sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!

Não poderia deixar de fazer a minha parte diante deste importante documento documento para a história brasileira. Contribuir com a sua divulgação. Tomei a carta diretamente do site da Universidade de São Paulo. Por óbvio, o documento não precisa de comentários. Hoje é 12 de agosto e gostaria apenas de destacar a enorme repercussão que ele teve no dia de ontem, 11 de agosto, um dia especial para o direito, com a criação dos primeiros cursos no Brasil. A carta já tem mais de um milhão de assinaturas. Um documento que fará história. Parabéns a todos os democratas envolvidos.

Atenas. Cidade símbolo da democracia. Foto de minha autoria.

Em agosto de 1977, em meio às comemorações do sesquicentenário de fundação dos Cursos Jurídicos no País, o professor Goffredo da Silva Telles Junior, mestre de todos nós, no território livre do Largo de São Francisco, leu a Carta aos Brasileiros, na qual denunciava a ilegitimidade do então governo militar e o estado de exceção em que vivíamos. Conclamava também o restabelecimento do estado de direito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

 

A semente plantada rendeu frutos. O Brasil superou a ditadura militar. A Assembleia Nacional Constituinte resgatou a legitimidade de nossas instituições, restabelecendo o estado democrático de direito com a prevalência do respeito aos direitos fundamentais.

 

Temos os poderes da República, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, todos independentes, autônomos e com o compromisso de respeitar e zelar pela observância do pacto maior, a Constituição Federal.

 

Sob o manto da Constituição Federal de 1988, prestes a completar seu 34º aniversário, passamos por eleições livres e periódicas, nas quais o debate político sobre os projetos para país sempre foi democrático, cabendo a decisão final à soberania popular.

 

A lição de Goffredo está estampada em nossa Constituição “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

 

Nossas eleições com o processo eletrônico de apuração têm servido de exemplo no mundo. Tivemos várias alternâncias de poder com respeito aos resultados das urnas e transição republicana de governo. As urnas eletrônicas revelaram-se seguras e confiáveis, assim como a Justiça Eleitoral.

 

Nossa democracia cresceu e amadureceu, mas muito ainda há de ser feito. Vivemos em país de profundas desigualdades sociais, com carências em serviços públicos essenciais, como saúde, educação, habitação e segurança pública. Temos muito a caminhar no desenvolvimento das nossas potencialidades econômicas de forma sustentável. O Estado apresenta-se ineficiente diante dos seus inúmeros desafios. Pleitos por maior respeito e igualdade de condições em matéria de raça, gênero e orientação sexual ainda estão longe de ser atendidos com a devida plenitude.

 

Nos próximos dias, em meio a estes desafios, teremos o início da campanha eleitoral para a renovação dos mandatos dos legislativos e executivos estaduais e federais. Neste momento, deveríamos ter o ápice da democracia com a disputa entre os vários projetos políticos visando convencer o eleitorado da melhor proposta para os rumos do país nos próximos anos.

 

Ao invés de uma festa cívica, estamos passando por momento de imenso perigo para a normalidade democrática, risco às instituições da República e insinuações de desacato ao resultado das eleições.

 

Ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o estado democrático de direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira. São intoleráveis as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional.

 

Assistimos recentemente a desvarios autoritários que puseram em risco a secular democracia norte-americana. Lá as tentativas de desestabilizar a democracia e a confiança do povo na lisura das eleições não tiveram êxito, aqui também não terão.

 

Nossa consciência cívica é muito maior do que imaginam os adversários da democracia. Sabemos deixar ao lado divergências menores em prol de algo muito maior, a defesa da ordem democrática.

 

Imbuídos do espírito cívico que lastreou a Carta aos Brasileiros de 1977 e reunidos no mesmo território livre do Largo de São Francisco, independentemente da preferência eleitoral ou partidária de cada um, clamamos as brasileiras e brasileiros a ficarem alertas na defesa da democracia e do respeito ao resultado das eleições.

 

No Brasil atual não há mais espaço para retrocessos autoritários. Ditadura e tortura pertencem ao passado. A solução dos imensos desafios da sociedade brasileira passa necessariamente pelo respeito ao resultado das eleições.

 

Em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona:

 

Estado Democrático de Direito Sempre!!!!

 

Faça parte dessa história. Assine a Carta.

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Porto Feliz - Mondaí. O centenário da colonização (1922-2022).

Esta é a segunda vez que a cidade de Mondaí comparece no meu blog. A primeira, foi com o livro Um novo lar na imensidão da mata, que relata as memórias da família Ramminger, que chegava em Porto Feliz, o nome de então, da hoje cidade de Mondaí, no ano de 1922. O livro, da editora Oikos, publicado no ano 2020, é organizado pelo historiador Leandro Mayer. O livro é simplesmente a saga de uma família pioneira. Deixo o link da resenha. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/07/um-novo-lar-na-imensidao-da-mata.html

Agora é a vez de outro livro, Porto Feliz - Mondaí. O centenário da colonização (1922-2022). O livro, da editora Schreiben é organizado também por um historiador, Douglas Orestes Franzen. Mas, poderiam me perguntar, por que eu alimento esse interesse por esta cidade? A resposta é simples. Dois motivos me movem para isso. Em primeiro lugar, eu tenho um irmão que mora na cidade e que mandou esses livros e, em segundo lugar, porque a nossa família tem muito a ver com toda a história relatada nesse maravilhoso livro. A nossa família é de origem alemã. E Porto Feliz- Mondaí é uma cidade de origem alemã. Basicamente ela foi colonizada pelos colonos pioneiros, que aportaram em São Leopoldo, há quase 200 anos, no já longínquo ano de 1824, na cidade gaúcha de São Leopoldo.


Porto Feliz - Mondaí. O centenário da colonização (1922-2022). Ed. Schreiben. 2022. Livro organizado por Douglas Orestes Franzen.

O meu irmão Hédio José Rech, de certa forma também é um pioneiro nesse extremo oeste catarinense, para onde foi nos idos da década de 1960. Foi para ser professor e se estabeleceu, depois de algumas andanças, na comunidade de Catres. Hoje mora na cidade. Ele foi recrutado para ser professor e também passou por inúmeras dificuldades até ser formalmente contratado como professor pelo estado de Santa Catarina. A nossa família é natural de Harmonia, que na época era o terceiro distrito de Montenegro. Já visitei o meu irmão em várias oportunidades. Eis a minha relação com a cidade. Também me move a satisfação de colaborar, por mínimo que seja, com a divulgação desse valioso livro. 

O livro tem um valor inestimável. Livro de preservação de memória. Ele deve ter dado um bom
trabalho ao seu organizador, pois diferentes pesquisadores fazem as mais diferentes abordagens relativas ao histórico desenvolvido ao longo dos cem anos da história de Mondaí. Ao longo de 361 páginas são desenvolvidos os principais fatos históricos e culturais do município, junto com um rico acervo bibliográfico acompanhado de fotografias históricas coletadas junto às famílias dos pioneiros ou retiradas ou de um museu existente na cidade, o  Museu Pastor Karl Ramminger.

Donde vieram os pioneiros? A maioria veio das antigas colônias alemãs do Rio Grande do Sul, das colônias originárias de São Leopoldo e São José do Hortêncio, da década de 1820. As terras ao longo dos vales dos rios Sinos, Caí, Taquari, começam a ficar escassas, para os numerosos filhos que as famílias geralmente tinham. Novas fronteiras precisavam ser buscadas. É nesse contexto que é ocupada a fronteira oeste do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Trago bem presente na memória esse fenômeno que eu vivi na minha infância nos anos 1950. Sempre havia vizinhos de partida.

Especificamente a colonização de Porto Feliz-Mondaí se deu a partir da cidade de Panambi (Neu-Wittemberg). Ali tinha sede a companhia colonizadora Chapecó-Peperi, que estendeu os seus laços comerciais para além do rio Uruguai, nas terras catarinenses. A cidade de Panambi, historicamente tem a ver com a religião protestante, influência que foi levada para a nova colônia do então Porto Feliz. Isso tudo é bem contado ao longo do livro. Lá em Harmonia, onde só havia católicos, junto com Bom Princípio e Tupandi, lembro que se falava mais de Porto Novo, atual Itapiranga, para onde foram direcionados as famílias dos católicos. Coisas da colonização. Hoje o espírito ecumênico prevalece. O tempo aproximou os credos e todos convivem harmoniosamente.

Outros pioneiros vieram diretamente da Europa e de maneira toda especial, da Alemanha, que vivia os problemas do pós Primeira Guerra. Um fato interessante é que vários migrantes também vieram da Bessarábia (Romênia), país do qual não temos tantos imigrantes. O rio Uruguai foi fundamental nessa nova frente de colonização. Era a grande via desses tempos de pioneirismo. 

A ocupação como demarcação de fronteiras também teve importância nessa história de povoação do extremo oeste catarinense. Chapecó era até então a última fronteira e o município mãe de toda essa região. As fronteiras que deveriam ser demarcadas eram as que dividiam o Paraná com Santa Catarina (Pós guerra do Contestado - 1912-1916) e  entre o Brasil e a Argentina. 

Três fatos históricos mereceram de minha parte maior atenção. O primeiro deles foi a passagem por ali, no ano de 1925, da Coluna Prestes, que gerou grande pânico entre os colonos. O outro fato foi a crise sanitária decorrente dos animais mortos pela passagem da Coluna e a contaminação provocada, que resultou numa grave epidemia de tifo, que vitimou muitos colonos. Creio que dá perfeitamente para imaginar o tamanho da tragédia, agravada pela total falta de recursos, em todos os sentidos. Mas, com certeza o fato mais significativo, foi o que aconteceu nos anos 1930 e agravada ao longo do Estado Novo (1937-1945), com a ditadura de Getúlio Vargas. O Brasil entra na Segunda Guerra, declarando guerra a Alemanha. O alemão passa a ser língua proibida. É inimaginável a violência que se estabeleceu na região por causa desse problema. Muitas prisões e torturas aconteceram nesses pacatos locais. Quem minimamente conhece essas  colônias alemãs sabe, que ainda hoje, a língua mais falada e preferida continua sendo o alemão. Esse período recebeu a denominação de nacionalização.

Outro fato que me  chamou bastante atenção foi o do interesse da cidade com a preservação de sua memória e de seus marcos culturais. Creio que as universidades das grandes cidades mais próximas, como Chapecó e Passo Fundo tem bastante a ver com isso, e isso é muito bom.

Por tudo isso eu mais do que recomendo a leitura e, para dar um melhor panorama do livro ainda deixo a síntese  apresentada na orelha da capa e contracapa. Vejamos: A fundação de Porto Feliz. "Pode-se considerar como data de fundação de Porto Feliz o dia 20 de maio de 1922 que ao mesmo tempo marca o início da colonização do extremo oeste de Santa Catarina.

Nesse dia, Faulhaber, na qualidade de diretor da Empresa Chapecó-Peperi Ltda., pisou as terras da nova colônia para determinar o local de sua sede.

O diretor Faulhaber partiu de Nonoai na pequena lancha a motor de Camilo Picou. Seguiu Uruguai abaixo acompanhado por seus homens de confiança, os colonos Jacob Schüler e Friedrich Forbrig, de Neu-Württemberg, assim como o agrimensor Victor Alberto Webering e o comerciante Francisco Martins, de Palmeira. 

Na foz do primeiro ribeirão, abaixo do rio das Antas, havia, no alto do barranco, um rancho abandonado por balseiros. Em frente, ao lado riograndense, vivia um único morador, Ernesto Scherer. Era apaixonado caçador e já havia percorrido as matas de ambas as margens do Uruguai. Podia assim, fornecer informações preciosas.

O diretor Faulhaber decidiu-se, após dois dias de minuciosas verificações, pelo amplo vale localizado, às margens do ribeirão Capivara, fixando juntamente com o agrimensor Webering, os limites da futura povoação: desde a foz do rio das Antas no Uruguai até a embocadura do ribeirão Laju e, seguindo pela margem do rio, em direção ao sul, até a foz do riacho que deságua no Uruguai diante da ilha do Pão de Açúcar.

Juntamente com Jacob Schüler, o mestre carpinteiro, foi determinado o local para a construção do primeiro prédio da administração, situado próximo ao porto. Uma pequena elevação rio abaixo, foi escolhida para a edificação do primeiro barracão de imigrantes.

Faulhaber sugeriu que a futura sede fosse denominada "Porto Feliz", sugestão que, alguns dias depois, foi aprovada em Carazinho em reunião dos demais sócios da empresa colonizadora". (Koelln, 1980, p.20). Trata-se portanto de uma citação do livro de KOELLN, Arno. Porto Feliz: a história de uma colonização as margens do rio Uruguai. Mondaí. Improeste. 1980.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 36. Os índios e a civilização. Darcy Ribeiro.

Este é o trigésimo sexto e último trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da análise de João Pacheco de Oliveira, antropólogo do Museu Nacional - da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de Os índios e a civilização, de Darcy Ribeiro. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume II, nas páginas 403 - 422, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. O conceito fundamental do livro é o de transfiguração étnica e a sua primeira publicação data do ano de 1970. Esse conceito está explicitado no subtítulo - a integração das populações indígenas no Brasil moderno.

Trigésima sexta resenha. A última. Volume II. Os índios e a civilização.

João Pacheco inicia a sua resenha falando que Darcy escreveu este livro tendo presente duas lealdades fundamentais: com a seriedade do trabalho científico e com uma profunda vinculação humana com as populações indígenas, com as suas diversidades socioculturais, com a sua penosa integração social e com o destino trágico de suas micro etnias. A sua segunda lealdade confere ao livro um grave tom de indignação e de denúncia.

O resenhista situa o livro como "escrito em linguagem simples e direta, despreocupado em exibir racionalidades ou uma erudição sufocante, tornando explícito seu comprometimento com as populações que estuda, Os índios e a civilização constitui um leitura útil e fascinante mesmo para o leitor comum. Sua carga informativa não é excessiva nem desvinculada dos conceitos que possibilitam compreender qual é e como foi gerada a condição presente das populações indígenas brasileiras, bem como a significação dos mecanismos e políticas acionados por diversos agentes para resolver a questão indígena". Ainda o situa ao lado das grandes interpretações de Brasil como Casa-Grande&Senzala Raízes do Brasil. Entra também nas grandes polêmicas da época, a respeito da integração ou desaparecimento dessas populações.

Afirma a característica da miscigenação como uma das marcas da população brasileira, destacando a presença da mulher indígena no primeiro século de colonização. Não havia praticamente mulheres brancas ou negras. Também apresenta dados históricos como a das tentativas da escravização, o isolamento e as constantes investidas coloniais na expansão da pecuária, das lavouras e de atividades extrativistas e mineradoras, com grandes perdas de núcleos tribais, populacionais e socioculturais. As tendências apontavam para a extinção ou para a adaptação. Apresenta os dados de Julian Stewart, de que no ano de 1500 havia no Brasil 1,1 milhão de indígenas e em 1948, apenas 50 mil, e que, entre 1500 e 1957 houve o desaparecimento de 87 etnias. Às etnias sobreviventes seria necessário garantir a sobrevivência. Vejamos o resenhista: 

"Para conseguir sobreviver essas etnias devem responder a desafios urgentes, buscando preservar sua identidade e autonomia étnica, bem como 'assegurar a continuidade de sua vida cultural mediante alterações estratégicas que evitem a desintegração de seu sistema associativo e a desmoralização completa do seu corpo de crenças e valores'. Esse processo adaptativo, que se impõe como imperativo aos grupos indígenas que sobreviveram ao extermínio, faz com que eles permaneçam indígenas 'já não nos seus hábitos e costumes, mas na auto-identificação como povos distintos do brasileiro e vítimas de sua dominação'. É a isso que Darcy Ribeiro chama de 'transfiguração étnica', afirmando que 'o impacto da civilização sobre as populações tribais dá lugar a transfigurações étnicas e não a assimilação plena"'.

Darcy Ribeiro não é apenas um intelectual, um professor ou um escritor. Ele não atua no abstrato. É também um ator. Aprendeu com Rondon, mas foi para muito além dele. Foi Darcy quem deu os fundamentos do indigenismo brasileiro e quem contribuiu decisivamente para a criação do Parque Indígena do Xingu. Além disso, sempre disse um grande não para a neutralidade. Sempre pôs o seu conhecimento a favor das populações indígenas.

O próprio Darcy define o objetivo de seu livro e de seu trabalho. "Alcançar uma compreensão acurada das situações de interação entre índios e frentes de expansão, a fim de chegar a generalizações significativas sobre o processo de mudança cultural". O plano da obra se divide em três partes. A primeira, visa uma visão de conjunto da sociedade indígena e as frentes de expansão agrícola, pastoril e extrativista, formas de expansão arcaica e despótica, que indicavam para a extinção das culturas. Na segunda, ele mostra as formas de integração entre índios e brancos, a etnocêntrica, romântica e absenteísta. Visou a superação das visões extremadas, em favor da igualdade de condições. Historia a fundação (1910) e a atuação do SPI, até a sua extinção, em 1967, mostrando ainda a atuação dos sertanistas. Na terceira parte ele aprofunda a questão das transfigurações étnicas e analisa o destino dos índios no Brasil.

Darcy também tem clareza  da relação que se estabelece entre a ciência e a ética, sendo a sobrevivência física das populações indígenas a sua preocupação maior, frente as ameaças representadas pela frentes expansionistas das fronteiras econômicas, pelas forças de mercado. Analisa os postos indígenas e a atuação dos antropólogos, condenando as transposições mecânicas. Aí volta para o tema da transfiguração étnica, um processo de sucessivas alterações. Ela obedece a quatro níveis diferentes: o ecológico; o biótico; o tecnológico e sócio econômico; o étnico cultural e sócio psicológico. Visou fundamentar um estatuto teórico para os seus trabalhos de preservação da identidade cultural das populações indígenas brasileiras.

Considera que a integração sempre foi uma acomodação penosa e apresenta dados do ano de 1957, com a diminuição da população e desaparecimento de etnias, apelando para sentimentos humanitários contra a tendência de destruição. Assim ele se manifesta, argumentando que "representando apenas um por mil da população brasileira, os índios são hoje quase inexpressivos no conjunto da nação e seus problemas são imponderáveis como problema nacional [...] as terras de que necessitam e a assistência de que carecem lhes podem ser concedidas sem grandes sacrifícios". Hoje ocupam 18,4% do território da Amazônia e 10% do território brasileiro, muitas dessas  terras em áreas de mananciais e de preservação ambiental. Ele ainda aponta para as perspectivas que se ofereciam ao tempo da escrita do livro, assim apresentadas pelo resenhista: "Embora o Estado brasileiro continue a ser responsável em última instância pelo bem-estar e pelo respeito aos direitos dos índios, não mais possui um poder de tutela sobre eles, que se fazem representar por organizações próprias, que já operam com recursos e parcerias múltiplas, mobilizando apoios em muitos níveis de ação". E João Pacheco de Oliveira assim termina a sua resenha:

"Afastando-se dessas posturas divergentes, Darcy aponta para os cientistas brasileiros uma direção original e crítica - a de uma ciência social consciente de seu enraizamento em uma conjuntura histórica específica, preocupada com o exercício da pesquisa empírica e com a elaboração teórica mas compromissada com os grupos sociais mais desfavorecidos. Recusando-se à condição de ideólogo e justificador do status quo, tomando os índios do Brasil e seus problemas como referência, com esse livro Darcy alcançou projeção nacional e internacional, produzindo o mais lido e conhecido estudo sobre os povos e culturas indígenas de nosso país".

Assim chego ao final desse trabalho levando uma certeza. Quem mais aprendeu fui eu. Como gostaria, que ao menos o mundo acadêmico, tivesse a oportunidade da leitura desses verdadeiros clássicos. Apresento ainda o link das cenas finais da vida de Darcy, quando ele recebe a extrema-unção de Leonardo Boff. Seria o que eu chamaria de uma boa morte. Darcy seguramente partiu em paz.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/04/darcy-ribeiro-recebe-extrema-uncao-de.html

E, ainda uma indicação de Antônio Cândido, do que ele considera o melhor livro sobre o tema nos tempos atuais. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/12/indios-no-brasil-historia-direitos-e.html

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 35. A integração do negro na sociedade de classes. Florestan Fernandes.

Este é o trigésimo quinto trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html 

Trata-se da resenha que Gabriel Cohn, professor do Departamento de Ciência Política da FFCH da Universidade de São Paulo, fez de A integração do negro na sociedade de classes, de Florestan Fernandes. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, volume II, páginas 385 a 402, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. O livro, de dois volumes, aborda essa questão profundamente paradoxal. A integração do negro numa sociedade de classes. A primeira publicação data do ano de 1964.

Florestan Fernandes. No volume II. 

O livro, de dois volumes, O legado da raça branca O limiar de uma nova era, trata da formação de uma sociedade de classes em São Paulo. Trata, portanto, de um dos mais vivos problemas na formação da sociedade brasileira, como o é o da formação de uma sociedade de classes. Limiar de uma nova era era o nome dado ao principal órgão da imprensa negra nesse período. O livro é mais expressão de promessas do que o seu cumprimento, mais de anseios do que sua realização, mais de obstáculos do que trajetos bem sucedidos. Trata de um entrecruzamento de dois graves problemas, o dos ex-escravizados e a formação de uma sociedade de classes. Qual seria o caminho a percorrer? Haveria a abertura de espaços para a integração? Quais seriam as possibilidades de organização e de afirmação como classe?

Não há caminho reto e plano a percorrer. Se houve uma dita "Lei áurea" não houve uma "via áurea" para a efetivação da integração social. O negro deveria se afirmar como negro e como classe. A via, não áurea, o empurrava para o beco. Obstáculos praticamente intransponíveis impediam essa via. A história da sociedade brasileira se defrontava com o dilema de que o passado e o presente comprometiam irremediavelmente o nosso futuro. Mas não era essa a perspectiva da obra. Seria necessária uma mudança qualitativa nas relações. O antigo cativo, agora era um homem negro, membro ativo de uma classe. Sem isso, o dilema se apresentava como insolúvel. Mas como se efetivaria essa mudança? Como pode o antigo cativo afirmar-se como um agente de transformações históricas, liberar as forças antes tolhidas? O negro entra no âmago da história e não à sua margem, nas análises de Florestan. O negro é o povo.

Ao negro coube o pior ponto de partida, de largada, nessa disputa histórica dentro de uma sociedade de classes. Não era mais inteiramente excluído e nem devidamente equipado para a inclusão. Nesse processo era ele o mais vulnerável. Ele move-se em círculos econômicos e políticos fechados que atravessam toda a nossa história, embora, não mais afirmados como tal. Mas esse povo quer emergir da história. Era a parte mais penalizada e a integração não se daria como um dom, mas como uma tarefa, uma missão. Vejamos uma parte dessa análise, na interpretação do resenhista:

'"O ainda, aqui e o agora formaram o objeto de nossas indagações', esclarece o autor na apresentação da obra. Por isso, acrescenta, 'a constelação social constituída pela ordem social competitiva impôs-se como sistema de referência inevitável nas descrições e interpretações'. Repare-se que o foco da análise não é um tipo de sociedade. Este somente é a referência básica (mesmo que o autor explicitamente não vê razão para crer que, tal como se apresenta, essa sociedade pudesse proporcionar 'as soluções efetivas para o dilema racial brasileiro'). Nem mesmo é o negro como categoria social específica, ou nem sequer  as relações entre negros e brancos. O objeto real do estudo é a complexa e tensa dinâmica em que se entrelaçam o presente, o legado do passado e as possibilidades futuras na sociedade brasileira". A identificação de um legado histórico. Ir para além desse legado. Ele contém um fardo e uma promessa. Carga do passado e potência do presente. Um passado de persistência e um futuro como projeção. Os vetores e as linhas de força.

A partir desse ponto o resenhista entra na análise da estrutura da obra, uma obra de 795 páginas. Começa mostrando Florestan e a familiaridade com o tema, a partir de pesquisa realizada junto com Roger Bastide, da qual saiu o livro Brancos e negros em São Paulo. Na continuidade, duas décadas de dedicação ao tema, com enormes avanços especialmente sobre o conceito de "democracia racial", conceito que fundamentava a pesquisa anterior, financiada pela UNESCO. Em uma de suas análises surge um novo personagem, o personagem do povo brasileiro e este povo brasileiro era formado por negros. Do conceito de "democracia racial" ele evolui para o conceito mais amplo de uma democracia em toda a sociedade. E esta democracia tem obstáculos estruturais e de resistências muito fortes para que ela se concretizasse em todas as suas dimensões, a começar pela política. A partir daí apresenta o conteúdo e a forma dos dois volumes de sua obra.

A primeira é mais teórica. Fundamenta-se na coleta de dados retirados de livros, jornais, artigos e relatórios e a segunda consta da análise da pesquisa de campo. O resenhista apresenta alguns dados que considera mais relevantes, como a questão do legado da raça branca, título do primeiro volume. Os brancos viram-se livres de seus escravos, mais do que estes ganharam a sua liberdade. O foco é a cidade de São Paulo e a grande perspectiva é a de como os escravizados, agora livres, reuniam condições de sobrevivência numa sociedade de classes, competitiva, portanto. Para agravar a sua situação somavam-se às condições que traziam da escravidão, a concorrência sofrida com a chegada maciça da vinda de imigrantes europeus. Teriam que disputar os mesmos espaços. O resenhista assim procura interpretar o autor:

"Confrontados com experiências como a do contrato de trabalho eram levados a interpretá-las sob um critério rígido: nada que lembrasse as condições anteriores era aceitável, sobretudo quando estavam envolvidas restrições a uma liberdade percebida de modo difuso. Viam-se, assim, em situações em que o próprio modo como traduziam seu empenho na integração social voltava-se contra eles. Mesmo quando buscavam absorver uma exigência do novo modo de vida, como a ambição por riqueza e o avanço social, o faziam de maneira desastrosa. Essa ambição existia, mas foi 'exatamente a causa de sua perda, pois fomentou opções extremamente rígidas e negativas', comenta o autor. Nessas condições, 'a sociedade de classes torna-se uma miragem, que não lhe abre de pronto nenhuma via de redenção coletiva'. Nessa etapa inicial [...] a liberdade apresenta-se para o povo negro de modo ainda ambivalente, como exigência radical e também como fonte de frustrações. Mas, comenta o autor, 'para expurgar-se de uma herança cultural perniciosa e converter-se em homem livre, o 'negro precisava viver em liberdade. Se chegou a usar a liberdade contra si, isso aconteceu, porque não sabia proceder de outro modo..."'.

Eles teriam que cumprir um 'destino humano', com enormes impactos da liberdade sobre a constituição de sua personalidade. O livro ganha uma grande dramaticidade. Faltavam ao negro suportes perceptivos e cognitivos para uma 'boa' organização do comportamento humano. Florestan chega a usar termos que superam o que antes designava por heranças culturais intransponíveis como 'apanhados numa ratoeira'. Ele padecia de carência de técnicas sociais e culturais diante de sua nova situação. Constantemente ouvia expressões como "Aprenda a agir como branco" ou "Aprenda que você não é branco". Enfim, o problema da inserção numa sociedade de classes era um grande problema que se apresentava para toda a sociedade brasileira. E uma grande e grave pergunta. Até aonde vai a lealdade dos brancos nessa tarefa de integração. Afinal, esta integração não se daria no 'fechado mundo dos brancos'? Vejamos esse mundo, na voz do resenhista:

"Nesse sentido, 'a ordem social competitiva emergiu e expandiu-se, completamente, como um autêntico e fechado mundo dos brancos'. Mas uma ordem social simultaneamente competitiva e fechada é uma aberração, uma fonte de dilemas insolúveis. Claro, concordaria Florestan, e poderia acrescentar: é isso mesmo que eu queria mostrar, examinando como se deu e em nome do que persiste. Mas é a aberração em que historicamente nos foi dado viver, na qual a inconformidade negra não tem como vencer, nem como desistir". O resenhista ainda selecionou um parágrafo relativo aos preconceitos raciais. Vejamos:

"Ao mesmo tempo, não obstante, amortecem ou anulam as repercussões das tendências de democratização da riqueza, do prestígio social e do poder na esfera das relações raciais. Descobre-se, assim, uma faceta deveras instrutiva da nossa realidade racial. Ela sugere que assiste razão aos que apontam o Brasil como um caso extremo de tolerância racial. Entretanto, também evidencia o reverso da medalha, infelizmente negligenciado: a tolerância racial não está a serviço da igualdade racial e, por conseguinte, é uma condição neutra em face dos problemas humanos do 'negro', relacionados com a concentração racial da renda, do prestígio social e do poder. Ela se vincula claramente, de fato, à defesa e à perpetuação indefinida do status quo racial, através de efeitos que promovem a preservação indireta das disparidades sociais, que condicionam a subalternização permanente do negro e do mulato. As vítimas do preconceito e da discriminação são encaradas e tratadas, com relativo decoro e civilidade, como pessoas; contudo, como se fossem pela metade. Os seus interesses materiais ou morais não entram na linha de conta. O que importa, imediata e realmente, é a 'paz social', com tudo o que ela representa como fator de estabilidade dos padrões de dominação racial".

Diante dessa afirmação, dois pequenos parágrafos do resenhista como conclusão. "As consequências desse estado de coisas são muito fundas. Na consciência social do 'branco' o 'preconceito de cor' aparece 'como se constituísse uma necessidade maldita'. E, na mais pungente frase do livro: 'O negro prolonga, assim, o destino do escravo'.

Seres humanos pela metade. Necessidade maldita. prolongamento do destino do escravo. Conclusão: é tempo de se promover a Segunda abolição.

Deixo ainda o link da outra obra de Florestan Fernandes. A revolução burguesa no Brasil.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-19-revolucao.html 

E como de hábito, o trabalho anterior, Ordem e progresso, de Gilberto Freyre.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/06/um-banquete-no-tropico-34-ordem-e.html


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 34. Ordem e progresso. Gilberto Freyre.

Este é o trigésimo quarto trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da análise feita por Élide Rugai Bastos, professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, de Ordem e progresso, de Gilberto Freyre. A resenha encontra-se em  Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, volume II, nas páginas 357 a 384, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. A primeira edição do livro data de 1959. Trata das transformações ocorridas no Brasil, na transição do Império para a República. A análise alcança, assim, a última década do século XIX e as três primeiras do XX.

No volume II, a resenha de Ordem e progresso.

A primeira observação da resenhista Élide Rugai Bastos sobre Ordem e progresso é relativa a uma observação de Freyre na apresentação: Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil - 3. Assim ele sugere uma unidade entre os seus três grandes livros. A formação pré nacional e nacional da sociedade brasileira em Casa-Grande&Senzala, a decadência do patriarcado rural até a República em Sobrados e mucambos e a análise da última década do século XIX e as três primeiras do XX, em Ordem e progresso. Os dois primeiros volumes tem o nordeste como cenário, enquanto que o terceiro, já abrange o Brasil inteiro. Segundo a crítica, este terceiro volume não teve o mesmo alcance que os dois anteriores.

A resenhista afirma ser o livro uma resposta à pergunta de como se manteve, na mudança do regime monárquico para o republicano, a organicidade da sociedade e a unidade nacional. De como se manteve a ordem democrática em meio a alterações bastante acentuadas, alterações na linguagem, nas crenças, na moda, na higiene, no sanitarismo, na urbanização, nas instituições e na economia. As diferentes regiões tem também ordem e progresso diferenciados. A base para o livro são entrevistas que Freyre realizou junto a pessoas que viveram as transições. O livro não é basicamente organizado em capítulos, mas em ensaios. O livro mostra também a quase total apatia do povo com relação às mudanças ocorridas. Houve uma adesão sem entusiasmo.

Três teriam sido os fatores responsáveis pelo relativo êxito do novo regime: a manutenção da integridade territorial, a defesa da propriedade e a defesa das liberdades individuais. Nenhuma voz poderosa saiu em defesa da Monarquia. Não éramos ainda um povo, numa definição sociológica. O lema "Ordem e progresso", privilegiava muito mais a ordem do que o progresso. Os nossos maiores revolucionários eram conservadores. Aqui os ventos revolucionários franceses sempre tiveram pouca força. A República representava uma continuidade de nosso passado, tendo o exército como guardião da ordem.

Uma importante parte do livro é dedicada às novas formas de socialização, acompanhando o fenômeno da transição do mundo rural para o urbano. Preserva-se, no entanto, todas as distinções entre a socialização dos meninos e das meninas e os modos europeus se impõem às do mundo rural do passado. Esse fenômeno passa por uma grande mudança em todos os hábitos e costumes. Mudanças também são trazidas pelo fenômeno da industrialização e da imigração. Abrem-se espaços, ainda que pequenos, para a democratização das relações sociais e dos mecanismos de ascensão social. Na educação ocorrem mudanças de método e de conteúdo.

Também merece destaque a observação de que a mudança mais profunda não foi a da Monarquia para a República, mas sim, a da abolição da escravidão, emancipação mais teórica do que prática. Houve também grandes dificuldades de inserção do negro e da mulher nas estruturas sociais em mudança, fator que causou grandes insatisfações, afetando a estabilidade social. O país necessitaria de mudanças mais profundas, as de superfície já não davam conta da manutenção da ordem. A indústria representou a modernização mas relegou a um segundo plano a economia do campo. Houve também toda uma secularização nos valores que regiam a sociedade. A assistência social saiu das instituições de caridade para as mãos do Estado, o que representou um total abandono. A religião perdeu a sua condição de guardiã da moralidade, os costumes se secularizaram e a liberdade religiosa foi ganhando força. Tudo isso como consequência da separação entre Igreja e Estado, no advento da República. A análise ainda passa pela ebulição dos anos 1920. A questão social vai ganhando força e a República passa a viver a sua grande crise, crise de descompasso entre o governo e a sociedade. A modernização foi feita de cima para baixo. Sempre uma modernização conservadora.

Em suma, o livro que não é de fácil leitura, procurou a resposta à pergunta inicialmente feita. Vejamos o parágrafo final da resenha: "A tarefa que Gilberto propõe à sociologia é a resposta à pergunta: como se mantém a organicidade e a unidade nacionais? Vai buscá-la na análise das formas pelas quais se dá a internalização da ordem social, no caso do texto, através do processo de socialização. Aqui reside o grande alcance de seu livro. Mas também o seu limite, o que levou a que se fizessem várias críticas ao trabalho, principalmente na direção de apontar-se a centralidade de sua análise na esfera da cultura, o que o impede de abordar de frente os desafios contidos no projeto emancipatório da modernidade".

Deixo ainda a resenha dos dois livros anteriores. Casa-Grande&Senzala

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-10-casa-grande.html

Sobrados e mucambos. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/06/um-banquete-no-tropico-33-sobrados-e.html


sábado, 23 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 33. Sobrados e mucambos. Gilberto Freyre.

Este o trigésimo terceiro trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha feita por Brasílio Sallum Jr., professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, de Sobrados e mucambos, de Gilberto Freyre. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - um banquete no trópico, volume II, nas páginas 327 a 356, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. Sobrados e mucambos analisa o processo de urbanização do Brasil e a decadência do patriarcalismo que se formou nos três primeiros séculos de nossa colonização. Além disso o livro desfaz o mito de que a miscigenação seria um fator impeditivo para o nosso desenvolvimento. A primeira publicação data do ano de 1936.

No volume II, a resenha de Sobrados e mucambos. 


O livro teve boa recepção mas não chegou a repetir os êxitos de Casa-Grande&Senzala. Na segunda edição o livro veio com acréscimos e reformulações. É um livro contra as crenças da época, de que clima, raça e a incivilidade dos portugueses seriam um impedimento para o nosso processo civilizatório. A partir da destruição desses pilares foi possível uma nova visão, uma visão positiva para o Brasil. O livro também louva a miscigenação, que se refletiu numa maior adaptabilidade, ao contrário da rigidez calvinista dos ingleses. O livro, nesse sentido, representa uma continuidade de Casa-Grande&Senzala ao romper com os complexos de inferioridade e afirmar possibilidades de grandeza para Brasil. O livro tem como foco a organização patriarcal da sociedade brasileira. Vejamos as palavras do resenhista: "Com efeito, no período colonial brasileiro, a família patriarcal arraigada no meio rural fora a forma de organização social mediante a qual os processos de miscigenação cultural e racial se desenvolveram, amortecendo as oposições inerentes às relações entre brancos e escravos de cor".

O subtítulo de Sobrados e mucambos também entrega o teor do livro: decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano. O fenômeno do urbano passa a ocorrer com maior intensidade a partir do final do século XVIII e ao longo do século XIX. A vinda da família real ao Brasil (1808) foi decisiva para tal fator. O livro está estruturado em torno de doze capítulos, escritos em forma de espiral, com idas e vindas.

Raça, classe e região se constituem no âmago do livro. O patriarcado colonial brasileiro foi muito mais do que a simples família e agregados. Foi uma verdadeira instituição, um complexo econômico, social e político, com inúmeras variações, ocorridas ao longo de quatro séculos. Foi uma espécie de organização feudal da economia, com toda a rigidez da inflexibilidade da mobilidade social, permitida apenas por pequenas brechas, possíveis graças ao pastoreio e o cultivo de alguns produtos para a auto suficiência da Casa-Grande. Apesar de toda a rigidez da estrutura, a miscigenação aconteceu com a fusão racial e cultural entre portugueses, negros africanos e as populações indígenas nativas. Vejamos este fato nas palavras do próprio Freyre:

"Até o que havia de mais renitentemente aristocrático na organização patriarcal de família, de economia e de cultura foi atingido pelo que sempre houve de contagiosamente democrático ou democratizante e até anarquizante, no amalgamento de raças e culturas e, até certo ponto, de tipos regionais, dando-se uma espécie de despedaçamento das formas mais duras, ou menos plásticas, por excesso de trepidação ou inquietação dos conteúdos".

Essa estrutura patriarcal rural começa a ruir com o fenômeno da urbanização, em que a cidade se volta contra o engenho e o Estado começa a intervir na estrutura da família. A Coroa e a cidade entram em conflito com a aristocracia rural. A urbanização, que já iniciara em Pernambuco e em Minas Gerais se acentua com o estabelecimento da família real no Rio de Janeiro. A vida urbana se adensava. Todos queriam estar sob o olhar do rei. Freyre aponta para o surgimento do urbano. Ocorreu "uma diminuição da distância não só física como social entre a gente senhoril e atividades mecânicas, comerciais, industriais que começaram a desenvolver-se, nas mesmas cidades, em relativa independência dos senhores de sobrados, embora, principalmente, para seu uso e conveniência". E o resenhista acrescenta. "A serviço dos sobrados surgiram marcenarias e carpintarias, boticas e drogarias, sorveterias onde também vendiam-se doces finos; lojas de miudezas ou de ferragens, armazéns de secos e molhados, alfaiatarias, casas de pianos e de música, colégios, bancos, etc.".

Começam então também os enormes contrastes urbanos, mas em formas diferentes da organização patriarcal. Se acentuam as polarizações sociais. Vejamos duas citações em referência. "... os jardins, os passeios chamados públicos, as praças sombreadas de gameleiras, e, por muito tempo, cercadas de grades de ferro semelhantes às que foram substituindo os muros em redor das casas mais elegantes, se limitavam ao uso de gente de botina, de cartola, de gravata, de chapéu-de-sol [...] [Limitavam-se] ao uso e gozo do homem de certa situação social - mas do homem, a mulher e o menino conservando-se dentro de casa, ou, no fundo do sítio, quando muito na varanda, no postigo, no palanque do muro, na grade do jardim". Por outro lado, a exclusão.

"Não só os negros de pé no chão [...] como aos próprios caixeiros  de chinelo de tapete e cabelo cortado à escovinha e até aos portugueses gordos de tamanco e cara raspada estavam fechados aqueles jardins e passeios chamados públicos, aquelas calçadas e ruas nobres, por onde os homens de posição, senhores de barba fechada ou de suíças, de botinas de bico fino, de cartola, de gravata, ostentavam todas essas insígnias de raça superior, de classe dominadora, de sexo privilegiado, à sombra de chapéus-de-sol de quase réis".

Com a urbanização surgiram outras vozes, para além do patriarca, como a da Igreja, do governo, do banco, do colégio, da fábrica, da oficina, da loja, do médico, do juiz, da polícia. Tudo isso significou redução do poder patriarcal. A praça voltara-se contra a roça, o Estado contra a família e o governo contra o Patriarca. Um dos mais belos capítulos, com certeza, é o que trata das relações familiares, marido e mulher, pais e filhos. Constata-se o minar do poder do Pater familias, pela diminuição da distância entre os seus membros. Ventos de emancipação individual. É o capítulo terceiro que trata da relação pai e filho. Dissolvem-se as chamadas pedagogias sádicas da violência, da imposição pela força. Da mesma forma mudaram as relações marido e mulher, que sob o patriarcado eram relações mórbidas.

Freyre mostra a origem dessas mudanças: "muito menos devoção religiosa que antigamente. Menos confessionário. Menos conversa com as mucamas. menos história da carrochinha contada pela negra velha. E mais romance. O médico da família mais poderoso que o confessor. O teatro seduzindo a mulher elegante mais que a igreja. O próprio "baile mascarado" atraindo senhoras de sobrado". Mas no geral, os espaços femininos ainda se limitavam aos espaços domésticos. Mas de uma maneira geral, os fenômenos sociológicos começaram a se impor aos fatores biológicos.

Outro fenômeno observado por Freyre é a volta da europeização com a urbanização. Com a abolição do tráfico, as influências orientais trazidas pela cultura africana se fragilizam e, com a vinda da família real, se acentuam as influências europeizantes. O mesmo ocorre com a ida dos filhos da aristocracia às universidades europeias. Na volta trazem junto os hábitos adquiridos ao longo de suas permanências. As influências inglesas e francesas passam a ser totalmente preponderantes. Para isso também contribui a chamada revolução tecnológica, fenômeno que também mexeu na rigidez da estrutura social, permitindo possibilidades de ascensão. As relações sociais se burocratizam. A urbanização também permite a ascensão do bacharel e do mulato. Ocorre inclusive, o chamado fenômeno do bacharelismo, fenômeno esse acusado de tantos males, por motivo de transposições culturais das instituições europeias, alheias à realidade brasileira. O bacharelismo se acentua com a criação dos cursos de Direito no Recife e em São Paulo.

Em suma, Freyre destaca o elemento da miscigenação em nossa formação como altamente positivo. "O característico mais vivo do ambiente social brasileiro parece-nos hoje o da reciprocidade entre as culturas; e não o marcado pelo domínio de uma sobre a outra, ao ponto da de baixo nada poder dar de si, conservando-se como em outros países de miscigenação, num estado de quase permanente crispação ou de recalque".

Por fim, os dois parágrafos finais da análise do resenhista, destacando os valores da miscigenação, biológica e social: "E acrescenta, incluindo os imigrantes no argumento: 'Biológica e sociologicamente mestiça. Pois consideráveis grupos de populações meridionais do Brasil, cuja situação de filhos de italianos, poloneses, alemães, sírios, japoneses assemelha-se psicologicamente e sociologicamente - embora não culturalmente - à de mestiços, dão extensão à caracterização da massa brasileira como massa mestiça'. Isso permitiria entender por que há, ao invés, incompreensão entre a massa brasileira e os líderes de tipo 'europeu'.

Essas e outras questões, que dizem respeito ao surgimento no Brasil de uma sociedade ao mesmo tempo mestiça, diversificada, na sua composição étnica e cultural e predominantemente individualista na sua organização familiar, não são tratadas com mais minúcia em Sobrados e mucambos. São deixadas para o próximo volume da série, Ordem e progresso".

Deixo ainda a resenha de Casa-Grande&Senzala.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-10-casa-grande.html 

E, como de hábito, o trabalho anterior, Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Viana.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-32-populacoes.html


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 32. Populações meridionais do Brasil. Oliveira Viana.

Este é o trigésimo segundo trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha feita por Gildo Marçal Brandão, professor do departamento de Política da Universidade de São Paulo, de Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. A resenha encontra-se no livro Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume II, páginas 299 a 325, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. O livro possui dois volumes, sendo o primeiro publicado em 1920 e o segundo em 1952. Um terceiro volume foi projetado, mas nunca publicado.

No volume II, a resenha de Populações meridionais do Brasil.

A culpa dos problemas brasileiros deve ser debitada na conta dos liberais, por quererem transplantar para cá o parlamentarismo inglês, a democracia liberal francesa e o federalismo e a descentralização dos Estados Unidos. Por sermos distintos desses povos, não poderíamos ter copiado suas instituições, mas sim, ter criado as nossas, a partir do conhecimento de nós mesmos, pelo conhecimento de nossa formação histórico-social, pela criação de instituições políticas próprias. Como remédio, pregava a necessidade de uma "coragem infinita", de "contravir ostensivamente às ideias de liberdade" e construir um poderoso Estado centralizado, "capaz de impor-se a todo o país pelo prestígio fascinante de uma grande missão nacional". É assim que, mais ou menos, Gildo Marçal Brandão abre a resenha do livro de Oliveira Viana, Populações meridionais do Brasil.

Para isso, Oliveira Viana, fluminense de Saquarema, formado em direito pelo Rio de Janeiro, militante na imprensa do estado, se embrenhou por um vasto campo de pesquisas, das quais deveriam sair três livros. Dois efetivamente aconteceram. O primeiro foi escrito entre 1916-1918 e publicado em 1920, com o título Populações meridionais do Brasil. O livro foi recebido com raro entusiasmo e se somava à todas as críticas que se dirigiam ao regime republicano brasileiro. Ele estudava as populações de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. O principal fundamento da obra é o racismo e a condenação da mestiçagem, que serviram de artilharia contra ele, disparadas por autores como Sérgio Buarque de Holanda, Nelson W. Sodré, Dante M. Leite, José Honório Rodrigues e Vanilda Paiva. Bateram pesado em suas concepções arianizantes, de centralização e de um Estado forte e autoritário.

Se jogássemos fora essas velharias racistas, nos assegura o resenhista, o livro poderia figurar ao lado da obra de Gilberto Freyre e de Caio Prado Júnior, na estante de livros sobre a formação do pensamento social e político brasileiro. Apesar de tudo ele aponta para as grande feridas incrustadas em nossa história. O seu livro estuda as instituições e a psicologias das populações, paulista, fluminense e mineira, no primeiro volume e os gaúchos, no segundo. Este segundo volume aparece apenas em 1952, livro póstumo e em condições que já não lhe eram mais favoráveis. O terceiro volume, sobre as populações setentrionais, com foco maior no Ceará, não chegou nem a ser começado. Trata-se de um projeto extremamente ambicioso.

Qual era a sua intenção? O que lhe interessa, afirma o resenhista, é, com base nesse conhecimento 'realístico" e "objetivo, formular um projeto de um novo Estado e uma nova diretriz política capaz de criar uma nação solidária, retomando a obra interrompida dos "reacionários audazes" que salvaram o Império. A crítica dirige-se a intelectuais juridicistas como Ruy Barbosa.

Os seus livros constituíam assim, um projeto de salvação para o país. O resenhista aponta tratar-se de um livro de difícil leitura, por falta de uma maior sistematização e em que o principal nem sempre está evidente. São matérias ajuntadas, sem as costuras de ligação. Os dois volumes poderiam ter sido bem enxugados. No volume sobre o sul aborda o conflito entre portugueses e espanhóis, entre outros temas, como os dez anos da República Piratini. O seu principal foco é o da formação de uma aristocracia rural, dotada de rara nobreza. Se formaram três grandes tipos de povo, conforme as diferentes regiões. Também existe uma certa tensão entre os dois volumes. Não consegue harmonizar "a franca apologia ao espírito guerreiro e político, autoritário e democrático do gaúcho, nem sempre compatível com a "função providencial" e "força ponderadora" que reserva às populações meridionais", nos assevera o resenhista.

O resenhista também faz uma importante observação com relação ao método da obra. Por método se entendia a posição que o autor tomava diante da realidade, bem como o uso do conhecimento para mudar essa realidade. Dessa forma seus inimigos eram o bacharelismo dos políticos e juristas, com raciocínios abstratos e soluções livrescas, contra as quais apresentava suas soluções fundadas no conhecimento obtido através de suas pesquisas. Considera que ao longo dos primeiros séculos coloniais houve duas grandes rupturas: A primeira, a da independência, com muitas permanências e a segunda, com a República e a descentralização. Esta foi precedida pela abolição, com a desestruturação total da nossa economia. Dá grande destaque para a questão de que na formação brasileira o rural prevaleceu sobre o mundo urbano. Nesse mundo rural formou-se uma aristocracia, merecedora de todos os seus elogios.

E aí, como nos aponta a resenha, seguem-se as partes mais criticadas do livro. Afirma que os primeiros portugueses que aqui aportaram não eram degradados, mas pertenciam a mais alta nobreza, eram cultos, ativos e empreendedores. Eugenicamente eram e se mantiveram puros. Reproduziram os seus valores em São Paulo e em Pernambuco. Ao longo de três séculos passaram por um processo seletivo de formação de uma aristocracia rural. Tinham pela frente um mundo a explorar. Os caminhos apontavam para o interior, como aconteceu, especialmente com a descoberta do ouro em Minas Gerais.

Esta aristocracia rural se constitui no "centro de polarização dos elementos arianos da nacionalidade". Mantiveram as melhores qualidades de sua ancestralidade lusitana. A dissolução acontecia na plebe, que acusa de debilidade moral. Mas estes não ascendiam. Vejamos uma citação sua: "Os preconceitos de cor e sangue, que reinam tão soberanamente na sociedade do I e II e III séculos, tem, destarte, uma função verdadeiramente providencial. São admiráveis os aparelhos seletivos, que impedem a ascensão até às classes dirigentes desses mestiços inferiores, que formigam nas subcamadas da população dos latifúndios e formam a base numérica das bandeiras colonizadoras".

Além da miscigenação, a grande propriedade levou ao imperativo da escravidão e, pela ausência de oportunidades, à simplificação da estrutura social, sempre apenas, dual. Em suma, os primeiros séculos foram marcado por poucos conflitos externos, nada além de escaramuças litorâneas e no sul e na questão interna nem índios, nem quilombolas ofereceram grande resistência. Os clãs patriarcais marcaram três séculos de colonização. Havia pouca solidariedade social e a justiça era um instrumento de dominação do senhor. Assim sintetiza esse período colonial:

"As instituições de ordem administrativa e política, que regem nossa sociedade durante a sua evolução histórica, não amparam nunca, de modo cabal, os cidadãos sem fortuna, as classes inferiores, as camadas proletárias contra a violência, o arbítrio e a ilegalidade. Por outro lado, esse amparo também não encontram elas em quaisquer outras instituições de ordem privada e social".

A terceira e quarta parte dos dois volumes são dedicados às funções sociais da aristocracia. Elas eram alijadas das decisões. Todas elas eram da competência da Coroa. A vinda da família real afetou profundamente a estrutura social, com uma crescente tendência à urbanização. Todos queriam viver próximos à "Versalhes Tropical". E ao lado da aristocracia rural forma-se uma burguesia urbana, composta de portugueses sem pedigree. Ao redor da corte forma-se também um círculos de parasitas funcionários. A partir de 1818 começam as hostilidades contra os portugueses. Também as elites regionais, municipais e estaduais merecem a sua atenção.

O acidente da vinda de D. João alterou significativamente a nossa estruturação social. Com a independência entramos em nosso IV século de história, o mais promissor, em que o imperador conseguiu conter os caudilhos, em alternância de poder entre conservadores e liberas e vivemos um período de "unidade, ascendência, consolidação e estabilidade". Para isso muito contribuíram o Conselho de Estado e o Senado. O conselho era formado pelos homens da aristocracia rural. As medidas centralizadoras de 1841, tudo fizeram para melhorar a situação. A ordem centralizadora do império precisaria ser retomada. A ordem prevaleceria sobre a liberdade, para a construção da "boa ordem".

Por fim, o resenhista aponta para os objetivos da obra, - primeiro: "Realizar, pela ação racional do Estado, o milagre de dar a essa nacionalidade em formação uma subconsciência jurídica, criando-lhe a medula da legalidade, os instintos viscerais da obediência à autoridade e à lei, aquilo que Ihering chama 'o poder moral da ideia do Estado"' e, segundo:

"A predominância da autoridade sobre a liberdade resultava, portanto, da inorganicidade da sociedade civil. Nação e liberdade não sobreviveriam sem um Estado forte, qualificado, imune aos particularismos, capaz de subordinar o interesse privado ao social e controlar os efeitos destrutivos desencadeados com a Abolição. Direitos civis e unidade nacional garantidos pela centralização política, eis o programa de Oliveira Viana. O amplo diagnóstico de Populações meridionais do Brasil contém uma política - o fortalecimento e a modernização do Estado, o resgate das raízes agrárias da vida social, a educação das oligarquias, a recusa à democracia liberal e representativa, etc. -, mas será preciso esperar os anos 1930 para que ela se converta em políticas, em instrumentos estatais de intervenção social". Deixo ainda o livro de Oliveira Viana, Instituições políticas brasileiras, aqui já resenhado.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico-14-instituicoes.html e, como de hábito, o último trabalho publicado, História da literatura brasileira de José veríssimo.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-31-historia-da.html

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Um banquete no trópico. 31. História da literatura brasileira. José Veríssimo.

Este é o trigésimo primeiro trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha feita por João Alexandre Barbosa, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, de História da literatura brasileira, de José Veríssimo. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume II, nas páginas 279 a 297, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. A publicação da obra é póstuma, do ano de 1916, o mesmo ano de sua morte.

No volume II, a resenha da História da literatura brasileira. 


A resenha apresenta três grandes tópicos: o autor e o contexto da obra, o contexto da época e a análise de seu livro. José Veríssimo nasceu em Óbidos, no Pará, em 1857 e morreu no Rio de Janeiro em 1916. Ingressou na escola politécnica do Rio de Janeiro, interrompendo porém, o curso por motivos de saúde. Dedica então os seus estudos à crítica literária, sendo uma das lideranças críticas da intelectualidade brasileira. No Rio de Janeiro é assíduo colaborador de jornais e revistas. O seu livro é uma coletânea de artigos já anteriormente publicados. Teve notável desempenho na criação e estruturação da Academia Brasileira de Letras. Otto Maria Carpeaux assim define o seu livro: "O livro não é propriamente obra de um historiador de letras e sim a palavra final de um crítico literário".

O livro é formado por dezenove capítulos, precedidos de uma introdução, que, para facilitar o acompanhamento, eu nomino. I. A primitiva sociedade colonial; II. Primeiras manifestações literárias; III. O grupo baiano; IV. Gregório de Matos; V. Aspectos literários do século XVIII; VI. A plêiade mineira; VII. Os predecessores do romantismo; VIII. O romantismo e a primeira geração romântica; IX. Magalhães e o romantismo; X. Os próceres do romantismo; XI. Gonçalves Dias e o grupo maranhense; XII. A segunda geração romântica, os prosadores; XIII. A segunda geração romântica, os poetas; XIV. Os últimos românticos (prosadores e poetas); XV. O modernismo; XVI. O naturalismo e o parnasianismo; XVII. O teatro e a literatura dramática; XVIII. Publicistas, oradores, críticos; XIX. Machado de Assis.

José Veríssimo professava o naturalismo. O resenhista chama a atenção para a ausência dos poetas simbolistas e destaca os capítulos IV e XIX, dedicados a Gregório de Matos e Machado de Assis. Em parte desconsidera a importância de Gregório de Matos e quanto a Machado de Assis, mais o consagra do que critica. O resenhista também destaca a ênfase dada ao romantismo, ao qual dedica oito capítulos.

Quanto ao contexto da época, as atividades crítico-literárias e históricas faziam parte do seu tempo. A sua História da literatura brasileira é a terceira obra do gênero. Foi precedido por Ferdinand Wolf e o seu O Brasil literário e Sílvio Romero com a sua História da Literatura brasileira. A crítica literária surgiu com as academias do período romântico, na busca de uma identidade nacional e o desejo pela independência política. Foram essas sínteses que possibilitaram o grande livro de Antônio Cândido. Seu tempo foi um tempo de enfrentar o positivismo e o evolucionismo e os determinismos que provocavam a descrença no Brasil. Também recebeu as influências estrangeiras do período. Vejamos: "Com essa indicação de fontes estrangeiras, que completam as brasileiras da herança romântica e da contracorrente romerina (Sílvio Romero), está desenhado o contexto mais amplo para a leitura de História da literatura brasileira.

A obra reflete a tensão entre a dependência e a autonomia com relação a literatura portuguesa, trazida pelo romantismo e ele traça belos paralelos de correlação. "A literatura que se escreve no Brasil é já a expressão de um pensamento e sentimento que não se confundem mais com o português, e em forma que, apesar da comunidade de língua, não é mais inteiramente portuguesa. É isto absolutamente certo desde o Romantismo, que foi a nossa emancipação literária, seguindo-se naturalmente à nossa independência política...". A partir dessas observações ele segue a periodização que podemos observar no sumário, com toda a ênfase, que já apontamos, para o romantismo. Ele dá grande importância à escolha dos autores que ele analisa. Ele os escolhe a partir de uma concepção humanizadora da literatura, que aprendeu com Lanson. Vejamos uma transcrição sua (belíssima, por sinal) desse autor:

"A literatura destina-se a nos causar um prazer intelectual, conjunto ao exercício de nossas faculdades intelectuais, e do qual lucrem estas mais força, ductilidade e riqueza. É assim a literatura um instrumento da cultura interior, tal o seu verdadeiro ofício. Possui a superior excelência de habituar-se a tomar gosto pelas ideias. Faz com que encontremos num emprego do nosso pensamento, simultaneamente um prazer, um repouso, uma renovação. Descansa das tarefas profissionais e sobreleva o espírito aos conhecimentos, aos interesses, aos preconceitos de ofício, ela 'humaniza' os especialistas. Mais do que nunca precisam hoje os espíritos de têmpera filosófica; os estudos técnicos de filosofia, porém, nem todos são acessíveis. É a literatura, no mais nobre sentido do termo, uma vulgarização da filosofia: mediante ela são as nossas sociedades atravessadas por todas as grandes correntes filosóficas determinantes do progresso ou ao menos das mudanças sociais; é ela  quem mantém nas almas, sem isso deprimidas pela necessidade de viver e afogadas nas preocupações materiais, a ânsia das altas questões que dominam a vida e lhe dão um sentido ou um alvo. Para muitos dos nossos contemporâneos sumiu-se-lhes a religião, anda longe a ciência; da literatura somente advém os estímulos que os arrancam ao egoísmo estreito ou ao menos mister embrutecedor". 

Num passeio pelos capítulos, o resenhista se detém no de número XV, sobre o modernismo. Ele traça as suas raízes: "O movimento de ideias que antes de acabada a primeira metade do século XIX se começa a operar na Europa com o positivismo comtista, o transformismo darwinista, o evolucionismo spenceriano, o intelectualismo de Taine e Renan e quejandas correntes de pensamento, que, influindo na literatura, deviam por termo ao domínio exclusivo do Romantismo, só se entrou a sentir no Brasil, pelo menos, vinte anos depois de verificada a sua infância ali". É o movimento mundial influenciando a nossa literatura.

Vejamos ainda o parágrafo final da resenha: "Sendo assim, com a sua História, José Veríssimo, por um lado, encerrava toda aquela sequência de esforços oitocentistas em pró de uma história literária brasileira, desde os primeiros indícios românticos até a contracorrente de Sílvio Romero, por outro, de uma outra maneira, até mesmo pelas dificuldades em que se debatia, iniciava a abertura para uma nova historiografia que somente quase meio século depois, nos anos 50 do século XX, encontraria a sua real continuidade".  Deixo ainda dois links, que podem ajudar na interpretação desse trabalho. O primeiro sobre o livro de Sílvio Romero e o segundo, o de Antônio Cândido.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-27-historia-da.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico17-formacao-da.html

E, como de hábito, o trabalho anterior, sobre A organização nacional, de Alberto Torres.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-30-organizacao.html