sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Sonho de professor do Paraná. Sebastião Donizete Santarosa.

Hoje, mais uma vez, pedi permissão para o meu amigo Sebastião, para a publicação de um texto seu. Esse texto é uma perfeita análise de conjuntura sobre o que está acontecendo com a educação pública no estado do Paraná, sob o comando de um homem de negócios, profissão de origem do secretário. Quanto ao texto, me abstenho de tecer comentários por considerá-los desnecessários, tal a sua força. Vou me permitir apenas uma observação e uma epígrafe. A observação, a tomo da memória das aulas de teorias pedagógicas, que nos apresentam três vertentes fundamentais: a escola tradicional, a escola nova e a escola tecnicista. A escola tradicional se centra no professor; a escola nova, no aluno e a escola tecnicista - nem no professor, nem no aluno, mas nos meios. Que escola é essa?

Quanto a epígrafe, que creio refletir bem os ideais e sonhos de formação humana do professor Sebastião, a retiro da revista CULT, ano 24 - Janeiro 2021 - edição 265.

"Não sou de forma alguma um otimista [...] sou um prisioneiro da esperança". Cornel West, filósofo e ativista estadunidense. Afrodescendente. 1993.

Sonho de professor do Paraná.

Hoje, vésperas de início de ano letivo em tempos de pandemia, tive um sonho como se fosse uma fotografia. A sala de aula estava cheia. Conversas, risos, reflexões provocativas, brilho nos olhos, esperanças brotando à flor da pele. Era a magia do ensinar e do aprender. Era a escola da alegria, do culto à liberdade e ao direito de criação e de recriação da própria vida.

Mas, em um de repente, de forma muito rápida sem que ninguém esperasse, se fez um silêncio nebuloso. A porta da sala de aula se abriu e uma sombra gelada invadiu corpos e mentes dos estudantes. Pela mesma porta, entrou um sujeito magro, cheiroso e muito bem vestido. Em seu rosto se estampava um sorriso. Um sorriso estranho e assustador. Ele deu um bom dia a todos quase gritado. Em uma de suas mãos, o sujeito sorridente segurava uma corda. Em trejeitos de uma dança macabra, começou a puxar essa corda. Presos a ela pelos pescoços, começaram a surgir na sala os professores da escola. Cabeças caídas, corpos amarelados, mãos amarradas atrás das costas, bocas amordaçadas. "Entrem, queridos mestres. Vocês são o que a escola tem de mais importante. Sem vocês, jamais atingiremos nossos objetivos", bradava a voz do sujeito sorridente, dominando todos os espaços da sala e congelando o tempo. "Entrem. Entrem. Vejam o que eu lhes ofereço. Nosso estado, graças a vocês, terá a melhor educação do Brasil".

De uma grande sacola de supermercado, ele foi retirando equipamentos eletrônicos e colocando-os à frente dos professores amarrados. Eram celulares, computadores, câmeras, telefones, antenas, microfones, lâmpadas, televisores, coisas que nem sabíamos o que eram de verdade. "Vejam a maravilha dos recursos que trago para vocês. Nunca mais vocês precisarão se aborrecer preparando aulas e corrigindo provas". Como mágico em um palco, ele tentou ligar um dos equipamentos para demonstrar a maravilha que era. Mexeu em um e em outro botão. Não funcionou. O sorriso em seu rosto deu uma encrespada, amarfanhou-se. Uma teia de rugas se formaram ao redor de seus olhos. Parecia estar ficando muito irritado, mas rapidamente retomou a postura inicial de confiança e disse que os professores iriam ter formação para trabalhar com aquele equipamento, eram só detalhes.

Voltou -se para os alunos: "O que falta para nossos professores é domínio tecnológico. Muitos, infelizmente, ainda são verdadeiros analfabetos. Faremos testes seletivos anualmente para contratar novos professores, mais capacitados. Vamos criar meios para demitir aqueles que não se atualizarem.

Queremos construir a melhor educação do Brasil. Isso se faz com tecnologia e com gente preparada para lidar com ela". Os alunos, em silêncio petrificado, pairavam os olhares ao horror da presença dos corpos dos professores mortificados. O sujeito sorridente e bem vestido voltou -se novamente para eles: "A escola é para vocês. O mais importante é vocês aprenderem. Estou organizando muitos conteúdos, slides e exercícios que vocês receberão pela internet na casa de vocês todos os dias. Vocês farão quatro provas de avaliação por ano. Vou colocar a polícia na escola para garantir a disciplina. Vou ensinar educação financeira pra vocês deixarem de ser consumistas. Vou tirar da escola essas disciplinas chatas que obrigam vocês a ter que pensar. Eu vou, eu vou..."

E, como um disco riscado, uma fita enroscada, uma carta mal escrita ou um live com falhas de conexão, o sujeito sorridente começou a gaguejar. Raios de sofrimento inundaram seu rosto. Fazia um esforço enorme para articular as palavras. De sua boca saiam grunhidos que ninguém entendia. Ele era agora uma máquina enguiçada, um motor estragado. De sua cabeça começou a sair fumaça. Começam a saltar parafusos e molas das pernas, dos braços, do abdômen. Do peito brotou uma lâmina afiada derretendo.

Sob os olhares atentos e estupefatos dos estudantes, os professores começaram a levantar as cabeças, soltavam um a um os nós que prendiam as mãos e tiravam as cordas dos pescoços. Seus rostos começavam a ganhar cor e seus olhos voltavam a brilhar. Juntos, de mãos dadas, fizeram um círculo em torno do monte de peças soltas que até há alguns minutos formavam o sujeito sorridente e bem vestido. Com uma vassoura e uma pá de lixo, colocaram o monte de molas e de parafusos queimados no saco plástico do supermercado, aquele mesmo onde estavam os equipamentos eletrônicos. A sombra fria foi se desfazendo.

Reecantados, professores e estudantes estampavam em seus rostos um sorriso alegre de quem ama a vida, de quem quer ensinar e aprender para torná-la ainda mais alegre e mais bonita. Dia 18 de fevereiro começa a nossa greve. #forarenatofeder é um imperativo ético.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Sobre educação - gratidão - invisibilidade e imensurabilidade de seus resultados.

Confesso que os tempos que estamos vivendo não são os melhores. São tempos meio depressivos. Tempos de afirmação de cloroquina e ivermectina, símbolos maiores dos tempos negacionistas que se instalaram nas altas esferas de poder desse "pobre país". Estamos assistindo o triunfo das nulidades e das indecências morais e éticas. Na educação - então! A formação humana, na concepção de Bildung ou Aussbildung se transformou em inimiga dos governantes dessa geração cloroquina no poder. Tempos de triunfo do antiintelectualismo.

"Constituído de modo correto e sem falha, nas mãos, nos pés e no espírito" (Página 13). Um conceito símbolo retirado de um livro símbolo sobre a educação como formação integral do ser humano. Paideia - a formação do homem grego, de Werner Jaeger. Martins Fontes.

Particularmente, no campo da educação, as forças do mercado instaladas no poder estão reduzindo a nobre função de formar o ser humano em um mero adestramento em "habilidades e competências", uma redução à qual, creio, nem mesmo os adeptos das teorias do "Capital humano" conseguem se conformar. Particularmente, no Paraná, os destinos da formação humana estão sendo entregues ao coturno e à continência. A beleza e a leveza do ser humano estão sendo pisadas pelas botinas e entregues à sanha das marchas e dos uniformes. Bem ao gosto...

E, ainda mais particularmente, no campo da educação um dos setores mais minados é o campo da avaliação. Movido pela sanha do controle externo, de setores estranhos ao processo educativo, os  seus resultados são milimetricamente observados e servem, inclusive, de parâmetro para financiamentos. Todo o processo educativo, de longa construção histórica, é submetido à avaliação, ao IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Em nome dele, todo um sistema de falsificação de dados é instituído. 

Mas chega de lamentações! Ante esses tristes valores dominantes - a força do humano resiste e, qual "água nova brotando", estão se formando novos fluxos de esperança e de humanidade para os quais não haverá forças que os consigam conter. São as lições da história.

Em meio a esse estado psicológico que estamos vivendo, aprofundado por uma consciência social e desejo de humanidade, recebi um confortável e animador afago. Ele, de forma inesperada, me veio pelo Messenger e, confesso, me fez um bem enorme. Acima de tudo fortaleceu as minhas convicções de que a educação, acima de tudo, é presença, presença interativa, de encontro, soma e absorção de alteridades. As diferenças que se somam e se multiplicam. É óbvio que o sistema educacional não prescinde de planejamento, estabelecimento de objetivos e de avaliação. Mas deixo aqui a minha crença de que os seus melhores resultados serão sempre intangíveis e inalcançáveis pelo olhar dos sistemas avaliativos. Os seus melhores resultados penetram nas entranhas do ser humano e nele se instalam definitivamente para orientarem e darem direção a vidas. São as raízes.

Como estou tecendo considerações para além do conteúdo da mensagem recebida e, como esta me veio de forma privada, mantenho o missivista no anonimato mas, quero publicamente retomar o agradecimento que já manifestei privadamente. Fica aqui registrada a minha gratidão e o meu agradecimento. Eis o teor do afago recebido:

"Oi, professor, tudo bom? Fiz aula contigo nos anos de 2009/2010, curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo (na época Unicenp ainda).

Estou passando para te agradecer. Levei comigo duas grandes lições suas (na verdade foram muito mais, mas essas duas foram as mais marcantes). A primeira é que você sempre falava: “tem um monte de curso ensinando aí: leia 200 páginas em uma hora. Vou lançar um curso: leia 5 páginas em duas horas”. Isso mudou profundamente meu contato com a leitura e o estudo. Não fico mais ansioso ao passar um longo tempo apreciando e entendendo poucas páginas. Saber valorizar a profundidade de cada palavra e frase com certeza foi um grande ensino que você me passou. O segundo ensinamento foi uma frase linda: “só voa livre quem tem raízes em algum lugar”. Volta e meia essa frase volta a minha vida, e se encaixa perfeitamente em diversas situações. Era isso. Acredito que a gratidão move o universo e queria te agradecer por ter me presenteado com esses valiosos ensinamentos, mais de 10 anos atrás. Abraço!"

Contextualizando um pouco, relembrando as situações em que esses fatos ocorreram. As minhas aulas sempre foram entremeadas de muitas conversas sobre os momentos vividos. A primeira situação, lembro bem. Era comum que nas feiras universitárias de livros que eu frequentava, sempre havia os "ofertadores" desses cursos de "leitura dinâmica". Creio que era assim que se chamavam. Faz parte da pressa e do aligeiramento da formação. O mundo tem pressa. É a pressão por resultados. A pressão tem consequências.

O segundo fato, também o tenho muito presente. É a presença de Paulo Freire em minha formação. É dele esta frase norteadora. Voar implica em liberdades. Voar exige desprendimentos, exige experimentar inseguranças, desassossegos e desconfortos. Voar está acima das planuras. Mas, com certeza, raízes nos impedem de nos perdermos nos imensos temporais da vida.

Assim está registrado meu agradecimento ao querido aluno dessa mensagem e também a minha indignação diante dos rumos que a formação humana está tomando pelas mãos dos homens unidimensionais do mercado. Afinal, sem a indignação, oriunda da tomada de consciência da situação, não haverá reação. Reação necessária para que o humano e não o econômico volte a ser o princípio norteador de nossas vidas.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Samuel Wainer. O homem que estava lá. Karla Monteiro.

Cheguei ao livro Samuel Wainer - o homem que estava lá, de Karla Monteiro, através da coluna do "Ultrajano", numa nota em que ele falava sobre a atuação dos militares brasileiros nos atribulados anos que se seguiram ao golpe civil/militar de abril de 1964, relatada no livro. Não tive dúvidas. Fui em busca do livro. Quando vi que era um lançamento (edição de 2020), não hesitei em comprá-lo. O livro é denso, mas a sua leitura flui espontaneamente, de forma especial para aqueles que, de uma forma ou de outra, acompanharam os fatos deste tão conturbado período de nossa história.

Samuel Wainer - o homem que estava lá. Karla Monteiro. Companhia das Letras. 2020.

Como falei, trata-se de um livro denso. São 583 páginas, divididas ao longo de 29 capítulos, entremeados de um belo bloco de fotografias. Além do tema específico, retratando a vida do ilustre biografado, temos também um passeio (não tão agradável) pela nossa história, dos anos 1930 até os anos 1980. Três presidentes são retratados vivamente. Três presidentes, de quem podemos seguramente dizer, que conviveram e desfrutaram da intimidade com o famoso jornalista, de quem tomaram inúmeros conselhos. Três presidentes que marcaram profundamente a nossa história. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Adentra também na vida dos presidentes generais, até Ernesto Geisel. Lula já aponta lá no horizonte, com as greves dos metalúrgicos no ABC.

Samuel Wainer foi um personagem ímpar em nossa história. Sabe-se, com certeza, que nasceu na Bessarábia, atual República da Moldávia, pequeno país de 3,5 milhões de habitantes, exprimida entre a Romênia e a Ucrânia. Esse fato marcou profundamente a sua vida, pois, os seus documentos provam ter nascido no Brasil. Mas - essa já é uma parte da sua biografia. A descendência é judaica. Seus pais fugiram das tempestades que já se prenunciavam na Europa, logo no início do século XX. Em seu registro oficial, consta que nasceu em São Paulo em 1912. Seus pais se estabeleceram no Bom Retiro, mas Samuel logo se mudou para o Rio de Janeiro, se estabelecendo na Praça Onze, tido como o local mais cosmopolita do Rio de Janeiro. Iniciou-se no jornalismo, nos periódicos judaicos da cidade. 

O maior feito de sua vida foi, com certeza, a fundação do jornal Última Hora, um jornal de cunho nacionalista e popular, ao contrário da tão elitizada e colonizada mídia brasileira. Seu jornal, estabelecido nas principais capitais brasileiras, teve uma duração de vinte anos e revolucionou a imprensa brasileira em tudo, desde a parte gráfica até o salário dos jornalistas. Era apaixonado por lindas mulheres, pelo poder, mas acima de tudo, pelas redações de seus jornais.

Como é um livro longo, a resenha se torna difícil de fazer. Como o objetivo desse post é dar uma ideia do livro e provocar a sua leitura, passo a relatar alguns depoimentos que se encontram na contracapa e orelhas do livro O primeiro deles é da historiadora Heloísa Starling: "Um livro sensacional. Não só pela articulação da história de Samuel Wainer com o Brasil e a imprensa, mas por seu engenho narrativo. Karla Monteiro põe os personagens e os acontecimentos em cena com autonomia e grande sensibilidade, sem aliviar para o lado de ninguém, nem mesmo para o de Wainer. O homem estava lá mesmo - e ganhou uma grande biógrafa para mostrar isso". O segundo é de outro biógrafo famoso, o biógrafo de Marighella, Mário Magalhães: "Samuel Wainer, um dos gigantes da história do jornalismo brasileiro, encontrou em Karla Monteiro uma biógrafa à altura do biografado. Sorte dos leitores".

Da orelha, tomo três parágrafos, que focam na importância do biografado: "Um dos mais influentes e poderosos personagens brasileiros do século XX, Samuel Wainer apareceu para o Brasil nos anos 1940 com o semanário Diretrizes, uma revista que marcou época, reunindo em suas páginas nomes como Jorge Amado, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e Moacir Werneck de Castro. Mas foi nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, que começou a deixar sua marca: Getúlio Vargas, recluso após sua deposição em 1945, aceitou quebrar o silêncio e anunciar, em uma entrevista ao jovem repórter, seu retorno à arena política. Cercado de controvérsias, por décadas, trata-se de um dos furos míticos da imprensa brasileira.

Da relação entre fonte e jornalista nasceu uma sólida aliança. De volta ao Catete como presidente eleito, no pleito de 1950, Getúlio deu a Samuel um jornal, financiado pelas benesses da alta burguesia que rondava o poder: a Última Hora, publicação que transformaria a indústria da notícia no país. Primeiro e único diário de orientação trabalhista e nacionalista da grande imprensa, a UH revolucionou em várias frentes: no design; na cobertura de futebol e causas sociais; e, sobretudo, nas relações de trabalho, ao aumentar substancialmente o soldo dos repórteres. Ao longo de duas décadas, Wainer  transformou a UH numa gorda cadeia, chegando a sete capitais, além de manter sucursais em Brasília e no interior de São Paulo.

A trajetória de Samuel reúne fatos incomuns para um barão da nossa imprensa. Nos anos 1950, protagonizou a primeira CPI midiática da história do Brasil, instaurada para investigar a origem do dinheiro que permitiu a um repórter sem vintém fundar uma rede de jornais. O adversário Carlos Lacerda chegou às últimas consequências, tentando lhe cassar, inclusive a nacionalidade brasileira. Na década de 1960, esteve ao lado de Jango até o momento em que o presidente deixou o Palácio das Laranjeiras para voar rumo à queda. Verdadeira  caixa-preta do poder - foi o homem de três presidentes: Vargas, Kubitschek e Goulart -, Wainer defendeu, ao longo da conturbada carreira, uma ideia peculiar: jornal tem lado. Para ele nunca houve dúvida - embora, em questão de dinheiro, ele jamais tenha sido exatamente kosher".

Karla Monteiro, a biógrafa, nasceu em Diamantina, a cidade de JK. Formou-se em jornalismo na PUC/Minas Gerais e já trabalhou nos maiores órgãos da imprensa brasileira. Também é escritora. O livro é uma publicação da Companhia das Letras, do ano de 2020. Um livro para os brasileiros, especialmente para historiadores e jornalistas. Alô meus ex-alunos do curso de jornalismo! É a leitura do próximo bimestre! Uma leitura necessária e, da minha parte, quero expressar um grande desejo: que o charme do Wainer te seduza à leitura do livro.

Não poderia também deixar de citar, de Amós Oz, a frase em epígrafe no início do livro: "às vezes o pior inimigo da verdade são os fatos".



sábado, 9 de janeiro de 2021

O Sol também se levanta. Ernest Hemingway.

Mais uma leitura sem uma grande definição de escolha. Sem livros novos para a leitura, recorro a minha estante. Ainda sobram alguns volumes da coleção "Os Imortais da Literatura Universal". Entre eles puxei O Sol também se levanta. É óbvio que foi pelo autor. Ernest Hemingway teve a mais forte influência. O livro é de sua primeira fase, a fase que ele passou em Paris. Os livros de Hemingway se confundem com a vida do autor, ou seja, são totalmente autobiográficos.

O Sol também se levanta (1924). Tradução de Berenice Xavier.

Para melhor situar o livro vamos a uma contextualização do autor e da obra. Ele nasce em Illionois em 1899, vindo a morrer em Idaho, em 1961. A sua morte foi por suicídio, o mesmo fator de morte, que já fora o de seu pai. Sua vida sempre foi extremamente agitada, vivendo grande parte dela na Europa, uma Europa agitada por guerras e, entre elas, a ascensão dos regimes fascistas, como a do ditador Franco, da Espanha. Essa ascensão do fascismo espanhol o envolveu profundamente, sendo tema de um  de seus grandes livros, Por quem os sinos dobram. Foi voz forte no seu combate e também não faltou a sua ajuda financeira.

A profissão de Hemingway sempre foi o jornalismo. Depois migrou para a literatura. No livro de biografias que acompanha a coleção encontramos alguns dados valiosos da sua maneira de viver e de se defrontar com o mundo. Isso mesmo, se "defrontar" com o mundo. Como viver num mundo desses? Depois de uma participação na Primeira Guerra Mundial ele viverá nos Estados Unidos a situação que levará o país à sua grande debacle econômica, com a quebra da Bolsa de Valores em 1929. Antes porém, ele já se mandara para a Europa, onde integrará o famoso grupo de escritores da chamada "geração perdida", dos anos 1920, comandada por Gertrud Stein. Em Paris, onde chega em 1921, divide o tempo entre a observação dos acontecimentos que relata para a imprensa dos Estados Unidos, a escrita de romances e a beber com os amigos.

Por influência de Gertrud Stein abandona o jornalismo para se dedicar integralmente à literatura. Já em seu primeiro livro Nosso Tempo estão presentes os temas que o acompanharão por toda a sua vida de escritor: os horrores da guerra, a hipocrisia da classe média americana, a coragem dos toureiros... Vamos acompanhar o livro biográfico: "Para se documentar sobre touradas, havia viajado à Espanha, onde entrevistou espectadores, críticos e toureiros. Voltaria outras vezes a esse país, onde assistiu a dezenas de touradas a que se refere em O Sol também se levanta, ou em À tarde". O primeiro livro data de 1924 e o segundo de 1932. O livro de biografias segue na indicação da paixão por este tema: "A luta entre o homem e o animal, afirma, é uma ressurreição do paganismo, um espetáculo mágico que demonstra a naturalidade dos espanhóis em face da morte. Eles 'sabem que a morte é a realidade inevitável... a única certeza que está além de todos os confrontos modernos'".

Sobre o livro especificamente lemos o seguinte: "Os acontecimentos que originaram O Sol também se levanta tiveram lugar na Espanha, no verão de 1924. Hemingway viajara para Pamplona, afim de participar da fiesta, ao acontecimento tradicional que consiste de uma semana de danças, procissões, missas e touradas. A principal atração é soltar os touros pelas ruas para que os populares assumam o papel de toureiros improvisados. Durante a fiesta de 1924, um amigo de Hemingway saiu ferido e o escritor, indo salvá-lo, foi arremessado à distância, com ferimentos generalizados. Só não morreu porque os chifres estavam envoltos em panos que suavizaram o choque. A partir desse fato escreveu o romance, que tem como personagens alguns americanos 'exilados' em Paris que se dirigem a Pamplona em busca de fortes emoções".

A partir daí, segue o que no meu entendimento é o motivos da escrita do livro: "Mas nada consegue tirá-los do vazio interior". E continua: " Ao terminar a fiesta, as personagens se separam, voltando cada qual ao seu marasmo. Barnes (Jake), narrador do livro, e sua amada Brett ( Lady Ashley), permanecem juntos, lamentando a infelicidade da guerra que incapacitara o rapaz para o amor. A reação do público e da crítica deixou-o aborrecido. Ao contrário do que julgavam, Hemingway, não queria fazer a apologia da 'geração perdida'. Sua ambição visava ao problema vital de saber como a perspectiva da morte sem transformar a vida num inferno". Haja bebida! Quanto ao tema das touradas, fico com a declaração de um garçom de Pamplona: "Gravemente ferido por diversão". "morto por pura diversão".

Outros temas da predileção do autor aparecem também no livro, como a paixão pelo box. Cohn (que triste personagem!) quase nocauteia um toureiro (Pedro Romero) pelo seu envolvimento com Brett, sua paixão não correspondida. Aparece também a pesca. Antes da fiesta os personagens se envolvem numa pescaria de trutas. Daí envereda para as touradas, com uma rica descrição de toda esta consagrada festa mundial. Acompanhei bem a viagem de Paris para Bayonne e as passagens por Biarritz e San Sebastian. Só não acompanhei as bebidas que esse grupo tomou, É inimaginável que alguém consiga beber tanto, quanto essa turma bebeu: vinho, cerveja, absinto, conhaque, whisky e... no dia seguinte sempre dispostos a novas aventuras, bebedeiras e vazios depressivos. Para quem não gosta desses temas, fica a beleza da descrição da festa, da paisagem e o tema das conversas. Quando estive em Havana aproveitei a companhia de Hemingway para com ele tomar um mojito, no Floridita, restaurante bar, que ele tornou famoso. Eu provo.

No Floridita - em Havana - tomando um mojito com o famoso e notável escritor.


 


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Contraponto. Aldous Huxley.

Há muito que eu desejava ler Contraponto de Aldous Huxley. Esse desejo me veio especialmente ao ler Solo de clarineta, o notável livro de memórias de Érico Veríssimo. Nele o escritor fala de seu trabalho nas Livrarias e na editora do Globo (Porto Alegre) e dá uma especial atenção ao seu trabalho de tradução desse clássico ímpar do escritor inglês Aldous Huxley. Ao apagar-se o ano 2020 retirei o livro da estante, entre os livros da coleção "Os Imortais da Literatura Universal". A leitura sofreu alguns prejuízos em virtude de interrupções devidas às festas de final de ano. Isso não é bom, uma vez que o livro tem uma estrutura complexa e exige concentração total.


Contraponto. Da coleção "Imortais da literatura universal". Abril. Tradução de Érico Veríssimo e Leonel Vallandro.

A resenha desse livro, necessariamente começa por um olhar sobre o título - Contraponto. O termo deriva do mundo musical e na Wikipedia encontramos a seguinte explicitação: "O contraponto, na música, é uma técnica usada na composição onde duas ou mais vozes melódicas são compostas levando-se em conta, simultaneamente: o perfil melódico de cada uma delas; e a qualidade intervalar e harmônica gerada pela sobreposição das duas ou mais melodias". Daí para a literatura é fácil fazer a transposição, ainda segundo a enciclopédia: "Aquilo que, embora apresente contraste ou oposição, complementa um assunto ou texto. [Figurado] Tema que acrescenta, adiciona uma informação ao assunto, ou apresenta contraposições, opiniões opostas, em relação ao mesmo".

Aí está a chave para o início da leitura. Contraponto é um livro de ideias, de muitas ideias. Ideias essas apresentadas e entremeadas de muito pessimismo e ironia. Os principais contrapontos apresentados são os da aristocracia inglesa, os do mundo intelectual, os do mundo da arte e da ciência em evolução e dos que com ela trabalham e a dos Ingleses livres - os camisas negras da Inglaterra, representando o fascismo em ascensão. Esses ideais fascistas morrem assassinados, com Everard Webley. Longas e fantásticas discussões são apresentadas ao longo de 37 capítulos. O debate entre as diferentes ideias encontram um paralelo no famoso livro de Thomas Mann A Montanha Mágica (1924).

Já que localizamos a obra de Mann no ano de 1924, vamos a algumas contextualizações de Huxley e de seu grandioso livro. O escritor nasceu no Reino Unido no ano de 1894 e morreu na Califórnia nos Estados Unidos em 1963. A primeira edição de Contraponto é de 1928. O ano da escrita do livro -1928 - é extremamente significativo. A euforia inicial trazida pelo século XX com a ideia do progresso indefinido e pela evolução do mundo da ciência, da técnica e da diplomacia no mundo da política caíra por terra, com a eclosão da  Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e com as crises do entre guerras e o prenúncio das ascensões fascistas e dos regimes totalitários. A análise da cultura dominante que provocou esse mundo em ruínas é o grande teor do livro. Seguramente uma das preciosidades maiores da literatura universal.

Aldous Huxley se livrou da participação da guerra por ter sido acometido de uma cegueira passageira no tempo em que era para ser convocado. Tornou-se assim um observador extremamente atento e com um olhar profundamente investigativo. Moral, religião, economia, política, morte, arte, música, tecnologia, evolução, emancipação feminina, sexualidade, decadência são os temas onipresentes nessa polifonia de ideias. A primeira impressão que eu tive com a leitura foi a de estar lendo uma grande crônica da época.

No livro de biografias que acompanha a coleção lemos o seguinte sobre o livro: "Contraponto (1928) foi uma inovação saudada e combatida apaixonadamente em sua época, constituindo, de qualquer forma, um foco de discussão em todo o mundo literário. É uma descrição crua da vida de vários casais que se amam, mas não conseguem demonstrar o seu amor; que se detestam, mas não tem coragem de exprimir o seu ódio; que não se suportam, mas não ousam abandonar o comodismo e a rotina da existência que levam ao lado daquele - ou daquela - que um dia escolheram. Nem Philip Quarles consegue desligar-se de Elinor, apesar de não conseguir comunicar-se com ela, nem Walter Bidlake abandona Marjorie, a quem odeia.

Além do problema sexual e afetivo, que está no centro de cada um destes dramas conjugais, há o problema particular do artista, vivido por Philip, o escritor, e por John Bidlake, o pintor. São pessoas inteligentes, mas frias, incapazes de sentir - qualidades incompatíveis com as que um verdadeiro criador necessita para se comunicar com o seu público. Philip permanece um novelista medíocre, e o pintor só pode realizar obras de arte quando abandona o intelectualismo pedante e se faz um homem simples e despretensioso.

Contraponto transmite uma percepção da vida em geral, com o eterno problema da comunicação e do amor, os quais Huxley considera impossíveis na sociedade tal qual ela existe, excessivamente materializada, racionalizada, sofisticada. Neste ponto, a problemática de Huxley se particulariza, localizando-se no tempo e no espaço: o período entre duas guerras, numa sociedade decadente e pervertida, da qual escolhe a intelectualidade britânica, para dissecá-la até a alma, irônico, mordaz e implacável.

[...] Huxley, neste sentido, acompanha os escritores de sua época, passando do ceticismo e da angústia do pós-guerra ao desespero trágico por um mundo que a técnica e a guerra moderna tornaram impessoal. O autor, com a destruição das injustiças e da hipocrisia, postula desesperadamente um mundo melhor, onde o homem volte aos princípios básicos de sua natureza". Quatro anos depois, em 1932, aparece outra obra prima sua Admirável Mundo Novo. 

E um pequeno trecho selecionado - sem propósito: "Uma esquadra se compõe apenas de dez homens e é neutra sob o ponto de vista emotivo. O coração só começa a bater à vista de uma companhia. As evoluções dum batalhão são inebriantes. E uma brigada já é um exército com bandeiras, o que equivale - como sabemos pelo 'Cântico dos Cânticos' - a ficar apaixonado. A emoção é proporcional ao número. Admitindo-se o fato de termos mais de 1 metro e 75 de altura por dois pés de largura, e de sermos solitários, uma catedral é por força mais impressionante do que uma cabana e um quilômetro de homens em marcha é mais imponente do que uma dúzia de vagabundos numa esquina. Mas não é tudo. Um regimento é mais impressionante do que uma multidão.  O exército com bandeiras equivale ao amor apenas quando manobra impecavelmente. As pedras que constituem um edifício são mais belas do que umas pedras amontoadas à toa.. O exercício e o uniforme impõem uma arquitetura à turba. Um exército é bonito.. Mas não é ainda tudo; ele satisfaz instintos mais baixos que o instinto estético. O espetáculo de seres humanos reduzidos ao automatismo satisfaz o o desejo de força".  Página 349-350.

Ao fazer as resenhas eu não costumo ver ou ler comentários. Mas devido a complexidade extrema de Contraponto eu, em minhas buscas, encontrei esta preciosidade de comentário sobre a  memorável obra, que como está disponibilizada no Google, creio não ter problemas em ajudar na sua divulgação e por à sua disposição . Segue o link da entrevista de um grande professor de literatura - Jorge Almeida.

 https://www.youtube.com/watch?v=PrrvFKpzJdY

sábado, 19 de dezembro de 2020

Pais e Filhos. Ivan Turguêniev.

Por algum problema na compra virtual de livros, recorri à minha estante para encontrar algum livro ainda não lido. A tarefa foi relativamente fácil. Encontrei-o na coleção "Os Imortais da Literatura Universal". Selecionei, de Iván Turguéniev, Pais e Filhos. É o fascínio pela literatura russa. Procurei saber pouco a respeito da obra para lê-la sem a influência dos comentadores. Mesmo assim me chamou atenção o fato de que o autor - em virtude desse livro, teve que abandonar o seu país. Por que será?

Pais e Filhos (1862). A obra prima de Turguêniev. Tradução de Ivan Emilianovitch.

Pelo título imaginei que o tema fosse o conflito de gerações, as famosas e sempre presentes desavenças entre os diferentes membros da família e o conflito de gerações. Nesse sentido, duas famílias ganham no livro, especial atenção. A família de Nicolau Pietróvitch Kirsánov, viúvo, pai de Arcádio e irmão do complicado Paviél e Vasyli e Arina Bazárov, pais de Eugênio Bazárov. Eugênio é um estudante de ciências da natureza, com propensões fortes para a medicina.

Arcádio e Eugênio são muito amigos e é a partir dessa amizade que o romance está constituído. Os dois visitam, primeiramente, os pais de Arcádio e depois os de Eugênio. Ambas as famílias são proprietárias rurais, ainda em tempos de servidão. O romance foi escrito em 1862. Confesso que senti profunda antipatia pelo personagem Eugênio pela sua arrogância, deboche e indiferença perante as pessoas. Creio que tive os mesmos sentimentos de Paviél, que, inclusive, o desafiou para um duelo. Ao longo de todo o livro Nicolau mostra uma grande preocupação com a educação dos mujiques, os servos atingidos pelas reformas agrícolas de 1861. (Os servos eram também chamados de almas - daí o título do livro de Gogol - Almas Mortas).  

A rica literatura russa desse período precisa necessariamente de contextualização. O país passava por grandes transformações. O país lutava para se manter um país rural, monarquista e escravista mas em contrapartida sopravam os ventos da modernização europeia dos ideais republicanos e libertários. No livro de biografias que acompanha a coleção, no livro sobre Turguêniev lemos o seguinte: "Os russos debatiam a situação de sua pátria, dividindo-se em eslavófilos e ocidentalistas. Esse clima atingiu o auge por volta de 1853 e esmoreceu no início do século XX. Ambas as correntes concordavam quanto à necessidade de o Estado ser soberano, mas divergiam no que respeitava ao tipo de governo, à estrutura social, aos valores religiosos e tradicionais". Quanto as divergências dos dois grupos, vejamos as posições:

"Os eslavófilos defendiam o regime monárquico, a servidão, as tradições seculares, o isolamento cultural. Sonhavam com a união perfeita de todos os povos eslavos sob a hegemonia da Rússia, nação rica de sentimentos, fé e arte. [...] Por seu turno, os ocidentalistas, cuja causa Turguêniev (1818-1883) abraçou desde os primeiros momentos, lutavam por um governo republicano, pela libertação dos servos e pela aproximação da Rússia ao Ocidente. O passado histórico constituía para eles um fardo incômodo, do qual era preciso livrar-se urgentemente, a fim de adotar as técnicas, invenções e ideias europeias. Não viam dificuldades em se transplantarem os valores culturais e as formas artísticas, e acreditavam que, com maior facilidade ainda, poderiam importar inventos, como as máquinas a vapor, ou instituições comerciais, como as sociedades por ações". No livro Bazárov é o mensageiro dessa modernidade. Já do outro lado se encontrava Dostoiévski (1821-1881) que "dedicou" a estes jovens modernos e modernizadores o seu implacável livro Os Demônios.

Turguêniev (1818-1883) era rico herdeiro de Varvara, sua mãe, proprietária de mais de cinco mil servos. Nunca se entendeu com ela. Passava muito tempo no exterior, admirando Hegel, recebendo influências de Rousseuau e sempre em meio a influentes companhias, como Bakúnin, Heine e Flaubert. Turguêniev, pela literatura, procurou construir o seu herói e porta-voz. Ao que tudo indica não foi muito bem sucedido. O seu herói era fraco diante das urgências da Rússia. Assim foi Rúdin, protagonista e título do romance com o tema, como também Bazárov, o seu mensageiro, em Pais e Filhos. É o que lemos na biografia que acompanha a coleção.

Quanto a Pais e Filhos lemos o seguinte: "Pais e Filhos  representava a última tentativa de Turguêniev para criar o herói russo: Bazárov. Intelectual materialista, nega o amor e a arte, recusa a religião, combate as tradições, tudo submete à experiência científica e acredita nos benefícios de uma revolução total. É um 'niilista', segundo o termo cunhado por Turguêniev especialmente para ele. Um rebelde que 'não se inclina a nenhuma autoridade nem aceita nenhum princípio sem exame'. O amor, no entanto o desarma e o conduz à morte". Ainda sobre o romance, a respeito de sua recepção junto ao público lemos: 

"Os jovens desaprovaram o desenlace do romance, a seu ver prova de uma tomada de posição do autor contra Bazárov e, por extensão, contra todos os 'filhos'. Por sua vez os 'velhos' sentiram-se ridicularizados na obra e consideraram Bazárov um modelo apontado à juventude como um ideal. Em suma, ambas as gerações objetaram ao romance e encetaram uma polêmica que durou anos. Na verdade, além da criação do herói russo, Turguêniev pretendia descrever o conflito entre pais e filhos, mostrando os defeitos e as qualidades de uns e outros. A grandeza do romance, a pintura dos ambientes e da paisagem rural, a precisão estilística, a soberba criação das personagens, sobretudo Bazárov - qualidades que fazem de Pais e Filhos sua obra-prima -, passaram despercebidas ao público e aos críticos da época". Sobraram muitas amarguras, especialmente com a situação social dos servos, agora emancipados, mas vivendo na miséria.

Ah! a abolição. Lembrando Joaquim Nabuco: A escravidão foi abolida - mas não a sua obra. Toda leitura é um enorme aprendizado.




domingo, 13 de dezembro de 2020

Os Noivos. Alessandro Manzoni.

Lendo a bela biografia do memorável papa João XXIII, deparei com o fato de sua grande afeição a um romance, que, inclusive, o teria influenciado no seu breve mas profícuo pontificado (1958-1963). Trata-se de Os Noivos, do escritor e ativista político italiano Alessandro Manzoni. A personagem pela qual o santo papa (este sim - um santo) mostrou maior admiração era Inês, em função das soluções que sempre encontrava diante das dificuldades, mesmo que impossíveis. Inês era a mãe de Lúcia Mondella, que junto com Renzo Tramaglino, formam o par romântico da obra.

 Os Noivos. Alessandro Manzoni. Abril Cultural. 1971. Tradução Marina Guaspari.

Outro fato que muito me chamou a atenção netsa biografia foi a sua admiração por São Carlos Borromeu, um antigo cardeal da cidade de Milão. Lhe admirava a sua profunda generosidade e vida dedicada aos pobres da cidade. Esses dados me levaram à busca do livro. O encontrei na coleção "Os imortais da literatura universal", uma edição da Abril Cultural, publicada em 1971. Em 2012, numa viagem ao norte da Itália eu visitava a cidade de Stressa, junto ao Lago Maggiore, no qual visitamos as Ilhas Borromeu e o famoso palácio que leva o nome da família. O guia muito nos falou do poder dessa família, mas não fez essa menção à sua generosidade. Falava do poder da família que se estende até os dias de hoje. Em Milão, lembro também de um monumento em homenagem a Alessandro Manzoni, por sua dedicação à causa da unificação italiana. Tudo isso me levou à leitura imediata do livro.

O livro é muito simples. Uma grande história de amor. Mas o que faz o escritor com esta história de amor? Insere nela a história da cidade de Milão. Antes de falar da concepção do livro vamos a dois dados da contextualização, tanto do livro, quanto do escritor. Alessandro Manzoni nasceu em Milão em 1785 e morreu na mesma cidade em 1873. O livro foi escrito, numa primeira versão entre os anos de 1821-1823 e reescrito entre 1825-1827, em três volumes. Chegou a ver, portanto, a sua tão sonhada unificação italiana (concluída em 1871). O livro faz uma retrospectiva de aproximadamente duzentos anos, para escrever a história de sua cidade, nas décadas de 1620 e início da de 1630. Nesse intento pesquisou a obra de Giuseppe Ripamonti, História de Milão. Na época a cidade estava sob domínio espanhol. Os personagens, no entanto, são seus. Entre eles estão os mais famosos - O Inominado, a monja de Monza e o Cardeal Frederico Borromeu.

No livro de biografias que acompanha a coleção encontramos o seguinte sobre a concepção da obra: "Manzoni simula basear-se num manuscrito do século XVII, por ele remanejado, segundo informa o subtítulo: História milanesa do século XVII descoberta e refeita por Alessandro Manzoni". Quanto a trama, lemos o que segue:

"A trama da obra gira em torno do amor de Renzo e Lúcia - os noivos - que, para poderem casar-se, tem de vencer os obstáculos colocados pelo vil Dom Rodrigo, poderoso senhor espanhol. Frei Cristóvão é uma das pessoas que se compadecem dos apaixonados; tenta ajudá-los, mas não logra vencer as artimanhas do tirano. A monja de Monza, princesa confinada ao convento, toma Lúcia sob sua proteção. Entretanto, não consegue impedir que a moça seja raptada pelos capangas do Inominado, misterioso cúmplice de Dom Rodrigo. Pouco tempo mais tarde, tocado pela graça divina, o Inominado se arrepende de seu crime e decide ajudar Renzo e Lúcia na concretização de seus sonhos.

Os protagonistas de Os Noivos são invenção do autor; contudo, o cenário histórico e social em que se movem é real, e a ele a crítica moderna se volta com renovado interesse. O público da época, empolgado com as aventuras dos noivos, não percebera a profundidade da visão humana e social de Manzoni. Um dos pontos altos do romance é justamente a descrição da peste de Milão, subsequente a um devastador ataque de lanceiros alemães. O medo da morte leva os cidadãos a lutarem entre si; qualquer 'untador', ou seja, suspeito de transmitir a peste, era sumariamente executado pela turba, com a conivência das autoridades".

Quanto a peste, ela merece um destaque todo especial. A riqueza de sua descrição. Isso ganha particular interesse em virtude de vivermos em tempos de pandemia. Quantas semelhanças. Quanta ignorância! Tem até um personagem, Dom Ferrante, tido como um homem culto, que morre com a peste, por descuidos em se prevenir, por simplesmente negar a doença e a sua contaminação. Vários dos capítulos, já ao final da obra, são dedicados à peste. Atende a uma série de curiosidades, a comparações de época.

Entre os personagens do bem, ganham grande destaque os convertidos, como o Inominado e o próprio Frei Cristóvão. É impossível não se apaixonar por esse frei. Também a generosidade do cardeal Frederico Borromeu ganha destaque, junto com o tratamento severo que ele dá a Dom Abbondio, um padre pusilânime, que se nega a casar os noivos em virtude dos interesses de Dom Rodrigo pela jovem Lúcia.

O livro termina com as razões que o autor encontrou para escrever o romance. Depois das considerações de Renzo o noivo, chega a vez de Lúcia falar: "E eu? Que quer você que eu tenha aprendido? Não fui buscar os contratempos; foram eles que me procuraram. A não ser - acrescentou, sorrindo - que o meu disparate seja querer-lhe bem e ser sua mulher.

A princípio, Renzo ficou entalado; depois de um longo debate, convieram os dois em que os dissabores não raro nos vêm da irreflexão, mas que o procedimento mais inocente e cauteloso não basta para conjurá-los; e, quando nos afligem, por falta nossa ou alheia, a confiança em Deus os atenua e torna proveitosos, para uma vida melhor.

Embora resulte dum raciocínio de criaturas humildes, esta conclusão parece-nos tão justa e acertada, que aqui transcrevemos, como suma de toda a nossa narrativa".

O autor - Manzoni, é importante dizer, que depois de muitas peregrinações ao longo de uma "boa vida", também é um convertido ao catolicismo. E, para terminar, o meu agradecimento ao querido papa João XXIII por essa dica de leitura.

A bela biografia do papa João XXIII.

E a resenha da biografia: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/12/papa-joao-xxiii-thomas-cahill.html




sábado, 5 de dezembro de 2020

PAPA JOÃO XXIII. Thomas Cahil.

Seguramente um livro cuja leitura faz muito bem. O li pela primeira vez em janeiro de 2010. O retomei agora, lendo-o bem mais atentamente, com muito mais cuidado. Nunca me canso em afirmar que o papa João XXIII foi a maior das influências que eu recebi em minha vida, especialmente em meus anos de formação nos seminários de Bom Princípio (1957-1958), Gravataí (1959-1964) e Viamão (1965-1968). O pontificado de João XXIII foi exercido durante os anos de 1958 a 1963, e a sua vida entre os anos de 1881 a 1963. Guardo ligeiramente na memória, o evento da morte e a troca dos papas.

Papa João XXIII. Thomas Cahill. Objetiva 2002. Tradução de Ana Luiza Dantas Borges.

Mas o objetivo deste post é o livro de Thomas Cahill, Papa João XXIII, da editora Objetiva. A publicação é do ano de 2002. Cahil é ex-diretor de publicações religiosas da Doubleday e leva a sua vida entre  as cidades de Nova York e de Roma. Na biografia ele mostra uma profunda admiração e carinho pelo papa que, segundo ele, dirigiu suas palavras ao mundo, e não apenas aos cristãos católicos, como os papas costumavam fazer. Cahill também é homem de profunda erudição, mostrando um domínio quase absoluto do complexo tema da história dos papados. Humanidade e sensibilidade perpassam a biografia. Também é verdade que a vida do biografado em tudo contribuiu para isso.

Na orelha de capa encontramos dois parágrafos que pretendem sintetizar o livro. O primeiro versa sobre o pontificado, buscando também uma retrospectiva histórica dos papados e o segundo versa sobre o ser humano extraordinário que o papa João XXIII foi. Vejamos: "Papa João XXIII começa com a história concisa, mas de alcance geral, da Igreja Católica e do papado, culminando no breve, mas inesquecível, reinado de Angelo Giuseppe Roncalli como Papa João XXIII, em meados do século XX. Aos 76 anos ele não era uma figura pública muito conhecida, nem um teólogo altamente treinado; assim, de início, acreditou-se que seria apenas um papa de transição. Durante seu reinado, entretanto, ele instituiu mudanças produtivas e sem precedentes, que refletiram sua preocupação com as aflições da humanidade.

Em uma prosa agradável e apaixonada, Cahill acompanha a vida do Pontífice de suas raízes camponesas ao marcante Segundo Concílio do Vaticano, com sua ênfase na justiça social para todos, assinalando o começo de uma verdadeira mudança na Igreja Católica e em sua relação com o mundo moderno. Nesta biografia que cativará igualmente católicos e não católicos. Cahill combina, com sua rara habilidade, imaginação, discernimento interpretativo e erudição, conseguindo, assim, refletir a intuição, espontaneidade e visão imparcial do próprio Papa João XXIII".

O livro, de 295 páginas, está dividido em quatro capítulos, uma pequena introdução, epílogo, notas e fontes e agradecimentos. Dou o título e subtítulo dos capítulos: I. Antes de João: Da congregação à Igreja e ao Padrão da Ortodoxia. A Igreja Imperial. Os Romanos e os Bárbaros. As duas espadas. A necessidade da Reforma e somente o papa. Muita história e erudição, uma história da constituição do papado, passando por crises e afirmações. Um belo capítulo.

II. Angelo, o homem: De camponês a padre. De secretário a historiador. De servente a arcebispo. De diplomata a patriarca. Um capítulo muito rico. Apresenta a sua trajetória de vida pessoal, de sua infância e juventude para penetrar na história italiana e mundial desse período. Sofia, Constantinopla e Paris entram em cena na vida de Angelo.

III. Roncalli, o pastor; João, o Papa. Veneza. O Vaticano: O patriarca de Veneza ganha projeção e é alçado à condição de Papa, escolhido em seu 11º escrutínio. Rompe a tradição dos conservadores Papas Pio, retoma Leão XIII, convoca o Concílio Vaticano II e escreve as progressistas encíclicas Mater et Magistra e Pacem in Terris. Sublinhei, em especial, uma frase: "Não foi o Evangelho que mudou; nós é que começamos a compreendê-lo melhor" e anotei duas observações: Pasolini produz e dirige o filme O Evangelho segundo São Mateus em sua homenagem e Os Noivos, de Alessandro Manzoni era um de seus livros de cabeceira. Já o separei para a leitura.

IV. Depois de João: Paulo VI. João Paulo II. Apresenta Paulo VI como seu continuador, na conclusão do Concílio e com a bela encíclica Populorum Progressio. Depois se acomoda sob a influência dos Conservadores. Já João Paulo II representa uma volta a Pio XII e se apresenta ao mundo não mais como um Papa universal mas como um policial universal, muito mais preocupado em punir do que em perdoar. Retrocessos de um papado interminável, de um Papa que "viajou o mundo, sem se dirigir ao mundo" mas apenas aos cristãos católicos do mundo.

Volto à minha formação. Tenho muito orgulho dela. Também saí da roça - de agricultura primitiva para o seminário. Ainda em Bom Princípio, recebemos a notícia da morte de Pio XII e de sua sucessão por João XXIII. Em Gravataí acompanhamos o Concílio Vaticano II e a Doutrina Social Católica por suas encíclicas e em Viamão acompanhamos um pouco do pontificado de Paulo VI. Nos chegavam as primeiras influências de uma visão progressista, humana e fraterna de mundo. Tenho muito orgulho dessa minha formação. O livro/biografia é também um belo exercício da compreensão e do significado vivenciado da riqueza da palavra "alteridade".

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O Ingênuo. Voltaire.

Voltaire tem uma forma muito peculiar de dizer as suas "verdades". Para isso ele usa do conto e um conto que tem muita ironia, sátira e linguagem figurativa e invertida. Nem tão pouco - falta a mordacidade e o sarcasmo. É o que encontramos em O Ingênuo, o seu conto datado do ano de 1767. Já anteriormente publicara Cândido ou o Otimismo, (1759), com a mesma tonalidade. Voltaire viveu entre os anos de 1694 e 1778. Segue o Link de Cândido ou Otimismo. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2020/11/candido-ou-o-otimismo-voltaire.html

O Ingênuo. Editora Escala. Tradução de Antonio Geraldo da Silva.

O Ingênuo é um huron, um povo indígena da América do Norte. Ele é encontrado pela família Kerkabon, que tem em seu meio um padre, que é o prior de Nossa Senhora da Montanha. Parte da família havia migrado anteriormente para o Canadá. O huron é portador de dois pequenos retratos, nos quais são reconhecidos os parentes migrantes. O huron recebera os retratos de seu irmão, que combatera os franceses no Canadá. No huron eles observam traços de barba, um indicador de que não é um índio puro. Ele tem mestiçagem. Observando melhor os retratos, reconhecem os traços familiares e descobrem na figura do índio, um sobrinho.

Assim começam as aventuras do huron, de nome Ingênuo, no continente europeu. Admirados de ele não ser católico, o preparam para o batismo, ensinando-lhe a bíblia. No batizado recebe o sugestivo nome de Hércules, em alusão a um cidadão que transformou, numa única noite, cinquenta meninas em mulheres. A senhorita de Saint Yves, que pertence a família, se apaixona por ele e é plenamente correspondida. Ela é de beleza ímpar, o que lhe faz ter pretendentes bem influentes. É aí que começam as desgraças dos dois.

O huron se vê envolvido num combate com os ingleses e se mostra valente combatente e é enviado para a corte de Luís XIV, para receber honrarias. Na verdade lhe prepararam uma cilada, para afastá-lo da senhorita Saint Yves. É preso junto com um jansenista de nome Gordon, com quem troca confidências, passando por um enorme e rápido aprendizado. Gordon era um sábio. Voltaire apresenta as razões para o rápido aprendizado do Ingênuo:

"Esse rápido desenvolvimento de seu espírito era devido à sua educação selvagem, bem como a têmpera de sua alma, pois, nada tendo aprendido na infância, não havia aprendido preconceitos. Seu entendimento, não tendo sido curvado pelo erro, permanecera em sua retidão. Via as coisas como são, ao passo que as ideias que nos inculcam na infância fazem com que as vejamos, durante toda a vida, como não são". Que frase fantástica. O Ingênuo não fora contaminado pela escola.

O pequeno conto, de apenas vinte pequenos capítulos, também pode ser lido como uma tragédia, especialmente, a partir do momento em que entram em cena os padres jesuítas e, de modo todo particular, aqueles que são confessores do rei e dos ministros. O rei é nada mais - nada menos - do que  o poderoso Luís LIV. Por isso mesmo, vários capítulos se desenvolvem, ora em Paris, ora em Versalhes. Um dos padres mais influentes, o padre Saint Pouange cobra alto preço para a libertação do amado da senhorita Saint Yves, o que a torna extremamente infeliz e a leva até a morte. "Ela sucumbe por virtude", nos conta Voltaire.

O conto/tragédia termina com o adoecimento da bela jovem, cujo corpo foi consumido pela sua grande alma. O Ingênuo se transformou num bom oficial, mas o tempo que tudo apaga, não foi capaz de apagar as dores do pobre e infeliz Ingênuo. Até o influente padre Saint Pouange se arrependeu de suas patifarias. Vejamos ainda, a referência relativa ao conto na contracapa do livro:

"O Ingênuo segue, aproximadamente, a mesma linha de pensamento (de Cândido), embora se calque na onda do indianismo que se propagou na França do século XVIII. Voltaire ressalta a pureza de princípios dos índios americanos, contrapondo-os às ridículas e desgastadas convenções sociais e políticas da Europa da época". Assim, o Ingênuo huron, corresponderia ao "bom selvagem" de Rousseau. Efetivamente, um enorme choque cultural.

Adendo - 02.12.2020. Voltaire, apesar de ter sido demonizado pelos apologistas católicos, era um pensador moderado, um polemista divertido e sagaz, uma alma religiosa, embora idiossincrática, que se confessou a um padre em seu leito de morte e se permitiu receber a extrema-unção. Mas ele percebeu, com muita clareza, que as funções do Estado tinham de ser desvencilhadas das funções da religião. Abominou, com razão, o fanatismo e obscurantismo do clero, quer católico, quer luterano, reformado ou anglicano, e achava repelentes as práticas "cristãs" comuns da tortura, enforcamento, decapitação e incineração contra aqueles acusados de impiedade. De modo radical, ele e os companheiros filósofos  de seu círculo acreditavam que todos os homens eram iguais perante Deus e deveriam ser iguais perante a lei. Para Voltaire, essa não era, em si, uma proposta antimonarquista; não tinha nenhum motivo de queixa contra a realeza como tal. Porém foi logo seguido por homens (e mulheres) menos moderados que impeliram suas especulações entusiasmadas - e best sellings - a conclusões mais revolucionárias..

Isso não quer dizer que somente Voltaire e seus amigos defendessem a bandeira da inteligência e justiça, enquanto todo o sistema político-religioso da Europa enfileirava-se contra eles. As ideias dos filósofos logo afetaram o ar que todos respiravam". Era a força do Iluminismo ou do Esclarecimento. CAHIL, Thomas. Papa João XXIII. Rio de Janeiro. Objetiva 2002. Páginas 80-81.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Cândido ou o Otimismo. Voltaire.

Pangloss dizia vez por outra a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis, pois, afinal, se não tivesse sido expulso de um lindo castelo com uma saraivada de pontapés no traseiro por amor da senhorita Cunegundes, se não tivesse sido perseguido pela Inquisição, se não tivesse percorrido a América a pé, se não tivesse aplicado um belo golpe de espada no barão, se não tivesse perdido todos os carneiros do bom país de Eldorado, não estaria aqui comendo doces de cidra cristalizada e pistaches". - "Concordo plenamente", disse Cândido, "mas devemos cultivar  nosso terreno". (Páginas 94-5).

Cândido ou o Otimismo. Voltaire. Editora Escala. Tradução de Antonio Geraldo da Silva.

Assim termina um dos mais famosos contos de toda a história da literatura. Trata-se de Cândido ou o Otimismo, de Voltaire. Depois de todas as desventuras relatadas no conto, Cândido, Pangloss, Cunegundes, uma velha - filha de papa, Cacambo e Martim, somados a Paquette e o frade Giroflée, vão consultar um dervixe, que foi interrogado por Pangloss, o grande mestre da filosofia: "Mestre, vimos implorar que nos diga por que foi formado um animal tão estranho como o homem". A partir daí se estabelece o seguinte diálogo:

"Com que estás te metendo", disse o dervixe. "Será que é de tua conta"?

"Mas, meu reverendo pai", disse Cândido, "Há tanto mal na terra".

"O que importa", disse o dervixe, "se há mal ou bem? Quando Sua Alteza manda um navio ao Egito, será que importa se os ratos a bordo estão à vontade ou não"?

"O que se deve fazer então"? Perguntou Pangloss.

"Ficar calado", respondeu o dervixe.

"Desejava realmente", disse Pangloss, "vir aqui discorrer um pouco com o senhor sobre os efeitos e as causas, o melhor dos mundos possíveis, as origens do mal, a natureza da alma e a harmonia preestabelecida".

Ao ouvir essas palavras, o dervixe bateu-lhes a porta na cara. (Página 93). 

Depois de todas as desventuras e sem rumo, o Dr. Pangloss, sempre o grande mestre, depois de definir que  o otimismo "é a mania de sustentar que tudo está bem quando tudo está mal" (Página 56) e de, quando perguntado por Cândido, se mesmo "quando foi enforcado, dissecado, espancado, e obrigado a remar nas galeras, continuou pensando que tudo neste mundo ia o melhor possível"?, ele responde: "Mantenho minha opinião de sempre, pois, afinal sou filósofo. Não convém desdizer-me, uma vez que Leibniz não pode estar errado e uma vez que a harmonia preestabelecida é, por outro lado, a coisa mais bela do mundo, assim como o são a totalidade e a matéria sutil" (Página 89-90).

A solução contra o otimismo ou a ingenuidade parece vir num dos diálogos finais, quando toda a turma já está em Constantinopla, num diálogo com um agricultor. Cândido lhe dirige a palavra. "O senhor deve ter uma vasta e magnífica propriedade".

"Só tenho uns três alqueires", respondeu o turco. Cultivo-os com meus filhos. O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade". Cândido assim reflete sobre estas palavras, com Pangloss e Martim: "Esse bom velho parece-me ter conseguido para ele um destino em muito preferível ao daqueles seis reis com quem tivemos a honra de jantar" [...] "Também sei", disse Cândido "que temos que cultivar nossa terra". "Tem razão" disse Pangloss, "pois, quando o homem foi colocado no jardim do Eden, foi colocado ut operaretur eum, para que o trabalhasse, o que prova que o homem não nasceu para o descanso". "Trabalharemos sem filosofar", disse Martim. "É o único meio de tornar a vida suportável" (Página 94).

Esse é o conto que começa na Vestfália e termina em Constantinopla, relatando as misérias e os sofrimentos humanos, através do grupo de pessoas com quem tem relações ao longo da viagem, que ocupa trinta pequenos capítulos da mais fina ironia. A longa viagem mostra que em todos os lugares, com exceção do Peru, o país do Eldorado, predomina a mesquinharia e a falsidade moral. Ao final todos eles convivem exercitando seus talentos.

Na contracapa do livros lemos o seguinte comentário de apresentação: "Cândido é um conto. Escrito contra seus opositores, Voltaire, com fina ironia, sem deixar de lado o sarcasmo e, com frequência, extremamente mordaz, responde com este conto em que contrapõe ingenuidade e esperteza, desapego e ganância, delicadeza e violência, amor e ódio, simpatia e crueldade e outros paradoxos da existência humana. Inserções de cunho filosófico levam os personagens a buscar causas e efeitos de qualquer coisa, a razão suficiente do que se pensa e se faz, a ética ou a moral do que é feito. O conto em si pode ser visto como um espelho do irreal e, na verdade, reflete a irrealidade ou a farsa de realidade que o mundo da época de Voltaire vivia". Lembrando que Voltaire nasceu em 1694 e morreu em 1778. O conto teve a sua primeira publicação no ano de 1759. Os seus alvos preferenciais são os padres, os jesuítas em especial, os judeus, que lhe tomaram a fortuna, a política e a religião. A Inquisição, as missões jesuíticas e o terremoto de Lisboa (1755) também aparecem no conto.

Adendo - 02.12.2020. Voltaire, apesar de ter sido demonizado pelos apologistas católicos, era um pensador moderado, um polemista divertido e sagaz, uma alma religiosa, embora idiossincrática, que se confessou a um padre em seu leito de morte e se permitiu receber a extrema-unção. Mas ele percebeu, com muita clareza, que as funções do estado tinham de ser desvencilhadas das funções da religião. Abominou, com razão, o fanatismo e obscurantismo do clero, quer católico, quer luterano, reformado ou anglicano, e achava repelentes as práticas "cristãs" comuns da tortura, enforcamento, decapitação e incineração contra aqueles acusados de impiedade. De modo radical, ele e os companheiros filósofos  de seu círculo acreditavam que todos os homens eram iguais perante Deus e deveriam ser iguais perante a lei. Para Voltaire, essa não era, em si, uma proposta antimonarquista; não tinha nenhum motivo de queixa contra a realeza como tal. Porém foi logo seguido por homens (e mulheres) menos moderados que impeliram suas especulações entusiasmadas - e best sellings - a conclusões mais revolucionárias.

Isso não quer dizer que somente Voltaire e seus amigos defendessem a bandeira da inteligência e justiça, enquanto todo o sistema político-religioso da Europa enfileirava-se contra eles. As ideias dos filósofos logo afetaram o ar que todos respiravam". Era a força do Iluminismo ou do Esclarecimento. CAHIL, Thomas. Papa João XXIII. Rio de Janeiro. Objetiva 2002. Páginas 80-81.



terça-feira, 24 de novembro de 2020

DANTE. R.W.B. Lewis. 1265 - 1321.

 Depois de vários livros sobre a realidade brasileira, uma mudança de rumo na leitura. Uma volta a um tema que me é muito grato. O mundo das biografias. O biografado da vez foi Dante Alighieri, da coleção Breves biografias, no livro Dante, autoria de R.W.B. Lewis. O livro é do ano de 2002. Na verdade, trata-se de uma releitura do livro.

Dante. Objetiva. 2002. Tradução. José Roberto O'Shea.


A primeira leitura me remete ao ano de 2007, quando na Universidade Positivo, no curso de Publicidade e Propaganda, em trabalhos de extensão, desenvolvíamos projetos bem ousados. Um desses projetos foi o da leitura e discussão de grandes obras literárias. Coube-me o desafio de trabalhar, nada mais e nada menos, do que uma das maiores obras da Literatura Universal, o poema de Dante A Divina Comédia. Essa ousadia me levou a muitas leituras.

A biografia escrita por R.W.B. Lewis é de agradável leitura e pressupõe um conhecimento básico da obra de Dante, ou então de quem se propõe a lê-la. Ela serve como um guia, proporcionando uma bela contextualização de época e da escrita. Dante nasceu na sua amada cidade de Florença no ano de 1265, vindo a morrer em Ravena, no exílio, em 1321. Toda A Divina Comédia foi escrita no exílio (Verona e Ravena) e sob condenação de pena de morte. Dante foi ativo político em sua cidade e tinha pavor das pessoas indiferentes, das pessoas que se omitiam. Dante viveu em tempos em que não havia estabilidade política.

Creio não errar em afirmar que os três temas mais presentes em A Divina Comédia são o amor, a política e a religião, esta, por óbvio, o tema central. Creio também que todos sabem, que o Grande poema está dividido em três partes: - uma visita ao Inferno, ao Purgatório, onde será guiado por Virgílio (um tributo ao autor da Eneida), e ao Paraíso, onde terá como guia Beatriz, sua paixão desde a infância e representando a sabedoria divina. A obra foi iniciada em 1308-9 e concluída em 1321, tendo demorado, portanto, entre onze e doze anos para a sua conclusão e  tendo-a escrito em condições bem adversas.

A Divina Comédia é uma autobiografia, bem como uma parte da história de Florença. Nos diferentes círculos de suas três partes são encontradas personalidades vivas de Florença e da região e que bem refletem as brigas entre o poder temporal e o poder espiritual, entre os favoráveis ao papa, ao imperador e aos príncipes locais. No Inferno estão os seus inimigos, os que traíram as suas causas e que o condenaram. No Purgatório, estão pessoas com quem ele conviveu, mas que cometeram pequenos deslizes. Já no Paraíso encontraremos os seus amigos, benfeitores e os santos da Igreja. A Divina Comédia é, seguramente, também uma obra de Teologia, sob a inspiração dos princípios de santo Tomás de Aquino. Para quem estiver interessado em um esquema da obra, toda ela preconcebida mentalmente, indico a revista - Entre livros - Entre clássicos, nº 1, da editora Duetto, dedicada a Dante.

Uma revista extraordinária. São 100 páginas bem didaticamente expostas.


Dessa revista, seleciono três versos, representando cada uma das partes. Assim temos "Deixai toda esperança, vós que entrais", para o Inferno, "Puro e pronto para subir às estrelas", para o Purgatório e "O amor que move o sol e as outras estrelas" para o Paraíso. Mas voltamos ao livro/biografia.

Ele está divido em oito capítulos, a saber: 1. Dante, o florentino; 2. Presenças da vizinhança: Tenra idade; 3. Amor, Poesia e Guerra: A década de 1280. IV. A morte de Beatriz e Vida Nova: 1285 - 1295; V. O percurso da Política: 1295 - 1302; VI. O Poeta no exílio: 1302 - 1310 - Iniciada a Comédia... (O Divina foi um acréscimo posterior); VII. No meio do caminho: 1310 - 1319 (Trata-se do primeiro verso - "No meio do caminho em nossa vida eu me encontrei por uma selva escura"); VIII. Ravena: 1318 - 1321 - Terminada a Comédia.

Como podem observar, a vida e a obra do poeta estão entrelaçadas. Deixo ainda os dois parágrafos da orelha do livro, que chamam atenção para esse fato, como também para a sua vida de escritor.: "Somente R.W.B. Lewis, biógrafo de renome e autor do livro The city of Florence, seria capaz de escrever com tanto discernimento sobre Dante Alighieri, o célebre filho de Florença. A obra Dante examina a vida e o complexo desenvolvimento - emocional, artístico e filosófico - do eminente poeta-historiador, desde a perambulação pelas colinas  e esplêndidas igrejas da Toscana, passando pelos dias de jovem recruta engajado na defesa da democracia, pela época em que Dante exerceu liderança cívica, até chegar aos amargos anos em que viveu como exilado de Florença, cidade que, um século mais tarde, tentaria, a todo custo, resgatar para si a imagem do poeta. 

Lewis revela ao leitor o Dante menino, no primeiro encontro com a mítica Beatriz, o poeta lírico, obcecado pelos temas do amor e da morte, o grande mestre da narrativa dramática e da alegoria, bem como a busca monumental do poeta pela Verdade final, na Divina Comédia. Nessa obra-prima da autodescoberta e da redenção é que Lewis localiza a autobiografia de Dante - e a soma das turbulentas paixões e epifanias do poeta".

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Crítica à razão dualista. O ornitorrinco. Francisco de Oliveira.

O curso  "Educação, Sociedade e Sindicalismo", promovido pelo coletivo de formação da APP-Independente em parceria com o Nesef da UFPR, me levou a um novo ciclo de leituras da realidade brasileira, motivado por uma provocação feita pelo professor Gaudêncio Frigotto, na fala de abertura. O livro da vez, que foi explicitamente citado pelo professor Frigotto, foi Crítica à razão dualista - O ornitorrinco, do saudoso e notável professor Francisco de Oliveira. Os anteriores foram: Economia Política Brasileira, de Guido Mantega, Colapso do Populismo no Brasil, de Octavio Ianni, A Ideologia da Segurança Nacional, de Joseph Comblin e Educação como Prática da Liberdade, de Paulo Freire.

Os provocativos ensaios de Francisco de Oliveira sobre a realidade brasileira.

O livro é formado por ensaios, escritos em duas diferentes etapas. O primeiro foi escrito em 1972 e O Ornitorrinco, em julho de 2003. Em O Ornitorrinco, o professor examina a realidade social e econômica brasileira, trinta anos após os primeiros escritos, que abordam o mesmo tema. O ensaio é bastante complexo para leigos em assuntos de economia, mas de forma alguma é incompreensível. O professor Francisco de Oliveira faz uma crítica às teorias das interpretações tradicionais da economia política brasileira no ensaio de 1972. Ele explica a origem dos textos: "Esse ensaio foi escrito como uma tentativa de resposta às indagações de caráter interdisciplinar que se formulam no Cebrap acerca do processo de expansão socioeconômica do capitalismo no Brasil...". Apresento os títulos dos capítulos:

I. Uma breve colocação do problema; II. O desenvolvimento capitalista pós-anos 1930 e o processo de acumulação; III. Um intermezzo para a reflexão política: revolução burguesa e acumulação industrial no Brasil; IV. A aceleração do Plano de metas: as pré-condições da crise de 1964; V. A expansão pós-1964: nova revolução econômica burguesa ou progressão das contradições?; VI. Concentração da renda e realização da acumulação: as perspectivas críticas. O ensaio é acompanhado de tabelas ilustrativas, contendo os dados da acumulação.

Numa pequena síntese poderíamos dizer que Francisco de Oliveira apresenta as transformações da economia brasileira, ocorridas a partir de 1930, com as transformações promovidas pela passagem de uma economia agrária e exportadora para uma economia industrial e urbana. Todas essas transformações ocorreram sob o princípio da acumulação, sem os benefícios que essas transformações causaram nos países que por primeiro promoveram seus processos de industrialização. Mantém diálogos com os economistas ligados à CEPAL e ao partidão, criticando a visão darwinista dos comunistas, da evolução por etapas, no aguardo dos benefícios que necessariamente a industrialização traria.

A retomada do ensaio em 2003 revê esse processo de acumulação em sua continuidade para nos trazer a esdrúxula figura do ornitorrinco, como metáfora da deformação de nossa realidade socio-econômica. O ornitorrinco é um animal de rara e indefinida feição. O professor recorre à Grande Enciclopédia Larousse para defini-lo: "Mamífero monotremo, da subclasse dos prototérios, adaptado à vida aquática. Alcança 40 cm de comprimento, tem bico córneo, semelhante ao bico de pato, pés espalmados e rabo chato. É ovíparo. Ocorre na Austrália e na Tasmânia...O ornitorrinco vive em lagos e rios, na margem dos quais escava tocas que se abrem dentro d'água. Os filhotes alimentam-se lambendo o leite que escorre nos pelos peitorais da mãe, pois esta não apresenta mamas.  O macho tem um esporão venenoso nas patas posteriores. Este animal conserva certas características reptilianas, principalmente uma homeotermia imperfeita".


Que comparação! É a visão de um país e de uma sociedade que se industrializou e se urbanizou, mas não se desenvolveu, sob a égide da "modernização conservadora", tão cara aos sociólogos dos Estados Unidos. Como chegamos a toda essa deformação? Os dois ensaios, escritos num hiato de tempo de trinta anos nos remetem às causas. Elites submissas ao capital internacional, golpes contra a democracia permanentemente pairando no ar, interpretações errôneas da realidade, sindicalismo frágil e o espírito do capital, especialmente do capital financeiro indomável são apontadas como as causas dessa anomalia da figura social e econômica do ornitorrinco.

Na página 132, já em O Ornitorrinco encontramos a descrição do ornitorrinco brasileiro. Dou uma pequena amostra: "Como é o ornitorrinco? Altamente urbanizado, pouca força de trabalho e população no campo, dunque nenhum resíduo pré-capitalista; ao contrário, um forte agrobusiness. Um setor industrial da Segunda Revolução Industrial completo, avançado, tatibate, pela Terceira Revolução, a molecular-digital ou informática. Uma estrutura de serviços muito diversificada numa ponta, quando ligada  aos estratos de altas rendas, a rigor, mais ostensivamente perdulários que sofisticados; noutra, extremamente primitiva, ligada exatamente ao consumo dos estratos pobres". E por aí vai...para terminar de uma forma bastante desesperançosa, ao constatar que estamos presos nas teias da financeirização da economia em que estão enredados os dois grandes partidos brasileiros. O PT, como administrador dos fundos de pensão e o PSDB, como administrador dos grandes bancos. Que futuro teremos?

Na mesma página 132 temos uma nota que considero profundamente ilustrativa. Fala sobre FHC.: "Deste ponto de vista, o livro de FHC, Empresário Industrial e desenvolvimento econômico (DIFEL), reconhecia que a burguesia industrial nacional preferia a aliança com o capital internacional. Trata-se talvez do que de melhor o ex-sociólogo, hoje ex-presidente e eterno candidato ao Planalto, produziu academicamente. Roberto Schwartz (que prefacia o livro) sustenta a tese de que, na Presidência, Cardoso implementou exatamente suas conclusões deste livro; já que a burguesia nacional havia renunciado a um projeto nacional, ele enveredou decididamente para integrar o país na globalização".

Que Deus tenha piedade desse país, dessa nação! Francisco de Oliveira foi um dos fundadores do PT, partido com o qual se frustrou enormemente, filiando-se ao PSOL. Em 2019, quando a figura do ornitorrinco se deformava ainda mais em sua configuração, o bravo pensador da economia, da sociedade e da realidade brasileira faleceu, aos 85 anos de idade.

Na contracapa do livro lemos o escrito de Roberto Schwartz: "Escritos com trinta anos de intervalo, Crítica à razão dualista (1972) e O Ornitorrinco (2003) representam, respectivamente, momentos de intervenção e de construção sardônica. Num a inteligência procura clarificar os termos da luta contra o subdesenvolvimento; no outro, ela reconhece o monstrengo social em que, até segunda ordem, nos transformamos".