terça-feira, 13 de outubro de 2026

A IDEOLOGIA DO GAUCHISMO. Tau Golin.

Se preparem que aí vem polêmica! Depois de ler o ufanista livro de Jorge Salis Goulart - A formação do Rio Grande do Sul e o acadêmico livro de Joseph L. Love - O regionalismo gaúcho e revirando minhas estantes, encontrei este, de Tau Golin - A ideologia do gauchismo. A primeira edição é do ano de 1985. Eu li o da terceira edição. A dedicatória tem tudo a ver com o teor do livro. Uma homenagem a seu pai. À memória de Leonel Golin, camponês e, depois, proletário.

A ideologia do gauchismo. Tau Golin. Ed. tchê! 3º edição. 

A primeira coisa que eu fiz foi saber sobre o autor. No Google aparecem dados de sua formação (Mestrado, doutorado e professor da Universidade de Passo Fundo - Tudo voltado à história do Rio Grande do Sul - mas poucos dados pessoais). Estes eu encontrei numa longa e ilustrativa entrevista dada pelo historiador a Luís Augusto Fisher, no dia 3 de agosto de 2024. Bem atual, portanto. Por essa entrevista deduzi que Tau nasceu em Capinzal (Rio do Peixe, SC.), no ano de 1955. Depois teve passagens por São Gabriel, Santa Maria e Missões. Sua formação acadêmica se deu em Porto Alegre e o seu ingresso na Universidade de Passo Fundo, no ano de 1996. Seus estudos teóricos foram precedidos e acompanhados pela sua vivência, como ativista político, como homem de teatro, estudioso autodidata e profundo conhecedor do Rio Grande. Sua formação de pós graduação está toda voltada à construção das fronteiras do Rio Grande do Sul.

Seu livro, como o título indica, tem como objetivo mostrar que o tradicionalismo gaúcho se constitui numa ideologia. Daí parte para mostrar o conceito marxista do termo, dentro da concepção revolucionária da Luta de Classes, como um de seus componentes. O modo como a classe dominante vê a realidade passa a ser construída como a realidade de toda a sociedade. Por óbvio, atende os interesses do dominante. Assim o tradicionalismo cultua o latifúndio em uma convivência harmoniosa entre o proprietário e os peões em paz e harmonia nunca arranhada. E isso se dá através de uma astuta e sedutora construção histórica. Esse é o teor do livro.

Vamos ver o livro, através de seus capítulos. São quatro, mais dois ilustrativos apêndices. São 174 páginas. Vejamos os títulos dos capítulos: I. O tradicionalismo e sua ideologia; II. O tradicionalismo e a história; III. O tradicionalismo e o poder; IV. O tradicionalismo e a arte. O apêndice I leva o título de - Fragmentos à compreensão da ideologia na arte tradicionalista do RS. e II - Conflito entre o velho e o revolucionário novo. Os capítulos são desmembrados e tem os seus subtítulos.

No de número I. O tradicionalismo e sua ideologia, o primeiro tópico é apresentado como - Tradicionalismo e ideologia, onde os termos são conceituados. Eu sublinhei um parágrafo síntese: "Contraditória nela mesma, supõe uma relação entre senhores e escravos, entre patrões e seus agregados ou peões, que é ao mesmo tempo autocrática e democrática, senhorial e igualitária. Em seu desenvolvimento mais profundo - que atinge em cheio a área da literatura e, nela, especialmente, a prosa de ficção - a ideologia da 'democracia gaúcha' propõe uma interpretação do passado pela idealização da pretensa igualdade racial e social. Assim persegue dois objetivos: explicar as ações humanas pretéritas em função dos valores do presente (isto é, os 'valores da classe dirigente do regime patrimonialista latifundiário); e, num segundo passo, identificar esta reconstrução idílica do passado com determinada camada social, completando a glorificação dos senhores gaúchos" (Página14).

No segundo tópico o título é apresentado como - Origem da prestação de serviço cultural à classe dominante. Isso é datado. Ocorre após a Revolução Farroupilha. O primeiro movimento surge, segundo o autor, com a fundação do Partenon Literário, em 1868. É a literatura idílica da consagração de heróis e datas cívicas. Partenon, uma referência a Atenas. Tau assim conclui o tópico: "É da base desse processo que surgiram as condições propícias para, anos mais tarde, ser criado o Movimento Tradicionalista. Os intelectuais da década de setenta do século XIX estavam voltados, além da arte, aos assuntos públicos, mas a geração que os sucede, da qual fazem parte Júlio de Castilhos, Assis Brasil e Borges de Medeiros, entre outros, já passa a ser constituída pelos donos do poder e usam de sua arte para atuar no processo político em andamento" (Página 23). Formam-se os Grêmios gaúchos, uma nova sociedade literária, que congrega maragatos e chimangos.  Paixão Cortes e Barbosa Lessa são os grandes idealizadores do tradicionalismo.

O segundo capítulo é mais longo e se volta para a construção histórica do movimento - O tradicionalismo e a história. Os tópicos tem títulos e sub títulos: 1. Nasce o tradicionalismo na República Velha e 1.1. O valor fetichista do passado. Com a República nada muda no Rio Grande, pelo contrário, os donos do poder se fortalecem ainda mais, com a constituição de um poder quase que monolítico, apesar das revoluções sangrentas do período da República Velha, quando duas elites se digladiavam. O Partido Republicano Riograndense reinava soberano, com seus caudilhos, Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros. 2. Governo oligárquico e tradicionalismo e 2.1. Prestes desencilha a revolução. O positivismo dá o suporte teórico ao tradicionalismo. Ele fornece dados racionais e científicos para o progresso, que, no entanto não atinge a todos, apenas às elites. Ordem e Progresso é o lema, em outras palavras, conservar melhorando. As crises. 1930 e Vargas. Dá-se a passagem do Estado oligárquico para o Estado Corporativo, sem rupturas. O latifúndio permanece intocável. Prestes enxerga a tudo sob um outro olhar. E uma frase marcante: Cavalo de Comissário não perde carreira.

O terceiro tópico tem o seguinte título: Ressuscita Tradicionalismo. 3.1. Teorização tradicionalista e 3.2. Princípios de dominação tradicionalista. Em 1948 surgem os CTGs. Os meninos do Colégio Júlio de Castilhos. Duas correntes. De um lado Paixão Cortes e Barbosa Lessa, do outro Glaucus Saraiva. Fechar ou não as porteiras. Os 35. Uma continuidade dos Grêmios Literários. O MTG e a submissão às hierarquias. O Primeiro Congresso em 1954, em Santa Maria. Barbosa Lessa e a cartilha - O sentido e o valor do tradicionalismo. Novos congressos, integração dos imigrantes. Criação do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore. Os cuidados com a formação moral e cívica do gaúcho.

Na sequência, no terceiro capítulo, temos cinco tópicos, mostrando o entrelaçamento de interesses entre os tradicionalistas e o poder. - O tradicionalismo e o poder. 1. MTG: atrelamento e subserviência; 2. O Estado se responsabiliza pela tradição. 3. O Estado e o tradicionalismo na mesma trincheira; 4. Os desfiles cívicos dos heróis positivos. 5. A tradição orientada e a desapropriação do popular. No primeiro tópico são apresentados números: de CTGs, de participantes, os seus apoios na mídia, as subvenções públicas e o atrelamento ou controle dos CTGs. pelo MTG. No segundo tópico tem um dito significativo - Como o couro ao boi. Uma forma de dizer da vinculação da dominação nos movimentos tradicionalistas. O latifúndio e os séculos de dominação. Análise dos documentos básicos. Os tradicionalistas e a ocupação de cargos públicos.

No terceiro tópico, uma continuidade. Tradicionalismo e poder trilham a mesma trincheira. O Rio Grande e o seu oásis de paz.  Divergências, apenas de ordem emocional. No quarto tópico é mostrada uma maior vinculação do movimento com o positivismo, numa análise da exaltação dos heróis e das datas cívicas. O mês de setembro e o dia 20 em particular. Os desfiles e a Brigada Militar. Bento Gonçalves, o latifundiário guerreiro (o autor em suas pesquisas encontrou documentos de época que o qualificam como contrabandista de gado). O quinto tópico se ocupa com a mostra dos mecanismos do apagamento dos artistas populares, pelos rígidos controles exercidos pelo movimento.

E rumando para o final, o quarto capítulo examina - O tradicionalismo e a arte, ou aprofundando com a anexação de um dos tópicos, a disciplina podando a arte. São sete tópicos, de abordagem mais rápida. 1. As raízes dos concursos; 2. Rodeio: a festivação do modo de produção pastoril; 3. Festival: relação de troca; 4. A carta de Uruguaiana e a disciplina da arte. Todo o destaque vai para a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, o maior dos festivais; 5. Aqui te canto latifúndio; 6. O tradicionalismo e o artista em uma sociedade de classes; 7. O movimento popular (sangria ao tradicionalismo). Como os títulos dos tópicos são mais autoexplicativos vou me ater ao de número sete. Nele o autor examina alguns artistas e cita outros tantos. Seriam os artistas populares, que romperam cercos. Como o livro foi escrito em 1985, a maioria já são falecidos, alguns bem recentemente, como é o caso de Pedro Ortaça. Mas vamos a eles: Apparício Silva Rillo, Jayme Caetano Braun, Luiz Carlos Borges, Noel Guarany, Cenair Maicá e Pedro Ortaça. Vejam aí os quatro chamados troncos missioneiros. Jayme, Noel, Maicá e Pedro Ortaça. Ah, as missões. Esse tema me fascina.

Os apêndices são fantásticos. Se constituem no exame de letras e de textos de músicas, poemas e livros que corroboram com os temas trabalhados. São confirmações dos argumentos apresentados. Apenas um grande conhecedor da arte gauchesca seria capaz de fazer esse levantamento. O último são dois artigos, retirados do jornal Zero Hora, a respeito de uma canção inovadora sobre São Borja. - Uma canção para São Borja. Antônio Augusto Fagundes a critica, enquanto que Sérgio Jacaré a exalta. 

Um livro acima de tudo corajoso. Se contrapor ao tradicionalismo gaúcho é algo profundamente ousado. O movimento tradicionalista está profundamente enraizado e suas formas são extremamente agradáveis e sedutoras. Os CTGs. são clubes sociais que promovem festas muito apreciadas, como seus bailes, rodeios e a apresentação de suas invernadas. Tau Golin tem o estofo cultural, teórico e prático, necessário para entrar nessa tema com muita propriedade.

 Em 1987 eu integrava o recém fundado CTG Querência da Amizade de Umuarama. Em uma de suas festas teve apresentação artística de um CTG de Erechim, churrasco no Parque de Exposições e baile com o grupo Os Monarcas. Na comitiva veio a Primeira Prenda do tradicionalismo gaúcho, que eu tive a satisfação de hospedar em minha casa. Ela me deixou um presente, que, agora tenho em mãos, para mostrar a dedicatória. É a seguinte: Prá ti Elói - gaúcho desgarrado e saudoso - uma lembrança que trata de um assunto fabuloso. Da Alessandra - 12-07-87. Qual era a lembrança? O sentido e o valor do tradicionalismo. O documento histórico lançado no 1º Congresso Tradicionalista de Santa Maria em julho de 1954, de Barbosa Lessa.

O sentido e o valor do tradicionalismo. Barbosa Lessa. 1º Congresso Tradicionalista (Santa Maria, julho, 1954).

Para entender o sentido histórico do tradicionalismo em suas raízes foi muito importante antes ter lido A formação histórica do Rio Grande do Sul, fundamental para entender a visão idílica do Rio Grande do Sul e de seu povo, na convivência harmoniosa entre o estancieiro e a peonada e, inclusive, numa relação de escravização, tida como branda. Deixo a resenha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/a-formacao-do-rio-grande-do-sul-jorge.html

E um outro livro, de valor extraordinário. O Rio Grande do Sul na República Velha.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/10/o-regionalismo-gaucho-joseph-l-love.html

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