneros de drama, de tragédia e de comédia. Procurarei falar um pouco disso, ao longo da viagem.
Para entender também um pouco melhor a Grécia é interessante ver alguns dados de sua história, especialmente a partir de seu período arcaico. Anterior a isso, de famoso mesmo, temos a guerra de Tróia e os seus relatos através da Iliada e da Odisséia. O período arcaico teria se iniciado com a realização dos primeiros jogos olímpicos em 776 a. C.,  e continuado com Solon e o lançamento dos fundamentos da democracia, a realização da Confederação de Delos, as guerras contra os persas, as guerras do Peloponeso e a sua decadência com a conquista de Alexandre da Macedônia (323 a. C.) e o início da helenização. Depois vem o domínio Romano, o domínio Otomano e, finalmente, a recupreação de sua independência no início do século XIX. (1821).
Bem, voltamos a nossa viagem. Desembarcamos em Igoumenitsa, um pequeno porto a noroeste da Grécia e, 670 km. distante de Atenas. As cidades são interligadas por uma moderna auto estrada. Não a seguimos. A nossa direção era outra, rumo ao nordeste, para a cidade de Ioanina.

Vista de uma igreja em Ioanina. Nota-se a presença da bandeira azul e branca, da Grécia e a bandeira amarela, símbolo da igreja ortodoxa grega.

Ioanina é a capital da região do Épiro e possui uma população em torno de cem mil habitantes. É um centro comercial e de produção, com destaque para a pecuária leiteira, para a avicultura e a de ovinos. Possui inúmeros mosteiros da igreja ortodoxa e é toda cercada de muralhas. A sua história passa por constantes conquistas e dominações: normandos, bizantinos, venezianos, albaneses, sérvios. A cidade situa-se junto as fronteiras da Albânia. Junto a cidade está um belo lago, que possui uma ilha, onde almoçamos. Pela primeira vez o carneiro entrou em nosso cardápio. Ele é muito presente nas refeições gregas. A Grécia é conhecida pela sua culinária, muito boa e barata.
Vista do lago que banha a cidade de Ioanina.


Vista das muralhas que cercam e protegem Ioanina.

Após o almoço seguimos para Kalambaca. Neste dia estamos fazendo um percurso de 260 km. em rodovias e é sobre elas que eu quero fazer uma observação toda especial. Irei escrever mais sobre isso. Estrada para eles é uma concepção. O que efetivamente me chamou atenção foi a sua conservação e a sua forma. Estou falando das auto estradas. Elas são feitas para que nelas não ocorram acidentes. Isso passa por duas questões: uma é técnica, de engenharia, a outra é financeira, os seus custos. Elas são retas e planas, em praticamente todo o seu percurso e nada atrapalha o seu fluxo. Quando não são enormes túneis, ela passa sobre elevados, também enormes. E olha que só passamos por regiões montanhosas acidentadas. A vida humana precisa ser preservada. Nos meus apontamentos anotei o seguinte: se for pelas estradas e a sua manutenção, a Grécia não está passando por nenhuma crise.
Mas, enfim chegamos a Kalambaca.
Vista de uma das meteoras de Kalambaca.

Kalambaca ou Kalabaka provocou o primeiro grande Oh! desta viagem. As meteoras são enormes rochas montanhosas, que segundo os mitos locais, teriam sido jogadas ai pelos deuses, quando então adquiriram as suas formas. Elas tem uma enorme simbologia. O lugar ficou muito conhecido durante a segunda guerra mundial e aí gregos e italianos guerrearam, com a vitória dos gregos. Hitler socorreu os italianos bombardeando o local, atingindo inclusive os seus mosteiros. Voltando a simbologia. Altitude ou altura sempre foi símbolo de poder. No alto destas meteoras estão encravados mosteiros, em que os seus monges se comunicavam diretamente com Deus. Os mosteiros são de dificílimo acesso e os materiais para a sua construção e depois para a alimentação, aí só chegavam por cordas e roldanas. Visitamos dois deles e num deles havia um monge. Fomos acompanhados por uma guia local. Nas capelas dos mosteiros existem quadros famosos, inclusive afrescos de um dos mestres de El Greco. Só há pinturas, nunca esculturas. O local de tão bonito que é, foi declarado patrimônio cultural da humanidade. Hoje os monges apreciam menos este local, em função do grande movimento existente. Na região também existe muito turismo de inverno.

Vista de um mosteiro em cima de uma das meteoras.

Vista de um mosteiro entre as frestas das meteoras.

Na rua a cerveja já estava bem mais em conta. 2,50 euros. Aproveitamos. De noite, tivemos o primeiro jantar incluso no pacote. Jantar em restaurante de hotel de quatro estrelas.  Amanhã vamos contar mais sobre a Grécia e sobre Delfos.